"Growing up happens in a heartbeat. One day you're in diapers, the next day you're gone. But the memories of childhood stay with you for the long haul. I remember a place... a town... a house like a lot of other houses… a yard like a lot of other yards… on a street like a lot of other streets. And the thing is… after all these years, I still look back… with WONDER."


Tradução livre:


"Crescer acontece num piscar de olhos. Um dia você está de fraldas, no outro você já se foi. Mas as lembranças da infância ficam com você a longo prazo. Me lembro de um lugar... uma cidade... uma casa como muitas outras casas... um quintal como muitos outros quintais... numa rua como muitas outras ruas. E o negócio é que... depois de todos esses anos, eu ainda olho pra trás... maravilhado."







De alguma maneira esse texto que é sempre dito no seriado "Wonder Years, me veio a cabeça hoje.
Para quem não conhece a história desse seriado, aconselho que assista às 18:00 e pouquinho, de segunda a sexta, no Multishow. É apaixonante. De forma simples, direta e muito reflexiva, oculto por sua voz, o adulto, Kevin Arnold vai narrando os Anos Incríveis de sua infância e pré-adolescencia. O primeiro amor, as amizades, suas descobertas e sobretudo o que ficou nele pelo resto de sua vida. A cada episódio o fechamento é sempre comovente, é essa a palavra, comovente. A inocência dos Anos Incríveis que todos nós tivemos.

Hoje de forma especial relembrei esses anos que fizeram parte da minha vida. Eu e a Jack, minha melhor amiga, nossas experiências, nossas diferenças, ela tão pé no chão, pronta para comprar uma briga, eu tão sensível, a adolescente mais nova que ela que gostava "daqueles filmes estranhos", sempre algum clássico, "muito entediante" segundo ela que adorava um bom Jean-Claude Van Damme, que entrava e revolvia a parada. Se para ela tudo era preto ou branco, para mim as nuances das entrelinhas eram tão mais claras. A vida seguiu, crescemos e fomos Thelmas e Louises, cada uma a seu modo, os caras errados na hora certa, a hora errada para os caras certos. O que me faltava em força era dela que recebia, o que lhe faltava em sensibilidade, em subjetividade, era de mim que ela tirava.
Era assim, nós duas contra o mundo, uma amizade que percorreu metade das nossas vidas, perdemos nossos pais, primeiro eu, depois ela exatamente um ano depois. Choramos muito e rimos outro tanto. Ela tão explícita, eu tão implícita. Ela capaz de dizer no ato o que sentia, eu com um nó gigante procurando as palavras, as mãos, um jeito de dizer e sempre nunca na hora. Ela sabia. Era só olhar que ela sabia o que se passava. E bastava um momento e ela já estava me perguntando se determinada blusa lhe caia bem e eu olhava ainda do momento anterior, sem saber o que dizer, quando ainda tinha o que falar. Mas era sempre assim.
Hoje ela me ligou, disse que estava grávida e chorei tanto, tanto. Ela desejava muito, mesmo vivendo um momento difícil, ela queria muito. Chorei pela continuidade dela aqui na terra, pela sorte que as gerações futuras terão com essa criança, pelo que enxergarei da Jack nela, pelo que vai ficar perambulando pelos caminhos que conhecemos tão bem, por tudo que sei que vai viver, pelo o que a Jack não vai conseguir entender na sua lógica "vandammiana" e eu certamente falando de Freud e Piaget e eu sei que os meus anos incríveis terão continuidade e serão os melhores anos do resto da minha vida.



Oh, I get by with a little help from my friends
with a little help from my friends


Artist: Beatles - Joe Cocker - Song: With a Little Help of My Friends



andrea augusto©angelblue83















Cartas Portuguesas


A 2 de Janeiro de 1650, Mariana Mendes da Costa Alcoforado deu entrada no Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição, em Beja. Tinha 11 anos incompletos e não precisou de andar muito para lá chegar. O palácio do seu pai, na Rua do Touro, ficava quase defronte do convento onde iria passar o resto da sua vida extraordinária, no decorrer da qual iria assinar, com lágrimas de sangue, um dos mais belos testemunhos literários portugueses.

A autoria das Cartas Portuguesas é contestada até hoje, não há provas concretas que Mariana as tenha escrito, mas isso em nada tira o lirismo e beleza delas.
As cartas foram escritas para cavaleiro de Chamilly, cujo o verdadeiro nome era Noel Bouton por quem Mariana apaixonou-se de imediato. Viu-o e apaixonou-se por ele no mesmo momento, segundo a lenda que corre sobre a sua vida. Tinha pouco mais de 20 anos, e estava a conhecer, finalmente, um herói como aqueles com quem sonhara na sua breve infância.


Ele passou a visitá-la segundo consta por uma passagem secreta que levava até o Convento. Com belas palavras foi seduzindo Mariana que nada conhecia do mundo. Foram vários os encontros e Mariana entregou-se como era previsível à paixão.
No entanto o Governador das Armas do Alentejo, acabou por saber o que se passava. Aí começa o sofrimento de Mariana, eles foram obrigados a se separarem.

As cartas entram em cena. Mariana sofre e chora. A sua dor será tão profunda que as próprias freiras acabarão por partilha-lha com ela, falando-lhe do seu amado, enquanto Mariana ainda quer falar dele, comovendo-se, todas elas, com a expressão de uma dor tão grande, tão desmesurada, que nenhuma delas terá jamais coragem de a condenar.
E assim Mariana segue até o fim de sua vida, vivendo de um passado que alimentava seu presente e que jamais encontraria termo senão com a sua morte.

Mariana faleceu no dia 28 de Julho de 1723. O termo do seu óbito, assinado pela escrivã Dona Antónia Sofia Baptista de Almeida, dá conta de que «durante 30 anos fez ásperas penitências; padeceu grandes enfermidades e com muita conformidade desejando ter mais a padecer; e conhecendo que era chegada a sua última hora pediu os sacramentos os quais recebeu em seu juízo perfeito dando muitas graças a Deus pelos haver recebido; e assim acabou com sinais de predestinada falando até à ultima hora»

Carta - trechos:


«conheceste o meu interior e as doçuras dos meus carinhos e pudeste determinar-te a deixar-me para sempre e a entregar-me aos receios constantes de um esquecimento da tua parte ou ao pavor de que somente te lembres de mim para me sacrificares a nova paixão? Sei que te quero doidamente. Não me queixo, sem embargo, dos impulsos do coração; afeiçoei-me à diversidade e não poderia já viver sem essa aventura que achei e que tanto gozo me dá que é amar-te no meio de mil contrariedades».
E noutra passagem: « Certo é que amando-te tenho experimentado venturas que nunca imaginaria; mas pago-as com custosas provações, porque vai sempre além de toda a medida tudo o que por tua causa sofro. Se tivera resistido com teimosia, se me servira de qualquer arremedo de desagrado ou de ciúme para te incitar ainda mais, se usara de alguma habilidade no meu proceder, se, enfim, tivesse buscado opor a minha razão à inclinação natural que sinto por tie que bem cedo me fizeste conhecer, ainda que os meus intentos viessem a tornar-se vãos, poderias castigar-me com dureza e servir-te do teu poder sobre mim. Mas pareceras-me pessoa digna de ser amada e antes que me desses parte do teu sentir, recebi os manifestos de uma grande paixão. Fiquei enlevada e comecei a querer-te perdidamente».


andrea augusto©angelblue83 - com inserções biograficas do Livro: Cartas de Amor - Mariana Alcoforado - Imago.


Leia: http://pwp.netcabo.pt/0411657201/mariana_alcoforado.html




"Assim como as flores, os poetas não escolhem lugar ou classe social para florescer. Nascido em família pobre, a 27 de janeiro de 1949, em Maceió (AL), Djavan poderia ter virado raiz, mas a música mudou seu destino e de uma flor-de-lis brotou uma carreira cuja floração já perdura por mais de 25 primaveras. Por sua originalidade e polinização de suas canções, a única coisa que se pode prever a cada novo trabalho de Djavan é sua versatilidade de tons."
http://www.djavan.com.br/



Assim começa a biogafia de Djavan no seu site oficial, pra mim começa...


"Assim
Que o dia amanheceu
Lá no mar alto da paixão
Dava pra ver o tempo ruir
Cadê você? Que solidão!
Esquecera de mim"



Quando aprendi que...

"Por ser exato
O amor não cabe em si
Por ser encantado
O amor revela-se
Por ser amor
Invade
E fim."

E por causa dele eu sei que...

"Vou andar, vou voar
Pra ver o mundo
Nem que eu bebesse o mar
Encheria o que eu tenho
De fundo."



Feliz Aniversário poeta!







Quem meteu medo em Virgínia Woolf? Não foi nenhum dos homens e mulheres que se apaixonaram pela autora de "Orlando" e "Passeio ao farol". Virgínia Woolf tremeu diante de uma moça baixinha, franzina e fragilizada pela tuberculose. A escritora, neozelandesa Katherine Mansfield (1888-1923), autora de "A Festa" e "Felicidade", teve a metade do sucesso e o dobro dos amantes de sua companheira, do ciclo de Bloombury. A relação de cumplicidade e ódio que ela manteve com Virgínia é um dos destaques de seu "Diário".

