Metamorfose ambulante talvez seja o que melhor defina o Raul. Uma metamorfose que sabia bem o que queria do que gostava e se abria sempre a tudo que é novo e bom.
Não limitou sua vida a três acordes, na verdade acordou o mundo com músicas, frases que estavam além do tempo e da própria vida.



"Somos prisioneiros da vida e temos que suportá-la até que o último viaduto nos invada pela boca adentro e viaje eternamente em nossos corpos".

*livro- Baú do Raul.




"Foi no ano de 1945 a 28 de junho, em uma tradicional família de Salvador que nascer Raul Santos Seixas, filho de Dona Maria Eugênia e do engenheiro Raul Varella Seixas, Raulzito foi educado conforme o conservadorismo das famílias de classe média da Bahia.

Desde os sete anos Raul já se questionava sobre coisas como o fim do mundo, a volta de seu espírito em outros corpos, o julgamento final. Seu pai gostava de ler para ele livros sobre assuntos metafísicos. O que mais lhe marcou foi o livro Dos Por Quês. Mas, na adolescência de Raul Seixas - 1958 - Rock 'n Roll era música para empregadas domésticas e caminhoneiros."





Esse foi o início de sua história, uma história repetida a exaustão pelos sites da net. Se ainda não conhecem basta visitar o site oficial ou mesmo fazer uma busca que muitas páginas sobre o assunto virão. Eu recomendo a leitura do Baú do Raul. Foi ali que entendi um pouco desse cara, da grande cultura e inteligencia que possuía, do ser incompreendido que foi, que falava de sociedade alternativa quando a própria sociedade só se sabia burguesa ou não. O livro revolve aquela angústia existencial que cada um tem ou deveria ter vivendo num mundo feito para linha de produção humana, onde todos vestem uma marca, cortam os cabelos de acordo com as tendências e esperam ansiosos as novidades da coleção primavera-verão européia.


(...)

"Mas, na verdade, eu gosto de saber das coisas por antecipação, mas este saber antecipado me cansa, me deixa prostrado diante das portas fechadas que eu já sabia que não iriam se abrir para mim! Minha existência caminha muitos anos à frente do meu corpo, e é justamente meu corpo frágil, magro, esquálido e desprovido de reservas de energia que tem que suportar as demandas da mente atribulada, terrivelmente neurotizada pela civilização".

*Livro- Baú do Raul - pág.25.





No Baú, um diário desses que agora colocamos para todos na web, Raulzito fala de seus ídolos, política, da vida essa mutante constante alterando corações e mentes e nos deixa a semente da incerteza, porque como ele quero sempre o benefício da dúvida, ainda que me entupam de certezas que não são minhas.

Ciao

andrea augusto©angelblue83




Leia: http://www.raulseixas.com.br/
* Transcrevi algumas passagens do Baú do Raul, ao copiar cite a fonte, plis.






Em 95, o escritor Caio Fernando Abreu, então colunista do jornal O Estado de São Paulo, publicou uma carta que teria sido escrita por Clarice Lispector a uma amiga brasileira. Ele comenta, no artigo, que não há nada que comprove sua autenticidade, a não ser o estilo-não estilo de escrita de Clarice Lispector. Ele dizia: "A beleza e o conteúdo de humanidade que a carta contém valem a pena a publicação..."



Berna, 2 de janeiro de 1947


Querida,

Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perde o respeito a si mesma e o respeito às suas próprias necessidades - depois disso fica-se um pouco um trapo.
Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar e contar experiências minhas e dos outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos leva de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu... em que pese a dura comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que me leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco minha vida - que não era maravilhosa mas era uma vida - eu me transforme inteiramente.
Uma amiga, um dia, encheu-se de coragem, como ela disse e me perguntou: "Você era muito diferente, não era?". Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus. Não haveria necessidade de lhe dizer, então. Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você mesma uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.
Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia - será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Isso seria uma lição para mim. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma.


Tua Clarice.


Leia: http://www.geocities.com/Paris/Concorde/9366/






Ernesto Sábato argentino nascido no dia 24/06/1911 é doutorado em Física.
Antes que vocês se perguntem: o que um físico faz por aqui? Pois é, para quem não conhece, esse físico é também escritor, um grande paradoxo que rendeu livros interessantíssimos.
Aos trinta anos, Sábato deixou uma brilhante carreira científica para dedicar-se a literatura produzindo textos de ficção, ensaios e críticas.

"Certa vez Sabato comentou os três grandes choques de sua vida. Primeiro, a crença no socialismo desabou após o stalinismo. Depois, sua crença na ciência foi abalada com a construção da bomba atômica. Por último, o contato com os surrealitas lhe abriu novas possibilidades para compreender o mundo e lidar com a perda de suas antigas utopias. Desses três choques, aliados a um vasto conhecimento literário, surge O Escritor E Seus Fantasmas. "

Em O Escritor e seus Fantasmas, Sábato avisa: que sua obra pretende ser como conselho aos jovens escritores. Jovens escritores, afinal, são assim mesmo: capazes de perseguir seus ídolos nas letras em busca de palavras esclarecedoras, que, talvez, tornem seu exercício menos penoso.
O livro, muito bom por sinal, é uma ampla discussão sobre a função do romance, sua viabilidade e alcance. Uma pérola, sem dúvida para iniciantes ou não, no mundo das letras.

Mas é em "O Túnel", de 1948 que o escritor deixa de lado os temas sociais de sua obra e fala de amor, ou melhor, de ciúme, posse e tragédia. Questionamentos pra lá de atuais como: é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo? Qual o limite sobre o objeto amado, até onde ir? É interessante o modo com que ele conduz a trama e como ela é atual.
"O Túnel" conta a história de Juan Pablo Castel, um pintor que, como o próprio afirma no começo do livro, matou sua amante Mária Iribarne. Para Sábato, o importante não é a intriga aparentemente policial, mas sim as manifestações de um espírito atormentado pela incomunicabilidade e por uma obsessão que o impossibilita de ter aquilo que os filósofos cristãos chamam de "a contemplação amorosa". Castel escreve sua descida aos infernos como se fosse um patético adolescente que quer Mária, apenas para possuí-la como um dos detalhes de seus quadros. A imagem de um túnel que impede os contatos entre dois seres humanos, é a forma como Sábato conseguiu reproduzir a grande muralha que envolve o relacionamento homem-mulher nos dias de progresso tecnológico e utopias desvirtuadas."

Parece familiar? Pois é, este é um dos encantos de Ernesto Sábato, a ficção sai dos livros e encontra paralelo na vida do leitor de modo absurdamente real. Recomendo.




O Túnel (trecho)


Voltei para casa com a sensação de uma absoluta solidão.

Em geral, essa sensação de estar só no mundo aparece mesclada a um orgulhoso sentimento de superioridade: desprezo os homens, acho que são sujos, feios, incapazes, ávidos, grosseiros, mesquinhos; minha solidão não me assusta, é quase olímpica.

