dos diários

Conseqüentemente há toda sorte de ausências e mesmo os utensílios cotidianos não preenchem esse espaço. Não há, porém nada que o faça se essa ausência não se encontra em nada e ninguém. Está no reflexo que no espelho não aparece, está em todos os dias sem horas em qualquer estação. É a abstração última de que se é capaz, um estado abaixo onde tudo é estático como o sorriso na fotografia eternizando o que já não existe.

andrea augusto©angelblue83




Meu esforço humilde, de sequer dizer quem sou, de registrar como uma máquina de nervos as impressões mínimas da minha vida subjetiva e aguda, tudo isso se me esvaziou como um balde em que esbarrassem, e se molhou pela terra como a água de tudo.
E pergunto, ao que me resta de consciente nesta série confusa de intervalos entre coisas que não existem, de que me serviu encher tantas páginas de frases em que acreditei como minhas, de emoções que senti como pensadas, de bandeiras e pendões de exércitos que são, afinal, papéis colados com cuspo pela filha do mendigo debaixo dos beirais.
Pergunto ao que me resta de mim a que vêm estas páginas inúteis consagradas ao lixo e ao desvio, perdidas antes de ser entre os papéis rasgados do destino...

Fernando Pessoa

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