Ainda outro dia no jornal, a matéria de capa perguntava pelos nossos ídolos. E lá mesmo numa constelação de nomes estava a resposta, a grande maioria morreu, o que sobrou se enquadrou, envelheceu, os que estão surgindo não possuem o estofo necessário para serem ídolos, a não ser de si mesmos. Cansa. Faz tempo que o dia não nasce feliz. Faz tempo que a geração cara pintada não vai as ruas, não bate panelas, não tem uma ideologia que os faça lutar. Que nos faça lutar. O tempo não pára. Foi-se a urgência de vida, já sabemos que ninguém tem "uma vida toda pela frente" e às vezes o tempo é pouco pra tanta sede. Não disse Janis certa vez: "É preferível viver 10 anos intensamente à 70 anos vegetando na
frente de uma televisão." Ele não teve nem 10 anos de carreira, foram exatos 9 anos e a eternidade pela frente.

O que há para dizer de Cazuza que já não foi dito? Que ele era um poeta, um letrista fantástico, um burguês bem nascido que sabia que no Brasil ainda se morre de fome? Tudo isso e muito mais já foi dito, contado e cantado. Mas só entende quem perdeu, quem vê o tempo passar, quem tem a angústia de viver uma vida com as horas contadas, distribuídas regularmente ao longo da semana. Quem tem agenda e sabe que muito provavelmente a consulta marcada vai se realizar. O tédio da rotina, das coisas certas e acertadas. O prazo e a data. Ele não. Ele virava a noite, o dia nascia e ele ia dormir.


No one

Quem deve ser eu e aonde deve estar você, meu amor?
eu poeta afogado em rima sem gosto de vida
e você a vida rindo pra mim, ainda que invisível?
a vida feia em você e eu pintor visionário
tentanto retocar o que é cruel mas pulsa e faz sentido?

Mas certo que eu seja um romântico anacrônico
e você um trem que por distração eu tenha perdido.
(o tempo não espera por ninguém e já foi tudo dito)

Cazuza -1981







O poeta faria hoje 45 anos, chegaria na madrugada da semana seguinte com letras, amigos, apaixonado sempre.
Cazuza viveu o amor até a última gota e isso não é uma questão de opção sexual, isso pouco importa, cada um tem a sua, é uma questão de optar por viver e se entregar e-x-a-g-e-r-a-d-a-m-e-n-t-e. Mergulhar de cabeça, se arrebentar todo e lamber as feridas num canto. Cauterizar palavras, cicatrizar e se jogar de novo e de novo e sempre, num espaço azul céu fictício de uma boca qualquer.



Brigitte Bardot

Deus é amor sem segredo
nos olhos do cachorro
e a todo animal que ele quis que visse
sua obra já pronta.
Morro de medo dos teus olhos sem palavras
bigorrilhos, duques e xerifes
porque me viciei em sons codificados
porque eu sei que amar é abanar o rabo
lamber, latir e dar a pata.

Cazuza -1978



A setença de morte veio e ele se recusava a morrer. A criatividade transbordava e o corpo definhava. Antítese de si mesmo em vida e na agonia. Continuava caústico como sempre e ironizava como nunca.
Jamais seria santo e cantou o Céu e Inferno a sua maneira, "O reino dos Céus é do chato/ Do chato, do chato/ Do otário e do cagão".
"Se você quer saber como eu me sinto/ Vá a um laboratório ou num labirinto/ Seja atropelado pelo trem da morte/ Vá ver as cobaias de Deus (...) Nós somos as Cobaias de Deus."





Fase

Depois que eu descobri que era triste
as tardes ficaram mais azuis
eu descobri. Eu sou triste
depois que eu levei porrada
que os urubus se mostraram
depois da ingenuidade
entrei numa fase estranha
não reviro cores
não explodo a luz
estou sentado esperando
como os velhos palhaços do blues
o namorado que levou um bolo
um garoto perdido dos pais.

Cazuza - 1988






O século XXI caiu nos anos 80, os ídolos chegaram, deram seu recado e como o mundo anda se repetindo demais, é tudo a mesmice de sempre, puxaram o carro, foram para outro lado. Por aqui ficaram as histórias, os lugares, um tempo na memória, o resto tá impresso no vinil da vida que teima em continuar...



Lembre-se de mim


Se você ver um par de sapatos, um pra cima outro pra baixo
Ou um surfista elegante, de sociedade
Se você sentir que está ventando demais e não tiver agradável
O vento que tava tão bom
Então se lembre de mim
Com minha hipocrisia
Um amor como o nosso está fadado a acabar
E eu já não tenho mais fôlego pra soprar a fogueira
Você parece uma barata tonta, envenenada por Rodox
E teu barato tá muito descoordenado
E desse jeito não vai dar
Então se você ver um tarado na escada
Lembre-se de mim
Um vira-lata emocionado
Lembre-se de mim
Lembre-se de nós e a nuvem alaranjada
Lembre-se do nosso amor
Com as decisões que tomamos juntos
Das nossas músicas malucas
E esse talento de tomar a cena de assalto
Pagamos o preço, por não sermos medíocres
E gargalhamos de tudo
Lembre-se disso quando for falar mal de mim
Quando me atacar pelas costas
Lembre-se da nuvem e da luz
Alaranjada do lustre do quarto


Cazuza - 1989





Leia: http://www.cazuza.com.br/cazuza.htm
http://www.legiao-urbana.com.br/cazuza/index.htm

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