Mas naquele momento, como em outros semelhantes, encontrava-me só em conseqüência de meus piores atributos, de minhas baixas ações. Nesses casos sinto que o mundo é desprezível, mas compreendo que eu também faço parte dele; deixo-me afagar pela tentação do suicídio, me embriago, procuro as prostitutas. E sinto certa satisfação em provar minha própria baixeza e em verificar que não sou melhor do que os sujos monstros que me rodeiam.
(...)

A vida aparece à luz desse raciocínio como um longo pesadelo, do qual, no entanto, cada um pode libertar-se com a morte, que seria, assim, uma espécie de despertar. Mas despertar para quê? Essa irresolução de lançar-me ao nada absoluto e eterno foi o que me deteve em todos os meus projetos de suicídio. Apesar de tudo, o homem é tão apegado ao que existe que acaba preferindo suportar sua imperfeição e a dor que causa sua fealdade, a aniquilar a fantasmagoria com um ato de vontade própria(...).


(Retirado de O Túnel, Ernesto Sabato, Companhia das Letras)



Leia: http://planeta.terra.com.br/arte/bscene/literatura/sabato.htm
http://www.anhembi.br/portal/canais/colunas/literatura/coluna103/







Escritor e pensador francês, Jean-Paul Sartre nasceu em Paris a 21/06/1905 e morreu na mesma cidade a 15/04/1980, de ataque cardíaco. Sartre deixou várias obras e o famoso Existencialismo.
Falar do existencialismo em um simples post é impossível. Mas em linhas gerais, Sartre ao afirmar que a existência precede a essência quis dizer que "o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. Assim, não há natureza humana, visto que não há Deus para a conceber. O homem é, não apenas como ele se concebe, mas como ele quer que seja, como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência; o homem não é mais que o que ele faz. Tal é o primeiro princípio do existencialismo".

É mais ou menos assim: o existencialismo seria uma atitude diante da vida, não existe um Deus, os valores são criados pelo próprio homem e ele - o homem - é o que fez de sua vida. Seria o estado de liberdade, a liberdade da escolha. "O silêncio é reacionário", dizia Sartre. Ou seja, é preciso fazer uma escolha, optar e realizar. "Nós somos o que fazemos do que os outros fazem de nós", afirmava Sartre.










Não sou mestra em Filosofia, muito menos em Existencialismo, o pouco que sei sobre o assunto me fascina porque deixa o sabor, talvez ilusório, de sermos donos de nossas vidas, atos e conseqüências. Somos geradores de nós mesmos. Conceitualmente, dá uma sensação de liberdade, de poder, de vento na cara incrível. Sartre viveu assim, de acordo com a Escola criada por ele, em mutação constante.
Quando o livro "O Ser e O Nada" foi publicado virou mania, ficou pop. A França vivia a ressaca do pós-guerra e a vontade de viver tudo-ao-mesmo-tempo-agora era grande. O livro chega dentro desse contexto para se tornar sucesso absoluto. Por outro lado o ateísmo do livro irritou os católicos e ele acabou, em 30 de Julho de 1948, sendo colocado no Index do Vaticano, como "um perigo muito maior que o racionalismo do século 18 e o positivismo do século 19". Junte-se a isso o sucesso de Simone, eterna companheira de Sartre e pronto, da noite para o dia, o casal alcançou as manchetes.

A relação de Sartre e Simone era objeto de curiosidade, afinal o casamento aberto viria a ser moda muitos anos depois deles. A verdade, segundo biógrafos é que eles eram apaixonados intelectualmente um pelo outro. Sartre confiava na opinião de Simone sobre sua obra e vice-versa. Como homem e mulher, o relacionamento não rendeu noites abrasadoras, coisa que Simone só conheceria já quarentona nos braços de Algren.

Já no fim da vida, Sartre estava cego, passava o tempo bebendo, tinha perdido a fortuna que ganhará com seus livros, mas era um gênio, o mesmo gênio que nos deixou obra fecunda, pensamentos pra lá de atuais como: "O inferno são os outros" e sobretudo sua vida, seu relacionamento com Simone, que por si só já daria um livro, afinal, os dois viveram intensamente o que teorizavam em sua obra. E quantos de nós consegue viver tão plenamente essa breve vida segundo a vida que escolhemos para nós? Poucos, muito poucos.






A náusea


A negra canta. Então pode-se justificar sua existência? Só um pouquinho? Sinto-me extraordinariamente intimidado. Não é que tenha muita esperança. Mas sinto-me como um sujeito completamente gelado que, após uma viagem na neve, estivesse entrando de repente num quarto aquecido. Creio que permaneceria imóvel perto da porta, ainda frio, e que arrepios percorreriam seu corpo todo.


Some of these days
You'll miss me honey



Será que poderia tentar... Naturalmente não se trataria de uma música... mas será que não poderia, num outro gênero? Teria que ser um livro: não sei fazer outra coisa. Mas não um livro de história, isso fala do que existiu - jamais um ente pode justificar a existência de outro ente. Meu erro foi querer ressuscitar o sr. de Rollebon. Outro tipo de livro. Não sei bem qual - mas seria preciso que se advinhasse, por trás das palavras impressas, por trás das páginas, algo que não existisse, que estaria acima da existência. Uma história, por exemplo, como as que não podem acontecer, uma aventura. Seria preciso que fosse bela e dura como aço e que fizesse com que as pessoas se envergonhassem de sua existência.
Vou embora, sinto-me vago. Não me atrevo a tomar uma decisão. Se tivesse certeza de ter talento... Mas nunca - nunca escrevi nada nesse gênero; artigos históricos, sim - e mesmo assim...
Um livro. Um romance. E haveria pessoas que leriam esse romance e diriam: "Foi Antoine Roquentin que o escreveu, era um sujeito ruivo que estava sempre nos cafés". E pensariam em minha vida, como eu penso na dessa negra: como algo precioso e meio lendário.



Trecho de A Naúsea (La Nausée - 1938), primeiro romance de Jean-Paul Sartre.




Leia: http://www.geocities.com/Athens/Olympus/7979/indice.htm
http://www.fundathos.org.br/radcal/a_radcal11/filosofia_colada.htm







uma vida sobre nada



Ela sempre soube o que queria. Não, ela nunca soube, só fazia de conta que sabia. Era dessas pessoas de rompantes descabidos, se antes concordava veementemente com alguma coisa, dias depois discordava com argumentos e firmeza, como se aquela opinião fizesse parte dela a vida inteira.

Era uma pessoa estranha, parecia um objeto sempre fora do lugar, inadequada, ora no tamanho ora na largura, na cor, nos movimentos, não havia um espaço para ela em lugar nenhum. Nada, nem ninguém, combinava com ela, nem o dia ou a noite ou mesmo o intervalo entre as horas e seus minutos. Ela não se encaixava.

