dos diários

Conseqüentemente há toda sorte de ausências e mesmo os utensílios cotidianos não preenchem esse espaço. Não há, porém nada que o faça se essa ausência não se encontra em nada e ninguém. Está no reflexo que no espelho não aparece, está em todos os dias sem horas em qualquer estação. É a abstração última de que se é capaz, um estado abaixo onde tudo é estático como o sorriso na fotografia eternizando o que já não existe.

andrea augusto©angelblue83




Meu esforço humilde, de sequer dizer quem sou, de registrar como uma máquina de nervos as impressões mínimas da minha vida subjetiva e aguda, tudo isso se me esvaziou como um balde em que esbarrassem, e se molhou pela terra como a água de tudo.
E pergunto, ao que me resta de consciente nesta série confusa de intervalos entre coisas que não existem, de que me serviu encher tantas páginas de frases em que acreditei como minhas, de emoções que senti como pensadas, de bandeiras e pendões de exércitos que são, afinal, papéis colados com cuspo pela filha do mendigo debaixo dos beirais.
Pergunto ao que me resta de mim a que vêm estas páginas inúteis consagradas ao lixo e ao desvio, perdidas antes de ser entre os papéis rasgados do destino...

Fernando Pessoa














Dan Eldon tinha apenas 22 anos quando foi apedrejado até a morte, na Somália, em 1993. No documentário "Morrendo para contar a história" a irmã dele conta a breve história de sua vida. Seria apenas mais uma tragédia entre tantas que acontecem no mundo se não fosse por um detalhe, Dan era fotográfo da agência Reuters e estava cobrindo a guerra civil na Somália.
Em tempos de guerra é comum que se fale, se pense, se mostre todo sofrimento humano que um conflito desse tipo causa nas pessoas, no povo que esta vivendo, naqueles que desejam a paz, mas e os jornalistas, fotógrafos, toda a equipe que trabalha na cobertura dessas tragédias, o que resta neles depois que voltam a vida normal? Mais do que a vida de Dan, o que se assiste é o que fica ou talvez o que sobra desses profissionais.
O documentário é de uma tristeza tão grande, não só por Dan que era lindo, jovem, idealista, muito mais do que um caçador de tragédias, alguém que tinha um ideal humanitário, mas pelos depoimentos que permeiam a narrativa.
Durante a exibição além das imagens trágicas da guerra, do massacre, da humilhação de um povo brigando por migalhas, Dan aparece quase sempre sorrindo, ainda não tinha a amargura de outros jornalistas que foram entrevistados. Um deles, Donald McCullin, foi especial, era nítida as seqüelas psicológicas que ficaram impressas nele. Durante anos, Donald cobriu as mais diversas guerras e capturou imagens chocantes. Endureceu, ele mesmo reconheceu o quanto isso o afetou e mesmo agora que abandonou as coberturas de guerra, não consegue fazer uma foto que seja cinza, que não traga em si um ar melancólico.

Dan via a si mesmo prestando um serviço público. Tendo crescido na África, ele se preocupava com os famintos e com a guerra civil que matam as pessoas na Somália.
"O que realmente motivava Dan era o fato de que ele estava fazendo a diferença", disse sua irmã. "Lá ele tinha 21 anos e estava fazendo as duas páginas centrais das edições da Time e da Newsweek... Ele era levado pelo fato de que estava verdadeiramente obrigando as pessoas a agir".
A família de Dan mudou-se para Nairobi quando ele tinha apenas 7 anos, começa aí o fascínio dele pela África. Aos 14 anos, ele fez uma excursão que marcaria sua vida, foi a uma tribo Masai e voltou com diversas fotos, artefatos, pedrinhas, plantas e tudo que lhe chamou a atenção. Com esse material, Dan começaria uma série de Diários. Ele era um artista nato, fazia belas colagens e com elas pelas páginas de seus diários, foram 17 ao todo, deu uma visão toda especial da África, seus costumes, sua gente. Talvez por isso a história de Dan chame a atenção, ele não era mais um, não era alguém interessado em boas fotos apenas, ele realmente se preocupava com o povo.
Após a morte de Dan, sua mãe resolveu publicar o livro: The Journey is the Destination - the journals of Dan Eldon
que traz uma seleção das melhores páginas de seus diários.





Em uma das últimas conversas com sua mãe, ela lhe disse: "Danny, você não acha que sua sorte anda fugindo de você? Não é hora de ir embora?" - o fotógrafo respondeu "Não, eu não posso partir agora, eu estou muito envolvido com o que está acontecendo aqui". Foi tudo o que ele disse. Mas suas imagens continuam a falar por ele. Assim como a de muitos jornalistas e fotógrafos que estão cobrindo uma guerra nesse exato momento. No futuro falarão de um ou outro que se destacará, mas as seqüelas, as marcas que cada um desses profissionais trará consigo, estas ficarão para sempre.



Leia: http://www.daneldon.org/
http://www.speculum.art.br/







Na efervescência dos anos 80, uma voz perguntou: Que País é esse? Essa mesma voz se dirigia à geração coca-cola e sabia que de alienados não tínhamos nada. Só precisávamos de alguém que desse voz a essa geração, e ele deu. Renato Russo marcou os inesquecíveis anos 80 com a sua poesia, com letras consistentes e atitude. Falou das injustiças sociais com a mesma força que falou de amor. Contou histórias, filosofou sentimentos, teve coragem de dizer que gostava de meninos e meninas e isso em nada arranhava o que a legião, a legião que ele deixou espalhada por aí sentia por ele.

"Quem me dera, ao menos uma vez, explicar o que ninguém consegue entender: Que o que aconteceu ainda está por vir, e o futuro não é mais como era antigamente''.

O futuro e talvez nem ele pudesse imaginar ficou nas mãos de eguinhas pocotós, de sucessos estantâneos e letras rasas. Um retrocesso absurdo depois da existência de uma Legião Urbana, de um poeta como Renato Russo.
Suas músicas oscilavam entre o romantismo rasgado e a virulência da crítica social e nem por isso soavam estranhas aos nossos ouvidos.

"Eu quis o perigo e até sangrei sozinho. Entenda - assim pude trazer você de volta para mim. Quando descobri que é sempre só você que me entende do início ao fim. E é só você que tem a cura para o meu vício, de insistir nessa saudade que eu sinto, de tudo que eu ainda não vi. Nos deram espelhos e vimos um mundo doente - tentei chorar e não consegui''.

Um ano antes da sua morte, Renato disse numa entrevista: "A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional''.
Renato sofria por ele, por todos, por um mundo doente tão doente quanto sempre foi. Um mundo em guerra declarada contra os direitos humanos. Que diria o poema que nunca virá dessa guerra estúpida arquitetada pelo Presidente do mundo? Que fina ironia, caústico humor, ele usaria para deixar o registro do seu protesto. Não duvidem, não passaria em branco. Renato tomava uma posição sempre, para o bem ou para o mal ele sangrava palavras poemas e nunca saia isento de nada.

"Vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de todas as nações. O meu país e sua corja de assassinos, covardes, estupradores e ladrões. Vamos celebrar a estupidez do povo, nossa polícia e televisão. Vamos celebrar nosso governo, e nosso estado, que não é nação. Celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas, celebrar nossa desunião. Vamos celebrar Eros e Thanatos, Persephone e Hades. Vamos celebrar nossa tristeza, vamos celebrar nossa vaidade''.


Depressivo crônico, trazia dentro de si, o estofo necessário para fazer poesia, uma inquietação, uma sensibilidade, uma angústia latente que o movia para a fuga. Tentou de "heroína a Jesus Cristo", como disse em entrevista, mas as respostas nunca vieram. E sendo assim que fosse ele, já não tinha mais todo tempo do mundo.

As novas gerações cantam suas músicas, tomam para si suas letras, entendem que há vida inteligente por trás de letras melódicas, procuram causas pelas quais lutar e como se fosse outro dia ou fim de noite no Cervantes, falam, sabem dele e vivem suas histórias nas sonoras trilhas que ele deixou pelo caminho.








Mudaram as estações e nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Esta tudo assim tão diferente

Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber
Que o pra sempre
Sempre acaba?

Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém
Só penso em você
E aí então estamos bem

Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como esta
E nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz

Estamos indo de volta
Pra casa.



No dia que você se foi, tudo mudou, alguma coisa aconteceu e tudo ficou muito diferente. A poesia empobreceu, a voz de protesto se calou, veio mais uma guerra e a nossa guerra urbana de todo dia não tem porta voz. As estações mudarão sempre e nós mudamos como nunca quando você nasceu: 27/03/1960. Temos todos os motivos para deixar como esta, para seguir mesmo sem querer. Agora tanto faz e ainda assim ouvir você vai ser sempre como voltar para casa. Para uma casa de onde nunca deveríamos ter saído.







Carta a Renato - Você na minha história.


Agora está tão longe
Vê, a linha do horizonte me distrai:
Dos nossos planos é que eu tenho mais saudade,
Quando olhávamos juntos na mesma direção.

Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim?


Houve um dia há muito tempo, como se fosse ontem. Um amor, um grande e único amor.
Houve então o fim, ainda como se fosse ontem. No carro, no rádio você cantava:


Tire suas mãos de mim
Eu não pertenço a você
Não é me dominado assim
Que você vai me entender



Assim com a raiva de quem quer pertencer, de quem já pertencia, mas não era nunca o suficiente. Com raiva, ainda como se ontem fosse, aquele amor se foi, eu fiquei. O primeiro porre e a vida seguiu. Nada nem ninguém hoje me leva adiante ou retém. Hoje como se fosse nunca, não faço compromisso com a eternidade.


Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo.



O tempo passou, hoje você faria 43 anos. Não tenho mais o tempo que passou, nem o tal amor e quer saber? "Não estou mais interessado no que sinto, não acredito em nada além do que duvido. Você espera respostas que eu não tenho''. Renato Russo.
Um dia a gente se vê.


andrea augusto©angelblue83














Vida

Renato Manfredini Junior nasceu no dia 27 de março de 1960, às 4 horas, no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro. Teve uma infância comum. Soltava pipa, brincava de pique, andava de carrinho de rolimã onde morava, na Ilha do Governador, bairro da Leopoldina. Certa vez, perguntado por uma repórter do Jornal do Brasil se era uma criança introspectiva, respondeu em tom maroto: "eu aproveitava os dias de chuva".

Filho de pai economista do Banco do Brasil e de mãe professora de inglês, Renato teve uma infância tranqüila, em uma família de classe média alta, onde pôde adquirir uma boa amplitude cultural. Principalmente, depois da estada fora do Brasil. Aos sete anos de idade, 'Juninho', como era chamado na época, mudou-se para Nova Iorque, porque o Renato pai iria fazer um curso, logo sendo matriculado em uma escola local. Juninho e Carmem Teresa, sua irmã caçula, puderam então ampliar seus conhecimentos na língua de Shakespeare.

Depois de retornar para o Rio, a família foi morar em Brasília. Ali começaria a fase mais traumática até então. Em 1975, com 15 anos, Renato ficou impossibilitado de andar. Sofria de epifisiólise, uma doença rara que ataca os ossos. Passou por diversos tratamentos e operações. Voltaria a caminhar já aos 17 anos.

Nome artístico - Apesar da complicação natural da situação, Renato acabou aproveitando o tempo para ler. Ele chegou a criar uma banda fictícia, na qual o cantor/alter ego se chamava Eric Russel. O sobrenome artístico era uma homenagem coletiva ao filósofo Jean-Jacques Rousseau, ao pintor naîf Henri Rousseau e ao filósofo Bertrand Russell. Esta mistura filosófica e artística daria origem também ao 'Russo' do Renato.

Antes de realizar o sonho, porém, o futuro músico ainda seria professor de inglês, programador de rádio e jornalista.

Um longo caminho, desvios e a fama chegou. Juninho era Renato Russo, músico e poeta e nós... Nós éramos a verdadeira Legião que só o Legião Urbana poderia deixar.




Leia: http://www.matices.de/21/21krusso.htm
http://www.renatorusso.com.br/
http://jbonline.terra.com.br/inter/musicali/especiais/renatorusso/index.html




"How wonderful life is while you're in the world.
Como é maravilhosa a vida com você no mundo."
Your song - Elton John



Essa é uma das magias de Elton John, a simplicidade das letras que falam muito ou tudo, quem sabe?



Elton John ou melhor Reginald Kenneth Dwight, nasceu no dia 25 de março de 1947 no subúrbio londrino de Pinner. Filho de pai trumpetista, trazia a música nas veias e uma ausência constante, a do próprio pai que viajava muito e ficava longas temporadas fora de casa.
Sua formação musical começou aos seis anos com aulas de piano. Adolescente se encantou com Jerry Lee Lewis e Little Richard. Seu caminho dentro da música estava traçado. Conseguiu um trabalho como crooner e pianista cantando musicas de Ray Charles e Bruce Channel. Sua atuação atraiu atenções e logo estaria fazendo parte de uma banda, a Bluesology. Elton John tinha belas composições, mas suas letras eram fracas. Graças a a visão de um amigo, Elton se uniu àquele que seria seu maior parceiro: Bernie Taupin. Formava-se aí a maior dupla de compositores da história. De 1972 a 1976 foi uma sequência de sucessos imbatíveis. Semanas nos primeiros lugares. Dinheiro, orgias, amores, bulimia e a fama cobrando seu preço.
Elton John superou tudo, assumiu sua homossexualidade, vive um "casamento" estável e faz a nossa vida mais feliz só porque esta no mundo.