"Como invejo Virgínia: não admira que ela possa escrever. Há sempre no que ela escreve uma liberdade, uma tranqüilidade, como se estivesse em paz - um teto em cima, seus pertences ao redor, seu homem ao alcance da voz". Escreveu em 30 de novembro de 1919.

A sombra ofuscou a obra de Katherine depois da sua morte, aos 34 anos, mas foi sentida ainda em vida. As duas freqüentavam as mesmas reuniões, tomavam chá e vermute com James Joyce e eram amigas íntimas de D.H. Lawrence. Competiam em tudo: Virgínia não cansava de criticar a dureza e a crueldade da literatura da rival, que dava o troco humilhando a problemática autora de "Orlando" com sua simpatia e sua agitada vida amorosa. Virgínia teve mais tempo e mais oportunidade para ficar famosa. Mas não impediu que Katherine ostentasse brilho próprio ao aliar com extrema habilidade histórica, corriqueiras cheias de reviravoltas e bifurcações. Virgínia reconhecia o talento da escritora neozelandesa. Tanto que, quando soube da sua morte, confessou em seu diário: "Eu tinha inveja de sua literatura - a única literatura de que tive inveja na vida... Ela podia fazer o que não posso! Katherine já não é minha rival."



Nas cartas para Virgínia o horror da tuberculose



Mulher de muitos amores, Katherine se casou com o primeiro marido, George C. Bowden três semanas depois de conhecê-lo. A separação foi ainda mais meteórica - um dia depois do casamento - e ela justificou de modo simples: "Casei para ver como era, estava escrevendo um livro". Não era mentira. Pouco depois publica "Numa pensão alemã" que evidencia o enorme ceticismo de seus primeiros contos.

A dominação da descrença pela doçura fica clara nas anotações do diário e está diretamente ligada ao surgimento de John Murry, o segundo marido da escritora. Ele foi o companheiro das viagens, e encontros literários e inspirou contos como "Je ne parle pas français". O fim da era Murry, coincide com a volta do desespero. O casamento já apresentava sinais de falência em dezembro de 1919, quando a escritora sai da Inglaterra rumo a Riviera italiana, para tentar se curar. Murry não quis acompanhá-la. Sentindo-se abandonada, ela anota no diário o poema "O novo marido", dedicado à morte: "Assim, eu me tornei a noiva de um estranho/ E cada momento, por veloz/ Que ele voe, nós vivemos como se ele fosse nosso último".

Apesar da forte relação com Murry, as palavras mais ternas das anotações se referem a D.H. Lawrence. Não fica muito claro se Katherine chegou às vias de fato com o amigo, mas certamente nutria por ele um sentimento mais forte que a admiração intelectual. Ele não esconde o prazer ao contar, em carta para uma amiga, as pancadarias constantes entre ele e Frieda, sua mulher "gorda e insuportável". E aproveita cada minuto das visitas ao casal especialmente quando Frieda está doente, de cama: "Há algo tão agradável em L. e sua avidez, sua apaixonada avidez pela vida - é disso que a gente gosta tanto".As últimas anotações são de 31 de dezembro de 1922, nove dias antes de sua morte. Sofrendo com as febres do estágio final da doença, ela volta a Londres, de onde escreve à prima: "Não consigo dizer a alegria que é para mim o contato com pessoas que são vivas e sagazes e não se envergonham de serem o que são. É uma espécie de arejamento supremo estar entre elas".

Em 9 de janeiro de 1923, Murry a visita a pedido dela. Fica feliz em vê-la e reatam. Katherine Mansfield morre, neste mesmo dia, aos 34 anos.


Mansfield serviu de inspiração e foi alvo de uma legião de fãs, entre elas, Ana Cristina César, Vinicius, a própria Vírginia e Clarice Lispector. Essas duas últimas, inclusive, chegaram a ficar tão impressionadas com o texto de Mansfield, que tiveram reações bem peculiares a ele.

Virginia Woolf tomou um grande porre quando leu Felicidades e Outros Contos e ficou se perguntando "o que é isso que essa mulher escreveu?". A então adolescente Clarice Lispector logo que leu, na versão traduzida por Érico Veríssimo, o mesmíssimo Felicidade ..., não se conteve a pensar "sou eu". E esse "sou eu" se desenrolou em uma fonte inspiração que acompanhou boa parte da obra de Clarice.






Soneto a Katherine Mansfield


O teu perfume, amada — em tuas cartas
Renasce, azul... — são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.

Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto!... e a primavera
Vem já tão próxima! ...(Nunca te apartas

Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.

Vinicius de Moraes


Vinicius, com este soneto, presta uma homenagem a Katherine Mansfield.
Extraído do livro "Vinicius de Moraes - Poesia Completa e Prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 250.




Leia: http://www.releituras.com/kmansfield_menu.asp
http://www.kromuskronopius.freesites.com.br/katherine%20mansfield.htm
http://www.secrel.com.br/jpoesia/agmansfield.htm










Vírginia Woolf era bonita, mas não de uma beleza de anjo, daquelas que caídas do céu, explícita. Vírgina era implícita, fluídica. Aquele tipo de beleza da qual não se tem muita certeza, fugaz e dúbia, tanto que mesmos os amigos mais chegados jamais chegaram a um consenso quanto a cor dos olhos dela.
Talvez fosse essa beleza e sua personalidade única, angustiada que fazia dela uma mulher apaixonante. Todos se apaixonavam por Vírginia, homens e mulheres.
Sua vida foi pontuada de perdas importantes, primeiro a mãe, depois a irmã, mais tarde o pai e logo depois o irmão. Vieram as crises nervosas e as tentativas de suicídio.

Aos seis anos Vírginia sofria com o pavor que tinha a seu meio-irmão, de vinte anos que insistia em manter uma relação incestuosa fato que a marcou até a sua morte.
Com a saúde delicada teve sua educação limitada a aulas particulares, por um lado limitou-a, por outro vez dela o geniozinho da família. Tinha livre acesso a Biblioteca de seu pai e lá se perdia entre os grandes autores embalados em luxuosas encadernações.


“Pense como fui criada! Jamais pude aproveitar o que uma escola oferece: bagunça, gírias, vulgaridade. O tempo todo vivi perambulando entre os livros de meu pai.” Foi assim que Virginia Woolf respondeu à escritora Vita Sackville-West, sua paixão durante 20 anos, quando esta a acusou de reprimida. Nascida em Londres, ela passou a infância no puritanismo da era vitoriana, protegida pelo pai, e não freqüentou a escola. Sua juventude, no entanto, foi numa época de intensas transformações sociais. Essas duas fases tiveram influências decisivas na sua vida e obra. Nos romances Mrs. Dalloway e Orlando, ela abordou o amor entre mulheres com talento e sensibilidade inéditos na literatura, embora nunca tenha assumido sua condição homossexual. Casada com o editor Leonard Woolf, Virginia participou com ele do grupo de Bloomsbury, formado por artistas e intelectuais."


Contraditória sempre, acusada de reprimida e considerada uma "liberada" para os padrões da época. Esse era o fascínio de Vírgina Woolf e seus livros. Ela comprendeu logo que só poderia ser uma escritora ao se libertar do comportamento vigente, de sua condição de mulher, da esposa que esperava pelo marido todo fim de tarde.






Quando publicou Orlando estava com 36 anos, casada com o devotado Leonard Woolf. Nessa época a androginia andava pelo ar e Orlando escrito numa torrente violenta que se estende por três séculos da história da Inglaterra percorre com perfeição esse momento. Orlando é alternadamente homem e mulher.
Orlando chegou com um certo atraso nesse aspecto, já em 1898, Freud acreditava na bissexualidade humana chegando a considerar todo ato sexual como um acontecimento entre quatro pessoas.

Um crítico na época chegou a dizer que a água é a substância do romance de Vírginia e não um elemento decorativo. O trágico apelo das águas...Quem buscou a morte nas águas de um rio conquistou o direito de ter deixado em uma obra sutil essa frase banal.



O trágico apelo das águas... o mesmo apelo que a fez encher seus bolsos com as pedras e se jogar rio Ouse.


"Tenho a impressão de que vou ficar louca. Ouço vozes e não posso concentrar-me no trabalho. Eu lutei mas não posso continuar. Devo a vocês toda a felicidade da vida. Vocês foram perfeitos. Não posso continuar a estragar suas vidas." Bilhete deixado para o marido.

Vírginia Woolf - 25/01/1882 - 28/03/1941


andrea augusto©angelblue83 - com inserções biográficas do livro Orlando.







A insustentável leveza do amor.



"Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?
Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida?

...deitar com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não somente diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher).
Mas o homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não sabe nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento.
Muitas vezes nos refugiamos no futuro para escapar do sofrimento. Imaginamos uma linha na pista do tempo, e pensamos que a partir dessa linha o sofrimento presente deixará de existir.

Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida... o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética."
"Não se brinca com metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora."