Tinha poucos amigos, na verdade, pessoas que respondiam aos seus cumprimentos, ocasionalmente paravam e a escutavam.

Fora isso só o espelho.

Sabe-se pouco ainda hoje sobre a importância do espelho. No modesto apartamento onde morava, havia uma cama king size e em frente a ela, o espelho. Mais nada. Absolutamente branco, do teto ao chão, a cama e o espelho.

Nele, era o reflexo sua referência humana, sua identidade e os constantes murmúrios. Supõe-se que falava com ele, como com alguém, uma presença que lhe faltou em algum momento da vida e ao longo dela sedimentou-se. Era só, extremamente só, não cabia em si, nem no mundo.

Quando a acharam, muitos dias depois de morta, havia no espelho a seguinte mensagem, escrita com o próprio sangue:


O reflexo me matou.


Nada mais. Ela virou alguém, nesse exato instante tornou-se a moça do reflexo. Até então, uma vida sobre nada era o que possuía, depois de morta adquiriu grandeza, amigos que juravam conhecê-la desde sempre, alguns segredos sórdidos sobre sua vida sexual e a cor de seus cabelos, uma religião e rituais recitados baixinho. Tinha ideais e seu maior sonho era ser escudo humano em uma guerra qualquer, ou acorrentar-se num navio para salvar as baleias jubarte na época de sua - das baleias- reprodução.

No dia em que morreu, com uma história traçada, a moça do reflexo viveu muitos anos de vida e terminou velhinha no imaginário coletivo, que jamais soube da sua existência.



andrea augusto©angelblue83



"Diante deste pesar, meu coração entenebreceu-se de todo.
Tudo quanto via diante de mim era morte. Meus olhos buscavam-no por toda parte, mas não me era concedida a graça de vê-lo. Odiava todos os lugares, porque neles eu não o via. Fugir? Para onde, fugiria meu coração de meu coração? Para onde fugiria eu de mim mesmo? Para onde não acompanhar a mim mesmo? Sentia que minha alma e a alma dele eram uma só alma em dois corpos. E em consequência, minha vida tornou-se para mim um horror, porque eu não poderia viver dividido".


Sto.Agostinho em carta, diante da morte de um amigo.

Essa carta foi escrita por Sto Agostinho por ocasião da morte de um grande amigo. Achei-a num livro na biblioteca onde trabalhei e tive que copia-la. Fala de amor, amor fraternal, mesmo para aqueles que enxergaram malícia, não há, pelo menos para quem tem ou já teve um grande amigo. É daqueles amores de doação, de lealdade incondicional, onde a vida se encarrega de colocar no caminho "irmãos" que não sendo de sangue, são de alma, são para a vida toda. Há uma identificação imediata, um auto- reconhecimento entre amigos assim. É fácil entender uma doação tão plena e uma dor tão repleta da ausência de um amigo, como descreveu Sto.Agostinho.

Li "Confissões" de Sto. Agostinho e li muito sobre a vida dele, foi um escritor fecundo, um grande filósofo e pensador da Igreja Católica. Antes de se converter, Sto. Agostinho teve uma vida de farras, plena dos prazeres da época e da idade. Antes dos 20 anos teve um filho, Adeodato e nem era casado. Seguiu seitas, decepcionou-se com elas, viveu até a última gota tudo o que a vida lhe oferecia. Sto Agostinho é considerado um dos fundadores da Teologia, onde sua principal obra é De Trinitate, composta de quinze livros, uma sistematização da doutrina cristã. Suas obras mais populares, cujo interesse perdura até hoje, são as Confissões (Confessiones), obra autobiográfica, e a Cidade de Deus (De civitate Dei) em que discute o problema do bem e o mal, as relações do mundo material e espiritual. Sto Agostinho tinha uma peculiaridade interessante, era um grande formador de frase, habilidoso com as palavras e a própria escrita. Converteu-se tarde, aos 33 anos e talvez por isso, pela vida que teve antes da conversão é um dos santos mais interessantes da Igreja. Sua vivência antes e depois da conversão deu a base para tudo que escreveu depois, uma base que só estando dos dois lados seria possível.


andrea augusto@angelblue83




Leia mais: http://www.santarita-oar.org.br/agostinho01.htm



* esse post é para você, minha amiga, minha irmã, parte da minha alma e pela qual daria minha vida sem pestanejar, esperando que dias mais leves cheguem.







Leio sobre Che Guevara desde de sempre e sempre descubro algo que me aproxima ainda mais dele. Das pessoas que conheço, das pessoas que leio, dos mitos, personalidades literárias ou não pelas quais me interesso e escrevo (rabisco) , Che é o que mais se aproxima do meu jeito babaca de ser. É isso mesmo, leram direitinho, babaca, bobo, idealista, certinho, de uma lealdade canina, de uma burrice crônica para enxergar artimanhas e conspirações alheias, emotivo, um romântico irrecuperável que chorava quando precisa ser mais duro, que se compadecia com o sofrimento alheio, um crédulo. Ele me supera em um aspecto, jamais me formaria em medicina como ele. Por que? Porque a idéia de cortar alguém, ainda que para salvar a vida me é inimaginável. Prefiro sofrer a fazer sofrer. Bom, formei-me em Direito, o que nos aproxima na questão da justiça. Mas é desse geminiano idealista que nasceu no dia 14 de junho de 1928 que eu quero falar.







Nos primeiros tempos de México, Che desempenhou diversos trabalhos, como fotógrafo ambulante nas praças públicas e vendedor de livros da Editora Fundo de Cultura Econômico. Através de concurso, passou a trabalhar no maior hospital do país, como médico de doenças alérgicas. Foi nesse hospital que conheceu o paciente Raúl Castro. E em julho ou agosto de 1955, Raúl o leva para conhecer Fidel Castro Ruiz. É o próprio Che quem relata: "Conheci Fidel em uma daquelas noites mexicanas e recordo que nossa primeira discussão versou sobre a política internacional. Conversamos toda a noite e, ao amanhecer, já era médico de sua futura expedição".
Às duas horas da madrugada, do dia 25 de novembro de 1956, o iate Granma zarpou do porto mexicano de Tuxpán, com 82 jovens a bordo."Valia à pena morrer numa praia estrangeira por um ideal puro", decidiu Che.



"Devo dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é movido por sentimentos de amor.'É impossível num autêntico revolucionário sem esta qualidade. Talvez seja um dos grandes dramas do dirigente; este deve unir a um espírito apaixonado uma mente fria, e tomar decisões dolorosas sem que nenhum músculo se contraia. Os nossos revolucionários de vanguarda têm de idealizar esse amor aos povos, às causas mais sagrada, e torná-lo único, indivisível. Não podem mostrar a sua pequena dose de carinho cotidiano tal como faz o homem comum." Che Guevara.