"Your song", "Empty Garden" feita em homenagem a John Lennon e a última vez que ele apareceu em público, num show de Elton John. Eles cantaram três músicas juntos naquela noite, e depois John Lennon nunca mais foi visto por seus fãs. Ou “Someone Saved My Life Tonight” feita quando teve a vida salva por Bernie que o encontrou bêbado com o gás da cozinha aberto.
Ou “Daniel” foi inspirada em uma história da guerra do Vietnã e adaptada por Bernie Taupin... são muitas, são todas.
Cada música uma referência, uma inspiração e para nós o fundo musical perfeito para um dia qualquer em qualquer tempo. Elton John é atemporal.





Your Song
(Sua canção)
Elton John / Ronan Keating / Billy Paul


It's a little bit funny, this feeling inside
É um pouco engraçado, esse sentimento aqui dentro
I'm not one of those, who can easily hide
Não sou um daqueles, que facilmente conseguem esconder
I don't have much money, but boy if I did
Não tenho muito dinheiro, mas, cara, se eu tivesse
I'd buy a big house where we both could live.
Eu compraria uma casa grande onde nós dois pudéssemos viver

If I was a sculptor, but then again no,
Se eu fosse um escultor, mas de novo não sou,
Or a man who makes potions in a travelling show
Ou um homem que faz poções num programa de viagem
I know it's not much, but it's the best I can do
Eu sei que não é muito, mas é o melhor que posso fazer
My gift is my song and this one's for you.
Meu dom é minha canção, e essa é pra você.

And you can tell everybody, this is your song
E você pode dizer pra todo mundo, essa é sua canção
It may be quite simple but now that it's done,
Pode parecer bastante simples, mas agora que está feita
I hope you don't mind,
Eu espero que não se importe
I hope you don't mind
Eu espero que não se importe
That I put down in words
Que eu tenha colocado em palavras
How wonderful life is while you're in the world.
Como é maravilhosa a vida com você no mundo.

I sat on the roof and kicked off the moss
Sentei no telhado e chutei pra longe o musgo
Well a few of the verses, well they've got me quite cross
Bem, um pouco dos versos, eles me vieram à cabeça
But the sun's been quite kind while I wrote this song,
Mas sol estava bastante bondoso enquanto eu escrevia essa canção
It's for people like you, that keep it turned on.
É por pessoas como você, que ele continua aquecendo.

So excuse me forgetting, but these things I do
Assim, perdoe-me pelo esquecimento, mas essas coisas acontecem
You see I've forgotten, if they're green or they're blue
Você sabe que eu esqueço, se eles são verdes ou azuis
Anyway, the thing is, what I really mean
De qualquer forma, a coisa é, o que quero dizer é que
Yours are the sweetest eyes I've ever seen.
Os seus são os mais doces olhos que eu já vi



Leia: http://www.eltonjohnonline.hpg.ig.com.br/biografia.htm





Concurso: Contos do Rio.

O caderno Prosa e Verso, do Globo lançou um concurso de contos: Contos do Rio. Adoraria ver um de vocês vencedor, portanto fica a dica e a imagem para a devida inspiração. Boa Sorte!


(...)

Justamente por querer abrir uma ensolarada janelinha de alegria e de esperança no meio da guerra, da violência e do caos, o Prosa & Verso, está, este ano, concretizando um sonho há muito almejado, que visa a atender a uma permanente reinvindicação dos leitores: o estímulo aos novos escritores.

Abrindo espaço para valores literários ainda totalmente desconhecidos no país, o caderno publicará, de agosto a dezembro, contos inéditos de autores cujos textos nunca tenham sido publicados pelas pequenas, médias ou grandes casas do mercado editorial. É hora de afiar a pena, aquecer os dedos no teclado e pôr a imaginação para trabalhar. É hora de sonhar, porque o sonho, desta vez, é possível.

Para que a seleção dos textos seja caracterizada pela maior isenção possível, optou-se pela promoção de um concurso, denominado Contos do Rio, em homenagem à nossa belíssima cidade, abençoada por Deus e pela natureza (e tão cobiçada pelo diabo). São duas as condições básicas para que o conto possa ser aceito. Em primeiro lugar, que a história se passe no Rio — tendo como cenário suas ruas, como um conto de Rubem Fonseca ou de Garcia-Roza — ou que pelo menos o Rio faça parte da narrativa, mesmo que seja imaginado pelo candidato a escritor, caso este more em outro estado e nunca tenha visitado a dourada cidade abraçada pelo Cristo. Além disso, há um tema a ser desenvolvido: a PAIXÃO. O forte e subvertedor sentimento pode ter como objeto o próprio Rio, uma pessoa, uma idéia, livros, um quadro, um hobby, um bicho de estimação, um monumento histórico, uma praça, uma obsessão pessoal, etc, sendo que o importante é senti-lo em todas as suas implicações e saber explicá-lo literariamente.

O prazo de envio do conto, cujo tamanho não pode ultrapassar 1.400 palavras, vai até o dia 15 de julho. É preciso enviá-lo — original mais cinco cópias — pelo correio, ao seguinte endereço: Prosa & Verso, Rua Irineu Marinho, 35, 2 andar (CEP 20230-901-RJ). O autor deve usar um pseudônimo e pôr seus dados verdadeiros, separadamente, dentro do envelope.

O Concurso Contos do Rio do Prosa & Verso/O GLOBO conta com o apoio da Academia Brasileira de Letras (ABL), onde será realizada, no ano que vem, a cerimônia de entrega de prêmios. Os contos enviados pelos concorrentes passarão por duas seleções. A primeira delas será feita pela equipe do Prosa e pelos repórteres do Segundo Caderno Mauro Ventura e Arnaldo Bloch. Serão escolhidos dez contos, a serem publicados no caderno quinzenalmente de agosto a dezembro.

Posteriormente, esses dez contos passarão por um novo julgamento, para que seja escolhido o grande vencedor do concurso. Nessa segunda fase, os jurados serão o crítico literário Wilson Martins; o escritor e professor de literatura da Uerj Gustavo Bernardo e o poeta e acadêmico Lêdo Ivo.

Então, leitor? Vamos ao concurso? Municie-se de muita paixão e começe a escrever agora. Se deixar para em cima da hora, poderá perder o prazo, que se esgota em 15 de julho.


Leia: http://oglobo.globo.com/oglobo/Suplementos/ProsaeVerso/106692070.htm

 



Há um túnel no fim da luz.