"A Insustentável Leveza do Ser", de Milan Kundera








"A menor emoção amorosa, de felicidade ou de aborrecimento, faz Werther chorar (personagem fictício). Werther chora com freqüência, muita freqüência e abundantemente. Em Werther é o enamorado que chora ou o romântico? Será talvez uma discussão própria do tipo apaixonado se deixar levar pelo choro? Submetido ao Imaginário, ele faz pouco caso da censura que mantém hoje o adulto longe das lágrimas e pela qual o homem pensa afirmar sua virilidade. Liberando suas lágrimas, ele segue as ordens do corpo apaixonado, que é um corpo encharcado, em expansão líquida. Ao chorar, quero impressionar alguém, pressioná-lo ("Veja o que faz de mim"). Talvez seja - e geralmente é - o outro que se quer obrigar desse modo a assumir abertamente a sua comiseração ou sua insensibilidade; mas talvez seja também eu mesmo: me faço chorar para me provar que minha dor não é uma ilusão: as lágrimas são signos e não expressões. Através de minhas lágrimas conto uma história, produzo um mito da dor, e a partir de então me acomodo: posso viver com ela, porque, ao chorar, me ofereço um interlocutor empático que recolhe a mais "verdadeira" das mensagens, a do meu corpo e não a da minha língua: "Que são as palavras? Uma lágrima diz muito mais".


"Elogio das Lágrimas", de Schubert











É o teu rosto ainda que eu procuro
Através do terror e da distância
Para a reconstrução de um mundo puro.




Ausência


Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a sua.




Eis-me


Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia
Nem a tua mão me toca
O meu coração desce a escada do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio
Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente.

"Obra Poética", de Sophia de Mello Breyner Andresen





Bom, não sei se sou eu, ou é verdade que certo tipo de pessoa disperta um fascínio por mais doido que pareça. Esse é um que está na minha galeria de "malucos beleza" que adoro. Gosto dos surrealistas e de maneira especial, Dalí e Magritte.
Os surrealistas driblavam a racionalidade. Ver um quadro surrealista é como estar sonhando ou muito doido pela droga de sua preferência. Mas o melhor é o delírio sem drogas e essa é a essência do surreal, na minha humilde opinião, claro.

"Normalmente, nossos sonhos são sem pé nem cabeça e raramente têm começo, meio e fim. E não é por acaso que a maioria dos quadros surrealistas contém imagens sem sentido e de difícil interpretação: os pintores procuravam retratar o mundo dos sonhos. Eles tentavam produzir as obras sem interferência da razão. Com isso, acreditavam estar mais perto do inconsciente.

Enquanto estamos acordados, a consciência conduz nossos atos. Quando dormimos e sonhamos, "entra em ação" o inconsciente -- considerado o estado mais espontâneo do ser humano. Em 1900, o médico austríaco Sigmund Freud publicou o livro A Interpretação dos Sonhos, que diz que os sonhos seriam a realização de desejos inconscientes. Por mais que um esforço de memória seja feito para que esses impulsos venham à tona, eles só afloram nos sonhos, nos atos falhos e no estado psicótico, quando a consciência não está vigilante."

Quando acordamos dessa viagem ao impossível, nossos sensores reprimem nossos sonhos porque certamente iriam de encontro as normas vigentes da moral. O surrealismo se utilizou dessa matéria prima, bebeu dessa fonte e libertou a imaginação.
Mas deixa eu largar Freud e voltar a Dalí.






Aos 6 anos de idade, Salvador Dalí anunciou para a família que queria ser cozinheira (no feminino mesmo).
Dois anos antes de ingressar na escola de arte em Madri, nos anos 20, escreveu em seu diário: "Eu vou ser um gênio... Talvez venha a ser desprezado e mal compreendido, mas vou ser um gênio, um grande gênio". Conseguiu ou pelo menos se acreditou genial, tanto que foi expulso da Academia de S. Fernando, em Madri, por ter se recusado a fazer um exame. Ele declarou não haver um único professor suficientemente competente para avaliá-lo.

O nome de Salvador é o mesmo que tivera um seu irmão, que morrera prematuramente poucos anos antes. Esta circunstância determina, em parte, que os seus pais projetem sobre ele doses suplementares de afeto, que contribuíram para forjar a sua personalidade egocêntrica e extravagante; porém também se via a si mesmo como o fantasma do irmão falecido, familiarizando-se desde muito cedo com a idéia obcessiva da morte, um dos temas que o influenciará em toda a sua obra.

Dalí teve sua vida mudada ao conhecer, em 1929, sua primeira e única mulher: Gala, ou melhor, a russa Elena Dianaroff, dez anos mais velha do que ele e casada com o poeta Paul Éluard. Gala ensinou-o o gosto (que ele já tinha, adormecido) pela fama, pelo dinheiro e como tudo isso poderia vir mais fácil se acompanhado por escândalo e polêmica. Daí vieram as grandes performances de Dalí, as frases exóticas, os bigodes pontiagudos (ele dizia serem antenas magnéticas) e o rompimento com Breton e os surrealistas (também por causa de suas posições políticas conservadoras). Liberto das amarras ideológicas dos amigos, adotou, com fúria obsessiva, uma estética de virtuosismo quase acadêmico, embora a reunião de objetos incongruentes numa mesma tela ainda o ligasse aos surrealistas. Em suas obras, a figura de Gala está quase sempre presente.

Foi o ápice do genial pintor, em 1982, após a morte de Gala e um incêndio de onde sai gravemente ferido, Dalí se recolhe e passa a viver praticamente recluso até o dia de sua morte, 23 de janeiro de 1989. Encerrando aí seu mais longo delírio, a vida.


Leia: http://www.diversaocerta.com/paginas/artes2002/salvador_dali.html
http://www.pitoresco.com.br/pitoresco/dali/dali.htm



dos diários


Conseqüentemente há toda sorte de ausências e mesmo os utensílios cotidianos não preenchem esse espaço. Não há, porém nada que o faça se essa ausência não se encontra em nada e ninguém.
Está no reflexo que no espelho não aparece, está em todos os dias sem horas em qualquer estação.

É a abstração última de que se é capaz, um estado abaixo onde tudo é estático como o sorriso na fotografia eternizando o que já não existe.

andrea augusto©angelblue83
















reCORTE

tua figura recorta-se ali
entre sombra e dia

como flor acontecida
desabitas um tempo feliz

memórias de sotão
onde a noite
era uma terra vasta...

andrea augusto©angelblue83






O Segredo


Há uma palavra que pertence a um reino que me deixa muda de horror. Não espantes o nosso mundo, não empurres com a palavra incauta o nosso barco para sempre ao mar. Temo que depois da palavra tocada fiquemos puros demais. Que faríamos de nossa vida pura? Deixa o céu à esperança apenas, com os dedos trêmulos cerro os teus lábios, não a digas. Há tanto tempo eu de medo a escondo que esqueci que a desconheço, e dela fiz o meu segredo mortal.

Clarice Lispector

Não Soltar os Cavalos

Como em tudo, no escrever também tenho uma espécie de receio de ir longe demais. Que será isso? Por que? Retenho-me, como se retivesse as rédeas de um cavalo que pudesse galopar e me levar Deus sabe onde. Eu me guardo. Por que e para quê? Para o que estou eu me poupando? Eu já tive clara consciência disso quando uma vez escrevi: "é preciso não ter medo de criar". Por que o medo? Medo de conhecer os limites de minha capacidade? Ou medo do aprendiz de feiticeiro que não sabia como parar? Quem sabe, assim como uma mulher que se guarda intocada para dar-se um dia ao amor, talvez eu queira morrer toda inteira para que Deus me tenha toda.

Clarice Lispector- in "Para não esquecer" - 5ª ed. - Siciliano - São Paulo, 1992






Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade




Com algumas modificações esse poema seria perfeito para resumir a sinopse do filme "Separações", de Domigos de Oliveira.
Mais uma vez os (des)encontros amorosos foram retratados numa tragicomédia, deliciosa por sinal.
O tema partiu de um livro que Domingos de Oliveira leu sobre pacientes terminais, o que não deixa de ser interessante, quem não fica "terminal" quando esta apaixonado? Tudo fica urgente, é pra já, agora, uma fome única.

"No livro a partir de centenas de entrevistas, os médicos descobriram que todos passam pelas mesmas fases, desde a descoberta da doença até a morte — negação, negociação, revolta e aceitação. Comparando a relação a dois à situação do paciente terminal, ele escreveu a peça sobre separações numa estrutura em quatro atos, cada um correspondendo a um desses movimentos."
Essa peça deu origem ao filme.

Começa então um desenrolar de situações que emocionam, que nos fazem rir e pior, pensar: "acho que já vi esse filme antes". Quem não viveu o conflito de estar junto e querer ser livre, como se estar com alguém fosse uma prisão e não uma opção, uma vontade, uma escolha?

Sinopse simples: Rio de Janeiro, anos 90. Encontros e desencontros de um casal com problemas conjugais que revelam um retrato da vida noturna dos intelectuais cariocas. Glorinha e Cabral são casados há 12 anos, e são apegadíssimos, apesar da grande diferença de idade- ele é 23 anos mais velho. Porém, eles se sentem asfixiados com o casamento, e decidem dar um tempo. As coisas ficam complicadas, porque ela se apaixona por um jovem arquiteto.

Recheado de diálogos engraçados ou melhor tragicômicos, o filme não cai no climão depressivo, pelo contrário mostra o que a nossa geração anda vivendo, todo mundo quer ter um grande amor, quer encontrar sua alma gêmea penando por aí, de preferência sozinha, aquele amor de filme onde a cada encontro violinos invisíveis tocam somente para o casal, mas não quer abrir mão de nada, confunde compartilhar uma vida, dividir, com o carandiru no pior dos seus dias. Acha que fidelidade não é uma escolha e sim uma aberração, well, há execeções, claro. O final do filme não conto, vejam, é ótimo. Só deixo uma frase dita pelo protagonista, Cabral, o personagem que Domingos interpreta:


"A verdadeira liberdade de um homem não é seguir seus instintos, mas suas escolhas."


