Well, hoje a responsabilidade é enorme. Falar sobre pessoas que gosto/admiro que já faleceram é relativamente fácil, afinal eles não vão reclamar da minha mediocridade ao escrever sobre eles, agora falar de uma pessoa que esta viva, firme, forte, é um escritor de mão cheia e pra complicar eu adoro, admiro e tenho o maior orgulho de ter conhecido e conviver com ele, não é nada fácil mesmo!


Em geral quem gosta de escrever, adora ler, comigo não é diferente. Tenho ainda um grave defeito, sou uma sonhadora. Sabe aquele olho de horizonte, daquele que não foca o presente, esta sempre além no tempo, no espaço, no passado ou futuro, mas sempre além? Pois é, sou assim. Agora imaginem conhecer uma pessoa que viajou no Orient Express, saía de férias com a família rumo a Paris passando pela Hungria, Áustria, norte da Itália, Suíça, França... pois é, concordo com vocês até aí não tem nada de mais, com grana se vai a Lua. Agora imaginem que isso se passava na infância dele, um pouco antes da primeira guerra, que ele é judeu e que conseguiu por muito pouco fugir do holocausto? Calma é pouco. Imaginem então que esse rapaz, chega ao Brasil e faz do nosso País sua pátria, do Rio de Janeiro sua casa e ajuda como poucos na construção desse mesmo País que o recebeu?
São pinceladas de uma vida que deu um livro de memórias e outros tantos de vários gêneros, que rende crônicas, poemas, contos e que daria sem o menor exagero, um filme com todos os ingredientes necessários para o sucesso: sonho, fuga, suspense, sexo, aventura, amor, trabalho, angústia e vitórias... muitas vitórias.











Iosif Landau é uma daquelas pessoas que têm o privilegio de poder dizer que viveu, Viveu tudo que a vida dá e tira. Sobreviveu a perdas, a traições, a inimigos, a guerra, a própria vida. Ler o livro dele é como passear pela história do mundo pelas mãos de alguém como nós. Ele transcende o herói, o mocinho, ele é mais, muito mais e por isso tão parecido com o seu leitor que se enxerga nele, na possibilidade de uma vida, de aventuras, sabendo muito bem que o preço é alto, as escolhas são caras, mas que apesar de tudo, muitos nascem, poucos vivem, menos ainda têm memórias ainda que tumultuadas.



Hoje a festa não é aqui, é ! Portanto, clica e vai!

Feliz Aniversário, POETA!










(...)


Em Agosto de 1939 estávamos em Aix les Bains, Hitler já fazia das suas, o palerma do Chamberlain pegou seu guarda chuva e sem nunca ter viajado de avião, foi até a toca do lobo fazer reverência. A França decretou Mobilisation Générale, a eminência da guerra prevista. A debandada foi geral, da noite para o dia, a cidade esvaziou, a família viajou num trem superlotado até Paris. Reunida no Hotel Scribe tomou decisões, eu voltaria para o school , o resto para Bucarest. A confiança na linha Maginot, um fato indiscutível, intransponível, esqueciam do buraco da Bélgica.
Apesar de sermos judeus, e a Romênia já dominada pelo partido nazista local, a Guarda de Ferro, o primeiro ministro, pai do meu amigo, assassinado, meu pai achava que os alemães seriam derrotados, achou por bem aguardar a concessão da licença de emigração para os EEUU. A emigração era concedida por cotas para cada país, e o nosso pedido fora feito em 1936, teria que vir logo. Tantos erros, tantos enganos, a história conta.
Em Setembro a Polônia foi invadida, a guerra declarada.


Eu no english school, a família em Bucarest.

Avisado por amigo influente, de que no dia seguinte haveria caça aos judeus de posse, à semelhança da Noite dos Cristais de Berlim, meu pai, minha mãe e minha irmã abandonaram Bucarest de imediato, deixando, para trás, tudo, absolutamente tudo, roupas, apartamento mobiliado, fábrica, loja, parentes, e fugiram com a roupa no corpo e depois novamente em Paris. À medida que os alemães avançavam a família descia, acabou em Biaritz e de lá em Lisboa, o que só foi possível com muita propina, abençoado dinheiro, viagem no Serpa Pinto, no fim o Rio de janeiro.


(...)



o resto? Só no livro...



Leia sempre e sempre e todo dia:

site: http://www.iosiflandau.hpg.ig.com.br/iosif2.htm
blog: http://www.yehuda.blogger.com.br/index.html
livro: http://www.papelvirtual.com.br/sitenovo/detalhes_produto2.asp?IDProduto=601




* mais uma vez, brigada Cris pelo envio. Continuo sem acesso de casa, por isso vejo vocês amanhã do trabalho. bjus. angel.






Take I - a infância

Quando criança, ele recebeu do pai um castigo traumatizante. Seu pai pediu-lhe calmamente que levasse um bilhete para o chefe de polícia do bairro, não muito longe da casa da família, em Londres.
O jovem Alfred pegou o bilhete e andou até a delegacia, procurou o "constable" e entregou-lhe o pedaço de papel dobrado. O homem abriu o papel, leu e olhou para o garoto gordinho na sua frente. Pegou um molhe de chaves, tomou a criança pelo braço e a levou para uma das celas da delegacia, trancando o menino como um malfeitor, para sua angústia e desespero.

Esta é uma cena tipicamente hitchcockiana.





Nos dias tempos atuais quando os (d)efeitos especiais são recorrentes e muitas vezes necessários apenas para camuflar péssimos roteiros, Hitch tinha a seu favor uma ferramenta que faria toda a diferença entre a excelência de seus filmes e as mediocridades que nos assolam: uma criatividade absurda. Talvez a mesma criatividade que teve seu pai ao impor-lhe o castigo acima que tanto o marcou.

A obra de Hitch foi/é tão importante que com ele surgiu uma nova espécie de filme, os chamados "filmes de autor" Ou seja:

Se hoje se fala num filme de Spielberg, de Copolla ou de Oliver Stone isso pode dever-se a este cineasta que orgulhosamente fazia sobressair "um filme de Alfred Hitchcock" na ficha técnica e criou o chamado "filme de autor". Até aí os realizadores "apagavam-se" perante o brilho das "estrelas" e assim passava um filme com Valentino ou com Mae West e ninguém sabia (nem queria saber) o nome do autor. Também, por estranhas razões, a maioria dos realizadores não gostava de exibir o seu nome ou a sua presença ao longo da metragem.


Hitch se colocava no mesmo nível de seus expectadores ou seja simplificava a linguagem dando ênfase no suspense, no clima, na música de fundo, sem vir com explicações elaboradas ou mesmo com cenas de difícil entendimento. Não era o terror explícito, mas o medo psicológico que envolvia toda a trama culminando num ponto alto ou mesmo em fragmentos que faziam um crime aparentemente perfeito.

Para quem tirou de um melão golpeado a faca, o som perfeito para a cena do chuveiro de Psicose, o que há mais para dizer que não seja: BRAVO. HITCH!

Hitchcock faleceu em Hollywood no dia 29 de Abril de 1980.



Leia: http://www.inversos.kit.net/hitchcock.htm

*desculpem o sumiço, estou sem acesso em casa. Este post esta sendo generosamente publicado pela crisinha. Valeu :)




7

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.


Mario de Sá-Carneiro - Lisboa, Fevereiro de 1914.





Filho único, infância solitária e conturbada, a perda da mãe aos 2 anos de idade e um pai ausente fizeram a poesia de Mario de Sá-Carneiro oscilar entre a excentricidade e a busca da perfeição.
Teve por único amigo Fernando Pessoa com quem trocou várias cartas. Pessoa tentou compreender o amigo o quanto pôde, mas foi em vão. Nada foi capaz de impedir o ritmo acelerado que levou Sá-Carneiro ao suícidio no dia 26 de abril de 1916.


"Personalidade dissociada, corroída pela neurose, agitando-se numa acuidade sensorial levada ao paroxismo, Sá-Carneiro encarna como ninguém as frustrações e os pesadelos de sua terra, dividida entre a nostalgia da glória, do luxo, do cristal e ouro do passado, e a atração pela modernidade, pelas luzes da renovação européia. Tudo nele é angústia pessoal e filtração de angústias coletivas. Nesse sentido, quando mais narcisista se debruça sobre si mesmo, dilacerando entre o fascínio a repugnância, mais ainda - e sem que jamais o saiba - traduz o fatos de Portugal."



Epígrafe


A sala do castelo é deserta e espelhada.


Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?...
Aqui, tudo já foi... Em sombra estilizada,
A cor morreu --- e até o ar é uma ruína...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina ---
Um som opaco me dilui em Rei...

Mário de Sá-Carneiro





Publicou os seguintes livros: Amizade, peça em três atos (com Tomás Cabreira Junior), 1912; Dispersão, 12 poemas, 1914; A Confissão de Lúcio, narrativa, 1914; Céu em Fogo, novelas, 1915. Deixou inéditos Indícios de Ouro, poemas; e o primeiro capítulo de um novela intitulada Mundo Interior. Mário de Sá-Carneiro deixou a Fernando Pessoa a indicação de publicar sua obra, onde, quando e como lhe parecesse melhor. E assim fez seu amigo.




"Sá-Carneiro não teve biografia: teve só génio. O que disse foi o que viveu."

Fernando Pessoa






Leia: http://orbita.starmedia.com/mariodesa/biografia.htm







Ainda outro dia tive a oportunidade de conhecê-la na Feirinha de Livros do Colégio. Simples, sorridente, encantadora de crianças, uma fada mesmo. Já sabia da indicação para a ABL e secretamente torcia muito por ela.
No dia que ela foi, tive que dar palestras na Biblioteca para várias turminhas. Foi um dia especialmente cansativo, mas ela estava bem ali em outra sala, autografando livros, conversando com seus leitores, incansável. No dia anterior fiquei arrumando seus livros cuidadosamente, consertando os mais usados, dando uma boa espiada nas estorinhas, relendo algumas que marcaram época. Delícia!
A eleição de Ana Maria Machado para a ABL foi uma agradável confirmação. No fundo eu tinha certeza de que só podia ser dela aquele lugar.