Chove mais dentro de casa do que fora. A tinta escorre em bolhas pelas paredes e a escuridão naquela parte da casa é total.
O mau-humor assalta a mim e a geladeira. Vinheta na TV e um novo capítulo da guerra é exibido. Sentada no sofá assisto à guerra com hora marcada. Dá para marcar compromissos para antes ou depois de um ataque ou no dentista dizer: Droga! Perdi o ataque das 13:00! Agora só às 20:00. Suspira-se resignado. É a guerra em tempo real.
Houve um tempo em que a guerra era sigilosa, o mundo estava em guerra e ponto.
Anos depois Holywood se encarregava de mostrar os mocinhos e os vilões da contenda. Até hoje a segunda guerra mundial rende filmes em todo mundo. Que filmes virão das guerras atuais? Já assistimos os filmes da vida real pela TV entre um comercial de sabão e outro. Encaramos as vítimas nos olhos, hoje elas têm um rosto, uma face, são “as novas diretrizes em tempo de guerra”. Elegeram um Presidente para o mundo e não participamos dessa eleição. Fazem propaganda de guerra e do terror para incitar a violência. Hoje a morte mantém o corpo intacto e corrói por dentro, quimicamente delacera e mata. É a morte silenciosa e lenta de humanos e da democracia. O mundo se revolta e apóia. A babel de interesses se instalou. Radicais contra e a favor.
Por aqui a guerra urbana mata tanto quanto as guerras do mundo, balas perdidas, sem rosto, sem destino encontram suas vítimas tão inocentes quanto as de lá, a diferença é que não dá ibope. Novo comercial, as mulheres estão apaixonadas, no jogo a decisão do campeonato, Vasco eterno vice (ou não), as sete mulheres entre Farrapos lutam por seus homens. A chuva não pára, a maldita tinta escorre, a escuridão continua e o mundo dentro dela também...
Há um túnel no fim da luz que nos levará a lugar nenhum.



andrea augusto©angelblue83






Ele não gostava de andar, de frutas ou doces, era ateu, mas só lia a Bíblia. Odiava a burguesia, era indiferente à Academia, gostava de palavrões e aguardente e escreveu um dos mais belos romances da língua portuguesa: Vidas Secas.

Graciliano era assim, um adorável ranzinza e dono de humor caústico. Exemplo?

A ida à URSS resulta num livro de impressões intitulado Viagem e que começa com uma demonstração de aborrecimento do velho Graça: ele não se sente bem na "encrenca voadora". É como chama o avião. Fumando seu cigarro no marquesão da José Olympio, vê uma senhora tremelicante de banhas e de jóias aproximar-se, toda sorridente, com um exemplar do livro para o indefectível autógrafo.
- Mestre Graciliano, assine aqui. O senhor voltou assumido da União Soviética?
- Assumido como, minha senhora?
- Ora, assumido. Assim como o André Gide.
É demais. O romancista estoura:
- Como, minha senhora? Veado?





Vidas secas é história de uma família de retirantes, Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra Baleia, que, pressionados pela seca, atravessam o sertão em busca de meios de sobrevivência.
Talvez eu considere esse livro um dos mais belos por causa da obra prima de Nelson Pereira dos Santos, que reproduziu com fidelidade no cinema, o romance de Graciliano. É poético e doloroso. A luz agride e é feita quase só de branco na intenção de ferir como o sol do sertão. E consegue.
Baleia a cadelinha do filme é a mais humana das personagens, parece ter um afeto desinteressado por aquela família, mesmo enxotada, comendo só os ossos, esta sempre por perto, consola o menino quando este cai do bode e segue esfomeada e sedenta a mesma sina da família.
O que impressiona é a atualidade da história. E em tempos de guerra, até Memórias do Cárcere nos soa com um estranhamento muito atual, como se a história dele fosse a história do mundo.

"O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro nos reservariam? Provavelmente não havia lugar para nós, éramos fantasmas, rolaríamos de cárcere em cárcere, findaríamos num campo de concentração. Nenhuma utilidade representávamos na ordem nova. Se nos largassem, vagaríamos tristes, inofensivos e desocupados, farrapos vivos, fantasmas prematuros; desejaríamos enlouquecer, recolhermo-nos ao hospício ou ter coragem de amarrar uma corda ao pescoço e dar o mergulho decisivo. Essas idéias, repetidas, vexavam-me; tanto me embrenhara nelas que me sentia inteiramente perdido."

Pouco antes de falecer num dia 20 de março, ainda se perguntava se seria um escritor para a posteridade. Foi, assim como suas histórias.

andrea augusto©angelblue83


Leia: http://www.cpunet.com.br/paralerepensar/graciliano.htm
http://www.vidaslusofonas.pt/graciliano_ramos.htm




Tempestade de almas



Ah, se eu sei, não nascia, ah, se eu sei, não nascia. A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente. O anel que tu me deste era de vidro e se quebrou e o amor não acabou, mas em lugar de, o ódio dos que amam. A cadeira me é um objeto. Inútil enquanto a olho. Diga-me por favor que horas são para eu saber que estou vivendo nesta hora. A criatividade é desencadeada por um germe e eu não tenho hoje esse germe mas tenho incipiente a loucura que em si mesma é criação válida. Nada mais tenho a ver com a validez das coisas. Estou liberta ou perdida. Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal. Nós mantemos esse segredo em mutismo cada um diante de si mesmo porque convém, senão seria tornar cada instante mortal. O objeto cadeira sempre me interessou. Olho esta que é antiga, comprada num antiquário, e estilo império; não se poderia imaginar maior simplicidade de linhas, contrastando com o assento de feltro vermelho. Amo os objetos à medida que eles não me amam. Mas se não compreendo o que escrevo a culpa não é minha. Tenho que falar pois falar salva. Mas não tenho uma só palavra a dizer. As palavras já ditas me amordaçaram a boca. O que é que uma pessoa diz à outra? Fora "como vai?" Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras? E o pior é o que se diria uma pessoa a si mesma, mas seria a salvação, embora a franqueza seja determinada no nível consciente e o terror da franqueza vem da parte que tem no vastíssimo inconsciente que me liga ao mundo e à criador inconsciência do mundo. Hoje é dia de muita estrela no céu, pelo menos assim promete esta tarde triste que uma palavra humana salvaria.