Tirem suas conclusões...



ps: acabei de escrever esse post e fui ao blog do poeta e amigo querido, Iosif e lá tive o prazer de ler mais um dos seus excelentes posts, que para a minha surpresa também fala do filme e melhor, um pouco da vida dele que é tudo. Sou absolutamente fã!
Confiram, vale a pena: http://www.yehuda.blogger.com.br/index.html
Adorei, Iosif!







Embora 10 entre 11 pessoas já tenham lido o poema If, de Rudyard Kipling, vale o registro.
Ele foi ridicularizado na época por escritores e críticos pelos poemas e as historinhas que escrevia. Ainda hoje é lembrado justamente por uma historinha, talvez a mais famosa que garanto todo mundo já viu: "Mowgli, o menino lobo". Pois é, essa mesma.
Kipling nasceu em 1865 em Bombaim, cidade que seu pai lecionava como professor na Escola de Artes. Aos seis anos foi estudar na Inglaterra e em 1882 retorna á India, onde começa a trabalhar como jornalista. Também inicia a carreira de escritor, o que mais tarde, em 1936 lhe daria o Prêmio Nobel.
The jungle book ( Mowgli) foi traduzido para o português por Monteiro Lobato. O livro conta a história de Mowgli, menino criado por lobos e aluno do urso Baloo no estudo das leis da selva. Posteriormente viraria filme pelas mãos de Walt Disney.
Kipling faleceu em 18 de janeiro em Londres, Inglaterra.

Seu poema mais conhecido é:

IF...

Se tu podes impor a calma, quando aqueles
Que estão ao pé de ti a perdem, censurando
A tua teimosia nobre de a manter.

Se sabes guardar sem ruga e sem cansaço.
Privar com Reis continuando simples,
E na calúnia não recorres à infâmia
Para com arma igual e em fúria responder,
- Mas não aparentar bondade em demasia
Nem presumir de sábio ou pretender
Manifestar excesso de ousadia, -

Se o sinho, não fizer de ti um escravo
E a luz do pensamento não andar
Contigo no domínio do exagerado,

Se encaras o triunfo ou a derrota
Serenamente, firme, e reforçado
Na coragem que é necessário ter
Para ver a verdade atraiçoada,
Caluniada, espezinhada, e ainda
Os nossos ideais por terra. - Mas erguê-los
De novo em mais profundos alicerces
E proclamar com alma essa Verdade!,

Se perdes tudo quanto amealhaste
E voltas ao pricípio sem um ai,
Um lamento, uma lágrima, e sorrindo
Te debruças sobre o coração
Unindo outras reservas à Vontade
Que quer continuar, e prosseguindo
Chegar ao infinito da razão,

Se a multidão te ouvir entusiasmada
E a virtude ficar no seu lugar,

Se amigos e inimigos não conseguem
Ofender-te, e se quantos te procuram
Para estar com o teu esforço não contarem
Uns mais do que outros, - olha-os por igual!,

Se podes preencher esse minuto
Com sessenta segundos de existência
No caminho da vida percorrido
Embora essa existência seja dura
À força das tormentas que a consomem,

Bendita a tua essência, a tua origem
- O Mundo será te,
E tu serás um Homem!

Rudyard Kipling

Versão portuguesa de António Botto - in "Poesia Mais-que-pefeita", A Mar Arte, Coimbra, 1994


Leia mais: http://www.kipling.org.uk/
http://www.belasletras.com/leiamais10.html









Resignação


Como todas as mulheres da montanha, que no meio do gosto do amor enviuvam com os homens vivos do outro lado do mar, também ela teria de sofrer a mesma separação expiatória, a pagar os juros da passagem anos a fio, numa esperança continuamente renovada e desiludida na loja da Purificação, que distribuía o correio com a inconsciente arbitrariedade dum jogador a repartir as cartas dum baralho.
-O teu homem tem-te escrito, Maria? - perguntava o prior de Páscoa a Páscoa.
-Ele não, senhor. Há quinze anos...
Não acrescentava a mínima queixa à resposta. Fiel ao amor jurado, deixava que todos os encantos lhe mirrassem no corpo, numa resignação digna e discreta. Com o filho sempre agarrado às saias, como um permanente sinal de que já pagara à vida o seu tributo de mulher, mourejava de sol a sol para manter as courelas fofas e gordas. Depositária do pobre património do casal, queria conservá-lo intacto e granjeado. Se o outro parceiro desertara, mais uma razão para se manter firme e corajosa ao leme do pequeno barco.
-Nada, Maria? - O prior já nem se atrevia a alargar a pergunta.
-Nada.
Respondia sem revolta ou renúncia na voz. Objectivava a situação, lealmente. O que sentia por dentro era o segredo da sua serenidade.

Miguel Torga - Contos da Montanha (1941)





Coimbra, 08 de maio de 1953


Apelo

Porque não vens agora, que te quero,
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro, e eu desespero.
O futuro é o disfarce da impotência...

Hoje,aqui,já,neste momento
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento...
O desejo é o limite dos mortais.

Miguel Torga, in "Antologia Poética"




A Ceia

...

Nunca mais
Meus olhos terão de ver
Tanta solidão sem fim:
- Ser dono desta desgraça
De não ter terra onde nasça
Uma flor que cresça em mim...

Miguel Torga





A um Secreto Leitor


No silêncio da noite é que eu te falo
Como através dum ralo
De confissão.
Auscultadores impessoais e atentos,
Os teus ouvidos são
Ermos abertos para os meus tormentos.

Sem saber o teu nome e sem te ver
- Juiz que ninguém pode corromper -,
Murmoro-te os meus versos, os pecados,
Penitente e seguro
De que serás um búzio do futuro,
Se os poemas me forem perdoados.

Miguel Torga




Miguel Torga, poeta que eu adoro, era o pseudonimo de Adolfo Correia da Rocha.
Ele nasceu em 1907 em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, Trás-os-Montes, e faleceu em 17 de Janeiro de 1995 em Coimbra. Veio para o Brasil e ficou até 1925 quando regressou a Coimbra onde se formou em Medicina. Por volta de 1930, funda a revista Sinal. Funda pouco depois a revista Manisfesto. Começou a ser conhecido como poeta, tendo mais tarde ganho notoriedade com os seus contos ruralistas e os seus dezasseis volumes de Diário, estes publicados entre 1941-1995. Várias vezes nomeado para o Prémio Nobel da Literatura, tornou-se um dos mais conhecidos autores portugueses do século XX.



Leia mais: http://www.vidaslusofonas.pt/miguel_torga.htm
http://www.bragancanet.pt/filustres/torga.html





Notas De Um Tempo


Hoje eu queria mesmo escrever algo limpo e claro, sem nenhuma palavra mais forte, seria uma carta simples, escrita num fim de tarde a beira de um tempo melhor. Escreveria para você uma carta em tom maior para alguém que sabia chorar "em lá menor e não desafinava". E seguiria o caminho branco das páginas pontuando sua vida com claves de sol, por certo não seria difícil, se não fosse uma teimosa incompetência que me acompanha há anos. Mesmo assim, hoje no Dia Mundial do Compositor, preciso encontrar qualquer nota que não desafine, que não quebre o compasso e siga serena como numa superfície lisa. O fato é que falar de música em mudas letras torna tudo mais complicado, mas é preciso tentar, há tantas coisas que eu não posso entender e você já sabe, já viu, já fez. Compôs uma vida compassos simples, plantou filhos sobre a terra, eternizou momentos de outras vidas e o vento que fala nas folhas contando as histórias. Quando tudo parece um desenrolar de letras e já sinto nas pontas dos dedos alguma facilidade para escrever, penso: Como escrever para alguém que sabe cantar? E tudo o mais perde o sentindo, o mesmo sentindo que só você sabe dar.

Um beijo carinhoso,
andrea augusto©angelblue83













15/01 - Dia Mundial do Compositor.



Esse dom


Esse dom
De sonhar
Esse dom
Que nos faz voar
Para bem longe
E nos dá a chance de criar
Um mundo melhor
Pra você e pra mim
Posso ser teu luar
E feito noite vou
Te cobrir devagar
Te levar em nuvens para um céu
Que eu fiz pra você
Para não te perder
Mas esse dom de poder sonhar
E fugir do que nos faz chorar
Foi o jeito que eu consegui
De ficar mais tempo junto a ti

Claudia Telles





Prá sempre


Depois de tanto tempo passado
Você chegou me olhando de lado
Mexeu na ferida
Ainda doída
E agora se vai
E nem olha prá trás
Não vê que eu estou tão sozinha
Preciso ter você ao meu lado
Me dê um sorriso
E diga baixinho
Te amo e já não posso mais viver sem você
Por isso
Voltei prá ficar
Por isso
Não volte a chorar
Te quero comigo prá sempre
E prá sempre vou te amar

Claudia Telles




Sem você não dá


Não , não não queira
Fazer de mim algo tão ruim
Tudo era tão diferente
No começo nosso mundo era a gente
Não , não não queira
Deixar fugir esse amor assim
Eu quero é te ter ao meu lado
E ao dormir te abraçar apertado
Não vai dar pra ficar sem teus braços
Vem comigo vem
E me abrace apertado
Vem te quero vem
Quero estar ao teu lado
Vem comigo vem
Ser o meu namorado
Dois amantes só presente sem passado
Tanto amor não pode ser desprezado
E o meu mundo sem você fica chato...