"– Que será que o pessoal lá em casa vai dizer? Será que eu estou doente? Sarampo azul? Alergia? Será que pingou tinta? Será que é bolor?

Podia ser, quem sabe? Lembrava muito bem que, nos livros de Monteiro Lobato, às vezes o Visconde de Sabugosa caía atrás da estante e embolorava. Vai ver, era isso – livro embolora. E como ele vivia lendo... É... devia dar bolor... Era só passar a tarde ao ar livre, no sol, que ia ficar bom. Mas não ficou. E de noite, deitado na cama, enquanto o sono não vinha, teve certeza de que era ferrugem. E não conhecia nenhuma receita para tirar ferrugem, ainda mais azul."


(trecho de Raul da Ferrugem Azul)








Ana Maria Machado publicou sua primeira história infantil na revista Recreio, da Editora Abril, em 1969. Foi uma pioneira. Antes daquela data, literatura para crianças feita com seriedade quase não existia no Brasil. Havia somente o exemplo do brilhante Monteiro Lobato, criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Mas no começo dos anos 70, quando o governo passou a fazer grandes compras para as escolas, criando um mercado para os livros didáticos, paradidáticos e juvenis, um time de autores entrou nesse campo, entre os quais Ana Maria, Ruth Rocha e Lygia Bojunga Nunes. Esta última, aliás, também já ganhou o Hans Christian Andersen, em 1982. Além do Brasil, só Estados Unidos, Alemanha e Suécia já tiveram mais de um autor premiado.

Segundo os críticos, um dos principais dons de Ana é penetrar no pensamento das crianças. "Ela é tão boa nisso que chega a causar inveja", diz o escritor Pedro Bandeira. Ana afirma que tudo se deve "à boa memória e à experiência": ela cresceu entre oito irmãos, teve diversos sobrinhos e já criou três filhos. Mas seus livros também são notáveis pela linguagem elaborada e, ao mesmo tempo, clara e direta. "Sou obcecada com o falar brasileiro e a oralidade", diz ela. Entre suas obras principais estão livros como Bisa Bia Bisa Bel e Raul da Ferrugem Azul (ambos com vendagem de 500.000 exemplares). Vale notar que ela também publicou bons livros adultos, como Tropical Sol da Liberdade.

Longe do perfil da senhora bonachona contadora de história, Ana é uma mulher forte, independente. Chegou a se envolver com política, teve seu próprio carro envolvido em um sequestro durante os negros tempos da ditadura, foi presa e partiu para o exílio voluntário.

Ela escreveu quase todos os dias nos últimos trinta anos, de preferência pela manhã. Essa rotina não se alterou nem mesmo quando a autora descobriu que tinha um câncer de mama, em 1991, e passou a tratá-lo. Nesse período, ela redigiu o romance adulto Aos Quatro Ventos. Ana ainda hesita em falar da doença. "Extraí um dos seios e demorei para assimilar o impacto que isso causou em minha auto-imagem, em minha vida sexual", conta. Só em 1998, depois de passar pelo divã do analista, ela resolveu submeter-se a uma nova bateria de operações e reconstituir o seio. E essa reconstituição rendeu briga com o Plano de Saúde, briga da qual ela não fugiu. Alguém duvida do que ela capaz? Por suas mãos fadas, bruxas, duendes, magias e feitiçarias vivem e convivem conosco diariamente, o resto, ah! o resto vira encantamento...








"E então ele entrou voando, leve e lindo, brilhando e reluzindo. Um maravilhoso Boi Voador, Boi-Bumbá em todo seu esplendor. Negro como a noite mais profunda e cheio de estrelas, flores e brilhos de beleza. E enquanto ele voava, as franjas coloridas de seu manto dançavam com o vento. E tudo em volta aparecia nele por um momento. E os espelhinhos de sua garupa estrelada faziam uma festa de gala, refletiam cada pessoa e cada coisa da sala. E cada um, brotando no brilho antigo, voava uma voltinha com o boi manso e antigo."

(trecho de O Menino Pedro e Seu Boi Voador)






Leia: http://www.anamariamachado.com/





Shakespeare começou escrevendo aos 26 anos e parou aos 48 quando se retirou para Straford-on--Avon ao aposentar-se. No total foram 36 peças entre tragédias, dramas, comédias e peças tragicômicas. Também foi autor de uma série de poemas e sonetos, sendo que o primeiro deles foi Vênus e Adonis, aparecido em 1593.
Na sua época a profissão de escritor não era levada em consideração. Apesar de Shakespeare ter-se tornado um bem-sucedido homem de negócios e um excelente empreendedor, tudo indica que ele não se importava muito com o que escrevia. Ou pelo menos não tinha consciência do seu valor. Tanto é assim que quando morreu no seu lugarejo de nascença, em 1616 (dizem no mesmo dia que nasceu 23/04), não havia se dado ao trabalho de juntar seus escritos numa obra só. Deixou-os dispersos. Dois de seus amigos, os atores John Hemige e Henry Condell, felizmente recolheram quase tudo que estava espalhado e publicaram o primeiro in-fólio, em 1623. A interrogação que resta a fazer sobre a atitude de Shakespeare a respeito da sua obra é se ele minimizou a importância dos seus escritos a ponto de desconsiderá-los ou se realmente jamais teve um lampejo sequer sobre a importância extraordinária que ela iria ter no futuro.






"Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem diga... Nem todas, só as de verão.
Mas no fundo isso não tem muita importância.
O que interessa mesmo não são as noites em si, são os sonhos.

Sonhos que o homem sonha sempre.
Em todos os lugares, em todas as épocas do ano,
dormindo ou acordado."


Trecho da peça Sonhos de uma noite de verão.





Shakespeare foi um autor tão completo que ainda hoje suas peças são consideradas atuais e há quem diga que depois dele pouco se inovou com relação aos temas abordados na dramaturgia. Será?




"A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita por uma hora no placo, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muita barulheira, que nada significa."

Macbeth, Ato V, cena V


Leia: http://www.10emtudo.com.br/artigos_1.asp?CodigoArtigo=50


* Em tempo: Fica o registro do falecimento de Mauro Rasi. Ficamos menos alegres, menos irreverentes, menos descontraidos. Com ele a crítica bem humorada e certeira se vai. O que consola é saber que uma Pérola espera por ele. Ciao, Mauro.





Pierre Abélard natural da Bretanha, professor e filósofo nasceu em 1079, falecendo em 21 de abril de 1142. A sua vida pessoal, marcada pela paixão por Heloísa, tem ofuscado os escritos filosóficos, da Introdução à Teologia, de 1115, a Da Unidade e da Trindade Divina.
Não é para menos, tanto que virou filme. Conheci a história de Abelardo e Heloisa, quando por acaso peguei numa locadora o filme "Em nome de Deus". Recomendo. É excelente e além de dar um retrato da época conta a história do filósofo Abelardo e claro, sua história de amor com Heloísa. Tem amor, paixão, ódio, suspense, renúncia, sofrimento e conflito, com um ingrediente especial: foi tudo real.



Abelardo e Heloísa - Uma História de Amor


"Em todas as situações de minha vida (Deus sabe), temo mais te ofender do que ofender a Deus, e desejo mais te agradar do que agradá-lo. Foi tua ordem, e não o amor de Deus, que me trouxe para a vida religiosa. Vê, pois, que vida infeliz e de todas a mais infeliz, levo eu, se, agora, em vão, suporto tantos sofrimentos, pois nenhuma recompensa haverei de ter no futuro"

Heloísa para Abelardo.



O romance entre o filósofo Abelardo e Heloísa, se deu no século XII. Pierre Abélard era um filósofo e teólogo francês e Heloísa sobrinha de um cônego. Este amor resultou no nascimento de uma criança e eles casaram secretamente. O tio dela vingou-se de Abelardo mandando sequestrá-lo e castrá-lo. Depois deste cruel castigo, Abelardo entrou para a vida religiosa e Heloísa, seguindo o padrão do destino partilhado entrou na ordem de freiras beneditinas e mais tarde se tornaria madre superiora no convento do Paracleto, fundado por Abelardo.
Abelardo construiu uma escola-mosteiro ao lado da escola-convento de Heloísa. Viam-se diariamente, mas não se falavam nunca. Apenas trocavam cartas apaixonadas. Abelardo morreu em 1142, com 63 anos, Heloísa ergueu um grande sepulcro em sua homenagem, e faleceu algum tempo depois, sendo, por iniciativa de suas alunas, sepultada ao lado de Abelardo.
Conta-se que, ao abrirem a sepultura de Abelardo, para ali depositarem Heloísa, encontraram seu corpo ainda intacto e de braços abertos, como se estivesse aguardando a chegada de Heloísa.

Romantismos à parte, tanto no filme quanto no que se lê a respeito, vemos que Heloísa era mais combativa, apaixonada e intensa. Se Abelardo tivesse chamado ela teria ido sem pestanejar, teria se encontrado com ele quantas vezes ele quisesse mesmo depois dos votos. Por ele, ela seguiu a vida religiosa, apenas porque ele determinou, porque secretamente ela sabia que era mais um meio de estar perto dele ainda que tão longe.


Trecho de uma carta de Heloísa a Abelardo - séc. XII


"...Só tu tens o poder de me entristecer, de me fazer feliz ou trazer consolo; és tu o credor de enorme dívida, especialmente agora, quando acabo de cumprir tuas ordens de forma tão completa que, quando sentia em mim fraquejar as forças para fazer-te oposição, me comprazia em encontrar energia no teu plano para me destruir. Fiz mais. Por estranho que soe, meu amor atingiu tais atmosferas de loucura que se destituiu do que mais prezava, para além de qualquer esperança de recuperação, quando ao teu imediato comando troquei minhas vestes e com elas meus pensamentos para provar que és o único senhor do meu corpo e minha vontade. Deus é testemunha de que nunca busquei em ti nada além de ti; eras tu o que eu simplesmente desejava, e nada do que era teu. Não busquei laços de casamento, poção casamenteira, e não busquei gratificar meu próprio prazer e meus desejos, como bem sabes, mas os teus. O nome de esposa pode parecer mais sagrado ou aceitável, mas para mim a palavra mais doce sempre será amante, ou, se me permitires, concubina ou puta."