Abro bem os olhos, e não adianta: apenas vejo. Mas o segredo, este não vejo nem sinto. A eletrola está quebrada e não viver com música é trair a condição humana que é cercada de música. Aliás, música é uma abstração do pensamento, falo de Bach, de Vivaldi, de Haendel. Só posso escrever se estiver livre, e livre de censura, senão sucumbo. Olho a cadeira estilo império e dessa vez foi como se ela também me tivesse olhado e visto. O futuro é meu enquanto eu viver. No futuro vai ter mais tempo de viver, e, de cambulhada escrever. No futuro, se diz: se eu sei, eu não nascia. Marli de Oliveira, eu não escrevo cartas pra você porque só sei ser íntima. Aliás eu só sei em todas as circunstâncias ser íntima: por isso sou mais uma calada. Tudo o que nunca se fez, far-se-á um dia? O futuro da tecnologia ameaça destruir tudo o que é humano no homem, mas a tecnologia não atinge a loucura; e nela então o humano do homem se refugia. Vejo as flores na jarra: são flores do campo, nascidas sem se plantar, são lindas e amarelas. Mas minha cozinheira disse: mas que flores feias. Só porque é difícil compreender e amar o que é espontâneo e franciscano. Entender o difícil não é vantagem, mas amar o que é fácil de se amar é uma grande subida na escala humana. Quantas mentiras sou obrigada a dar. Mas comigo mesma é que eu queria não ser obrigada a mentir. Senão, o que me resta? A verdade é o resíduo final de todas as coisas, e no meu inconsciente está a verdade que é a mesma do mundo. A Lua é, como diria Paul Éluard, éclatante de silence. Hoje não sei se vamos ter Lua visível pois já se torna tarde e não a vejo no céu. Uma vez eu olhei de noite para o céu circunscrevendo-o com a cabeça deitada para trás, e fiquei tonta de tantas estrelas que se vêem no campo, pois, o céu do campo é limpo. Não há lógica, se se for pensar um pouco, na ilogicidade perfeitamente equilibrada da natureza. Da natureza humana também. O que seria do mundo, do cosmos, se o homem não existisse. Se eu pudesse escrever sempre assim como estou escrevendo agora eu estaria em plena tempestade de cérebro que significa brainstorm. Quem terá inventado a cadeira? Alguém com amor por si mesmo. Inventou então um maior conforto para o seu corpo. Depois os séculos se seguiram e nunca mais ninguém prestou realmente atenção a uma cadeira, pois usá-la é apenas automático. É preciso ter coragem para fazer um brainstorm: nunca se sabe o que pode vir a nos assustar. O monstro sagrado morreu: em seu lugar nasceu uma menina que era sozinha. Bem sei que terei de parar, não por causa de falta de palavras, mas porque essas coisas, e sobretudo as que eu só pensei e não escrevi, não se usam publicar em jornais.


Clarice Lispector - in "Onde estivestes de noite" - 7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro - 1994


zero hora.
O tempo expira o prazo da terra. Veste o luto inevitável dos filhos da guerra. Há qualquer coisa que denuncia um tempo frio que não se vê. Nada ultrapassa essa ilusão de estar vivo caminhando morto pelo mundo. Do avesso avançamos, erguem-se as defesas da paz e o sangue derramado é sempre o mesmo dos dois lados.
andréa augusto©angelblue83


guerra sou eu

guerra sou eu
guerra é você
guerra é de quem
de guerra for capaz

guerra é assunto
importante demais
para ser deixado
na mão dos generais

leminski





Que atire a primeira bolacha de vinil, quem não se lembrar de algum momento marcante embalado pelas canções de Tim Maia. Impossível!
Dancei ao som de chocolate, amei uma vez na vida e pensei que ele era mais do que sonhava, achei que quando o inverno chegasse estaríamos juntos, pensei até em me mudar para algum lugar que não existisse o pensamento nele. E por muito tempo, morri de saudades.
Hoje a saudade é dele. O vozeirão do síndico se calou num dia 15 de março, tinha apenas 55 anos de idade e muita história pra deixar.
Tim foi o penúltimo filho de uma família de 19 irmãos. Era aquele que faltava para dar o molho, trazer para a MPB, o melhor do soul americano, influência de uma estadia nos EUA. Mais do que uma voz, Tim era uma presença, quando não faltava aos shows, claro. Exigia ordem e pouco ligava para ela. Tinha histórias para contar. Com seu humor caústico costumava dizer que suas músicas eram : “Metade de minhas músicas é esquenta-sovaco e metade mela-cueca”. Era a tal fórmula infalível para uma música estourar. Críticas às favas, Tim foi sucesso justamente por não se enquadrar em fórmulas, pelo elemento surpresa, o mesmo que nos surpreendeu quando passou mal durante um show, aquele que seria o último de sua carreira.

Dizem que Tim morreu, cá pra nós, acho ele faltou ao último show e certamente esta por ai, na noite, contando "causos" entre amigos, xingando a globo e repetindo a frase que entraria para a história: “Não fumo, não bebo e não cheiro. Meu único defeito é que minto um pouco”. Verdade ou não, hoje só dá pra dizer:



Não sei porque você se foi
Quantas saudades eu senti
E de tristezas vou viver
E aquele adeus, não pude dar
Você marcou em minha vida
Viveu, morreu na minha história ...




Leia: http://www.na-cp.rnp.br/~murgel/MPBNet/musicos/tim.maia/



Dia Nacional da Poesia

Hoje não tem prosa, só os versos daqueles que eternizam sentimentos.







O poeta



Em meus arroubos de infância
numa doce ignorância
julgava eu que os poetas
pelas mãos de Deus,benditos
eram homens pudicos, profetas

E adolescente ainda
pensava, coisa mais linda
viajar todo o universo
retendo entre as mãos a sorte
de voar do sul ao norte
nas asas de um só verso

Não sei bem porque, um dia
juntei toda a fantasia
daqueles sonhos de infância
à dura realidade da minha maturidade

E fiz primeira instância
Desde então versei saudade
tristeza, amor, liberda

Tudo quanto a vida ensina
Compreendi que ser poeta
não é profissão ou meta
é dom natural, é sina

Todos têm a mesma sorte
o direito à vida e à morte
E quando o fim se aproxima
a diferença é uma só
muitos retornam ao pó

o poeta...vira rima

Vera Bauer








Soneto



E quando nós saímos era a Lua,
Era o vento caído e o amor sereno
Azul e cinza-azul anoitecendo
A tarde ruiva das amendoeiras.

E respiramos, livres das ardências
Do sol, que nos levara à sombra cauta
Tangidos pelo canto das cigarras
Dentro e fora de nós exasperadas.

Andamos em silêncio pela praia.
Nos corpos leves e lavados ia
O sentimento do prazer cumprido.

Se mágoa me ficou na despedida
Não fez mal que ficasse, nem doesse –
Era bem doce, perto das antigas.


Rubem Braga - 1947










Poemas de saliva



Deslizo poemas de saliva
No rascunho da tua pele
Rimas profanas, estrofes abissais
O sentido profundo de um verso
Fala a língua dos teus gestos
Em convulsões gramaticais

Poemas recatados na tua pele sem pecado
Poemas de navalha no teu corpo sem perdão
A figura de linguagem do desejo
Fala a língua do meu beijo
Sem tradução


Ricardo Kelmer








Não é verdade a tua solidão


Não é verdade a tua solidão. A um canto,
do lado de fora, meu coração espera:
fênix dolorosa, consome-se e renasce,
fiel. Quem sabe,
quando abrires uma fresta em tua porta,
te alegrarás vendo-o aí, guardando
essa luz que se alastrará por rios sem fim
de uma geografia desconhecida:
e só os escolhidos entenderão.



