Hoje começa mais uma novela do Manuel Carlos. Ok. Pode até ser papo abobrinha, mas eu gosto muito desse autor de novelas. Não tenho visto nenhuma novela há tempos, mas por essa eu espero com a certeza de que vai ser muito boa, como todas que ele escreveu.

Manuel Carlos tem um jeito todo especial de falar de amor, ou melhor de mulher. Ele entende bem a alma feminina. Em tempo, opinião minha, acho e sinto assim. Não tem o realismo fantástico das novelas da Glória Perez, pelo contrário costuma ser tão simples e talvez por isso mesmo dá tão certo.

Foi pensando no tema que resolvi reler Roland Barthes. Não tenho nenhum livro dele, pelo contrário tudo que eu tenho são fragmentos de sua obra, o mesmo Fragmentos de um Discurso Amoroso que foi e é um de seus livros mais famoso.

Cabe dizer que Barthes foi mais do que um escritor de um livro sobre paixões, para falar de modo resumidíssimo e simplista. Barthes foi crítico literário, semiólogo, ensaísta, sociólogo e filósofo. Um homem versátil que chegou ao meio acadêmico por caminhos transversais.


"Em uma "lição inaugural", no dia 7 de janeiro de 1977, Barthes fala do caráter pouco convencional de sua obra e manifesta o espanto por estar sendo aceito num meio onde "reinam a ciência, o saber, o rigor e a invenção disciplinada". Ele se descreve como alguém impuro e incerto, mas toda essa modéstia não esconde o óbvio: é justamente a "incerteza" e a abertura para o novo que constituem o diferencial e o valor de Barthes."


Teve uma vida rica literariamente e mesmo quando acusado de ser um tanto "volúvel" ideologicamente, por se interessar por diversos temas, a verdade é que esse ecletismo escondia sua proposta de não se prender a um único método de análise. Enfim, vamos ao que interessa, o Discurso Amoroso.




Sobre ele, Barthes escreveu:



"A necessidade deste livro está contida na seguinte consideração: o discurso amoroso é hoje em dia de uma extrema solidão. Este discurso é talvez falado por milhares de pessoas, mas não é defendido por ninguém." (R. B.)


Fragmentos dos Discurso Amoroso ou quem não viu esse filme antes?


Parceiros que se relacionam como se fossem uma só pessoa podem tirar do "não", contido na ruptura da relação, a experiência definitiva que Roland Barthes tão bem expressa: "ele diz uma palavra diferente (que pode ser o "não") e ouço rugir de um modo ameaçador todo um outro mundo, que é o mundo do outro". A frase de Barthes revela uma obviedade negada: "Eu não sou você, eu sou outra pessoa, eu existo com o meu desejo e o meu desejo não mais se dirige a você."









"A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contato: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é: "eu te desejo", e libera-lo, alimenta-lo, ramifica-lo, fazê-lo explodir ( a linguagem goza de tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação."




O autor empresta aqui ao sujeito apaixonado a sua "cultura", em troca o sujeito apaixonado lhe passa a inocência do seu imaginário, indiferente aos bons costumes do saber.



Assim sendo é um enamorado que fala e que diz:



AUSÊNCIA: Todo episódio de linguagem que põe em cena a ausência do objeto amado - quaisquer que sejam a causa e a duração - e tende a transformar essa ausência em prova de abandono.


1. Grande quantidade de lieder1, de melodias, de canções sobre a ausência amorosa. E, no entanto, não se encontra essa figura clássica, no Werther. A razão é simples: lá, o objeto amado (Charlotte) não se movimenta; é o sujeito apaixonado (Werther) que, em determinado momento, se afasta. Ora, só há ausência do outro: é o outro que parte, sou eu que fico. O outro vive em eterno estado de partida, de viagem; ele é, por vocação, migrador, quanto a mim que amo, sou por vocação inversa, sedentário, imóvel, disponível, à espera, fincado no lugar, não resgatado como um embrulho num canto qualquer da estação. A ausência amorosa só tem um sentido, e só pode ser dita a partir de quem fica - e não de quem parte: eu, sempre presente, só se constitui diante de você, sempre ausente. Dizer a ausência é, de início, estabelecer que o sujeito e o outro não podem trocar de lugar, é dizer: "Sou menos amado do que amo."