Claudia Telles






Aos meus amigos



Nada é melhor
Que ter um amigo
Como nada é melhor
Que ter um sorriso quando tudo vai mal
É como uma abrigo
Em meio a um temporal
Um colo macio que nos faz esquecer
Tudo que no mundo possa nos magoar
Pois a felicidade não se faz esperar
Simplesmente acontece
Simplesmente aparece
Como um sonho bom, como um sonho bom...
Nada é melhor
Que ter um sorriso
Como nada é melhor
Que ter um amigo quando tudo vai mal
É como uma abrigo em meio a um temporal
Aquele amigo que noz faz esquecer
Tudo que no mundo possa nos magoar
Pois a felicidade não se faz esperar
Simplesmente acontece
Simplesmente aparece
Como um sonho bom, como um sonho bom...

Claudia Telles





Vem sem medo


Olha
Que eu estou aqui
A esperar por você
Pois quero te dizer
Que o meu amor
Precisa do teu amor
E eu do teu calor
Mas você
Insiste em fugir sem falar
O que passa em teu coração
Já não posso mais ficar sem te ver
Vem sem medo de se entregar
Meu amor não vai te machucar
E se você não mais me quiser
Te deixo fugir de mim
Fugir de mim


Claudia Telles



Feliz Seu dia, claudinha!


Leia mais, escute sempre: http://www.claudiatelles.mus.br/








No dia 14 de janeiro de 1957, um câncer no esôfago mataria Humphrey Bogart... Eu disse: mataria? Apaguem essa bobagem! Mitos não morrem jamais.

Bogie, com todo respeito Bacall, não era bonito, não fazia questão de ser simpático e o sorriso cínico do qual tirava proveito, era resultado de uma paralisia no músculo labial, decorrente de um acidente quando ainda estava servindo a marinha. Quem se importa? Seu charme com ou sem sorriso era inegável. Imortalizado em filmes como: À Beira do Abismo, Relíquia Macabra, Uma aventura na Martinica e sobretudo, Casablanca entre outros, Bogie gostava de trabalhar, do ofício de atuar e por isso dificilmente recusava um papel.

A princípio, Bogie não foi um grande sucesso. Demorou algum tempo até enxergarem nele um galã fora dos padrões da época. E foi o mesmo sorriso cínico, um pouco amargurado que fez dele um astro, um sedutor. Mulherengo inveterado viveu grandes paixões, mas amor mesmo encontrou nos braços da belíssima Lauren Bacall. Eram chamados pelos fãs de Bogie & Baby. O romance ganhou as telas com igual sucesso e os filmes que protagonizaram estouravam as bilheterias.



Eram um casal perfeito, ambos adoravam uma badalação, tinham uma espécie de humor caústico e era comum vê-los trocando farpas sobre qualquer assunto. É folclórica a história de Bogie viver durante muito tempo de forma simples, até que Lauren entrou na sua vida, ele costumava dizer quando se viu obrigado a mudar-se para uma casa maior para que pudessem criar os filhos: "Quando as outras mulheres ficam grávidas, elas exigem picles, sorvetes e morangos fora de época. A minha quer casas." E mudaram-se, criaram seus dois filhos e ficaram juntos até que a morte os separou. Suas últimas palavras teriam sido para Lauren: "Até logo, Baby".




Pois é, lembram de "Casablanca"? Quando Humphrey Bogart e Ingrid Bergman se reencontram em "Casablanca", ele é um solitário dono de café e ela, a mulher de um militar chamado Victor Lazlo. Anos antes, em Paris, Bogart e Ingrid viveram um romance memorável, às vésperas da invasão nazista. Refugiados em Casablanca, o casal é obrigado a ignorar a paixão antiga. Numa cena do clássico de Michael Curtiz, Ingrid demonstra estar disposta a largar Lazlo para viver seu amor por Bogart. Com sua estupidez peculiar, ele a convence de que isso não seria certo. Mais tarde, na hora do adeus, Bogart não resiste e diz a sua amada: "Nós sempre teremos Paris".

E nós sempre teremos Bogie...




Leia mais: http://www.geocities.com/Hollywood/Palace/2119/cinema4.html
http://www.estado.estadao.com.br/edicao/especial/cinema/astros/bogie.html






dos diários

Nessa noite, a tempestade e o vento derrubaram uma árvore. Pela manhã parte da grande árvore, uma amendoeira estava sob o telhado de nossa casa, raízes fora das entranhas da terra puxaram junto o concreto que sepultava parte delas. Raízes insepultas e livres, amendoeira dobrada e tudo quebrado. Entre galhos, verdes folhas, um machado esquartejava a livre árvore. Afora o silêncio, um som oco de corte se repetia misturando-se a normalidade aparente. O sol veio e como a morte que libertou a árvore, causou - nos um estranhamento como se do cenário não fizesse parte...

andrea augusto©angelblue83










Muito Obrigada a todos pelo carinho e solidariedade. Enviei um email contando como estão as coisas por aqui. Agora é reconstruir em todos os sentidos. Na medida do possível manterei o blog e responderei os emails. Muito Obrigada mesmo.






dos diários

No limiar, ali no fim do caminho, num tempo qualquer em qualquer estação, sempre ali onde a memória habita, onde os sonhos sob lençóis brancos dormem, há um silêncio de passos cuidadosos e macios e é assim que a raiz na entranha estranha a terra como se dela não fizesse parte. Afora isso, entre a noite e a noite, estão as sombras.

Há uma certa melancolia que me identifica. Diferente de ser triste ou estar triste. É dessas coisas que se tem no olhar ... olhos de horizonte, daqueles que estão sempre fixos em algum lugar além, num ponto qualquer, indiferentes, mas além do momento, do tempo, da hora. Olhos de quem chora sem lágrima, muito mais tristes sem o sal que lava e redime, sem o gosto que molha a boca tornando quase palpável a dor...


refém

o tempo corre à revelia
os fios nas têmporas frias
a teia, a veia corrompida

no mar depuro
joio e trigo
além a linha
desfia horizonte

amanhã é sempre o mesmo dia.

andrea augusto ©angelblue83






Poema Triste


Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Escrever por exemplo:
A noite está fria e tirintam, azuis, os astros à distância
Gira o vento da noite pelo céu e canta
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Eu a quiz e por vezes ela também me quis
Em noites como esta, apertei-a em meus braços
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito
Ela me quiz e as vezes eu também a queria
Como não ter amado seus grandes olhos fixos ?
Posso escrever os versos mais lindos esta noite
Pensar que não a tenho
Sentir que já a perdi
Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela
E cai o verso na alma como orvalho no trigo
Que importa se não pode o meu amor guardá-la ?


A noite está estrelada e ela não está comigo
Isso é tudo
A distância alguém canta. A distância
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Para tê-la mais perto meu olhar a procura
Meu coração procura-a, ela não está comigo
A mesma noite faz brancas as mesmas árvores
Já não somos os mesmos que antes havíamos sido
Já não a quero, é certo
Porém quanto a queria !
A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido
De outro. será de outro
Como antes de meus beijos
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos
Já não a quero, é certo,
Porém talvez a queira
Ah ! é tão curto o amor, tão demorado o olvido
Porque em noites como esta
Eu a apertei em meus braços,
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Mesmo que seja a última esta dor que me causa
E estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.

Pablo Neruda.









inspirAÇÃO


o branco pauta
a folha branca
a inspiração me falta
a caneta silencia
a espera da tinta
que umedeça palavras...

andrea augusto©angelblue83



o último a sair apague a luz...











Convido os amigos a conhecerem o novo blog da amiga querida Cris, o Livro do Desassossego, belas imagens / poemas de Fernando Pessoa. Tá lindo, como o que ela já mantém e merece visita também, o Pedaços de Pessoas.




















"Se pudesse dar-lhe uma idéia de meu sentimento de solidão ! Nem entre os vivos nem entre os mortos, não tenho alguém de quem me sinta próximo". Nietzsche



Por muito tempo eu achei que Nietz era misógino, anti - social. Sua aversão ao convívio desde de cedo, as escolas pelas quais passou, a falta de adaptação e os relacionamentos desastrosos. Não, Nietz não era misógino, Nietz era só, terrivelmente só.
A solidão dos incompreendidos. Como aceitar aquilo que não se entende? No princípio de tudo, quando uma teoria esta se formando, as idéias consomem o papel vertiginosamente. Escreve-se sobre o que nunca existiu, estava ali sendo criada toda uma visão de mundo. Saiu dos padrões. Enxergar além do limite e ter coragem de falar é para poucos.
Jamais poderia escrever sobre Nietz, não tenho competência para tanto, mas essa atração dos iguais, dos que se assemelham, uma solidão tão igual a minha, sem tristezas, sem infelicidade, apenas intrínseca, sem par, sem correspondência, nada. Um dia de chuva intermitente, sem maiores dramas, nem ranger de dentes.

