Ele não gostava de andar, de frutas ou doces, era ateu, mas só lia a Bíblia. Odiava a burguesia, era indiferente à Academia, gostava de palavrões e aguardente e escreveu um dos mais belos romances da língua portuguesa: Vidas Secas.

Graciliano era assim, um adorável ranzinza e dono de humor caústico. Exemplo?

A ida à URSS resulta num livro de impressões intitulado Viagem e que começa com uma demonstração de aborrecimento do velho Graça: ele não se sente bem na "encrenca voadora". É como chama o avião. Fumando seu cigarro no marquesão da José Olympio, vê uma senhora tremelicante de banhas e de jóias aproximar-se, toda sorridente, com um exemplar do livro para o indefectível autógrafo.
- Mestre Graciliano, assine aqui. O senhor voltou assumido da União Soviética?
- Assumido como, minha senhora?
- Ora, assumido. Assim como o André Gide.
É demais. O romancista estoura:
- Como, minha senhora? Veado?





Vidas secas é história de uma família de retirantes, Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra Baleia, que, pressionados pela seca, atravessam o sertão em busca de meios de sobrevivência.
Talvez eu considere esse livro um dos mais belos por causa da obra prima de Nelson Pereira dos Santos, que reproduziu com fidelidade no cinema, o romance de Graciliano. É poético e doloroso. A luz agride e é feita quase só de branco na intenção de ferir como o sol do sertão. E consegue.
Baleia a cadelinha do filme é a mais humana das personagens, parece ter um afeto desinteressado por aquela família, mesmo enxotada, comendo só os ossos, esta sempre por perto, consola o menino quando este cai do bode e segue esfomeada e sedenta a mesma sina da família.
O que impressiona é a atualidade da história. E em tempos de guerra, até Memórias do Cárcere nos soa com um estranhamento muito atual, como se a história dele fosse a história do mundo.

"O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro nos reservariam? Provavelmente não havia lugar para nós, éramos fantasmas, rolaríamos de cárcere em cárcere, findaríamos num campo de concentração. Nenhuma utilidade representávamos na ordem nova. Se nos largassem, vagaríamos tristes, inofensivos e desocupados, farrapos vivos, fantasmas prematuros; desejaríamos enlouquecer, recolhermo-nos ao hospício ou ter coragem de amarrar uma corda ao pescoço e dar o mergulho decisivo. Essas idéias, repetidas, vexavam-me; tanto me embrenhara nelas que me sentia inteiramente perdido."

Pouco antes de falecer num dia 20 de março, ainda se perguntava se seria um escritor para a posteridade. Foi, assim como suas histórias.

andrea augusto©angelblue83


Leia: http://www.cpunet.com.br/paralerepensar/graciliano.htm
http://www.vidaslusofonas.pt/graciliano_ramos.htm

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