Leia mais: http://www.pucsp.br/~filopuc/verbete/abelardo.htm
Veja: Em nome de Deus (Stealing Weaven, 1988, Inglaterra/ Iugoslávia)
Direção: Clive Donner
Narra a história verídica do amor entre o filósofo cristão Abelardo e a inteligente Heloísa, na França do século II. Transmite o peso das pressões religiosas medievais sobre a vida das pessoas.



Cético nas coisas do amor, materialista se apoiava em termos científicos para compor seus poemas. Era na verdade um incompreendido.
Augusto dos Anjos tem sua obra toda em um livro, EU. Livro destinado ao esquecimento e o desprezo como foi pelos críticos da época, não fosse uma surpreendente aceitação popular.
Nascido a 20 de abril de 1884, era uma figura extremamente sensível, introspectivo, triste, a dor de todos era a sua dor, mas não fazia das belas e açucaradas palavras uso para sua poesia. Ficou conhecido como o Poeta da Morte.
Antônio Houaiss diz a esse respeito: "Eis porque lhe chamo poeta da morte", porque não amava nem a Vida nem o Amor. Estava no seu direito, na sua fatalidade".






O amor da humanidade é uma mentira.
É. E é por isso que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.
O amor! Quando virei por fim a amá-lo?

Augusto do Anjos







A Louca
a Dias Paredes


Quando ela passa: - a veste desgrenhada,
O cabelo revolto em desalinho,
No seu olhar feroz eu adivinho
O mistério da dor que a traz penada.

Moça, tão moça e já desventurada;
Da desdita ferida pelo espinho,
Vai morta em vida assim pelo caminho,
No sudário de mágoa sepultada.

Eu sei a sua história. - Em seu passado
Houve um drama d’amor misterioso
- O segredo d’um peito torturado -

E hoje, para guardar a mágoa oculta,
Canta, soluça - coração saudoso,
Chora, gargalha, a desgraçada estulta.



Augusto dos Anjos






A originalidade de seus poemas é indiscutível, mas o poeta, polêmico, só encontraria compreensão e aceitação a partir de 1928, quatorze anos depois de sua morte. Em vida não teve sorte e a luta para ganhar o sustento de sua família e muitas vezes ludibriado o deixava desanimado.
Quando a vida parece entrar nos eixos e ele começa a atuar como professor, adoece a 31 de outubro: apanha uma forte gripe que se complica, torna-se pneumonia e, apesar dos cuidados médicos, Augusto dos Anjos morre a 12 de novembro de 1914, com pouco mais de trinta anos.


O jornalista, poeta, músico e sobretudo amigo querido, Rodrigo de Souza Leão fez uma espécie de entrevista mediúnica com poemas de Augusto dos Anjos aqui. Vale a pena ler.



Leia: http://orbita.starmedia.com/asfloresdomal/augusto.htm
http://intermega.com.br/balacobacoonline/balacoedicoes2.htm







Eu ia ficar com Augusto dos Anjos e pronto. Já tinha preparado, resumido e postado para vocês, ai li aqui um post falando do blog. Sem querer jamais desmerecer o carinho de vocês e é sempre muito mais do que mereço, acreditem, esse post foi diferente porque esta num blog que fui pela primeira vez hoje. Não sei se é coisa da madrugada, essa música tocando lá longe, esse filme rolando sozinho na TV, não sei, mas me emocionou como ela percebeu sem me conhecer essa paixão pelos livros, pela literatura. Tudo bem, o blog trata disso, o nome dá uma pista, mas não é só isso. Assim como tento com as crianças lá no colégio, na Biblioteca, tento aqui também aliciar vocês, confesso. Não é copiar e colar, não é só postar todos os dias qualquer coisa, é escolher, é contar a história, uma história interessante, de maneira interessante ou pelo menos tentar. É instigar a leitura. Eu sei que posts grandes nem sempre são lidos, vivemos correndo, sei que o que é interessante pra mim, pode não ser para vocês, mas ainda acredito que uma história, qualquer história é boa quando bem contada...ah! caramba, é uma dificuldade vencer a mediocridade, a timidez para escrever aqui, para receber visitas e os comentários sempre carinhosos e pra lá de generosos de vocês. O post dessa menina foi só o starte que eu precisava para dizer: MUITO, MUITO OBRIGADA A TODOS VOCÊS!!!









ENTREVISTA RELÂMPAGO COM PABLO NERUDA



Cheguei à porta do edifício de apartamentos onde mora Rubem Braga e onde Pablo Neruda e sua esposa Matilde se hospedavam - cheguei à porta exatamente quando o carro parava e retiravam a grande bagagem dos visitantes. O que fez Rubem dizer: "É grande a bagagem literária do poeta". Ao que o poeta retrucou: "Minha bagagem literária deve pesar uns dois ou três quilos".
Neruda é extremamente simpático, sobretudo quando usa o seu boné ("tenho poucos cabelos, mas muitos bonés"). Não brinca porém em serviço: disse-me que se me desse a entrevista naquela noite mesma só responderia a três perguntas, mas se no dia seguinte de manhã eu quisesse falar com ele, responderia a maior número. E pediu para ver as perguntas que eu iria fazer. Inteiramente sem confiança em mim mesma, dei-lhe a página onde anotara as perguntas, esperando só Deus sabe o quê. Mas o quê foi um conforto. Disse-me que eram muito boas e que me esperaria no dia seguinte. Saí com alívio no coração porque estava adiada a minha timidez em fazer perguntas. Mas sou uma tímida ousada e é assim que tenho vivido, o que, se me traz dissabores, tem-me trazido também alguma recompensa. Quem sofre de timidez ousada entenderá o que quero dizer.
Antes de reproduzir o diálogo, um breve esboço sobre sua carga literária. Publicou Crepusculário quando tinha 19 anos. Um ano depois publicava Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, que até hoje é gravado, reeditado, lido e amado. Em seguida escreveu Residência na terra, que reúne poemas de 1925 a 1931, em fase surrealista. A terceira residência, com poemas até 1945, é um intermediário com uma parte da Espanha no coração, onde é chorada a morte de Lorca, e a guerra civil em geral que o tocou profundamente e despertou-o para os problemas políticos e sociais. Em 1950, Canto geral, tentativa de reunir todos os problemas políticos, éticos e sociais da América Latina. Em 1954: Odes elementares, em que o estilo fica mais sóbrio, buscando simplicidade maior, e onde se encontra, por exemplo, Ode à cebola. Em 1956, novas odes elementares que ele descobre nos temas elementares que não tinham sido tocados. Em 1957, Terceiro livro das odes, continuando na mesma linha. A partir de 1958, publica Estravagario, navegações e regressos, Cem sonetos de amor, Contos cerimoniais e Memorial de Isla Negra.
No dia seguinte de manhã, fui vê-lo. Já havia respondido às minhas perguntas, infelizmente: pois, a partir de uma resposta, é sempre ou quase sempre provocada outra pergunta, às vezes aquela a que se queria chegar. As respostas eram sucintas. Tão frustrador receber resposta curta a uma pergunta longa.
Contei-lhe sobre a minha timidez em pedir entrevistas, ao que ele respondeu: "Que tolice!"

Perguntei-lhe de qual de seus livros ele mais gostava e por quê. Respondeu-me:


- Tu sabes bem que tudo o que fazemos nos agrada porque somos nós - tu e eu - que o fizemos.


- Você se considera mais um poeta chileno ou da América Latina?


- Poeta local do Chile, provinciano da América Latina.


- O que é angústia? - indaguei-lhe.


- Sou feliz - Foi a resposta.


- Escrever melhora a angústia de viver?


- Sim, naturalmente. Trabalhar em teu ofício, se amas teu ofício, é celestial. Senão é infernal.


- Quem é Deus?


- Todos, algumas vezes. Nada, sempre.


- Como é que você descreve um ser humano o mais complexo possível?


- Político, poético. Físico.


- Como é uma mulher bonita?


- Feita de muitas mulheres.


- Escreva aqui o seu podema predileto, pelo menos predileto neste exato momento?


- Estou escrevendo. Você pode esperar por mim dez anos?


- Em que lugar gostaria de viver, se não vivesse no Chile?


- Acredite-me tolo ou patriótico, mas eu há algum tempo escrevi um poema:

Se tivesse que nascer mil vezes. Ali quero nascer.Se tivesse que morrer mil vezes. Ali quero morrer...


- Qual foi a maior alegria que teve pelo fato de escrever?


- Ler a minha poesia e ser ouvido em lugares desolados: no deserto aos mineiros do norte do Chile, no Estreito de Magalhães aos tosquiadores de ovelha, num galpão com cheiro de lã suja, suor e solidão.


- Em você o qeu precede a criação, é a angústia ou um estado de graça?


- Não conheço bem esses sentimentos. Mas não me creia insensível.


- Diga alguma coisa que me surpreenda.


- 748.


(E eu realmente surpreendi-me, não esperava uma harmonia de números).
- Você está a par da poesia brasileira? Quem é que você prefere na nossa poesia?



- Admiro Drummond, Vinícius e aquele grande poeta católico, claudelino, Jorge de Lima. Não conheço os mais jovens e só chego a Paulo Mendes Campos e Geir Campos. O poema que me agrada é o "Defunto", de Pedro Nava. Sempre o leio em voz alta aos meus amigos, em todos os lugares.


- Que acha da literatura engajada?


- Toda literatura é engajada.


- Qual de seus livros você mais gosta?


- O próximo.


- A que você atribui o fato de que os seus leitores acham você o 'vulcão da América Latina'?


- Não sabia disso, talvez eles não conheçam os vulcões.


- Qual é o seu poema mais recente?


- "Fim do Mundo". Trata do século XX.


- Como se processa em você a criação?


- Com papel e tinta. Pelo menos essa é a minha receita.


- A crítica constrói?


- Para os outros, não para o criador.


- Você já fez algum poema de encomenda? Se o fez faça um agora, mesmo que seja um bem curto.


- Muitos. São os melhores. Este é um poema.


- O nome Neruda foi casual ou inspirado em Juan Neruda, poeta da liberdade tcheca?


- Ninguém conseguiu até agora averiguá-lo.


- Qual é a coisa mais importante do mundo?


- Tratar de que o mundo seja digno para que todas as vidas humanas, não só para algumas.