Falando de seu Zaratustra, Nietzsche chegou a escrever a um amigo : "é um livro incompreensível, porque remete exclusivamente a experiências que não partilho com ninguém".
Repetidas vezes, tentara compreender as razões da indiferença que o cercava. Na correspondência e nos livros, referiu-se ao silêncio que pesava sobre sua obra, a solidão que envolvia sua vida. Raros amigos, escassos leitores. Nos últimos textos, acreditava ter nascido póstumo; seus escritos antecipavam-se àqueles a quem se destinavam. Dirigindo-se a um público porvir, de sua época só poderia esperar não entendimento ou descaso.

A solidão de Nietz se reveste de um entendimento ora lúcido, ora delirante. Há uma explicação maior para isso tudo? não.
Talvez ele mesmo tenha deixado a solução quando passava longos períodos imerso na dor lancinante da doença que o consumia.
Descobriu "a fórmula da grandeza do homem : amor fati". Não evitar nem se conformar e muito menos dissimular, mas afirmar o necessário, amar o que não pode ser mudado.

amar o que não pode ser mudado... é simples assim...



andrea augusto©angelblue83
Inserções biográficas com pitacos meus.

leia mais: http://intermega.com.br/inversos/nietzsche.htm
http://www.culturabrasil.pro.br/nietzsche.htm
http://www.terra.com.br/voltaire/artigos/nietzsche_tracos_biograficos.htm
http://www.geocities.com/paris/louvre/4959/




A morte dos girassóis


Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo tenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido.
Perguntei que-que foi, e ele enfim suspirou: "Me disseram no Bonfim que você morreu na Quinta-feira." Eu disse ou pensei em dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: "É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar por lá no Bonfim diz que sim, que morri mesmo,e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixo-astral."

Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa.
Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas.
Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita,parece que já vai abrir.

Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei uma fera. Gritei com o pintor: "Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?" O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho.
Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.

Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então,como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra,exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.

Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tão quebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoiei-o numa espada-de-são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Pois no dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário, feinho, fragilíssimo. Quando parecia quase bom, cráu! Veio uma chuva medonha e deitou-se por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a idéia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio dos ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda.
Não havia como endireitá-lo.

Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Bunda. Os dois pareciam sorrir um para o outro.Um com o talo torto, outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada, para que caíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra, depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santa-rita, lírio ou azaléia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.

Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu? Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.

Caio Fernando de Abreu


















dos diários


é sobre essa solidão singular que a vida se estende em sombras, sobras sempre espalhadas pelo caminho, é dessa impossibilidade recorrente de ter a frente um futuro branco, um tempo limite e dormente. É na incongruência latente da vida que procuro a redenção num ponto de tangência e o porvir em algum lugar que não estou, passará com urgência antes mesmo que a noite vire dia.

ele ama ela que é incapaz de amar...assim será...sempre?


andrea augusto©angelblue83






no way out


pelo olho giramundo
um buraco no escuro
transitam sombras

pende um corpo
parapeito imundo
de onde se jogou
da janela para o mundo.



andrea augusto©angelblue








Conta história que estas teriam sido as primeiras palavras de Garibaldi ao ver Anita: "Tu serás minha!" Verdade ou não, foi um amor arrebatador, que transformou a jovem Aninha em Anita Garibaldi.

Hoje lia no Jornal sobre a estréia da minissérie: "A casa das sete mulheres" e resolvi contar a história de Anita. Mais uma vez sem compromisso com toda a extensa cronologia da vida de Anita e Giuseppe. Melhor falar do romance, da grande mulher que foi Anita, sua coragem, sua ousadia em abandonar um casamento pálido e seguir aquele que seria o grande amor de sua vida.


Antes de se tornar Anita, Ana Maria de Jesus Ribeiro, a Aninha casou-se com Manoel Duarte de Aguiar. Um casamento apático, muito longe do seus desejos. Um casamento sem filhos, um marido que vivia para o trabalho, de poucos sorrisos e vivacidade. Ela foi negligenciada e mesmo posta de lado por ele. Para alguém como Anita, que nas veias trazia o sangue incomum das mulheres apaixonadas e guerreiras, era como definhar aos poucos. Essa vida monótona ainda se tornaria pior, com o passar do tempo o marido de Aninha passou a "demonstrar em casa o seu caráter conservador e ciumento. Avesso às mudanças de situação, era reacionário a todas as novidades. Viu-se, pois, Aninha trancada entre paredes, levando vida apagada e monótona, sem ao menos ter com quem expandir suas idéias ou a quem relatar seus sonhos, originados de exaltada imaginação, em procura permanente de horizontes mais dilatados. Em breve, compreendeu não estar realizada ao lado do pacato marido, o qual não lhe confirmou, sequer, fecundidade".

Segundo historiadores, "desde cedo ela revelou caráter independente e resoluto e uma singular firmeza de atitudes. Além disso muito amor-próprio e a coragem e a energia que certamente herdara do pai." Não bastasse isso era um mulher bonita, segundo relatos da época.





"Oval perfeito"

"Anita era indiscutivelmente bela. Os historiadores que a descreveram, como os artistas que a pintaram ou esculpiram, dão-lhe os mesmos traços à fascinante figura, numa absoluta concordância. [...] Era franzina de corpo e teria um metro e sessenta e cinco. O rosto moreno era de um oval perfeito, a testa larga emoldurava-se nos cabelos pretos e lisos, que trazia repartidos ao meio e arrepanhados sobre a nuca. Tinha os olhos negros e ardentes, o movimento gracioso e ágil. (Ruben Ulysséa)



"Teria ao redor de 1,65 metro, cabelos pretos, longos, olhos negros muito grandes e um atributo que se destacava na sua graciosa figura: o busto volumoso. Seu porte, sua natural elegância no andar, impressionavam muito favoravelmente e era dotada de extraordinário dom de simpatia. [...] Quanto à voz, há uma testemunha que ficou através da tradição oral que dará uma idéia de como falava a heroína: era de timbre forte, porém, num tom abaixo do normal nas mulheres, voz um tanto grave, de contralto enfim..." (Licurgo Costa).

Talvez pelo timbre de voz, por vestir-se como homem, de calças compridas, empunhando armas e galopando com extrema habilidade tenha protagonizado a famosa cena em que para provar que era mulher, arranca sua blusa e expõe os seios a quem duvidava disso.

Com todos esses ingredientes era previsível que ela abandonasse tudo ao conhecer Garibaldi, a quem seguiu até a sua morte 10 anos depois. Anita tinha apenas 18 anos quando participou do primeiro combate. Ela e Garibaldi deixaram Laguna no dia 20 de setembro de 1839, numa viagem que seria a de sua lua-de-mel. Com uma frota de três embarcações, seguiram até a altura de Santos (SP), onde investiram contra uma corveta imperial, passando na seqüência a ser perseguidos por uma esquadra. De volta ao Sul, buscaram abrigo nas enseadas que recortam o litoral catarinense, onde encontram duas sumacas carregadas de arroz, que foram capturadas.

Começa aí uma vida de aventuras, lutas, batalhas, mortes, privações incontáveis, onde Anita sempre ao lado de Garibaldi enfrentou tomando como sua a causa dele.
Certa ocasião, na altura da Ilha de Santa Catarina travam combate com os ocupantes do navio imperial Andorinha. Uma forte ventania causa a perda de uma das embarcações rebeldes, a Caçapava, restando o Seival e o Rio Pardo, com os quais penetram na enseada de Imbituba, onde Giuseppe organiza a defesa. O Seival é deixado na praia e seu canhão colocado sobre uma elevação, sob os cuidados do artilheiro Manuel Rodrigues. Na ocasião, Garibaldi tenta convencer Anita a desembarcar, mas ela resiste e não aceita. Quer ficar ao lado dele, não importa o que aconteça. E foi assim até o final de sua vida.



"NÃO, NÃO ELA NÃO ESTÁ MORTA"



Escultura de Luzi di Rimini, em frente à Igreja de São Clemente, em Mandriole (onde o corpo de Anita esteve sepultado algum tempo), mostra imagem de Giuseppe Garibaldi carregando nos braços a mulher.





Ao morrer, Anita tinha apenas 28 anos e uma vida intensa, amor, filhos, vitórias, derrotas. Garibaldi implorava ao médico que a salvasse. Mas resistência de dela havia atingido os limites humanos e seu combalido corpo não havia resistido a tamanhas provações. Ao ser transportada para o interior da casa poucos minutos de vida ainda restavam-lhe. O médico, após examiná-la, resignado, sentenciou que nada mais podia ser feito, que sua vida agonizava, que estava prestes a expirar. Morreu nos braços dele.


Em suas memórias, Garibaldi escreveu: "Ao depor minha mulher no leito, me pareceu descobrir em seu rosto a expressão da morte. Tomei-lhe o pulso... já não batia. Eu tinha diante de mim o cadáver da mãe de meus filhos, que eu tanto amava."

Quando convenceu-se que o manto negro da morte havia sobreposto sua escuridão sobre as irradiantes luzes que sua companheira irradiou durante àqueles dez anos, Garibaldi não mais conteve o pranto, dobrou-se sobre a moribunda e extravasou tudo o que sentiu naquele doloroso momento. Ajoelhou-se ao lado da cama, segurou com as duas mãos a face de Anita e exclamou:

" - Não, não, ela não está morta! Não é senão um novo ataque. Muito teve que sofrer, mas ela vai ficar boa ! Não está morta ! Anita ! É impossível ! Olha para mim Anita ! Fala comigo ! Quanto eu perdi !"