O mito começava a nascer e Che tinha toda consciência do carisma que sua figura passava. Encantava as mulheres e fascinava os jovens com suas palavras, o jeito muito bem articulado de se expressar e agir de acordo com o que pensava e o ideal pelo qual lutava.
De sua última batalha a história relata que foi capturado a 8/10/1967, por uma unidade do Exercito Boliviano, dirigida pela CIA. Foi executado a sangue frio, por ordem do Presidente dos EUA, Lyndon B. Johnson. Muito embora já tenha lido que o próprio Fidel foi parte importante na execução de Che, quando este já não lhe servia mais aos propósitos. Verdade ou não, ele jamais saberia, o que foi uma benção, gente como nós e ai me incluo voltando ao início, entende deslealdade e traição como o fim de tudo, a morte é só um detalhe.



leia: http://che.com.sapo.pt/
http://www.terravista.pt/nazare/2319/che/








"Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus."

Alberto Caeiro (entre 1913-15)















Em 13 de junho de 1888, nasce Fernando António Nogueira Pessoa, em Lisboa, Portugal, um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos. Seus versos foram traduzidos para o mundo todo, sua personalidade multifacetada foi e é tese de estudos, tratados e interesse constante.
Mas isso é bem conhecido e como gosto de falar sempre de outros aspectos menos divulgados, prefiro falar um pouco das pessoas de Fernando, do astrólogo e ocultista Fernando Pessoa. Por toda sua vida ele se utilizou da Astrologia, chegando inclusive a fazer as cartas astrológicas de seus heterônimos, Caeiro e a escrever um tratado sobre o assunto, em 1916, sob o heterônimo de Raphael Baldaya. Pensa até em estabelecer-se em Lisboa como astrólogo encartado. A segunda parte de Mensagem, chamada Mar Portuguêz, é composta de doze poemas que têm uma notável relação com os 12 signos.
Sob a influência do ocultismo escreverá O último sortilégio e Além-Deus. Inicia-se e cultiva, sobretudo, a astrologia.
Aqui estão os versos e sua correspondência astrológica.




"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou vàriamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpètuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."





Em Pessoa encontramos heterônimos. A cada um é dada biografia , características, personalidade, profissão, ideologia, formação cultural. São Pessoas completas dotadas de uma existência rica, de vida própria como só o próprio gênio de Pessoa poderia elaborar. Deixo aqui cada uma das pessoas que viviam em Fernando.








ALBERTO CAEIRO


Louro, estatura média, saúde frágil (obrigava-o a viver no campo), pálido, olhos azuis, órfão desde cedo.
Morreu de tuberculose.
"Pensar é estar doente dos olhos"
Mestre bucólico, camponês sábio, criado no campo.
Mestre de todos os heterônimos.
O importante é ver e ouvir - Não é preciso pensar.
Pensamentos são sensações.
Alheio à alta sofisticação cultural que marca os demais.
Mestre do paganismo, visão não cristã, não judaica, não espiritualizada da vida e do mundo.
O que vemos não tem sentido oculto por trás das aparências
Devemos nos relacionar com os objetos em sua singularidade que é a sua realidade.
Semelhanças com o zen-budismo.
Nega qualquer forma de espiritualismo e transcendência.
Nega a idéia de qualquer realidade além daquela que constitui nossa experiência concreta.
Opõe-se ao intelectualismo, à abstração, à especulação metafísica e ao misticismo
Versos parecem prosa .
Vocabulário restrito, repetições com pequenos intervalos.
A sensação é realmente vivida e não pretexto para discussão de idéias.










ÁLVARO DE CAMPOS


"Temos todos duas vidas: a verdadeira, que é a que sonhamos na infância ...; a falsa, que é a que vivemos em convivência com os outros".
Alto, magro, tendente a curvar-se, cabelo liso, usava monóculo.
Requintado, neurótico, esnobe engenheiro num estaleiro formado na Escócia.
Inativo por opção.
Amor à civilização e ao progresso, homem do século XX.
"O que o mestre Caeiro me ensinou foi a ter clareza; equilíbrio, organismo no delírio e no desvairamento, e também me ensinou a não procurar ter filosofia nenhuma, mas com alma".
Como os futuristas, celebra a máquina, a velocidade, a simultaneidade de ações.
Observa criticamente o mundo e a si mesmo.
Influências: Cesário Verde, Walt Whitman.
Sente e intelectualiza sensações.
Sensacionalismo - designação de uma das poéticas inventadas por Pessoa, cujo fundamento se resume no verso "sentir tudo de todas as maneiras".
Inadaptado, isolamento voluntário.
Tom agressivo, viril, heterônimo mais indisciplinado.
Linguagem agressiva e magoada.
Ego conflituoso.
Prosa disposta em forma poética.









RICARDO REIS

Forte, seco, moreno, morreu no Brasil.
Médico, raramente exerceu.
Defensor da monarquia
Auto-exílio no Brasil (não aceitava a República).
"Gosto exótico do instante que passa".
Latinista e semi-helenista.
Razão é fator de proteção em relação à emoção.
Paganismo deriva da influência de escritores antigos e da influência de Caeiro.
Racionalista.
Poesia hiperculta, neoclássica.
Linguagem densa, sintaxe latinizante.
Atitude Hedonista .
Atitude Epicurista .
Postura Estóica.
Modelo: Horácio - Séc. I a C - Carpe Diem.
Poemas são odes à maneira antiga.
Rigor de construção, métrica perfeita, ausência de rima.
Semipagão.







E a própria pessoa de Fernando:


Inicia-se com uma fase vanguardista.
Algumas poéticas experimentais são Simbolistas.
Poesia que busca captar o vago.
Teoria poética de Pessoa - Interseccionismo.
Exprime e analisa emoções e estados de espírito.
Perplexidade diante do enigma do EU.
Densa posição metalingüística.
Consciência critica e autocrítica.
Conversão do sentimento em pensamento.
Saudosismo esotérico.
Nacionalismo místico.
Questão da identidade e linguagem = reflexão sobre a arte poética e sobre o porquê do artista.
Identificação com o mar.
Profetismo sebastianista.
Cancioneiro = retoma ritmos e formas tradicionais populares do lirismo português.





No dia 30 de novembro de 1935, Fernando Pessoa arde em febre insistindo em chamar Caeiro, Reis, Campos e Soares. Pessoa em agonia repuxa o lençol, contrai-se. Dá-me os óculos, os meus óculos, pede.
Já morto o poeta sobram apenas uns rabiscos num papel:




"Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido,
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo.
E vou escrever esta história para provar que sou sublime."






Leia: http://www.lsi.usp.br/art/pessoa/
http://www.cfh.ufsc.br/~magno/frames.html
http://www.vidaslusofonas.pt/fernando_pessoa.htm













"Quero todo o teu espaço e todo o teu tempo
quero todas as tuas horas e todos os teus beijos
quero toda a tua noite e todo o teu silêncio."

Mário Quintana














O Primeiro Beijo


Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.

- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar?