- O que é que você mais deseja para você mesmo como indivíduo?


- Depende da hora do dia.


- O que é amor? Qualquer tipo de amor.


- A melhor definição seria: o amor é o amor.


- Você já sofreu muito por amor?


- Estou disposto a sofrer mais.


- Quanto tempo gostaria você de ficar no Brasil?


- Um ano, mas depende de meus trabalhos.


E assim terminou uma entrevista com Pablo Neruda. Antes falasse ele é mais. Eu poderia prolongá-la quase que indefinidamente, mesmo recebendo como resposta uma única seta de resposta. Mas era a primeira entrevista que ele dava no dia seguinte à sua chegada, e sei quanto uma entrevista pode ser cansativa. Espontaneamente, deu-me um livro. Cem sonetos de amor. E depois de meu nome, na dedicatória, assinou: "De seu amigo Pablo". Eu também sinto que ele poderia se tornar meu amigo, se as circunstâncias facilitassem. Na contracapa do livro diz: "Um todo manifestado com uma espécie de sensualidade casta e pagã: o amor como uma vocação do homem e a poesia como sua tarefa".
Eis um retrato de corpo inteiro de Pablo Neruda nestas últimas frases.


Clarice Lispector entrevistou personalidades para as revistas Manchete (final dos anos 60) e Fatos e Fotos ( 1975/1977).





Leia: http://www.geocities.com/Paris/Concorde/9366/entrevistas/neruda.htm










TOM JOBIM
"Minhas sinfonias são inéditas."

Tom Jobim e eu já nos conhecíamos: ele foi o meu padrinho no Primeiro Festival de Escritores, quando foi lançado meu livro A maçã no escuro. E ele fazia brincadeiras: segurava o livro na mão e perguntava: quem compra? quem quer comprar? Para este diálogo, marcamos às seis da tarde: às seis e trinta e cinco tocavam a campainha da porta. E era o mesmo Tom que eu conhecia: bonito, simpático, com um ar puro malgré lui, com os cabelos um pouco caídos na testa. Um uísque na mesa e começamos quase que imediatamente a entrevista.

- Como é que você encara o problema da maturidade?


- Tem um verso do Drummond que diz: "A madureza, esta horrível prenda..." Não sei Clarice, a gente fica mais capaz, mas também mais exigente.


- Não faz mal, Tom, a gente exige bem.


- Com a maturidade, a gente passa a ter consciência de uma série de coisas que antes não tinha, mesmo os instintos os mais espontâneos passam pelo filtro. A polícia do espaço está presente, essa polícia que é a verdadeira polícia da gente. Tenho notado que a música vem mudando com os meios de divulgação, com a preguiça de se ir ao Teatro Municipal. Quero te fazer esta pergunta, Clarice, a respeito da leitura de livros, pois hoje em dia estão ouvindo televisão e rádio de pilha, meios inadequados. Tudo o que escrevi de erudito e mais sério fica na gaveta. Que não haja mal-entendido: a música popular considero-a seríssima. Será que hoje em dia as pessoas estão lendo como eu lia quando garoto, tendo o hábito de ir para a cama com um livro antes de dormir? Porque sinto uma espécie de falta de tempo da humanidade - o que vai entrar mesmo é a leitura dinâmica. Que é que você acha?


- Sofro se isso acontecer, que alguém me leia apenas no método do vira-página dinâmico. Escrevo com amor e atenção e ternura e dor e pesquisa, e queria de volta, como mínimo, uma atenção e um interesse como o seu, Tom. E no entanto o cômico é que eu não tenho mais paciência de ler ficção.


- Mas aí você está se negando, Clarice!


- Não, meus livros felizmente para mim não são superlotados de fatos, e sim da repercussão dos fatos no indivíduo. Há quem diga que a música e a literatura vão acabar. Sabe quem disse ? Henry Miller. Não sei se ele queria dizer para já ou para daqui a trezentos ou quinhentos anos. Mas eu acho que nunca acabarão.


Riso feliz de Tom:
- Pois eu, sabe, também acho!


- Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal.


- E mineral também, e vegetal também! (Ele ri.) Acho que sou um músico que acredita em palavras. Li ontem o teu O búfalo e A imitação da rosa.


- Sim, mas é a morte às vezes.


- A morte não existe, Clarice. Tive uma (uma com agá: huma) experiência que me revelou isso. Assim como também não existe o eu nem o euzinho nem o euzão. Fora essa experiência que não vou contar, temo a morte vinte e quatro horas por dia. A morte do eu, eu te juro, Clarice, porque eu vi.


- Tem alguma coisa além do eu, Tom?


- Além de tudo (ri) e vivam os estudantes! Se eu não defender os estudantes, estou desprotegendo meus filhos. Se esse eco do sucesso não nos interessa em vida, muito menos depois da morte. Isso é o que eu chamo de mortalidade.



- Você acredita na reencarnação, Tom?



- Não sei. Dizem os hindus que só entende de reencarnação quem tem consciência das várias vidas que viveu. Evidentemente, não é o meu ponto de vista: se existe reencarnação, só pode ser por um despojamento.



Dei-lhe então a epígrafe de um de meus livros: é uma frase de Bernard Berenson, crítico de arte: "Uma vida completa talvez seja aquela que termina em tal identificação com o não-eu que não resta um eu para morrer."


- Isto é muito bonito, é o despojamento. Caí numa armadilha porque sem o eu, eu me neguei. Se nós negamos qualquer passagem de um eu para outro, o que significa reencarnação, então a estamos negando.



- Não estou entendendo nada do que estamos falando mas faz sentido. Como podemos, Tom, falar do que não entendemos? Vamos ver se na próxima reencarnação nós dois nos encontramos mais cedo. Que é que você acha do fato da liderança do mundo estar hoje na mão dos estudantes?



- Acho que não podia ser de outra forma e que venham os estudantes. Vladimir sabe disso.



- A sociedade industrial organiza e despersonaliza demais a vida. Você não acha, Tom, que está reservado aos artistas o papel de preservar a alegria do mundo? Ou a consciência do mundo?



- Sou contra a arte de consumo. Claro, Clarice, que eu amo o consumo... Mas do momento em que a estandardização de tudo tira a alegria de viver, sou contra a industrialização. Sou a favor do maquinismo que facilita a vida humana, jamais a máquina que domina a espécie humana. Claro, os artistas devem preservar a alegria do mundo. Embora a arte ande tão alienada e só dê tristeza ao mundo. Mas não é culpa da arte porque ela tem o papel de refletir o mundo. Ela reflete e é honesta. Viva Oscar Niemeyer e viva Vila-Lobos! Viva Clarice Lispector! Viva Antônio Carlos Jobim! A nossa, Clarice, é uma arte que denuncia. Tenho sinfonias e músicas de câmara que não vêm à tona.



- Você não acha que é dever seu o de fazer a música que sua alma pede? Pelas coisas que você disse, suponho que significa que o nosso melhor está dito para as elites?



- Evidentemente que nós, para nos expressarmos, temos que recorrer à linguagem das elites, elites estas que não existem no Brasil... Eis o grande drama de Carlos Drummond de Andrade e Vilas-Lobos.



- Para quem você faz música e para quem eu escrevo, Tom?



- Acho que não nos foi perguntado nada a respeito, e, desprevenidos, ouvimos no entanto a música e a palavra, sem tê-las realmente aprendido de ninguém. Não nos coube a escolha: você e eu trabalhamos sob uma inspiração. De nossa ingrata argila de que é feito o gesso, ingrata mesmo para conosco. A crítica que eu nos faria, Clarice, nesse confortável apartamento no Leme, é de sermos seres rarefeitos que só se dão em determinadas alturas. A gente devia se dar mais, a toda hora, indiscriminadamente. Hoje quando leio uma partitura de Stravinsky ainda mais sinto uma vontade irreprimível de estar com o povo, embora a cultura jogada fora volte pelas janelas - estou roubando C.D.A.



- Por que nós todos somos parte de uma geração quem sabe se fracassada?



- Não concordo absolutamente! - disse Tom.



- É que sinto que nós chegamos ao limiar de portas que estavam abertas - e por medo ou pelo que não sei, não atravessamos plenamente essas portas. Que no entanto têm nelas já gravado o nosso nome. Cada pessoa tem uma porta com seu nome gravado, Tom, e é só através dela que essa pessoa perdida pode entrar e se achar.




- Batei e abrir-se-vos-á.




- Vou confessar a você, Tom, sem o menor vestígio de mentira: sinto que se eu tivesse tido coragem mesmo, eu já teria atravessado a minha porta, e sem medo de que me chamassem de louca. Porque existe uma nova linguagem, tanto a musical quanto a escrita, e nós dois seríamos os legítimos representantes das portas estreitas que nos pertencem. Em resumo e sem vaidade: estou simplesmente dizendo que nós dois temos uma vocação a cumprir. Como se processa em você a elaboração musical que termina em criação? Estou simplesmente misturando tudo, mas não é culpa minha, Tom, nem sua: é que esta entrevista foi se tornado meio psicodélica.




- A criação musical em mim é compulsória. Os anseios de liberdade nela se manifestam.



- Liberdade interna ou externa?



- A liberdade total. Se como homem fui um pequeno-burguês adaptado, como artista me vinguei nas amplidões do amor. Você desculpe, eu não quero mais uísque por causa de minha voracidade, tenho é que beber cerveja porque ela locupleta os grandes vazios da alma. Ou pelo menos impede a embriaguez súbita. Gosto de beber só de vez em quando. Gosto de tomar uma cerveja mas de estar bêbado não gosto.
(Foi devidamente providenciada a ida da empregada para comprar cerveja.)



- Tom, toda pessoa muito conhecida, como você, é no fundo o grande desconhecido. Qual é a sua face oculta?