Anita acabara de falecer! Eram 19:45 horas de sábado, dia 4 de agosto de 1849.





Cronologia - momentos que marcaram a vida da heroína.

1821· Nascimento de Ana Maria de Jesus Ribeiro (Anita Garibaldi), em Morrinhos, na época pertencente à Laguna.

1835· Anita casa com o sapateiro Manuel Duarte de Aguiar. Início da Revolução Farroupilha

1839 Manuel Duarte, parte, sozinho, de Laguna.Proclamação da República Catarinense, em Laguna. Anita conhece Giuseppe Garibaldi e parte com ele para Lages

1840 Nasce Menotti Garibaldi, primeiro filho do casal.

1841 Anita e Giuseppe partem para Montevidéu, no Uruguai.

1842 Anita e Giuseppe casam, oficializando a união.

1843 Nasce a filha Rosita Garibaldi

1845 Nasce a filha Teresita Garibaldi.Morre afilha Rosita Garibaldi

1847 Nasce o filho Ricciotti Garibaldi. ·Anita parte com os filhos para Gênova, na Itália.

1848 Giuseppe parte par Itália (lutas pela unificação), levando os restos mortais da filha Rosita. Anita e os legendários são recebidos em Ravena, Itália, por uma procissão à luz de tochas.

1849 Anita, grávida pela quinta vez vai a Nizza, terra natal do marido. Doente, Anita vai a Roma, onde lutam Giuseppe e seus guerreiros. No dia 4 de agosto, às 19h45, morre Anita Garibaldi, aos 28 anos, em Mandriole, na Itália.

1859 Giuseppe recupera os restos mortais de Anita e leva-os a Nice, então pertencente à Itália.

1931 Os ossos de Anita Garibaldi são depositados no cemitério Staglieno, em Gênova.

1932 Os restos mortais foram levados para Roma e depositados no monumento à heroína, erguido na Praça Anita Garibaldi.


Leia mais: http://www.paginadogaucho.com.br/bibli/anita.htm
http://www.an.com.br/anita/index.html











Em 04 de janeiro de 1988, falecia o cartunista Henfil.
Sabe aquele tipo de pessoa que quando você conhece um pouquinho da sua vida, dá uma vontade imensa de ter sido amigo, de ter conhecido, convivido, conversado, ouvido? Pois é, adoraria ter conhecido Henfil.
Henfil usava sua arte para uma crítica ácida ao sul maravilha, a terra prometida, descompromissada com tantos retirantes que chegavam e continuam chegando por aqui na ilusão de uma vida melhor. Era crítico, satírico, humorístico numa época que viver era ainda mais perigoso, plena ditadura e ele com seu traço, traçada sua história.

Foi embalador de queijos, "boy" de agência de publicidade e jornalista, até especializar-se, no início da década de 60, em ilustração e produção de histórias em quadrinhos, tornando-se conhecido nacionalmente, a partir de 1969, quando passou a colaborar no "Pasquim", lançando em 1970 a revistinha "Os Fradinhos", ou apenas "Fradins".









Foi em 1964 o início da carreira de cartunista e quadrinhista Henfil. Deu-se na Revista Alterosa de Belo Horizonte, a convite do editor e escritor Robert Dummond, onde nasceram originalmente "Os Fradinhos". Seguiu trabalhando em vários jornais e partir de 1969, fixou-se no semanário Pasquim e no Jornal do Brasil, onde seus personagens atingiram um nível de popularidade pouco comum em termos de Brasil.

Além das histórias em quadrinhos e cartuns de estilo inconfundível, Henfil realizou, também, uma peça de teatro e vários livros. Lembro que o primeiro livro que li de Henfil foi "Henfil na China", nem sei como veio parar nas minhas mãos, só sei que adorei. Aprendi mais sobre a China do que qualquer livro de história poderia ensinar me ensinar e de forma muito mais divertida.


Henfil destacou-se, também, pela sua participação na política do país, devido ao seu engajamento na resistência contra a ditadura, pela democratização do país, pela anistia aos presos políticos e pelas Diretas Já.


O Brasil da Anistia

Desde o seu lançamento, em 15 de maio de 1979, a música "O Bêbado e o Equilibrista" se tornou a canção mais escutada nos protestos e passeatas pelo Brasil. De autoria de Aldir Blanc e João Bosco, ela marcou um importante momento na história do Brasil. Era o ano da Lei da Anistia. A população esperava do governo Figueiredo a "abertura lenta e gradual" prometida pelo governo Geisel. O país esperava recomeçar...

"O Bêbado e o Equilibrista" é uma metáfora do momento. O bêbado é a representação do regime autoritário: trajando luto, abalado com as repercussões das mortes e torturas nos porões da ditadura, na completa ausência de cor e vida, saudando a noite do Brasil. O equilibrista é a população brasileira, que "dança na corda bamba." Aqueles que não tinham o presente nas mãos, mas se equilibravam esperando um futuro melhor. Os autores mostram a resitência de quem lutava contra o regime, como as Marias e Clarices, imagens da resistência a ditadura. Maria, a mãe de Henfil, que estava na lista negra da censura, e de Herbert de Souza, o Betinho, exilado na China comunista. E Clarice, viúva de Vladimir Herzog, que lutou para conseguir, através dos tribunais, culpar os responsáveis pela morte de seu marido: a União.


"O bêbado e o equilibrista"

Caía a tarde feito um viaduto
e um bêbado trajando luto
me lembrou Carlitos.

A lua,
tal qual a dona do bordel,
pedia a cada estrela fria
um brilho de aluguel.

E nuvens,
lá no mata-borrão do céu,
chupavam manchas torturadas,
que sufoco.

Louco,
o bêbado com chapéu côco
fazia irreverências mil
prá noite do Brasil.


Meu Brasil...
que sonha
com a volta do irmão do Henfil,
com tanta gente que partiu
num rabo de foguete.

Chora
a nossa pátria-mãe gentil,
choram Marias e Clarices
no solo do Brasil.

Mas sei
que uma dor assim pungente
não há de ser inultimente
a esperança
dança na corda bamba de sombrinha,
em cada passo dessa linha
pode se machucar

Azar,
a esperança equilibrista
sabe que o show de todo artista
tem que continuar


Fonte: O Brasil da Anistia



Do livro Diretas Já :


"Se não houver frutos
Valeu a beleza das flores
Se não houver flores
Valeu a sombra das folhas
Se não houver folhas
Valeu a intenção da semente"










Fico pensando nele nesse momento em que Lula chega ao poder. Tantos anos esperando pela democracia, por eleições diretas, pelo direito de escolha, pelo fim dos obscuros tempos da ditadura e agora um operário tem como seu primeiro diploma o de Presidente do Brasil. O que diriam Fradim, Zeferino, Graúna? Nunca saberemos, mas desconfio que onde quer que Henfil esteja, certamente esta sorrindo e muito!



Valeu, Henfil!










andrea augusto©angelblue83























Às vezes é preciso recolher-se. O coração não quer obedecer, mas alguma vez aquieta; a ansiedade tem pés ligeiros, mas alguma vez resolve sentar-se à beira dessas águas. Ficamos sem falar, sem pensar, sem agir. É um começo de sabedoria, e dói.
Dói controlar o pensamento, dói abafar o sentimento, além de ser doloroso parece pobre, triste e sem sentido. Amar era tão infinitamente melhor; curtir quem hoje se ausenta era tão imensamente mais rico. Não queremos escutar essa lição da vida, amadurecer parece algo sombrio, definitivo e assustador.
Mas às vezes aquietar-se e esperar que o amor do outro nos descubra nesta praia isolada é só o que nos resta. Entramos no casulo fabricado com tanta dificuldade, e ficamos quase sem sonhar.
Quem nos vê nos julga alheados, quem já não nos escuta pensa que emudecemos para sempre, e a gente mesmo às vezes desconfia de que nunca mais será capaz de nada claro, alegre, feliz.
Mas quem nos amou, se talvez nos amar ainda há de saber que se nossa essência é ambigüidade e mutação, este silencio é tanto uma máscara quanto foram, quem sabe, um dia os seus acenos.

Lya Luft (em Secreta Mirada)











Silêncios


há momentos fortuitos em que as palavras
se afastam para darem lugar aos acontecimentos.
nada impede que elas se apresentem, limpas de si,
nada impede o ressoar do som na letra e,
no entanto, elas permanecem mudas como se
na sua teimosia estivessem eternidades de
instantes e alguns farrapos de felicidade. as palavras
retraem-se na timidez dos olhares dos amantes
e fecham-se no seu íntimo significado por
serem espelhos onde nem a poesia se vê.

Rui Miguel Rocha










dos diários


Há uma incompatibilidade com esse mundo que a angústia acentua. Essa maldita luva de pelica percorre o pescoço com suave pressão. Sufoca e extrai prazer do que não sei, apenas sinto e é nesse universo paralelo onde a realidade extrapola o sonho, que me encontro. Em algum lugar além, alguém esta, mas o caminho não é de fácil acesso, o destino desconhecido, a loucura mansa, mata pouco a pouco cada minuto do meu dia e prolonga por longas horas, as mesmas horas que a noite tem.
É assim...


andrea augusto©angelblue83











Apontamentos Pessoais



Fernando Pessoa
[1912?]