Ele foi simples:

- Sim, já beijei antes uma mulher.

- Quem era ela? perguntou com dor.

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.

O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.

E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.

A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.

E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada.

O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga.

Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.

Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva.

Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...

Ele se tornara homem.



Clarice Lispector












"Ave
Nave
Moinho
E tudo mais serei
Para que seja leve
Meu passo
Em vosso caminho"

Hilda Hilst






Ao longe, ao luar,
No rio uma vela
Serena a passar,
Que é que me revela?
Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.

Que angústia me enlaça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa
Na noite que fica.

Fernando Pessoa
5.8.1921












esse é pra você onde quer que esteja, quem quer que seja, em qual fonte ainda desconhecida a beira de um caminho comum, ainda nos encontraremos...




Mesma Fonte


"Eu quero te contar
a minha vida
espalhar na mesa
os vidrilhos,as lãs
com que fiei meus sonhos
e te falarei dos meus infernos e precipícios
de quantas mortes morri
enquanto me olhava no espelho

eu quero te falar
de longas esperas
em plataformas vazias
te falar de um trem
que nunca chegava
de um navio de areia
escorrendo entre os dedos

eu quero te contar
a minha vida
em suas insignificantes nuances
sem esconder os fantasmas
nos bolsos internos da alma

eu quero te contar
a minha vida
no que ela tem de náusea e desejo
amassando as palavras
como se fosse argila

eu quero te falar
dos ventos que embaralhavam a casa
das minhas caixas e cofres
das minhas magoadas estrelas

eu quero te falar
da minha vida
como se escrevesse em tua pele
e me inscrevesse nela
porque em algum recanto sombrio
a minha vida tem folhas
que são da tua
e não me pertence
o meu cotidiano é feito com a mesma
esgarçada renda dos teus
e nesse lugar
a beira do imaginário
nos encontramos
e bebemos na mesma fonte"


R.Murray








Há algum tempo atrás, li o livro: "Cartas do Coração - Uma Antologia do Amor" de Elisabeth Orsini. É um livro delicioso que só reforça as sábias palavras de Fernando Pessoa ou melhor um de seus homônimos, Álvaro de Campos :

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.


(...)


Mas não é bem assim, é certo que boa parte dos missivistas são naturalmente recatados (Machado de Assis a Carolina, Dom Pedro II à Condessa de Barral, para citar apenas dois exemplos). E a maior parte das cartas passa longe da alcova (inclusive porque algumas falam do amor de e para pais e filhos, irmãos, amigos). Mas o livro se revela uma cartografia completa do sentimento amoroso, sobretudo na sua interação com outros sentimentos: amizade, agressividade, paixão platônica, luxúria etc. E não deixa de ser interessante verificar que Henry Miller mantém a forma, mesmo após a doença que o afastou de sua antológica fome sexual, ou a linguagem terna e paternal de Mozart para a sua Constanze, de Napoleão a Josephine e a resposta realista e consciente de Jeanne Bécu (posteriormente Condessa du Barry) a um admirador.

Algumas surpresas: a linguagem lúbrica de Emma Goldman. Era uma anarquista, é bem verdade, mas, mesmo respeitando os códigos vitorianos, sua portentosa imaginação transformava-se em linguagem sem nenhuma inibição. E, numa época em que havia apenas luxúria, principalmente homossexual, como imaginar que o romano Plínio, o Jovem, usaria de uma linguagem tão terna e apaixonada para a sua Calpúrnia!
resenha: terra

Hoje fuçando meus livros, Cartas do Coração caiu na minha cabeça, literalmente e me deu uma saudade do que não vivi, de um tempo que emails não existiam, de uma espera ansiosa por cartas, a sensação de saber que elas estiveram nas mãos de alguém importante, a textura, o cheiro, a avidez da leitura e aquele abraçar característico dos filmes românticos em que abraçando a carta junto ao peito estaríamos abraçando o próprio remetente. Deixo abaixo uma amostrinha que transcrevi do próprio livro:



Nelson Rodrigues para Elza. Campos do Jordão -12 de junho - 1939


Elzinha meu divino amor:

...Ah, querida! Eu sofro ainda, ou sofro mais do que nunca, o doce mal da saudade. Só existe na terra um remédio -e que maravilhoso remédio! - para essa nostalgia que me acompanha, e que me ronda, e que está impregnando todos os instantes de minha vida: é a tua presença...
...
Querida: sinto que há, nesta carta, uma certa tristeza, que não pude evitar. Não importa.Hoje a minha ternura está triste... Não podes imaginar como te amo mais quando, num gesto próprio de mulher , te abandonas mais um pouco, e confias mais em mim, e pões nas minhas mãos alguma coisa de tua vida, de tua alma, de profunda e sagrada intimidade. Quero te ver frágil diante da vida, para que eu te defenda, te ampare contra o mundo e contra a própria fatalidade...

Dois beijos intermináveis do meu amor imortal.

Nelson.





James Joyce a Nora Barnacle. 7 de setembro de 1909

Minha Norazinha silenciosa. Dias e dias passaram sem carta tua, mas creio que pensaste que eu já teria embarcado. Partimos hoje à noite. Lá para o fim da semana ou no domingo havemos de estar juntos, espero.

Agora, minha Nora querida, quero que releias e tornes a reler tudo o que te escrevi. Há uma parte feia, obscena e bestial, e há uma parte pura e santa e espiritual: tudo junto sou eu. E penso que agora compreendes o que sinto por ti. Não vais mais brigar comigo, vais, querida? Vais manter meu amor sempre vivo. Estou cansado hoje, caríssima, e gostaria de dormir em teus braços, não fazer nada, mas somente dormir, dormir em teus braços.

Que férias! Não me diverti nem um pouco. Estou com os nervos num estado horrível por toda sorte de aborrecimentos. Queiras acalentar-me quando eu voltar para ti.

Espero que tomes aquele chocolate todos os dias e espero que esse teu corpinho (ou melhor, certas partes dele) esteja ficando um pouco mais cheio. Neste momento estou rindo ao pensar nos seus peitinhos de menina. És uma pessoa ridícula, Nora! Lembra-te de que estás agora com vinte e quatro anos e que teu filho mais velho tem quatro. Puxa vida, Nora, precisas procurar corresponder à tua reputação e deixar de ser a garotinha curiosa de Galway que és para te tornares uma mulher completa, feliz e amorosa.

Contudo, como meu coração se enternece quando penso em teus ombros frágeis e tuas pernas de menina! Como és marota! Foi para parecer uma menina que cortaste o cabelo entre as pernas? Eu gostaria que usasses roupa de baixo preta.
Gostaria que estudasses como provocar meu desejo por ti. E vais faze-lo, caríssima, e vamos ser felizes, agora sei.
Como vai ser longa a viagem de volta, mas que glória vai ser nosso primeiro beijo. Não chores, querida, quando me vires. Quero ver-te de olhos brilhantes e lindos. Qual será a primeira coisa que me dirás?