Lya Luft











Beijo


Eu quero um beijo glauberiano,
que me devolva o insano riso
o instante impreciso das línguas
corrompendo as horas.

Eu quero um beijo,
tem que ser lá fora
no quintal do mundo, onde num
segundo os lábios se maltratam
mas não se desatam deste gosto quente,
deste gesto em frente toda vizinhança.

Eu quero um beijo que interrompa a
dança
desta despedida.
E que tire do sério todo este hemisfério
de razão contida.


Edmilson Felipe








Lembrar-se

Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu. Como conseguirei
saber do que nem ao menos sei? assim: como se me lembrasse. Com um esforço
de "memória", como se eu nunca tivesse nascido. Nunca nasci, nunca vivi: mas
eu me lembro, e a lembrança é em carne viva.

Clarice Lispector

cartões: nave da palavra e arte pau-brasil.






Fecundação



Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura

Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a pesuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.

Gilka Machado - in Sublimação, 1928





Nossa primeira poeta erótica nasceu no dia 12 de março de 1893. Sua poesia chocava a sociedade da época e como é comum em tudo que foge aos padrões, foi repudiada por muitos. Era chamada de "matrona imoral". Nada que afetasse Gilka de modo especial, ela seguiu em frente estreiando na literatura quando já estava casada.


"Quando, longe de ti, solitária medito/ neste afeto pagão que envergonhada oculto,/ vem-me às narinas, logo, o perfume esquisito/ que teu corpo desprende e há no teu próprio vulto."


Gilka foi a primeira brasileira que ousou falar de sexo em seus livros. Naquele tempo havia dois papéis para a mulher, ou era santa ou prostituta. Gilka não se enquadrava em nenhum dos dois, era apenas uma mulher que escrevia sobre os desejos comuns a todos, independente de genêro. Foi combatida por isso.
Além de poeta, Gilka foi uma das fundadoras do Partido Republicano Feminino ou seja, tinha uma visão muito clara do papel da mulher na sociedade. Gilka e sua poesia representavam a voz feminina e o que nela estava reprimida, como bem ficou exemplicado nessa analogia: "ser mulher na sua época era ter o destino de Tântalo, o personagem grego que foi castigado pelos deuses por ter apresentado o manjar aos homens. Sempre que ele tinha sede, a água do rio se retraía e o impedia de bebê-la e, sempre que tinha fome, as árvores recolhiam seus ramos frutuosos para que ele não pudesse comê-los".

Infelizmente, Gilka Machado seguiria a sina daqueles que rompem as barreiras, morreria no dia 17 de dezembro de 1980, praticamente desconhecida e sem o devido reconhecimento senão pela sua poesia, pela grande mulher que foi abrindo caminho para as femininstas de plantão.



Beijo

Embora dos teus lábios afastada
(Que importa? - Tua boca está vazia...)
Beijo esses beijos com que fui beijada
Beijo teus beijos, numa nova orgia


Inda conservo a carne deliciada pela
tua carícia que mordia, que me enflorava a pele,
pois, em cada beijo dos teus uma saudade abria


Teus beijos absorvi-os,
esgotei-os: guardo-os nas mãos, nos lábios e
nos seios, numa volúpia imorredoura
e louca


Em teus momentos de lubricidade,
beijarás outros lábios, com saudade dos beijos que
ganhei de tua boca


Gilka Machado



Leia: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/poesia/index.cfm?fuseaction=Detalhe&CD_Verbete=484
http://www.secrel.com.br/jpoesia/gm.html






dos diários


Tenho um tempo atemporal correndo à revelia. Desprovido de rotas, suas longas horas pesam sempre e mais. Todo o peso do mundo o tempo todo... Entre a noite e a noite, o dia é sempre o mesmo. Não chove, mas o barulho das gotas no asfalto retine intermitente. Nem tente entender, quando há sol, o sal é o mesmo que alcança a boca.



reCORTE

tua figura recorta-se ali
entre sombra e dia

como flor acontecida
desabitas um tempo feliz

memórias de sotão
onde a noite
era uma terra vasta...

andrea augusto©angelblue83




Ironicamente, ela nasceria num dia 08 de março, o Dia Internacional da Mulher. Era bonita e se chamava Maria. Um tipo bem brasileiro, oposto ao padrão anoréxico loiro tão em moda nos dias que correm, fizeram dela uma lenda. Morena, baixinha, perna grossa, cabelos pretos, pra lá de gostosa, Maria viraria a cabeça do Rei do Cangaço e dele seria Rainha.






O certo é que Lampião
Tinha o coração de aço
Beijava qualquer morena
Mas não queria embaraço
Mas vivia apaixonado
Por não haver encontrado
A rainha do cangaço.

Porém um dia feliz
Ele encontrou sua dita
Bem perto de Paulo Afonso
Numa casinha catita
Estava seu grande amor
Uma melindrosa flor
A “tal” Maria Bonita.

(Versos de Antonio Teodoro dos Santos, publicados no folheto de cordel “Lampião, o Rei do Cangaço”)



Maria Bonita casou-se cedo, aos 15 anos com um sapateiro. Vivia as turras com ele, num casamento infeliz e quando a coisa apertava ela corria para a casa dos pais. Foi numa dessas fugas que encontrou Lampião.
O Rei do Cangaço era conhecido de sua família e sempre passava pela fazenda dos pais de Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita, primeira mulher a participar efetivamente do grupo de cangaceiros. Naquela época as mulheres serviam apenas para cozinhar, cuidar dos feridos e digamos, agradar aos homens, com Maria a coisa foi diferente. Foi paixão à primeira vista e ela não hesitou em abandonar marido, família e uma vida segura para acompanhar até o fim de seus dias, aquele que era considerado o terror em forma de homem por alguns e por outros uma espécie de Robin Hood do nordeste. Especulações à parte, Maria foi companheira de Lampião por oito anos, tiveram uma única filha, Expedita Ferreira, nascida em 1932, única sobrevivente das quatro gestações de Maria Bonita.
Era tratada como mulher do chefe, respeitada pela sua braveza e coragem. De certa maneira, Maria bonita abriria caminho para outras mulheres que acabariam se juntando ao bando por vontade própria ou gosto do cangaceiro, que se agradando de alguma mulher, pegava e levava com ele.

Conta a literatura de Cordel que ao serem alvejados, Maria estava abraçada ao corpo de Lampião, tombaram juntos e ela, não morrendo de imediato foi degolada viva. Terminaria aí a história de Maria Bonita, nem santa, nem puta, apenas uma mulher que fez suas escolhas e seguiu em frente, o que não deixa de ser admirável quando nos dias de hoje muitas mulheres sequer podem escolher o que desejam, o que vestir, como viver.