"Deixei para trás o hábito de ler. Já não leio a não ser um ou outro jornal, literatura ligeira e ocasionalmente livros técnicos relacionados com o que porventura estudo e em que o simples raciocínio possa ser insuficiente. O género definido de literatura quase o abandonei. Poderia lê-lo para aprender ou por gosto. Mas nada tenho a aprender, e o prazer que se obtém dos livros é do género que pode ser substituído com proveito pelo que me pode proporcionar directamente o contacto com a natureza e a observação da vida. Encontro-me agora em plena posse das leis fundamentais da arte literária. Shakespeare já não me pode ensinar a ser subtil, nem Milton a ser completo".

Fernando Pessoa









Página de Diário, 25 de julho de 1905.

Estou cansado de confiar em mim próprio, de me lamentar a mim mesmo, de me apiedar, com lágrimas, sobre o meu próprio eu. Acabo de ter uma espécie de cena com a Tia Rita acerca de F.Coelho. No fim dela senti de novo um desses sintomas que cada vez se tornam mais claros e sempre mais horríveis em mim: uma vertigem moral. Na vertigem física há um rodopiar do mundo externo em relação a nós; na vertigem moral, um rodopiar do mundo interior. Parece-me perder, por momentos, o sentido da verdadeira relação das cousas, perder a compreensão, cair num abismo de suspensão mental. É uma pavorosa sensação esta de uma pessoa se sentir abalada por um medo desordenado. Estes sentimentos vão-se tornando comuns, parecem abrir-me o caminho para uma nova vida mental, que acabará na loucura.

Na minha família não há compreensão do meu estado mental - não, nenhuma. Riem-se de mim, escarnecem-me, não me acreditam. Dizem que o que eu pretendo é mostrar-me uma pessoa extraordinária. Nada fazem para analisar o desejo que leva uma pessoa a querer ser extraordinária. Não podem compreender que entre ser-se e desejar-se ser extraordinário não há senão a diferença da consciência que é acrescentada ao facto de se querer ser extraordinário".

Fernando Pessoa








Anotaçao sem data

[1907?]

Não tenho ninguém em quem confiar. A minha família não entende nada. Não posso incomodar os meus amigos com estas cousas. Não tenho realmente verdadeiros amigos íntimos, e mesmo aqueles a quem posso dar esse nome, no sentido em que geralmente se emprega essa palavra, não são íntimos no sentido em que eu entendo a intimidade. Sou tímido, e tenho repugnância em dar a conhecer as minhas angústias. Um amigo íntimo é um dos meus ideais, um dos meus sonhos quotidianos, embora esteja certo de que nunca chegarei a ter um verdadeiro amigo íntimo. Nenhum temperamento se adapta ao meu. Não há um único carácter neste mundo que porventura dê mostras de se aproximar daquilo que eu suponho que deve ser um amigo íntimo. Acabemos com isto. Amantes ou namoradas é cousa que não tenho; e é outro dos meus ideais, embora só encontre, por mais que procure no íntimo desse ideal, vacuidade, e nada mais. Impossível, como eu o sonho! Ai de mim! Pobre Alastor! Oh Shelley, como eu te compreendo!


Fernando Pessoa
(Fernando Pessoa - Uma fotobiografia - Maria José de Lancastre - Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1998).






























Leia mais: Pessoa Revisitado






















das solidões



Demenciais


Há enigmas que não decifro. Quando brutalmente entra e nos amamos, alagando-me, é preciso cuidado para não esmagar os anjos esquecidos dentro das empoeiradas caixas vazias. Somos espectros do que sonhamos nas épocas de danação. Nos limiares da dor e do prazer, encobrimos com asas carcomidas nossas mais secretas armadilhas. Amar é ser Deus minimamente. É combater. Eu não teria podido.


Solange Solon Borges









Na biografia de Chopin, consta que pouco antes de morrer, ele teria dito essas palavras. É solidão quase palpável e poucos entendem que solidão é essa. Não é a de uma presença física, de alguém ao lado, é mais, muito mais. É a solidão daqueles que não encontram eco, que são únicos no mundo ou possuem essa sensação de perda constante, de alguém que arranque de nós mesmos o que temos de melhor, que nos puxe para fora dessa solidão. É um caminho sem destino, rumo ao nada.



“A única infelicidade consiste nisso, saímos da oficina de um Mestre célebre de algum stradivarius sui generis, que não existe mais para nos consertar. Mãos inábeis não sabem tirar de nós novos sons, então, por falta de um alaudeiro, recalcamos no fundo de nós mesmos o que ninguém nos sabe arrancar”.

Chopin.












"O que se torna preciso, é no entanto isto: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo, não encontrar ninguém durante horas – eis o que se deve saber alcançar. Estar sozinho como se estava quando criança, enquanto os adultos iam e vinham, ligados a coisas que pareciam importantes e grandes porque esses adultos tinham um ar tão ocupado e porque nada se entendia de suas ações.
Se depois um dia a gente percebe que suas ocupações são mesquinhas e suas profissões petrificadas, sem ligação alguma com a vida, por que não olhá-los outra vez como uma criança olha para um coisa estranha, do âmago do seu próprio mundo, dos longes de sua própria solidão que é, por si só, trabalho, dignidade e profissão? Por que querer trocar a sábia não-compreensão de uma criança pela defensiva e pelo desprezo, – uma vez que a não-compreensão significa solidão, ao passo que defensiva e desprezo equivalem à participação nas próprias coisas cujo afastamento se deseja?"

Rilke in RILKE, Rainer Maria. Cartas a um Jovem Poeta. 21 ed. São Paulo: Globo, 1994. pg 48





























Agora é real, ele esta lá, nossas esperanças aqui. Se tudo vai mudar, se ele vai conseguir realizar o que prometeu ainda não sabemos, mas há tanta vontade que dê certo, nossa, dele, do povo, há um desejo tão grande no ar, que acho sim, que ele consegue. A festa foi tão bonita e de um jeito que só sendo para uma pessoa como Lula. Tinha de ter cavaleiro caindo, tumulto, povo correndo, pacotinhos sendo jogados para ele, pessoas que viajaram dias para vê-lo alguns minutos. Tinha de ser assim. É autêntico, verdadeiro. As pessoas encontram no Lula o vizinho, o pedreiro, o motorista, o advogado, o empresário, o anônimo e nós mesmos e é tão bom se reconhecer no outro. É tão bom amanhecer um novo ano assim. Acho mesmo que 2003 começou hoje.



O outro Brasil vem ai


Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos

Gilberto Freyre
recebi o poema da s.g.

















Hoje é aniversário da minha amiga querida, Leila Míccolis.

Leila nasceu no Rio de Janeiro. É editora, professora de roteiro de televisão, promotora cultural e artista performática. Publicou, entre outros, os livros: Em perfeito mau estado, Editora Achiamé, Rio de Janeiro, 1987; Do poder ao poder - alternativas na poesia e no jornalismo nos anos 60, Editora Tchê, Rio Grande do Sul, 1987; O bom filho a casa torna, editoras Edicon e Blocos, São Paulo e Rio, 1992; Achadas e Perdidas e Sangue cenográfico, Editora Blocos, Rio de Janeiro, 1997.

Hoje mantém a editora e tem um dos maiores sites voltados para a literatura e tudo que a envolve, a Blocos online. Vale uma, duas, várias visitas!



Ciclo bar:



DE REPENTE

Cigarro sem filtro
verdades na mesa
tremosso azeitona
chopinho na tarde
teu beijo molhado
tua voz brincalhona
de sexta a outra sexta...
Saudade mais besta.

leila míccolis



BAR DA ESQUINA

Na saideira, mais uma vez,
a esperança
de embriaguez

leila míccolis


Feliz Aniversário, querida!!


Leia os poemas dela aqui

























Já tinha postado no antigo blog esse "dos diários", mas ao ler no blog dela uma história de amor quase perdido, deu vontade de colocar de novo. Faz pensar que em certas situações o livre-arbítrio é como um caminho bifurcado, a escolha errada pode ser o decreto para o nunca mais ou a certeza de continuar, e ela continuou.











dos diários



Como se o tempo pudesse de alguma forma falar, seria assim uma tentativa de voltar, de saber o que tinha e o que jamais teria. Se o tempo não fosse como os grãos de uma velha ampulheta descendo rápido, seria mais fácil continuar.
O afastamento depurou o que sinto e revestiu de sentido novo cada emoção como se fosse a primeira vez e o encontro eternizou-se no espaço tempo. Foi assim que em algum momento não nos encontramos, mas sim nos reconhecemos como se já soubéssemos da existência mútua e foi assim também que um dia cinza chegou, a noite veio e agora de forma clandestina retorno sempre àquele lugar que a ampulheta não alcança: o sotão onde a memória reside.


andrea augusto©angelblue83






Leminski

Meu coração lá de longe
faz sinal que vai voltar
mas meu peito escreve em bronze
não há vaga nem lugar
para que serve um negócio
que não pára de bater
até parece um relógio
que acabou de enlouquecer
pra que serve quem chora
quando estou tão bem assim
o vazio vai lá fora
cai macio dentro de mim?