- A música. O ambiente era competitivo, e eu teria que matar meu colega e meu irmão para sobreviver. O espetáculo do mundo me soou falso. O piano no quarto escuro me oferecia uma possibilidade de harmonia infinita. Esta é a minha face oculta. A minha fuga, a minha timidez me levaram inadvertidamente, contra a minha vontade, aos holofotes do Carnegie Hall. Sempre fugi do sucesso, Clarice, como o diabo foge da cruz. Sempre quis ser aquele que não vai ao palco. O piano me oferecia, de volta da praia, um mundo insuspeitado, de ampla liberdade - as notas eram todas disponíveis e eu antevi que se abriam os caminhos, que tudo era lícito, e que se poderia ir a qualquer lugar desde que fosse inteiro. Subitamente, sabe, aquilo que se oferece a um menor púbere, que o grande sonho de amor estava lá e que este sonho tão inseguro era seguro, não é, Clarice ? Sabe que a flor não sabe que é flor. Eu me perdi e me ganhei, enquanto isso sonhava pela fechadura os seios de minha empregada. Eram lindos os seios dela através do buraco da fechadura.




- Tom, você seria capaz de improvisar um poema que servisse de letra para uma canção?
Ele assentiu e, depois de uma pequena pausa, me ditou o que se segue:




Teus olhos verdes são maiores que o mar. Se um dia eu fosse tão forte quanto você eu te desprezaria e viveria no espaço. Ou talvez então eu te amasse. Ai! que saudades me dá da vida que nunca tive!



- Como é que você sente que vai nascer uma canção?



- As dores do parto são terríveis. Bater com a cabeça na parede, angústia, o desnecessário do necessário, são os sintomas de uma nova música nascendo. Eu gosto mais de uma música quanto menos mexo nela. Qualquer resquício de savoir-faire me apavora.



- Tom, Gauguin, que não é meu predileto, disse no entanto uma coisa que não se deve esquecer, por mais dor que ela nos traga. É o seguinte: "Quando tua mão direita estiver hábil, pinta com a esquerda; quando a esquerda ficar hábil, pinta com os pés". Isso responde ao seu terror do savoir-faire.



- Para mim a habilidade é muito útil mas em última instância a habilidade é inútil. Só a criação satisfaz. Verdade ou mentira, Clarice, eu prefiro uma forma torta que diga, a uma forma hábil que não diga.



- Você é quem escolhe os intérpretes? e os colaboradores?



- Quando posso escolher intérpretes, escolho. Mas a vida veio muito depressa. Gosto de colaborar com quem eu amo, Vinícius, Chico Buarque, João Gilberto, Newton Mendonça, Dolores Duran. E você?



- Faz parte de minha profissão estar mesmo sempre sozinha, sem colaboradores e intérpretes. Escute, Tom, todas as vezes em que eu acabei de escrever um livro ou um conto, pensei com desespero e com toda a certeza de que nunca mais escreveria nada. Você, que sensação tem quando acaba de dar à luz uma canção?




- Exatamente o mesmo. Eu sempre penso, Clarice, que morri depois das dores do parto.



- Vou agora lhe fazer as minhas três perguntas clássicas. Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? E o que é o amor?



- A coisa mais importante do mundo é o amor. Segunda pergunta: a integridade da lama, mesmo que no exterior ela pareça suja. Quando ela diz que sim, é sim, quando ela diz que não, é não. E durma-se com um barulho desses. Apesar de todos os santos, apesar de todos os dólares. Quanto ao que é o amor, amor é se dar, se dar, se dar. Dar-se não de acordo com o seu eu - muita gente pensa que está se dando e não está dando nada - mas de acordo com o eu do ente amado. Quem não se dá, a si próprio detesta, e a si próprio se castra. Amor sozinho é besteira.



- Houve algum momento decisivo na sua vida?


- Só houve momentos decisivos na minha vida. Inclusive ter de ir, aos 36 anos, aos Estados Unidos, por força do Itamarati, eu que gostava já nessa época de pijama listrado, cadeira de balanço de vime, e o céu azul com nuvens esparsas.



- Muitas vezes, nas criações em qualquer domínio, pode-se notar tese, antítese e síntese. Você sente isso nas canções? Pense.



- Sinto demais isso. Sou um matemático amoroso, carente de amor e de matemática. Sem forma não há nada. Mesmo no caótico há forma.



- Quais foram as grandes emoções de sua vida como compositor e na sua vida pessoal?



- Como compositor nenhuma. Na minha vida pessoal, a descoberta do eu e do não-eu.



- Qual é o tipo de música brasileira que faz sucesso no exterior?



-Todos os tipos. O velho mundo, Europa e Estados Unidos estão completamente exauridos de temas, de força, de virilidade. O Brasil, apesar de tudo, é um país de alma extremamente livre. Ele conduz à criação, ele é conivente com os grandes estados de alma.






Clarice Lispector entrevistou personalidades para as revistas Manchete (final dos anos 60) e Fatos e Fotos ( 1975/1977).



leia: http://www.geocities.com/Paris/Concorde/9366/entrevistas/tom.htm













VINÍCIUS DE MORAIS
"Detesto tudo que oprime o homem, inclusive a gravata."



MULHER, POESIA, MÚSICA


- Vinícius, acho que vamos conversar sobre mulheres, poesia e música. Sobre mulheres porque corre a fama de que você é um grande amante. Sobre poesia porque você é um dos nossos grandes poetas. Sobre música porque você é o nosso menestrel. Vinícius, você amou realmente alguém na vida? Telefonei para uma das mulheres com quem você casou, e ela disse que você ama tudo, a tudo você se dá inteiro: a crianças, a mulheres, a amizades. Então me veio a idéia de que você ama o amor, e nele inclui as mulheres.



- Que eu amo o amor é verdade. Mas por esse amor eu compreendo a soma de todos os amores, ou seja, o amor de homem para mulher, de mulher para homem, o amor de mulher por mulher, o amor de homem para homem e o amor de ser humano pela comunidade de seus semelhantes. Eu amo esse amor mas isso não quer dizer que eu não tenha amado as mulheres que tive. Tenho a impressão que, àquelas que amei realmente, me dei todo.




- Acredito, Vinícius. Acredito mesmo. Embora eu também acredite que quando um homem e uma mulher se encontram num amor verdadeiro, a união é sempre renovada, pouco importam as brigas e os desentendimentos: duas pessoas nunca são permanentemente iguais e isso pode criar no mesmo par novos amores.




- É claro, mas eu ainda acho que o amor que constrói para a eternidade é o amor paixão, o mais precário, o mais perigoso, certamente o mais doloroso. Esse amor é o único que tem a dimensão do infinito.




- Você já amou desse modo?




- Eu só tenho amado desse modo.




- Você acaba um caso porque encontra outra mulher ou porque se cansa da primeira?




- Na minha vida tem sido como se uma mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque esse amor paixão pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que está expresso com felicidade no dístico final do meu soneto "Fidelidade": "que não seja imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure".



- Você sabe que é um ídolo para a juventude? Será que agora que apareceu o Chico, as mocinhas trocaram de ídolo, as mocinhas e os mocinhos?



- Acho que é diferente. A juventude procura em mim o pai amigo, que viveu e que tem uma experiência a transmitir. Chico não, é ídolo mesmo, trata-se de idolatria.



- Você suporta ser ídolo? Eu não suportaria.



- Às vezes fico mal-humorado. Mas uma dessas moças explicou: é que você, Vinícius, vive nas estantes dos nossos livros, nas canções que todo mundo canta, na televisão. Você vive conosco, em nossa casa.



- Qual é a artista de cinema que você amaria?



- Marilyn Monroe. Foi um dos seres mais lindos que já nasceram. Se só exisitisse ela, já justificaria a existência dos Estados Unidos. Eu casaria com ela e certamente não daria certo porque é difícil amar uma mulher tão célebre. Só sou ciumento fisicamente, é o ciúme de bicho, não tenho outro.



- Fale-me sobre sua música.




- Não falo de mim como músico, mas como poeta. Não separo a poesia que está nos livros da que está nas canções.




- Vinícius, você já se sentiu sozinho na vida? Já sentiu algum desamparo?




- Acho que sou um homem bastante sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo da solidão.




- Isso explicaria o fato de você amar tanto, Vinícius.




- O fato de querer me comunicar tanto.




- Você sabe que admiro muito seus poemas, e, mais do que gostar, eu os amo. O que é a poesia para você?




- Não sei, eu nunca escrevo poemas abstratos, talvez seja o modo de tornar a realidade mágica aos meus próprios olhos. De envolvê-la com esse tecido que dá uma dimensão mais profunda e conseqüentemente mais bela.




- Reflita um pouco e me diga qual é a coisa mais importante do mundo, Vinícius?




- Para mim é a mulher, certamente.




- Você quer falar sobre sua música? Estou esperando.




- Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas.

Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.



Fizemos uma pausa. Ele continuou:



- Tenho tanta ternura pela sua mão queimada...


(Emocionei-me e entendi que este homem envolve uma mulher de carinho.) Vinícius disse, tomando um gole de uísque:

- É curioso, a alegria não é um sentimento nem uma atmosfera de vida nada criadora. Eu só sei criar na dor e na tristeza, mesmo que as coisas que resultem sejam alegres. Não me considero uma pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho que estou vivendo num momento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando me libertar. O paradigma máxima para mim seria: a calma no seio da paixão. Mas realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.




- Como é que você se deu dentro da vida diplomática, você que é o antiformal por excelência, você que é livre por excelência?



- Acontece que detesto tudo o que oprime o homem, inclusive a gravata. Ora, é notório que o diplomata é um homem que usa gravata. Dentro da diplomacia fiz bons amigos até hoje. Depois houve outro fato: as raízes e o sangue falaram mais alto. Acho muito difícil um homem que não volta ao seu quintal, para chegar ou pelo menos aproximar-se do conhecimento de si mesmo.




- Como pessoa, Vinícius, o que é que desejaria alcançar?




- Eu desejaria alcançar outra coisa. Isso de calma no seio da paixão. Mas desejaria alcançar uma tal capacidade de amar que me pudesse fazer útil aos meus semelhantes.




- Quero lhe pedir um favor: faça um poema agora mesmo. Tenho certeza de que não será banal. Se você quiser, Menestrel, fale o seu poema.



- Meu poema é em duas linhas: você escreve uma palavra em cima e outra embaixo porque é um verso.

É assim:

Clarice
Lispector


- Acho lindo o teu nome, Clarice.




- Você poderia me dizer quais as maiores emoções que já teve? Eu, por exemplo, tive tantas e tantas, boas e péssimas, que não ousaria falar delas.