La nostra bella Trieste! Muitas vezes eu disse isso com raiva, mas hoje sinto que é verdade. Tenho saudade de ver as luzes tremulando ao longo da Riva quando o trem passa por Miramar. Afinal, Nora, é a cidade que nos abrigou. Voltei para lá desanimado e sem dinheiro depois de meu desatino em Roma e novamente, agora, depois desta ausência.
Tu me amas, não é verdade? Agora vais acalentar-me no teu peito e abrigar-me e talvez ter pena de mim por meus pecados e loucuras e guiar-me como a uma criança.

Naquele peito amigo estar eu queria
(que é tão amigo e belo de verdade!)
Onde ia ficar a salvo da ventania.
Devido à amarga austeridade
Naquele peito amigo estar eu queria.

Jim










A história de Elizabeth Barret Browning e Robert Browning se adaptada para os tempos atuais poderia muito bem ser um desses romances via Internet: "Nunca te vi, sempre te amei". Que atire o primeiro mouse quem nunca viveu um assim! Foi mais ou menos dessa maneira, a diferença é que na época, a Londres de 1826, os "emails" eram as missivas ou seja as cartas, com timbre, muitas vezes perfumadas, dessas que falei outro dia, que nos filmes a mocinha abraça como se abraçasse o próprio amado.

Elizabeth tinha 39 anos, o que naqueles tempos era uma senhora. Estava enclausurada e semi-inválida. Vivia numa casa senhorial, numa rua calma da Londres vitoriana. A sua vida, na prática, era a de uma prisioneira em casa do seu pai.
Amargurado pela perda da mulher, da fortuna e do filho mais velho, Edward Barret era um tirano para os nove filhos restantes: três raparigas e seis rapazes, tendo chegado ao extremo de proibir que qualquer um deles casasse.

Elizabeth, uma das filhas, para além destas limitações impostas pelo pai, sofria de uma tuberculose óssea que só lhe possibilitava viver num espaço extremamente exíguo. Em 1845, Elizabeth estava há cinco anos confinada a um quarto escuro e fechado, onde permanecia todo o dia deitada, visitada apenas pela família e por alguns amigos permitidos pelo pai.

A sua companhia habitual eram a criada, Wilson, e Flush, o cão de estimação. Excepcionalmente culta, dedicava os seus dias à literatura grega, latina, francesa e alemã, à correspondência com as amigas e, acima de tudo, à criação poética.

Robert Browning, também ele poeta, leu dois livros de poesia de Elizabeth. Ao ler estes livros ele declarou: "Eu amo estes livros de todo o meu coração." Procurou saber a morada da autora e escreveu-lhe, acrescentando "e amo-a a si também". Nessa altura ainda não se conheciam. Ela respondeu-lhe imediatamente, e assim nasceu um dos mais comoventes e dramáticos romances de todos os tempos.

Inicialmente, ela escrevia-lhe, mas recusava-se a vê-lo. Talvez tivesse receio de que o encantamento que pouco a pouco crescia entre ambos, através das cartas, se desvanecesse quando se encontrassem. Elizabeth era doente e não era bonita. Mas, finalmente, face à persistência de Browning, cedeu e, passados cinco meses, a 20 de Maio de 1845, encontraram-se pela primeira vez.

Ninguém sabe o que se passou nesse primeiro encontro. Mas os receios de Elizabeth provaram ser infundados, pois o amor de Browning saiu fortalecido. E também Elisabeth, pouco a pouco, lhe correspondeu. Mas o namoro tinha de manter-se secreto, pois Elizabeth não conseguia libertar-se do temor que sentia do pai.

Com o desabrochar do seu amor, desabrochou também a saúde de Elizabeth. Aventurou-se primeiro a deslocar-se até ao andar de baixo, depois ao exterior. Finalmente, sentiu-se com forças para passear no jardim.

Passou um ano e quatro meses até que Elizabeth ousasse dar o passo irreversível. O casamento realizou-se à pressa, e quase em segredo. Uma semana mais tarde, enquanto a família jantava, Elizabeth, com o seu cão o Flush nos braços para que não ladrasse, fugiu de casa acompanhada pela sua criada Wilson. Encontrou-se com o seu marido e fixando-se em Florença na Itália, aos 43 anos deu à luz um saudável rapaz. Conta a história que Elizabeth faleceu nos braços de Robert.

O interessante nisso tudo é que Robert se apaixonou pela poeta, nem sequer passava pela sua cabeça que ela fosse mais velha, que ela não fosse uma princesa dos grandes salões de festas da época, muito pelo contrário, Elizabeth, além de não ser uma mulher particularmente atraente, era uma senhora para os padrões da época e como se não bastasse, inválida. Mas possuia aquela espécie de beleza que transcende um primeiro olhar, era inteligente, de uma inteligência estimulante, culta e poeta sensível.
Amor? Inevitável. E os anos que se seguiram foram fecundos de poesia.




Soneto


Se tiveres que me amar,
Ama-me por amor do amor somente.
Não digas: "Amo-a pelo seu olhar, seu sorriso,
Seu modo de falar sincero e brando.

Amo-a porque se sente minha alma,
Em constante comunhão com a sua.
E traz uma sensação agradável ao dia".
Porque isso tudo pode mudar, querido; em si mesmo,

Ao perpassar do tempo ou para ti unicamente.
Nem me ames pelo pranto que a bondade de tuas mãos enxuga.
Pois se em mim secar, por teu conforto, esta vontade de chorar,

Teu amor pode ter fim!
Mas ama-me por amor do amor somente.
Que assim conseguirás amar sem fim, por toda a eternidade.

Elizabeth Barret Browning



Leia mais: http://www.humanitiesweb.org/cgi-bin/human.cgi?s=l&p=c&a=b&ID=50
http://www.cswnet.com/~erin/browning.htm



Essa semana o tema é um só: o amor. Esse que é causa e consequência de tudo, que move e pára, colore ou desbota dia e noite.
Na medida do impossível colocarei grandes romances da história por aqui. Portanto, puxe uma cadeira, pegue um cafezinho, chá ou chocolate, aconchegue-se e leia uma boa história no que ela tem de melhor, são reais e por isso prova de que tudo pode acontecer, nada é impossível e o amor é só o objetivo daquele que sonha. Sonhe comigo, baby! :)


Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios, tudo, tudo por não estarem mais distraídos!

Clarice Lispector












Calma! Chopin não era gay, estava mais para um dandy, pelos modos refinados, do que para um rapaz alegre. Essa história é realmente interessantíssima e por um acaso do destino acabei por conhecê-la.
Certo dia, estava numa locadora procurando uns filmes que saissem da mesmice dos (d)efeitos especiais, a falta de diálogos consistentes, algo além de "Hasta la vista, baby" e esbarrei com o filme: George & Frederic, peguei e fui ler a sinopse. Para a minha surpresa tratava-se do romance entre Chopin e George Sand. Continuei lendo e vi que a história era pra lá de interessante. Por que? Simples, basta saber : Quem era George Sand?