Feliz Dia Internacional da Mulher.

Leia: http://www.experta.com.br/nos/elas_ousaram.html
http://www.caradobrasil.com.br/artperf/lendas/eracangaco.htm

"Assim como o futuro amadurece no passado,
o passado apodrece no futuro, terrível festival de folhas mortas."


Anna Akhmátova





Último Brinde

Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz...
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.

Anna Akhmátova - 1934





Música

Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.

Anna Akhmátova







Considerada a poeta maior da rússia, Anna Akhmátova, traduzia em versos a realidade trágica que a cercaria por toda a vida. Nascida no dia 23 de junho de 1889, Ana Andréevna Gorenko, terceira de cinco filhos, viveu num momento histórico complicado para a Rússia. Perdeu marido e amigos em campos de concentração, teve seu próprio filho afastado de si durante anos, o que provocou um corte irreversível na relação dos dois.

A poesia surgiu cedo na vida de Anna e nela permaneceu até o fim dos seus dias. Uma vida de privações e perdas, a guerra civil, a perseguição dos bolcheviques aos opositores do novo regime soviético, tornariam a vida ainda mais difícil e Anna não passaria impunimente esse período. As inquietações sociais, as mortes, o povo destruido pelas guerras e o massacre nos campos de concentração marcariam Anna profundamente, assim como sua escrita. Consequentemente, é a sua poesia que sofre com a repressão, sendo proibida em 1925 e somente anos mais tarde, em 1941 seria liberada novamente.
Ainda assim foi reconhecida em vida como a grande poeta que foi. Em 5 de março de 1966, Anna Akhmátova morreria em sua casa, perto de Moscou.


leia: http://www.lumiarte.com/luardeoutono/annakhmatova.html


Terça-feira gorda é dia do traço irreverente e bem-humorado do Garatuja. Compre o disco, leia o livro, visite o blog é D++!







Ontem à noite


Ontem à noite, depois da sua partida definitiva, fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno. Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo: vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba. Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque. E depois comecei a escrever...

Marguerite Duras - Tradução de Tereza Coelho - Textos Secretos, Quetzal Editores, 1992 - Lisboa, Portugal



Yann Andréa tinha apenas 27 anos quando se apaixonou por Marguerite Duras, naquela época uma senhora de 65 anos. No início dos anos 70, Yann tomou conhecimento daquela que seria seu grande amor atravês de seus livros. A partir desse momento deixou de lado todos os outros livros (Kant, Hegel, Espinoza, Stendhal, Marcuse) e leu toda a obra da autora. Em 1975 a veria pela primeira vez e teria a confirmação, nunca mais a deixaria. Segue-se aí muitas cartas e finalmente o encontro, já em 1980, tomou coragem e bateu à sua porta em Trouville, ficaram juntos por 16 anos até o dia de Marguerite no dia 03/03/1996.

A vida com esse monstro sagrado estava longe de ser tranquila. Foram anos turbulentos, onde a personalidade forte de Marguerite dominava todo o ambiente e a própria relação. Sua vida não tinha sido fácil apesar de marcada pelo sucesso. Yann fazia parte dela e seria apenas o capítulo final de uma história que começaria em 1914.






Marguerite Duras - o pseudónimo do seu verdadeiro nome, Marguerite Donnadieu - nasceu pouco antes do eclodir da I Guerra Mundial, a 4 de Abril de 1914, em Gia Dinh, na Indochina. Passou a infância e a adolescência nessa antiga colónia francesa, sempre fascinada pela figura da mãe e assombrada pela imagem do irmão mais velho, Pierre.

Aos dezoito anos, viaja até Paris, onde se dedica ao estudo do Direito, Matemática e Ciência Política. Em 1943, publica o seu primeiro romance, "Les Impudents" , no mesmo ano em que entra no núcleo de acção de François Mitterrand, na altura o chefe da resistência Morland. Sete anos depois, o livro "Uma Barragem Contra o Pacífico" coloca Duras na linha da frente para o prestigiado prémio literário Goncourt. Acaba por não o ganhar. No entanto, o galardão chega-lhe às mãos em 1984, aquando da publicação de "O Amante", o seu mais mediático romance, adaptado ao cinema pelo realizador francês Jean-Jacques Annaud, em 1991. Duras não gostou e cortou definitivamente as estreitas relações que, até então, mantinha com o mundo cinematográfico - com efeito, o seu nome ficou para sempre associado a um filme de referência, "India Song", que realizou em 1975.

Os seus ataques de mau gênio, bem como o seu radicalismo político - ao aderir a movimentos feministas ou quando refere que o lançamento de bombas atómicas sobre os Estados Unidos seria a única hipótese de pôr termo ao sofrimento dos vietnamitas -, eram sobejamente conhecidos. Contudo, soube criar meticulosamente a sua lenda, construindo um universo próprio, misturando realidade e ficção.

Em 1995, o ano que precedeu a sua morte, Duras estava consciente de que a sua vida tinha chegado ao fim, depois dos seus sucessivos comas etílicos e do deambular eterno pelos labirintos da solidão. "Creio que terminou. Que a minha vida acabou. Já não sou nada. Tornei-me completamente assustadora. Já não me aguento. Vem depressa. Já não tenho boca, rosto." Morre em Paris, a 3 de Março de 1996, aos 81 anos de idade.

Mas nunca gostou que contassem a sua vida. Porque, como disse um dia: "A história da minha vida não existe. Isso não existe. Nunca há centro. Nem caminho, nem linha. Há vastas passagens em que se insinua que houve alguém, mas é certo que não houve ninguém." M.T.S.



Leia: http://www.publico.pt/cmf/autores/margueriteDuras/perfil.htm
http://www.ambafrance.org.br/abr/label/label24/letras/duras.html







Hoje uma matéria no caderno Ela, do Globo me chamou atenção. Para quem não leu é sobre o livro: “Modos de macho e modinhas de fêmea” do jornalista Xico Sá. A matéria é engraçada, o livro, pelo que parece, idem e o tema recorrente, o relacionamento amoroso.