- Minhas maiores emoções foram ligadas ao amor. O nascimento de filhos, as primeiras posses e os últimos adeuses. Mesmo tendo duas experiências de quase morte - desastre de avião e de carro - mesmo essa experiência de quase morte nem de longe se aproximou dessas emoções de que te falei.




- Você se sente feliz? Essa, Vinícius, é uma pergunta idiota, mas que eu gostaria que você respondesse.




- Se a felicidade existe, eu só sou feliz enquanto me queimo e quando a pessoa se queima não é feliz. A própria felicidade é dolorosa.




Meditamos um pouco, conversamos mais ainda., Vinícius saiu. Então telefonei para cada uma das esposas de Vinícius.


- Como é que você se sente casada com Vinícius?


Ela respondeu com aquela voz que é um murmúrio de pássaro:


- Muito bem. Ele me dá muito. E mais importante do que isso, ele me ajuda a viver, a conhecer a vida, a gostar das pessoas.




Depois conversei com uma mocinha inteligente:


- A música de Vinícius, disse ela, fala muito de amor e a gente se identifica sempre com ela.




- Você teria um 'caso' com ele?



- Não, porque apesar de achar Vinícius amorável, eu amo um outro homem. E Vinícius me revela ainda mais que eu amo aquele homem. A música dele faz a gente gostar ainda mais do amor. E "de repente, não mais que de repente", ele se transforma em outro: e é o nosso poetinha como o chamamos.
Eis pois alguns segredos de uma figura humana grande e que vive a todo risco. Porque há grandeza em Vinícius de Morais.




Clarice Lispector entrevistou personalidades para as revistas Manchete (final dos anos 60) e Fatos e Fotos ( 1975/1977).




http://www.geocities.com/Paris/Concorde/9366/entrevistas/vinicius.htm


"... Que nada nos limite/ Que nada nos impeça/ Que nada nos sujeite/ Que a liberdade seja/ A nossa própria substância" (Simone de Beauvoir)






Conta a história que uma amiga de Simone de Beauvoir, professora universitária como ela, encontrou-a no corredor e disse: "Escolhi uma turma só de meninos. Eles são melhores, mais atentos. Já as meninas ficam sonhando e fazem cada pergunta fraca..." Simone não deu ouvidos. Sorte da colega, que escapou de enfrentar a fúria de uma feminista nata, sensível e inteligente. Aos 17 anos, Simone já era bacharel em Filosofia pela Sorbonne e, aos 21, dava aulas na universidade. Convicta de sua crença na necessidade de uma revolução das mulheres, vociferava até contra os livros de história infantil: meninas medrosas, sempre salvas pelos garotos. Para a escritora, é assim que se começa a lavagem cerebral. Entre os livros que escreveu está o clássico O segundo sexo (1949), em que ataca o casamento e a maternidade como formas de submissão. Com o filósofo Jean-Paul Sartre, seu companheiro por mais de 50 anos, teve um relacionamento inédito na época. Eles nunca se casaram, viveram em casas separadas, embora vizinhos de porta, e foram assumidamente infiéis. Além do amor por Sartre, a escritora nutriu paixões homossexuais, como a que veio à tona nos anos 90, com a aluna Bianca Lamblin, que revelou a história em livro.


Claro que esse é o resumo do resumo da história dela. Simone era uma intelectual de inteligência privilegiada. Participante do grupo de escritores filósofos que deram uma transcrição literária dos temas do Existencialismo, ela é conhecida primeiramente por seu tratado Le Deuxième Sexe (1949 - O Segundo Sexo), um apelo intelectual e apaixonado pela abolição do que ela chamou o mito do "eterno feminino". Esta notável obra tornou-se um clássico da literatura feminista.

Educada em instituições privadas, Simone depois freqüentou a Sorbone onde, em 1929, concluiu filosofia e conheceu Jean-Paul Sartre, começando com ele um companheirismo por todo o resto da vida. Ela ensinou em várias escolas (1931-43) antes de voltar-se para escrever para se manter. Em 1945 ela e Sartre fundaram e começaram a editar Les Temps modernes, uma revista mensal, da qual eles próprios eram os principais colaboradores.





Suas novelas abordavam os principais temas Existenciais, demonstrando sua concepção do compromisso do escritor com sua época. L'Invitée (1943 - "A convidada") descreve a destruição do relacionamento de um casal sutilmente provocada pela permanência prolongada de uma jovem em sua casa, e também trata do difícil problema de relacionamento de uma consciência para com outra, cada consciência individual sendo fundamentalmente predadora da outra.

Preocupada também com o problema da velhice, que ela aborda em Une Mort très douce (1964 - "Uma morte suave"), sobre a morte de sua mãe num hospital, e La Vieillesse (1970; Old Age), uma amarga reflexão sobre a indiferença da sociedade pelos velhos. Em 1981 ela escreveu La Cérémonie des adieux ("Cerimônia do adeus"), um doloroso relato dos últimos anos de Sartre.

Considerada uma mulher corajosa e íntegra, Simone de Beauvoir viveu de acordo com sua própria tese de que as opções básicas de um indivíduo devem ser feitas sobre a premissa e uma vocação igual para o homem e a mulher fundadas na estrutura comum de seus seres, independentemente de sua sexualidade.




Trecho de A Força da Idade.


"Para que minha vida me bastasse, precisava dar seu lugar à literatura. Em minha adolescência e minha primeira juventude, minha vocação fora sincera mas vazia; limitava-me a declarar: "Quero ser uma escritora". Tratava-se agora de encontrar o que desejava escrever e ver em que medida o poderia fazer: tratava-se de escrever. Isso me tomou tempo. Eu jurara a mim mesma, outrora, terminar com vinte e dois anos a grande obra em que diria tudo; e tinha já trinta anos quando iniciei o meu primeiro romance publicado, A convidada. Na minha família e entre minhas amigas de infância, murmurava-se que eu não daria nada. Meu pai agastava-se: "Se tem alguma coisa dentro de si, que o ponha para fora". Eu não me impacientava. Tirar do nada e de si mesma um primeiro livro que, custe o que custar, fique em pé, era empresa, bem o sabia, exigente de numerosíssimas experiências, erros, trabalho e tempo, a não ser em virtude de um conjunto excepcional de circunstâncias favoráveis. Escrever é um ofício, dizia-me, que se aprende escrevendo. Assim mesmo dez anos é muito e durante esse período rabisquei muito papel. Não creio que minha inexperiência baste para explicar um malogro tão perseverante. Não era muito mais esperta quando iniciei A convidada. Cumpre admitir que encontrei então "um assunto" quando antes nada tinha a dizer? Mas há sempre o mundo em derredor; que significa esse nada? Em que circunstâncias, por que, como as coisas se revelam como devendo ser ditas?
A literatura aparece quando alguma coisa na vida se desregra; para escrever - bem o mostrou Blanchot no paradoxo de Aytré - a primeira condição está em que a realidade deixe de ser natural; somente então a gente é capaz de vê-la e de mostrá-la."


trecho de A Força da Idade (La Force de l'Age - 1960), livro de memórias de Simone de Beauvoir, no qual relembra o início de sua aventura literária, nos anos 30 e 40, ao lado de Sartre a quem o livro é dedicado.


Simone de Beauvoir faleceu no dia 14 de abril de 1986.





leia mais: http://www.copodemar.com.br/copo15.htm
http://www.culturabrasil.pro.br/sartre.htm
http://www.aartedapalavra.com.br/21entrevistassensoriaissimonebeauvoir.htm




"...não ter posição marcada, idéias, opiniões, fala desvairada.
Só de não ditos ou de delicadezas se faz minha conversa, e para não ficar louca e inteiramente solta neste pântano, marco para mim o limite da paixão, e me tensiono na beira: tenho de meu (discurso) este resíduo.
Não tenho idéias, só o contorno de uma sintaxe (= ritmo)."


ana cristina césar




Ana Cristina César nasceu num dia 2 de junho, 1952. "... Disposição ambígua (signo de gêmeos)", dirá em Correspondência Completa, em uma das muitas referências autobiográficas.

Há quem não goste e nem leve em consideração definições astrológicas de caráter e jeito de ser, particularmente acho mesmo que não dá para fazer disso uma referência do ponto de vista do valor literário dela, mas pessoalmente... bem, quem é de gêmeos sabe do que estou falando. Ambiguidade de poço profundo lâmina luminosa sem alcance do sol.

No dia 29 de outubro de 1983, tarde de um sábado, Ana se jogou do 8º andar de um prédio. Tinha 31 anos, já fazia parte do cenário literário local, falava várias línguas, tinha viajado o mundo, era formada em literatura, tinha mestrado em comunicação e pós-graduação em tradução literária feita fora do Brasil. Por que?





"Parece que há uma saída exatamente aqui onde eu pensava que
todos os caminhos terminavam. Uma saída de vida. Em pequenos
passos, apesar da batucada. Parece querer deixar rastros. Oh yea
parece deixar. Agora que você chegou não preciso mais me roubar. E
como farei com os versos que escrevi?"


ana cristina césar





Psicografia

Também eu saio á revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de Ter visto.


ana cristina césar





Apenas 40 minutos antes o poeta e amigo, Armando Freitas Filho conversara com ela ao telefone. Alguma desconfiança do porvir? Não. Apenas o telefonema da mãe comunicando o ocorrido. Por que?


"Tenho uma folha branca / e limpa à minha espera: / mudo convite / tenho uma cama branca / e limpa à minha espera: / mudo convite / tenho uma vida branca / e limpa à minha espera". ana cristina césar



Aos 4 anos, Ana ditava poemas para sua mãe, aos 7 ela mesma os escrevia e ainda criança começou a publicar seus escritos no Suplemento Literário da Tribuna da Imprensa. Ana fez parte da geração de poetas mais importantes dos anos 70. Considerada uma das principais poetas da chamada "geração-mimeógrafo. Novos poetas foram revelados no livro do qual ela fazia parte, 26 Poetas Hoje. Por que?




saberias então que hoje, nesta noite, diante desta gente,
não há ninguém que me interesse e meus versos
são apenas para exatamente esta pessoa que deixou de vir
ou chegou tarde, sorrateira, de forma que não posso,
gritar ao microfone com os olhos presos nos seus olhos
baixos, porque não te localizo e as luzes da ribalta
confundem a visão, te arranco, te arranco do papel,
materializo minha morte, chego tão perto que chego
a desaparecer-me, indecência, qualquer coisa de
excessivamente
oferecida, oferecida, me pasmo de falar para quem
falo, com que alacridade
sento aqui neste banco dos réus, raso,
e procuro uma vez mais ouvir-te respirando
no silêncio que se faz agora
minutos e minutos de silêncio, já.



ana c.