George Sand era o pseudônimo de Amantine-Aurore-Lucile-Dupin. Chopin conheceu George Sand em 1836, ele com 26 anos e Sand com 34. Ficou impressionado com aquela mulher forte que se vestia e fumava como um homem e teria comentado: "como é antipática essa Sand, ela é mesmo uma mulher? Tenho minhas dúvidas!" Porém Sand, apaixonada pelo jovem triste de feições angelicais, decidiu tê-lo como amante. E quanto mais o melancólico, discreto e distante Chopin fugia, mais ela o queria. Sand era assim uma obstinava, uma mulher decidida que além de escritora, foi ativista política e vivia de forma livre, ou seja teve quantos amantes desejou, Chopin era naquele momento seu maior desafio. E conseguiu.

Que arrastou Chopin às exaltações da George Sand? A atração dos contrários. Ele tinha a beleza grácil, ela a robusta beleza, um rosto forte, traços firmes, instigantes, considerada bela e exótica. Moça, era despreocupada de enfeitar-se, linda por si mesma. Usava curtos os cabelos castanhos, fumava como homem e tinha idéias socialistas. Evidentemente uma mulher a frente do seu tempo. Chopin, seis anos mais moço do que ela, não resistiu ao incêndio daqueles olhares. A ligação amorosa, de 1836 a 1847, foi sem dúvida um período feliz na vida de Chopin, quando escreveu a maior e mais importante parte de sua obra, seguro e amparado por uma mulher amorosa, vibrante, maternal e inspiradora.



" Vi-a três vezes. Ela olhava-me profundamente nos olhos, enquanto eu tocava. Era uma música um pouco triste, lendas do Danúbio; o meu coração dançava com o dela no país longínquo. E os seus olhos nos meus, olhos escuros, singulares, que diziam? Apoiava-se sobre o piano e os seus olhares abrasadores inundavam-me (...) Flores à nossa volta. O meu coração estava preso. Voltei a vê-la duas vezes...Ama-me...".

Escrito por Chopin em seu diário.










A alma ardente de Chopin encontrou nos transbordamentos daquele afeto o carinho feminino que até então lhe faltara. Artistas, a arte os conjugou, ela que única tem o poder de fundir numa só personalidade o amante e o amado. George Sand possuía no temperamento o segredo da comunhão misteriosa entre a idealidade e a realidade, e numa existência tantas vezes sacudida por questões sentimentais conseguiu dar o sereno exemplo de quarenta anos de ininterrupto trabalho literário, em que criou algumas obras-primas. Ela soube admirar Chopin à altura dele e a admiração foi o carinho do amor. Mas a vida ensina que os amores eternos são sempre passageiros.

A saúde delicada e a depressão de Chopin começaram a desgastar o relacionamento e a ruptura foi inevitável, mas a amizade permaneceu até a morte prematura do compositor, em 1849, aos 39 anos de idade. Dizia Sand: "a alma de Chopin é toda poesia e música, ele nada entende da vida prática". Além da natureza reservada e misteriosa que o preservava de exposições, quis o destino que um grande número de suas cartas fossem queimadas na casa de sua irmã, em Varsóvisa, em 1863, quatorze anos depois de sua morte. Infelizmente restaram poucos vestígios dessa correspondência, mas a história ficou registrada atravês dos tempos em livros e na música de Chopin.


Leia mais: http://www2.uol.com.br/JC/_2000/0306/cu0105e.htm





DONNA MI PRIEGA 88


se amor é troca
ou entrega louca
discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios

no primeiro caso
onde começa o acaso
e onde acaba o propósito
se tudo o que fazemos
é menos que amor
mas ainda não é ódio?

a tese segunda
evapora em pergunta
que entrega é tão louca
que toda espera é pouca?
qual dos cinco mil sentidos
está livre de mal-entendidos?




Leminski nasceu em 24 de agosto de 1944, era mestiço de polaco com negra, representante da poesia de vanguarda da década de 70.
"Tem um começo plenamente identificado com o movimento concretista, ele logo encontra alternativas que lhe garantem a prática de uma poética própria, sem que, no entanto, interrompa seu diálogo com suas influências originais. Como os poetas concretos, valoriza a visualidade do poema e toma a linguagem como personagem principal de sua poética; diferente deles, Leminski ironiza a erudição e aproxima-se da experiência cotidiana, o que lhe garante uma dicção mais coloquial e cheia de humor."











A experimentação, o inovador, nada limitava o poeta. Escrevia desde da adolescência, mas somente na idade adulta já casado com Alice Ruiz, Leminski começou a se destacar. Algum tempo depois as editoras finalmente deram oportunidade aos poetas daquela geração publicando - os. Eram os poetas malditos que falavam de uma geração sem nunca ficarem datados.
Nessa longa estrada, muitos ficaram, outros seguiram e Leminski se eternizou. Morreu em 7 de junho de 1989 com apenas 44 anos de vida.


Leia: http://planeta.terra.com.br/arte/PopBox/kamiquase/home.htm




...

ver a vida e a morte,
a síntese do mundo,
que em espaços profundos
se olham e se abraçam.

...


fragmento de Este é o prólogo.





Federico Garcia Lorca nasceu na região de Granada, na Espanha, em 05 de junho de 1898. Ali mesmo nos arredores de Granada viria a ser assassinado.
Quando a notícia da execução de Lorca chegou a Madri, no final de agosto de 1936, seus amigos de imediato pensaram-na triste obra da Guarda Civil. Devia ter sido morto por ela, pensaram. Mas não foi.
Lorca foi um caso especialíssimo, ele pensou que estaria seguro refugiando-se em Granada. Estava enganado. Lorca seria covardemente assassinado no dia 19 de agosto de 1936, ele mal completara 38 anos.
Assim encerrava-se carreira e vida de um dos grandes poetas espanhóis do século XX.



Se minhas mãos pudessem desfolhar


Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.

E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.


Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!


Lorca- 10 de novembro de 1919, Granada.





"Sim, quem se atreve a escolher um nome, um único, entre tantos silenciosos? Mas é que o nome que vou pronunciar entre vós encerra, por detrás das suas obscuras sílabas, uma tal riqueza mortal, é tão pesado e tão atravessado de significação que, ao proferi-lo, se enunciam os nomes de todos os que tombaram em defesa da própria matéria dos seus cantos, porque era o defensor sonoro do coração de Espanha. Federico Garcia Lorca! Era popular como uma guitarra, alegre, melancólico, profundo e claro como uma criança, como o povo. Se se procurasse, dificilmente passo a passo por todos os recantos, a quem sacrificar, como se sacrifica um símbolo, não se encontraria o popular espanhol, em velocidade e profundidade, em ninguém e nada como neste ser escolhido. Escolheram-no bem aqueles que, ao fuzilá-lo, quiseram disparar sobre o coração da sua raça. Escolheram para esmagar e martirizar a Espanha, esgotá-la do seu perfume mais rápido, quebrá-la na sua respiração mais veemente, cortar o seu riso mais indestrutível. As duas Espanhas mais inconciliáveis foram postas à prova ante esta morte: a Espanha subterrânea e maldita, a Espanha crucificadora e venenosa dos grandes crimes dinásticos e eclesiásticos e, perante ela, a Espanha radiante do orgulho vital e do espírito, a Espanha meteórica da intuição, da continuação e do descobrimento, a Espanha de Federico Garcia Lorca."

