Para ler em dias cinzas de sol...







Vida ao Natural


Pois no Rio tinha um lugar com uma lareira. E quando ela percebeu que, além do frio, chovia nas árvores, não pôde acreditar que tanto lhe fosse dado. O acordo do mundo com aquilo que ela nem sequer sabia que precisava como numa fome. Chovia, chovia. O fogo aceso pisca para ela e para o homem. Ele, o homem, se ocupa do que ela nem sequer lhe agradece: ele atiça o fogo na lareira, o que não lhe é senão dever de nascimento. E ela - que é sempre inquieta, fazedora de coisas e experimentadora de curiosidades - pois ela nem se lembra sequer de atiçar o fogo: não é seu papel, pois se tem o seu homem para isso. Não sendo donzela, que o homem então cumpra a sua missão. O mais que ela faz é às vezes instigá-lo: "aquela acha", diz-lhe, "aquela acha ainda não pegou". E ele, um instante antes que ela acabe a frase que o esclareceria, ele por ele mesmo já notara a acha. Não a comando seu, que é a mulher de um homem e que perderia seu estado se lhe desse ordem. A outra mão dele, a livre, está ao alcance dela. Ela sabe, e não a toma. Quer a mão dele, sabe que quer, e não a toma. Tem exatamente o que precisa: pode ter.

Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja.

Clarice Lispector




Fragmentos


"Esse esforço que farei agora por deixar subir à tona um sentido, qualquer que seja, esse esforço seria facilitado se eu fingisse escrever para alguém. Mas receio começar a compor para poder ser entendida pelo alguém imaginário, receio começar a "fazer" um sentido, com a mesma mansa loucura que até ontem era o meu modo sadio de caber no sistema. Terei de ter a coragem de usar um coração desprotegido e de ir falando para o nada e para o ninguém? - assim como uma criança pensa para o nada - e correr o risco de ser esmagada pelo acaso."

" E eis que de repente eles param e mudos, graves, espantados se olham nos olhos: é que eles sabiam que um dia iriam amar."



"Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras."


Clarice Lispector













dos diários


Era assim que eu o sabia, sem ver, ouvir ou sentir, havia um lugar onde o indizível estava escrito e era o suficiente.Naquele dia oscilei entre tocar o avesso de mim mesma ou deixa-lo ir. Onde mais poderia encontra-lo? No escrito, a despedida é a mesma e a cada leitura excede a perda e o tempo não passa. Nunca clareia minha escuraessência .
Jamais voltarei ali.






cenário


desarrumei a casa
e deixei escorrer
nossas sombras
pelas paredes cansadas


todo dia, pontual
a tristeza passa
entre cantos e vãos


pelo chão, ilusões exaustas
tapetes desgastados
plenos de sentimentos remendados

pela janela, o cenário é abismo
saudades sem dono
no parapeito do tempo.



andrea augusto©angelblue83

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