OS DOMINGOS


Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança.
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.


Paulo Mendes Campos.



Poeta e escritor mineiro, Paulo Mendes Campos nasceu em 29 de fevereiro de 1922. Após a conclusão dos primeiros estudos em São João del Rei, mudou-se para Belo Horizonte e, logo depois, para Porto Alegre. Um ano depois, no entanto, estava de volta a Minas. Formando um conhecido e inseparável quarteto mineiro com Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, passou a trabalhar na imprensa carioca, colaborando em jornais como "Correio da Manhã" e "Diário. Publicou seu primeiro livro, "A Palavra Escrita", em 1951, numa pequena edição de luxo, de apenas 110 exemplares.
Casado com a inglesa Joan Abercrombie, teve dois filhos, Gabriela e Daniel. Um resfriado forte, com ares de pneumonia, resultaria, no intervalo de uma semana, em um fulminante derrame cerebral. Paulo Mendes Campos morreu de infarte na madrugada de 2 de julho de 1991.




Leia:http://sites.uol.com.br/palavrarte/Poeta_Lembrei/poelembrei_poesias1.htm

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