Em 1982 sairia A Teus Pés, seu único livro de poemas publicado em vida. Sua obra póstuma inclui os livros Inéditos e Dispersos (1985), Escritos na Inglaterra (1988) e Crítica e Tradução (1999).
Ana virou mito, não só pelo suicídio, esse ato extremo não faz de ninguém um grande talento. Sua obra testamento de sua competência, não deixa nenhuma dúvida. O que fica é: por que? Qual angústia última deu solução a janela aberta? Um vazio todo branco numa tarde de sábado. Se lançar assim no espaço tempo com todo um passado pela frente. O futuro seria jamais. Hoje, de Ana só nos resta ontem e uma vontade doida de saber quem realmente foi Ana C.




Que deslize

Onde seus olhos estão
as lupas desistem.
O túnel corre, interminável
pouco negro sem quebra
de estações.
Os passageiros nada adivinham.
Deixam correr
Não ficam negros
Deslizam na borracha
carinho discreto
pelo cansaço
que apenas se recosta
contra a transparente
escuridão.


ana c.





Leia: http://www.an.com.br/1999/dez/07/0ane.htm
http://www.na-cp.rnp.br/~murgel/textos/poema2.htm




** Para todos nós, em especial para Júlia.



Em 25 de novembro de 1974, uma segunda-feira, passava de meio-dia e Nick ainda não havia acordado. Sua mãe preocupada foi ver o que tinha acontecido. Encontrou Nick morto, vítima de uma dose fatal de Tryptizol. Suicídio, acidente? Nunca se soube ao certo. Virou mito. Ficou o cantor de folk de voz suave e letras profundas, daquelas que fazem pensar, um poeta de 1,90 de altura, incômodos ombros largos, um corpo esquio, uma tristeza constante.

Nicholas Rodney Drake, que nasceu em 19 de junho de 1948 em Ragoon, Birmânia, desde de sempre trouxe consigo um sentimento de inadequação, de estar sempre no lugar errado, de não querer estar, na verdade. Já se sentiu assim? Bem-Vindo ao clube! Outsiders, é assim que nos chamam, era assim que ele se sentia.
Proveniente de família rica, Nick estudou nos melhores colégios da Inglaterra. Aos oito anos ele foi estudar na Eagle House School, ficando lá até 1961, quando foi para Marlborough, uma das mais respeitadas escolas daquele país. Foi nessa época que Nick iniciou seu contato com a música, aprendendo a tocar clarineta, sax alto, piano e violão. Este último quem o ensinou foi um amigo, que disse que em uma semana Nick já era melhor do que ele. Nesse período ele se destacava como atleta, e a sua personalidade forte e a sua bela voz o fizeram se destacar no coral, na posição de figura principal do mesmo.
Com o passar do tempo e os conhecimentos certos, Nick aventurou-se no mundo da música. Seu primeiro álbum vendeu relativamente bem e ele se sentiu animado a prosseguir. Continuou compondo músicas de uma beleza comovente.


Saturday Sun came early one morning
O sol de sábado apareceu cedo em uma manhã
In a sky so clear and blue
Em um céu tão claro e triste
Saturday Sun came without warming
O sol de sábado veio sem aviso
So no-one knew what to do
E ninguém soube o que fazer
Saturday Sun brought people and faces
O sol de sábado trouxe pessoas e rostos

That didn't seem much in their day
Eles não entenderam o que fazer neste dia
But when I remember those people and places
Mas quando eu me lembro dessas pessoas e lugares
They were really too good in their way
Eles eram muito bons do jeito deles
In their way
Do jeito deles
In their way
Do jeito deles
Saturday Sun won't come and see me today
O sol de sábado não veio me ver hoje

Think about stories with reason and rhyme
Pensando a respeito de estórias com razões para rimar
Circling through your brain
Rodando dentro da sua cabeça
And think about the people in their season and time
E pensando a respeito de pessoas e suas razões e tempo
Returning again and again
Voltando mais e mais
And again
E de novo
And again
E de novo
And Saturday's sun has turned to Sunday rain
E o sol de sábado se transformou na chuva de domingo

So Sunday sat in the saturday sun
E o domingo se pôs no sol de sábado
And wept for a day gone by.
E chorou até o dia passar


Nick Drake


Na década de 70, Nick lança seu segundo álbum, complexo, dos arranjos às letras. Não foi bem recebido e conseqüentemente o sucesso esperado não veio. Nick já manifestava alguns sintomas da depressão que o acompanharia até a morte, aos 26 anos. Antes porém lançou seu último álbum, Pink Moon, só com voz e violão. Em seguida veio o colapso nervoso e o isolamento.

"Você não tem nada a temer / Porque os sonhos que você teve quando era tão jovem / Falavam de uma vida / Onde a primavera já passou". Cello song




Nick é um grande mistério até hoje. Sua casa continua na rota da peregrinação cult, seus discos são impossíveis de encontrar. Para escuta-lo, a posologia é a seguinte: esteja bem, esteja feliz, deite-se em algum lugar tranqüilo, se você estiver nos arredores de Londres, no sul da França ou em Terê, quem sabe, deite-se na grama e olhe o céu azul frio ensolarado de um dia de outono e só então escute Nick Drake e sua melancolia, seus versos precisos como em "Fly": "Por favor, conceda-me uma segunda graça / Por favor, conceda-me uma segunda face / Eu caí muito desde a primeira vez / E agora eu só sento aqui no chão, no seu caminho".
Ou ainda: "Know": "Saiba que eu te amo / Saiba que eu não ligo / Você sabe que eu lhe vejo / Você sabe que não estou lá"


Infelizmente ele não está mais aqui.


Leia: http://www.no.com.br/revista/noticia/21662/990241229000
http://www.whiplash.net/forceframe.html?/especiallist.mv?rec=60
Escute: http://inicia.es/de/hormigo55/lalunarosaesp.htm



** gostou [t]eu? esse foi pra mim e pra você :)


dos diários

Todos os dias tenho saudades. Nos dias de chuva, os pingos agravam, dilatam o estado de saudade.
"saudade é do rio a outra margem / mudança de estação / estiagem..." escrevi há tanto tempo e foi ontem, é hoje sempre. Essa melancolia de rua fracamente iluminada. Fim de noite em outro tempo qualquer.
Lá fora é a chuva fina na janela embaçada, aqui dentro a tentativa de sol todos os dias sempre e pontualmente falha. A chuva continua a cair a despeito das tentativas. Uma ausência avoluma-se a ponto de preencher o ambiente. Sempre foi assim, passas do estado fluídico para ausência presente. Quando olho para trás o passado não se transforma em estátua de sal, há nele os mesmos sons e cheiros, inocência de que a vida é para sempre e o amor eternizado naquele azul dos teus olhos. Nesse momento não há lugar nenhum no mundo para ir, ainda que por vontade própria ou imprópria intervenção do destino.
Nick Drake canta: E o domingo se pôs no sol de sábado / E chorou até o dia passar e eu penso, que não há outro dia que se torne melhor, porque não tenho nada que não me faça chorar...


refém

o tempo corre a revelia
os fios nas têmporas frias
a teia, a veia corrompida

no mar depuro
joio e trigo
além a linha
desfia horizonte

amanhã é sempre o mesmo dia.

andrea augusto©angeblue83


Conforme prometi a ela, aí esta...





Cartas

"Estou hoje num dos meus dias cinzentos, como diz nosso escritor; dia em que tudo é baço e pesado como a cinza, dia em que tudo tem a cor uniforme e nevoente dele, desse cinza em que eu às vezes sinto afundar o meu destino. Estou triste e vagamente parva, hoje, e no entanto, estou na capital do Alentejo; aos meus ouvidos chega o ruído dos automóveis, o barulho cadenciado das patas dos cavalos de luxo, o pregão forte e sensual que é toda a alma de mulher do povo, e por cima disto tudo, a espalhar vida, luz, harmonia, sinto o sol, um sol de fogo, o sol do meu Alentejo sensual e forte como um árabe de vinte anos! Pois tudo me irrita! Que direito tem o sol para se rir hoje tanto? Donde vem o brilho que Deus pôs, como um dom do céu, nos olhos das costureirinhas que passam? Donde vem a névoa de mágoa que eu trago sempre nos meus?! Vê?... É o dia pesado, o dia em que eu sou infinitamente impertinente e má como uma velhota de oitenta anos.
Eu odeio os felizes, sabes? Odeio-os do fundo da minha alma, tenho por eles o desprezo e o horror que se tem por um reptil que dorme sossegadamente. Eu não sou feliz mas nem ao menos sei dizer porquê. Nasci num berço de rendas rodeada de afectos, cresci despreocupada e feliz, rindo de tudo, contente da vida que não conhecia, e de repente, amiga, ao alvorecer dos meus 16 anos, compreendi muita coisa que até ali não tinha compreendido e parece-me que desde esse instante cá dentro se fez noite.
Fizeram-se ruínas todas as minhas ilusões, e, como todos os corações verdadeiramente sinceros e meigos, despedaçou-se o meu para sempre. Podiam hoje sentar-me num trono, canonizar-me, dar-me tudo quanto na vida representa para todos a felicidade, que eu não me sentiria mais feliz do que sou hoje. Falta-me o meu castelo cheio de sol entrelaçado de madressilvas em flor; falta-me tudo o que eu tinha dantes e que eu nem sei dizer-te o que era... É a história da minha tristeza. História banal como quase toda a história dos tristes."


Florbela Espanca




"...Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura. Grave e metódica até à mania, atenta a todas as subtilezas dum raciocínio claro e lúcido, não deixo, no entanto, de ser uma espécie de D. Quixote fêmea a combater moinhos de vento, quimérica e fantástica, sempre enganada e sempre a pedir novas mentiras à vida, num dar de mim própria que não acaba, que não desfalece, que não cansa! Toda, enfim, nesta frase a propósito de Delteil: "Très simple avec son enthousiasme à sa droite et son désespoir à sa gauche.""