[...]


"Eu sou odioso."

MONSTRUOSO: O sujeito se dá conta bruscamente que ele envolve o objeto amado numa rede de tiranias: ele se sente passar de miserável a monstruoso.





2. O discurso amoroso sufoca o outro, que não encontra lugar algum para sua própria fala nesse dizer maciço. Não é que eu o impeça de falar, mas sei como fazer deslizar os pronomes: 'Eu falo e você me ouve, logo nós somos' (Ponge). Às vezes, com terror, me conscientizo dessa inversão: eu, que me acreditava puro sujeito (sujeito submisso: frágil, delicado, miserável), me vejo transformado em coisa obtusa, que avança cegamente, que esmaga tudo sob seu discurso: eu que amo, sou indesejável, faço parte do rol dos importunos: aqueles que pesam, atrapalham, abusam, complicam, pedem, intimidam (ou apenas simplesmente: aqueles que falam). Me enganei, monumentalmente.

(O outro fica desfigurado pelo seu mutismo, como nesses sonhos terríveis onde certa pessoa amada aparece com a parte inferior do rosto inteiramente apagada, sem boca; e eu que falo, também fico desfigurado: o solilóquio faz de mim um monstro, uma língua enorme.)"




[...]

frustração teria por figura a Presença (vejo o outro todo dia, mas isso não me satisfaz: o objeto está lá, na realidade, mas continua a me fazer falta imaginariamente). Quanto à castração, teria por figura a Intermitência (aceito deixar um pouco o outro "sem chorar, assumo o luto da relação, sei esquecer). A ausência é a figura da privação; desejo e preciso ao mesmo tempo. O desejo se abate sobre a carência: aí está o fato obsedante do sentimento amoroso. ("O desejo aí está, ardente, eterno: mas Deus está acima dele, e os braços erguidos do Desejo não atingem nunca a plenitude adorada." O discurso da Ausência é um texto de dois ideogramas: há os braços erguidos do Desejo, e há os braços estendidos da Carência. Oscilo, vacilo entre a imagem pálida dos braços erguidos e a imagem acolhedora e infantil dos braços estendidos.)

Me instalo sozinho, num café; as pessoas vêm me cumprimentar; me sinto rodeado, solicitado, lisonjeado. Mas o outro está ausente; eu o convoco em mim mesmo para que ele me mantenha à margem dessa amabilidade mundana, que me espia. Apelo para a sua "verdade" (a verdade cuja sensação ele me dá) contra a histeria da sedução onde sinto que escorrego. Torno a ausência do outro responsável pelo meu mundanismo; invoco sua proteção, sua volta: que o outro apareça, que me retire, como uma mãe que vem buscar seu filho, do brilho mundano, da fatuidade social, que ele me devolva "a intimidade religiosa, a gravidade" do mundo amoroso. (X...me dizia que o amor o tinha protegido do mundanismo: associações, ambições, promoções, conspirações, alianças, secessões, funções, poderes: o amor tinha feito dele um detrito social, e ele se regozijava disso.)


Roland Barthes




Esse tema é recorrente na literatura. Acredito que nunca se falou tanto sobre os desencontros amorosos como nos tempos de hoje. Vivemos no dia-a-dia, encontramos em livros e assistimos em filmes. Muitas perguntas e nenhuma resposta que dê solução ao caso e talvez resida aí o grande barato, a busca, o caminho. Se vamos chegar, se vamos encontrar nossos sonhos ou melhor o que de real podemos encontrar no que sonhamos, é só um detalhe, por ora, só nos resta seguir...




Leia: http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2000/10/01/cad866.html



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