"O amor nunca morre de morte natural. Morre porque nós não sabemos reabastecer sua fonte. Morre de cegueira e dos erros e das traições. Morre de doença e das feridas; morre de exaustão, das devastações, da falta de brilho"


Anais Nin


Em 21 de fevereiro de 1903, nascia Anais Nin e com ela a literatura erótica feminina anos depois ganharia tons mais fortes. Anais manteve sua escrita atravês de seus diários. Ali ela relatava tudo que lhe acontecia com riquezas de detalhes, despudoradamente. Foi ali que relatou o romance com Henry Miller que durou boa parte de sua vida.
Anais escrevia diários desde os 11 anos de idade e apesar de ter escrito outros livros, foram os diários que a tornaram conhecida. Diários, alias, que corriam de mão em mão sem qualquer censura da própria Anais. Na sua rodinha de amigos, escritores e intelectuais da época.
Sua maneira de escrever e consequentemente seus diários passaram uma imagem de mulher libertina, solta, livre. Somente em 1960, ela teve algum reconhecimento como escritora e terminou seus dias com os prêmios que lhe cabiam.



diário - I


Quero estar onde quer que você esteja. Deitada ao seu lado mesmo se você estiver dormindo. Henry, beije meus cílios, ponha seus dedos sobre minhas pálpebras. Morda minha orelha. Empurre meu cabelo para trás. Aprendi a desabotoar a sua roupa com rapidez. Tudo, em minha boca, chupando. Seus dedos. O calor. O frenesi. Nossos gritos de satisfação. Um para cada impacto do seu corpo contra o meu. Cada golpe, uma pontada de prazer. Perfurando numa espiral. O âmago tocado. O útero suga, para a frente e para trás, aberto, fechado. Os lábios adejando, línguas de cobra adejando. Ah, a ruptura - uma célula de sangue explodida de prazer. Dissolução.



Trecho do Diário de Anais Nin


diário - II


É o papel de Fred, inconscientemente, envenenar minha felicidade. Ele enfatiza as incongruências do amor de Henry. Eu não mereço um amor pela metade, diz ele. Mereço coisas extraordinárias. Mas o meio amor de Henry vale mais para mim do que todos os amores de mil homens.


Imaginei por um momento um mundo sem Henry. E jurei que no dia que perder Henry, eu matarei minha vulnerabilidade, minha capacidade para o verdadeiro amor, meus sentimentos, com a devassidão mais frenética. Depois de Henry não quero mais amor. Só foder, por um lado, e solidão e trabalho, por outro. Nada mais de mágoa.


Depois de não ver Henry por cinco dias por causa de mil obrigações, não pude suportar. Pedi a ele para se encontrar comigo durante uma hora entre dois compromissos. Conversamos por um momento, então fomos para um quarto do hotel mais próximo. Que necessidade profunda dele. Só quando estou em seus braços as coisas parecem direitas. Depois de uma hora com ele, pude continuar o meu dia, fazendo coisas que não quero fazer, vendo pessoas que não me interessam.


Um quarto de hotel, para mim, tem a implicação de voluptuosidade, furtiva, fugaz. Talvez o fato de não ver Henry tenha aumentado a minha fome. Eu me masturbo frequentemente, com luxúria, sem remorso ou repugnância. Pela primeira vez eu sei o que é comer. Ganhei dois quilos. Fico desesperadamente faminta, e a comida que como me dá um prazer duradouro. Nunca comi desta maneira profunda e carnal. Só tenho três desejos agora: comer, dormir e foder. Os cabarés me excitam. Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar-me em corpos, beber um Benedictine ardente. Belas mulheres e homens atraentes provocam desejos em mim. Quero dançar. Quero drogas. Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas. Nunca olho para rostos inocentes. Quero morder a vida e ser despedaçada por ela. Henry não me dá tudo isso. Eu despertei o seu amor. Maldito seja o seu amor. Ele sabe foder como ninguém, mas eu quero mais que isso.
Eu vou para o inferno, para o inferno, para o inferno.
Selvagem, selvagem, selvagem.


Trecho do Diário de Anais Nin



Anais Nin - Belíssima, de personalidade marcante, a escritora Anais Nin (1903-1977) tem, em seus diários de confissões eróticas, a parte mais conhecida de sua obra. Nos oito volumes ela descreve problemas familiares, amores e sua relação triangular com o escritor americano Henry Miller e sua mulher, a bailarina June, vivida durante seu casamento com o banqueiro Hugh Guiller. Em suas obras também incorporou idéias tiradas de cartilhas feministas, que tentam fazer da mulher não apenas um objeto sexual, mas sim sujeito.



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