Há algum tempo atrás, li o livro: "Cartas do Coração - Uma Antologia do Amor" de Elisabeth Orsini. É um livro delicioso que só reforça as sábias palavras de Fernando Pessoa ou melhor um de seus homônimos, Álvaro de Campos :

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.


(...)


Mas não é bem assim, é certo que boa parte dos missivistas são naturalmente recatados (Machado de Assis a Carolina, Dom Pedro II à Condessa de Barral, para citar apenas dois exemplos). E a maior parte das cartas passa longe da alcova (inclusive porque algumas falam do amor de e para pais e filhos, irmãos, amigos). Mas o livro se revela uma cartografia completa do sentimento amoroso, sobretudo na sua interação com outros sentimentos: amizade, agressividade, paixão platônica, luxúria etc. E não deixa de ser interessante verificar que Henry Miller mantém a forma, mesmo após a doença que o afastou de sua antológica fome sexual, ou a linguagem terna e paternal de Mozart para a sua Constanze, de Napoleão a Josephine e a resposta realista e consciente de Jeanne Bécu (posteriormente Condessa du Barry) a um admirador.

Algumas surpresas: a linguagem lúbrica de Emma Goldman. Era uma anarquista, é bem verdade, mas, mesmo respeitando os códigos vitorianos, sua portentosa imaginação transformava-se em linguagem sem nenhuma inibição. E, numa época em que havia apenas luxúria, principalmente homossexual, como imaginar que o romano Plínio, o Jovem, usaria de uma linguagem tão terna e apaixonada para a sua Calpúrnia!
resenha: terra

Hoje fuçando meus livros, Cartas do Coração caiu na minha cabeça, literalmente e me deu uma saudade do que não vivi, de um tempo que emails não existiam, de uma espera ansiosa por cartas, a sensação de saber que elas estiveram nas mãos de alguém importante, a textura, o cheiro, a avidez da leitura e aquele abraçar característico dos filmes românticos em que abraçando a carta junto ao peito estaríamos abraçando o próprio remetente. Deixo abaixo uma amostrinha que transcrevi do próprio livro:



Nelson Rodrigues para Elza. Campos do Jordão -12 de junho - 1939


Elzinha meu divino amor:

...Ah, querida! Eu sofro ainda, ou sofro mais do que nunca, o doce mal da saudade. Só existe na terra um remédio -e que maravilhoso remédio! - para essa nostalgia que me acompanha, e que me ronda, e que está impregnando todos os instantes de minha vida: é a tua presença...
...
Querida: sinto que há, nesta carta, uma certa tristeza, que não pude evitar. Não importa.Hoje a minha ternura está triste... Não podes imaginar como te amo mais quando, num gesto próprio de mulher , te abandonas mais um pouco, e confias mais em mim, e pões nas minhas mãos alguma coisa de tua vida, de tua alma, de profunda e sagrada intimidade. Quero te ver frágil diante da vida, para que eu te defenda, te ampare contra o mundo e contra a própria fatalidade...

Dois beijos intermináveis do meu amor imortal.

Nelson.





James Joyce a Nora Barnacle. 7 de setembro de 1909

Minha Norazinha silenciosa. Dias e dias passaram sem carta tua, mas creio que pensaste que eu já teria embarcado. Partimos hoje à noite. Lá para o fim da semana ou no domingo havemos de estar juntos, espero.

Agora, minha Nora querida, quero que releias e tornes a reler tudo o que te escrevi. Há uma parte feia, obscena e bestial, e há uma parte pura e santa e espiritual: tudo junto sou eu. E penso que agora compreendes o que sinto por ti. Não vais mais brigar comigo, vais, querida? Vais manter meu amor sempre vivo. Estou cansado hoje, caríssima, e gostaria de dormir em teus braços, não fazer nada, mas somente dormir, dormir em teus braços.

Que férias! Não me diverti nem um pouco. Estou com os nervos num estado horrível por toda sorte de aborrecimentos. Queiras acalentar-me quando eu voltar para ti.

Espero que tomes aquele chocolate todos os dias e espero que esse teu corpinho (ou melhor, certas partes dele) esteja ficando um pouco mais cheio. Neste momento estou rindo ao pensar nos seus peitinhos de menina. És uma pessoa ridícula, Nora! Lembra-te de que estás agora com vinte e quatro anos e que teu filho mais velho tem quatro. Puxa vida, Nora, precisas procurar corresponder à tua reputação e deixar de ser a garotinha curiosa de Galway que és para te tornares uma mulher completa, feliz e amorosa.

Contudo, como meu coração se enternece quando penso em teus ombros frágeis e tuas pernas de menina! Como és marota! Foi para parecer uma menina que cortaste o cabelo entre as pernas? Eu gostaria que usasses roupa de baixo preta.
Gostaria que estudasses como provocar meu desejo por ti. E vais faze-lo, caríssima, e vamos ser felizes, agora sei.
Como vai ser longa a viagem de volta, mas que glória vai ser nosso primeiro beijo. Não chores, querida, quando me vires. Quero ver-te de olhos brilhantes e lindos. Qual será a primeira coisa que me dirás?

La nostra bella Trieste! Muitas vezes eu disse isso com raiva, mas hoje sinto que é verdade. Tenho saudade de ver as luzes tremulando ao longo da Riva quando o trem passa por Miramar. Afinal, Nora, é a cidade que nos abrigou. Voltei para lá desanimado e sem dinheiro depois de meu desatino em Roma e novamente, agora, depois desta ausência.
Tu me amas, não é verdade? Agora vais acalentar-me no teu peito e abrigar-me e talvez ter pena de mim por meus pecados e loucuras e guiar-me como a uma criança.

Naquele peito amigo estar eu queria
(que é tão amigo e belo de verdade!)
Onde ia ficar a salvo da ventania.
Devido à amarga austeridade
Naquele peito amigo estar eu queria.

Jim

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