"...não ter posição marcada, idéias, opiniões, fala desvairada.
Só de não ditos ou de delicadezas se faz minha conversa, e para não ficar louca e inteiramente solta neste pântano, marco para mim o limite da paixão, e me tensiono na beira: tenho de meu (discurso) este resíduo. Não tenho idéias, só o contorno de uma sintaxe (= ritmo)."

ana cristina césar


Ana Cristina César nasceu num dia 2 de junho, 1952. "... Disposição ambígua (signo de gêmeos)", dirá em Correspondência Completa, em uma das muitas referências autobiográficas.

Há quem não goste e nem leve em consideração definições astrológicas de caráter e jeito de ser, particularmente acho mesmo que não dá para fazer disso uma referência do ponto de vista do valor literário dela, mas pessoalmente... bem, quem é de gêmeos sabe do que estou falando. Ambíguidade de poço profundo lâmina luminosa sem alcance do sol. É assim.

No dia 29 de outubro de 1983, tarde de um sábado, Ana se jogou do 8º andar de um prédio. Tinha 31 anos, já fazia parte do cenário literário local, falava várias línguas, tinha viajado o mundo, era formada em literatura, tinha mestrado em comunicação e pós-graduação em tradução literária feita fora do Brasil. Por que?




"Parece que há uma saída exatamente aqui onde eu pensava que
todos os caminhos terminavam. Uma saída de vida. Em pequenos
passos, apesar da batucada. Parece querer deixar rastros. Oh yea
parece deixar. Agora que você chegou não preciso mais me roubar. E
como farei com os versos que escrevi?"

ana cristina césar





Psicografia

Também eu saio á revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de Ter visto.

ana cristina césar





Apenas 40 minutos antes o poeta e amigo, Armando Freitas Filho conversará com ela ao telefone. Alguma desconfiança do porvir? Não. Apenas o telefonema da mãe comunicando o ocorrido horas depois. Por que?


"Tenho uma folha branca / e limpa à minha espera: / mudo convite / tenho uma cama branca / e limpa à minha espera: / mudo convite / tenho uma vida branca / e limpa à minha espera". ana cristina césar



Aos 4 anos, Ana ditava poemas para sua mãe, aos 7 ela mesma os escrevia e ainda criança começou a publicar seus escritos no Suplemento Literário da Tribuna da Imprensa. Ana fez parte da geração de poetas mais importantes dos anos 70. Considerada uma das principais poetas da chamada "geração-mimeógrafo". Novos poetas foram revelados no livro do qual ela fazia parte, 26 Poetas Hoje. Por que?




saberias então que hoje, nesta noite, diante desta gente,
não há ninguém que me interesse e meus versos
são apenas para exatamente esta pessoa que deixou de vir
ou chegou tarde, sorrateira, de forma que não posso,
gritar ao microfone com os olhos presos nos seus olhos
baixos, porque não te localizo e as luzes da ribalta
confundem a visão, te arranco, te arranco do papel,
materializo minha morte, chego tão perto que chego
a desaparecer-me, indecência, qualquer coisa de
excessivamente
oferecida, oferecida, me pasmo de falar para quem
falo, com que alacridade
sento aqui neste banco dos réus, raso,
e procuro uma vez mais ouvir-te respirando
no silêncio que se faz agora
minutos e minutos de silêncio, já.


ana c.




Em 1982 sairia A Teus Pés, seu único livro de poemas publicado em vida. Sua obra póstuma inclui os livros Inéditos e Dispersos (1985), Escritos na Inglaterra (1988) e Crítica e Tradução (1999).
Ana virou mito, não só pelo suicídio, esse ato extremo não faz de ninguém um grande talento. Sua obra, testamento de sua competência, não deixa nenhuma dúvida. O que fica é: por que? Qual angústia última deu solução a janela aberta? Um vazio todo branco numa tarde de sábado. Se lançar assim no espaço tempo com todo um passado pela frente. O futuro seria jamais. Hoje, de Ana só nos resta ontem e uma vontade doida de saber quem realmente foi Ana C.



Que deslize

Onde seus olhos estão
as lupas desistem.
O túnel corre, interminável
pouco negro sem quebra
de estações.
Os passageiros nada adivinham.
Deixam correr
Não ficam negros
Deslizam na borracha
carinho discreto
pelo cansaço
que apenas se recosta
contra a transparente
escuridão.

ana c.



Leia: http://www.an.com.br/1999/dez/07/0ane.htm
http://www.na-cp.rnp.br/~murgel/textos/poema2.htm



** Esse post é para o amigo Milton e claro, para aqueles que ainda não leram e gostam de Ana Cristina César. Já tinha postado, mas como os meus arquivos desapareceram...ei-la de volta.

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