dos diários

No limiar, ali no fim do caminho, num tempo qualquer em qualquer estação, sempre ali onde a memória habita, onde os sonhos sob lençóis brancos dormem, há um silêncio de passos cuidadosos e macios e é assim que a raiz na entranha estranha a terra como se dela não fizesse parte. Afora isso, entre a noite e a noite, estão as sombras.

Há uma certa melancolia que me identifica. Diferente de ser triste ou estar triste. É dessas coisas que se tem no olhar ... olhos de horizonte, daqueles que estão sempre fixos em algum lugar além, num ponto qualquer, indiferentes, mas além do momento, do tempo, da hora. Olhos de quem chora sem lágrima, muito mais tristes sem o sal que lava e redime, sem o gosto que molha a boca tornando quase palpável a dor...


refém

o tempo corre à revelia
os fios nas têmporas frias
a teia, a veia corrompida

no mar depuro
joio e trigo
além a linha
desfia horizonte

amanhã é sempre o mesmo dia.

andrea augusto ©angelblue83






Poema Triste


Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Escrever por exemplo:
A noite está fria e tirintam, azuis, os astros à distância
Gira o vento da noite pelo céu e canta
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Eu a quiz e por vezes ela também me quis
Em noites como esta, apertei-a em meus braços
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito
Ela me quiz e as vezes eu também a queria
Como não ter amado seus grandes olhos fixos ?
Posso escrever os versos mais lindos esta noite
Pensar que não a tenho
Sentir que já a perdi
Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela
E cai o verso na alma como orvalho no trigo
Que importa se não pode o meu amor guardá-la ?


A noite está estrelada e ela não está comigo
Isso é tudo
A distância alguém canta. A distância
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Para tê-la mais perto meu olhar a procura
Meu coração procura-a, ela não está comigo
A mesma noite faz brancas as mesmas árvores
Já não somos os mesmos que antes havíamos sido
Já não a quero, é certo
Porém quanto a queria !
A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido
De outro. será de outro
Como antes de meus beijos
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos
Já não a quero, é certo,
Porém talvez a queira
Ah ! é tão curto o amor, tão demorado o olvido
Porque em noites como esta
Eu a apertei em meus braços,
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Mesmo que seja a última esta dor que me causa
E estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.

Pablo Neruda.









inspirAÇÃO


o branco pauta
a folha branca
a inspiração me falta
a caneta silencia
a espera da tinta
que umedeça palavras...

andrea augusto©angelblue83



o último a sair apague a luz...

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