Pablo Neruda




A Poesia e o teatro de Lorca têm como tema recorrente morte, pessimismo, amores impossíveis ou infelizes. Seus críticos ainda discutem a influência do homossexualismo em sua obra e até como causa obscura de seu assassinato, humildemente acho que poetas são pessoas de castas superiores, são os que transmutam sentimentos em palavras, não possuindo para tanto sexo, nacionalidade ou pátria, são apenas plenos do estado sensorial último. É isso.




Leia: http://www.asgrandesartes.hpg.ig.com.br/lorca1.html
http://www.opoema.libnet.com.br/garcialorca/garcialorca_db.htm




"Escrever...é um sono mais profundo que a morte...assim como ninguém tiraria um cadáver do seu túmulo, eu não posso ser tirado da minha secretária à noite." F.K.


Kafka é considerado junto com Proust e de Joyce, fundador do modernismo literário, em ruptura com a tradição romanesca anterior. É um escritor a quem podemos ler atemporalmente. Um gênio profético, "quase toda a obra ficcional do autor é atravessada pelo caráter profético da história pela qual passaria o povo judeu, uma história crivada de perseguições, julgamentos encenados e injustiças."
Desde de muito cedo sentiu-se atraído pelas doutrinas e causas sociais, participando ativamente em reuniões e manifestações de rua.

"As principais características do autoritarismo denunciado nos escritos literários de Kafka são: o arbitrário - as decisões impostas a partir de cima, sem nenhuma justificação moral, racional ou humana, muitas das vezes formulando exigências exageradas e absurdas; a injustiça - a culpabilidade considerada, sempre, como evidente e sem necessidade de prova; a punição - totalmente desproporcionada em relação à "falta" (quase sempre inexistente ou trivial)."

Tímido, era um homem agradável e funcionário modelo, sem o ranço de tristeza muitas vezes atribuído a ele. Na verdade a força de seus textos, mascaravam um homem bem humorado possuidor de alguns amigos, amores nem sempre felizes e que terminaria seus dias num sanatório onde tratava uma tuberculose.

"Internado a partir de abril de 1924 no pequeno Sanatório de Kierling, perto de Viena, acompanhado de fiel esposa e companheira, Dora Diamant, e do jovem estudante de Medicina, Robert Klopstock, que interrompeu os estudos para cuidar do seu ídolo, Kafka ainda viveu alguns momentos de felicidade, cercado de natureza, amor e dedicação. Porém, o seu estado de saúde se deteriorava em ritmo acelerado. Quando Max Brod fez sua última visita ao Sanatório, em 11 de maio, Kafka já estava literalmente morrendo de fome e de sede, mas, mesmo assim, trabalhava febrilmente nas provas tipográficas da primeira impressão de Um artista da Fome."


Em 03 de junho de 1924, Franz Kafka morreria sem alcançar o sucesso literário em vida, isso só ocorreria depois na posteridade.





A Pergunta

Só a nossa noção de tempo nos faz pensar em Juízo Final, quando é de justiça sumária que se trata.

O suicida é como o prisioneiro que, vendo armar-se uma forca no pátio, imagina que é para ele - foge de sua cela, à noite, desce ao pátio e pendura-se ao baraço.

Os mártires não menosprezam o corpo, apenas fazem-no pregar à cruz: é no que estão de acordo com seus adversários.

As portas são inumeráveis, a saída é uma só, mas as possibilidades de saída são tão numerosas quanto as portas. Há um propósito e nenhum caminho: o que denominamos caminho não passa de vacilação.

Os leopardos invadem o Templo e esvaziam os vasos sagrados... O fato não cessa de reproduzir-se; até que se chega a prever o momento exato e isso entra a fazer parte do ritual.

Os bons vão a passo certo; os outros, ignorando-os inteiramente, dançam à volta deles a coreografia da hora que passa.

Outrora eu não podia compreender que minhas perguntas não obtivessem resposta; hoje em dia não compreendo que jamais tivesse admitido a hipótese de formular perguntas... Bem, eu não acreditava então em coisa alguma - só fazia perguntar.

Franz Kafka




Leia: http://www.comversos.com.br/gaveta/Franz_Kafka/
http://zonanon.org/non/abc/abc.html






Também conhecida por: Norma Jeane Baker
Nome de Batismo: Norma Jean Mortensen
Data de Nascimento: 1 de Junho de 1926, Los Angeles, CA
Falecida em: 4 de Agosto de 1962




"Eu sei que pertenci ao público e ao mundo inteiro, não por que tenha sido talentosa ou bonita mas porque nunca pertenci a mais nada nem a mais ninguém". M.M.







A história de Marilyn Monroe é tão conhecida que é difícil trazer algo de novo sobre ela. A vida no orfanato, os casamentos, abortos espontâneos, culpa, o modo como se deixava usar, sua insegurança e a eterna busca por aprovação fizeram de sua vida inferno e paraíso.
Lembro que quando assisti "Os Desajustados", seu último filme, o outro jamais seria terminado, fiquei impressionada com a tristeza, com a expressão perdida, como um prenúncio de morte mesmo. Estava clara sua infelicidade.
Certa vez Marilyn respondeu ao perguntarem que tipo de homem preferia: "Não tenho preferências. Na verdade nunca me faltaram homens... me falta amor!". Foi sua busca por toda a vida.
Acho que se houve um homem que a amou, foi Joe DiMaggio, astro do beisebol americano e um de seus maridos.
DiMaggio se manteve por perto durante toda a vida de Marilyn, foi seu amigo, companheiro até o fim. Cuidou de seu enterro e enquanto foi vivo mandou que depositassem rosas três vezes por semana no túmulo de Marilyn. Os outros fizeram uso dela, de sua fama, beleza e carência.

O mistério sobre sua morte continua, apesar de livros reveladores, evidências incontestes, mas pra que tanto esforço? Assassinato ou não, muito antes do fim, Marilyn deixou-se morrer. Um tipo de morte que nos mata em vida, o resto é o tempo que o relógio guarda, mera formalidade.




Leia: http://www.figueira.com/ofigueirense/1999/Agosto/ed990820/ffjf990820abertura.html
http://www.marilynmonroe.com/portuguese/