Florbela Espanca




"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!"


Florbela Espanca








Vida

Florbela D'Alma da Conceição Espanca nasceu em 8 de dezembro de 1894 em Vila Viçosa, Alentejo, Portugal. Tinha um irmão, Apeles, filho de uma relação adúltera de seu pai. Florbela passou a infância sob os cuidados de Maria do Carmo , nunca conheceu a mãe e tinha profundo amor por Apeles, a única pessoa no mundo que possuia a mesma história de origem que ela, daí a grande cumplicidade entre os dois que até mesmo levou alguns a sugerirem um amor incestuoso. Em 1913 com Alberto de Jesus Silva Coutinho, com quem viveu 8 anos. Sustentavam-se dando aulas particulares. No quarto ano de casada concluiu o sétimo ano de Letras no liceu da cidade de Évora e resolveu matricular-se na Faculdade de Direito de Lisboa, Adquire nessa ocasião uma infecção nos pulmões e sofre uma depressão nervosa. Nesse período de doença travou conhecimento e relacionamento com inúmeros médicos e ela aproveita e exagera sua moléstia para angariar atenção.

Florbela casa e se separa diversas vezes, numa espécie de busca angustiada pela felicidade. Vive do saudosismo de um passado que não lhe foi muito risonho, mas do qual as lembranças cheias de mágoas lhe servem de alento . Foi uma mulher fora dos padrões da época. Apesar de toda a melancolia, escreve com muito vigor.



Morte


Florbela morreu a 7 de dezembro de 1930, em Matosinhos, tendo sido sepultada no dia seguinte, data em que completaria 36 anos de idade. Oficialmente, as causas de sua morte são naturais, mas a esta versão contrapõem-se a hipótese de suicídio, pois em Agosto de 1928 atentara contra sua vida.
Seu fado foi o de desejar ser Alguém, para Além dos limites do seu mundo e do seu tempo. Mesmo após a morte, por longo tempo os círculos sociais e culturais portugueses condenaram ao ostracismo, quando não ao repúdio, a sua vida e obra.




Leia: http://homepage.oninet.pt/021mak/




enviado pela s.g.





Ainda outro dia no jornal, a matéria de capa perguntava pelos nossos ídolos. E lá mesmo numa constelação de nomes estava a resposta, a grande maioria morreu, o que sobrou se enquadrou, envelheceu, os que estão surgindo não possuem o estofo necessário para serem ídolos, a não ser de si mesmos. Cansa. Faz tempo que o dia não nasce feliz. Faz tempo que a geração cara pintada não vai as ruas, não bate panelas, não tem uma ideologia que os faça lutar. Que nos faça lutar. O tempo não pára. Foi-se a urgência de vida, já sabemos que ninguém tem "uma vida toda pela frente" e às vezes o tempo é pouco pra tanta sede. Não disse Janis certa vez: "É preferível viver 10 anos intensamente à 70 anos vegetando na
frente de uma televisão." Ele não teve nem 10 anos de carreira, foram exatos 9 anos e a eternidade pela frente.

O que há para dizer de Cazuza que já não foi dito? Que ele era um poeta, um letrista fantástico, um burguês bem nascido que sabia que no Brasil ainda se morre de fome? Tudo isso e muito mais já foi dito, contado e cantado. Mas só entende quem perdeu, quem vê o tempo passar, quem tem a angústia de viver uma vida com as horas contadas, distribuídas regularmente ao longo da semana. Quem tem agenda e sabe que muito provavelmente a consulta marcada vai se realizar. O tédio da rotina, das coisas certas e acertadas. O prazo e a data. Ele não. Ele virava a noite, o dia nascia e ele ia dormir.


No one

Quem deve ser eu e aonde deve estar você, meu amor?
eu poeta afogado em rima sem gosto de vida
e você a vida rindo pra mim, ainda que invisível?
a vida feia em você e eu pintor visionário
tentanto retocar o que é cruel mas pulsa e faz sentido?

Mas certo que eu seja um romântico anacrônico
e você um trem que por distração eu tenha perdido.
(o tempo não espera por ninguém e já foi tudo dito)

Cazuza -1981







O poeta faria hoje 45 anos, chegaria na madrugada da semana seguinte com letras, amigos, apaixonado sempre.
Cazuza viveu o amor até a última gota e isso não é uma questão de opção sexual, isso pouco importa, cada um tem a sua, é uma questão de optar por viver e se entregar e-x-a-g-e-r-a-d-a-m-e-n-t-e. Mergulhar de cabeça, se arrebentar todo e lamber as feridas num canto. Cauterizar palavras, cicatrizar e se jogar de novo e de novo e sempre, num espaço azul céu fictício de uma boca qualquer.



Brigitte Bardot

Deus é amor sem segredo
nos olhos do cachorro
e a todo animal que ele quis que visse
sua obra já pronta.
Morro de medo dos teus olhos sem palavras
bigorrilhos, duques e xerifes
porque me viciei em sons codificados
porque eu sei que amar é abanar o rabo
lamber, latir e dar a pata.

Cazuza -1978



A setença de morte veio e ele se recusava a morrer. A criatividade transbordava e o corpo definhava. Antítese de si mesmo em vida e na agonia. Continuava caústico como sempre e ironizava como nunca.
Jamais seria santo e cantou o Céu e Inferno a sua maneira, "O reino dos Céus é do chato/ Do chato, do chato/ Do otário e do cagão".
"Se você quer saber como eu me sinto/ Vá a um laboratório ou num labirinto/ Seja atropelado pelo trem da morte/ Vá ver as cobaias de Deus (...) Nós somos as Cobaias de Deus."





Fase

Depois que eu descobri que era triste
as tardes ficaram mais azuis
eu descobri. Eu sou triste
depois que eu levei porrada
que os urubus se mostraram
depois da ingenuidade
entrei numa fase estranha
não reviro cores
não explodo a luz
estou sentado esperando
como os velhos palhaços do blues
o namorado que levou um bolo
um garoto perdido dos pais.

Cazuza - 1988






O século XXI caiu nos anos 80, os ídolos chegaram, deram seu recado e como o mundo anda se repetindo demais, é tudo a mesmice de sempre, puxaram o carro, foram para outro lado. Por aqui ficaram as histórias, os lugares, um tempo na memória, o resto tá impresso no vinil da vida que teima em continuar...



Lembre-se de mim


Se você ver um par de sapatos, um pra cima outro pra baixo
Ou um surfista elegante, de sociedade
Se você sentir que está ventando demais e não tiver agradável
O vento que tava tão bom
Então se lembre de mim
Com minha hipocrisia
Um amor como o nosso está fadado a acabar
E eu já não tenho mais fôlego pra soprar a fogueira
Você parece uma barata tonta, envenenada por Rodox
E teu barato tá muito descoordenado
E desse jeito não vai dar
Então se você ver um tarado na escada
Lembre-se de mim
Um vira-lata emocionado
Lembre-se de mim
Lembre-se de nós e a nuvem alaranjada
Lembre-se do nosso amor
Com as decisões que tomamos juntos
Das nossas músicas malucas
E esse talento de tomar a cena de assalto
Pagamos o preço, por não sermos medíocres
E gargalhamos de tudo
Lembre-se disso quando for falar mal de mim
Quando me atacar pelas costas
Lembre-se da nuvem e da luz
Alaranjada do lustre do quarto


Cazuza - 1989





Leia: http://www.cazuza.com.br/cazuza.htm
http://www.legiao-urbana.com.br/cazuza/index.htm








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caetano veloso, claro





Mãe, Mãe
Há muitas de vocês chorando
Irmão, Irmão
Há muito de vocês morrendo, distante
Você sabe que nós podemos descobrir uma maneira
De trazer amor para cá hoje

Pai, Pai,
Não precisamos ser escalados
Veja, guerra não é a resposta
Pois somente o amor pode vencer o ódio
Você sabe que nós podemos descobrir uma maneira
De trazer amor para cá hoje

Linhas de piquete e sinais
Não nos puna com brutalidade
Fale comigo, então você verá
O que está acontecendo
O que está acontecendo
Sim, o que está acontecendo

Nesse meio tempo
Siga em frente, baby
Siga em frente

Pai, Pai, tudo pensa que estamos errado
Mas quem são ele para nos julgar
Simplesmente porque nosso cabelo é longo
Você sabe que nós podemos descobrir uma maneira
De trazer algum entendimento aqui, hoje

Linhas de piquete e sinais
Não nos puna com brutalidade
Fale comigo, então você verã
O que está acontecendo
O que está acontecendo
Sim, o que está acontecendo

What´s Going On - Marvin Gaye





Início dos conturbados anos 70, no panorama mundial, os camaradas americanos estavam metidos em mais uma de suas guerras, naquela época o alvo eram os vietnamitas. O bicho tava pegando e já não dava para ficar em cima do muro. Na verdade, Marvin Gaye, o vozeirão da soul music americana não queria continuar fingindo que tudo estava bem. Andava cansado de ser o baladeiro romântico que a gravadora pressionava a ser.

Como dizia o babaca do Barry Gordon, dono da Motown: "Música é para entreter e não para fazer pensar". Talvez para alguém como ele que não tinha o mínimo necessário para pensar: miolos, pode até ser, para Marvin, não.
Já não dava mais para fingir que não havia um massacre acontecendo, que os negros não eram tratados como os brancos, que o mundo não estava acabando com suas riquezas naturais. Estava na hora de fazer pensar e nada melhor que a música para isso. Para desespero de Barry, Marvin se lançou nessa empreitada, gravou aquele que seria eleito em 1985, o disco do século: What´s Going On. Deixou para trás as músicas que exaltavam o sexo, as baladas românticas e investiu em temas marcantes, a guerra, ecologia, racismo e o preconceito. Se deu bem, entrou para história e se não tivesse sido morto estupidamente pelo próprio pai, completaria hoje 64 anos e quem sabe estaria cantando algo como: What porra is this, Mister Bush??



Leia: http://www.whiplash.net/forceframe.html?/especiallist.mv?rec=23