Achei interessante o que ele respondeu ao ser perguntado: o que as mulheres querem? "tudo que elas querem é um lenhador sensível", eu acrescentaria aí algumas coisinhas, tipo: que soubesse a tal madeleine que Proust comia todo dia de manhã, são bolinhos franceses e não uma madeleine qualquer, que tivesse o raciocínio rápido e respostas idem, um humor inteligente, meio irônico e não chulo, que soubesse que às vezes queremos só colo, absolutamente só isso e pode ser figurativo, como simplesmente um abraço e não que nos derrubassem do colo para o chão e... bom rolasse aquele o trivial variado de sempre, ne? Ok, ok, estou sendo exigente, talvez, mas também garanto que sei/sabemos ver o outro lado. Por exemplo, eu jamais surtei e cai em posição fetal quando ouvia: "hoje tem jogo com a turma", pelo contrário, adorava. Para mim isso significava que eu ia poder colocar aquela maravilhosa máscara de morango, ficar com o cabelo cor-de-rosa choque sem ter vergonha de parecer a versão revisitada da Lady Zu. Mas tenho amigas que a palavra futebol é o mesmo que um surto iminente.
Nas minhas meditações pré-carnavalescas fico pensando: que vantagem maria leva se armar um barraco por causa do futebol?? O cara pode até ficar, mas vai ficar com uma tromba gigantesca. Não vale a pena.
Ai vem a argumentação do tipo: ele pode estar com outra. Bobagem. Todo mundo que trabalha ou ja trabalhou fora, viu e sabe que a grande hora é a do almoço, quando discretamente algumas pessoas somem separadas e vão juntas para os motéis do Centro da cidade. Rola aquela fofoca e você aprende que traição é traição a qualquer hora e não só a noite. Em geral, o futebol é só futebol mesmo.

O livro parece bem engraçado, no final deixarei uns trechos que estavam no site, mas sobre isso tudo acho sinceramente que pode-se discutir, falar, teorizar sobre, mas a verdade é que cada caso é um caso. Não há manual que explique a química humana, como acontece ou acaba. Acho que ao invês de falar, escrever manuais, as pessoas precisam apenas viver, só isso, é assim que se aprende. Discutir a relação é coisa mais chata que existe, relação simbiótica é lindo quando se tem 12 anos e ser capaz de deixar o outro livre para que ele escolha estar com você, é perfeito. Por ora, deixo o soutien meia-taça pendurado, rsss, já passei da idade e do peso para ler manuais, fórmulas, soluções mágicas para esse eterno des(encontro) marcado.


andrea augustoangelblue83


ps: opinião absolutamente pessoal mesmo, acredito que para algumas pessoas existe vida após o casamento, que algumas almas gêmeas realmente se encontram, que alguns acham ótima a relação simbiótica e outras são como eu, gostam da liberdade, mas não acham sinônimo de galinhagem, associam liberdade ao prazer de estar junto e não na obrigação de ver porque é sábado, odeiam discutir a relação, acham que palavras o vento leva, mas as atitudes ficam e dão aval a elas. Acham absolutamente possível se divertir sozinha, mesmo estando apaixonada e consideram que a relação ideal é: eu tenho a minha vida, ele tem a dele e juntos temos uma vida em comum...não é à toa que já cheguei a conclusão de que sou materialização de Flicts, aquele que não tinha par no mundo, rss, na boa, não pretendo me matar por isso.



quadrinho: maitena: http://www.rocco.com.br/index_maitena.htm



Leia trechos do livro


E-mail, o carrasco do amor

O e-mail é a sepultura do amor, que despenca, a cada "enviar", simplificado e com abreviaturas — vc isso, vc aquilo, carinhas, falta de acentuação básica e dispensa ridícula do "minha querida", entre outras saudações tã necessárias para um mancebo de verdade.

Quanto durava um amor por cartas?

No mínimo uma correspondência amorosa suportava um inverno inteiro. Independentemente da distância e da eficiência do lombo dos burros postais dos cafundós do São Francisco ou da perdição dos cães tchecovianos e seus trenós mensageiros em busca da mais erma República gelada da saudosa ex-URSS.

Nos tempos que correm, enxotados e varridos pela angústia tecnológica, conhece-se uma gazela na madrugada da sala de sexo ou chat-cabeça, troca-se confidência no final do expediente da manhã - entre um memorando e outra na repartição -, o coração dispara na sessão da tarde, a safadeza desponta ao anoitecer, o sexo explode depois do jantar, o "teadoro do verbo teadorar" rola solto no primeiro canto do galo, a conexão cai, o amor desaba, ela pula para outra sala...

Algumas notícias, raras quais pés de cobras, dão conta de casamentos e felizes personagens de matérias de suplementos informárticos ou revistas de psicologia recreativa. No geral o que ocorre é o massacre de possibilidades amorosas. Avexa-se a história e tudo não passa da primeira noite de um homem e seus recalques, e suas mentiras, e seu fogo-fátuo.

O amor carece de cartas e paciência, Mr. Postman. A ansiedade masculina nasceu para viver no compasso slow-motion da espiada para o chega-não-chega do carteiro. Na velocidade do send, a ansiedade é assassina e mistificadora. A felicidade, como o amor dos tempos de Tchecov, sempre será manuscrita.

Lembram do velho prefixo de final de namoro de antigamente?

"Devolva minhas cartas."

"E minhas fotografias também."




A asma amorosa


Não há mais dúvidas: quanto mais beira o verossímil, com gritos lancinantes na noite, como assimilamos do cinema, mais fingido é o tal do orgasmo. Nunca é condizente com a nossa performance e suor. Os melhores e mais recompensadores orgasmos guardam o bom preceito da educação dos gemidos.

Por mais megalomaníaco que seja Vossa Senhoria, recomendo que não acredite naquelas algazarras, feiras amorosas, sacolões do sexo, capazes de fazer os vizinhos problemas dos mais graves. Deixará o casal que mora do outro lado da parede em pé de guerra, uma vez que a mulher, atenta à lição do gozo comparado, vai exigir muito mais, muito mais, mais e mais, e mais um pouquinho ainda, do seu colega de prédio ou de rua. E o pior é que os gritos lancinantes só costumam ocorrer quando o gozo não passa de teatro, puro teatro, como canta a deusa La Lupe.

O gozo desesperado costuma ter origens variadas (falar nisso, por que ninguém mais cita W. Reich, meu ídolo da lira dos vinte anos?!). O gozo desesperado, falava eu, costuma ser resultado de algum curso mais digerido de teatro amador, formação em escola jesuíta, leitura errada dos Actors Stúdio, dietas à base de alcachofra, audiências tardias das onomatopéias do Led Zepppelin ou falta de homem propriamente dita.

As melhores gazelas educam cedo os gemidos. Em vez de gritos que parecem mais apropriados para momentos de sequestro-relâmpago, a boa moça sussura e balbucia safadezas no cangote do amado.

As melhores não desesperam. Já imaginou Ava Gardner em desespero? Nem com Frank Sinatra, a quem enlouqueceu todos os sentidos. E não me venha dizer que isso seja frigidez, frescura ou algo da linha.

Uma coisa é a gritaria, quase um SOS, incêndio do Joelma ou sinistro urbano do gênero. Outra é a gemedeira gostosa, fungada sentida, fogo nas entranhas, calor na bacurinha, quase um decassílabo a cada descida, lirismo sem fôlego, asma do amor.


Trechos do Livro: “Modos de macho e modinhas de fêmea” do jornalista Xico Sá.