Epitáfio


Eu parto com o ar - sacudo minha neve branca ao sol que foge
Desfaço minha carne em redemoinhos de espuma,
Entrego-me ao pó para crescer nas ervas que amo;
Se queres ver-me novamente, procura-me sob teus pés.
Dificilmente saberás quem sou ou o que significo;
Não obstante serei para ti boa saúde
E filtrarei e comporei teu sangue.
E se não conseguires encontrar-me, não desanimes;
O que não está numa parte esta noutra
Em algum lugar estarei a tua espera.

Walt Whitman







Walt Whitman nasceu em West Hills, Huntington (Long Island), a 31 de Maio de 1819, e foi educado com a rigidez característica dos quakers, comunidade de que sua mãe, fazia parte. Criança solitária, passava o tempo a vaguear pelas colinas ou a andar de barco pela costa oceânica.
De família pobre e numerosa começou a trabalhar cedo. Foi tipógrafo, mestre-escola, efémero director de um jornal diário (o Aurora), operário agrícola, enfermeiro, empregado de escritório.

"A poesia de Whitman se prende, substancialmente, às concepções por ele esboçadas no Prefácio da primeira edição de Leaves of Grass (suprimido nas edições subseqüentes em decorrência das violentas críticas de que foi alvo). Inspirado por Emerson, Whitman afirmou ali que "o maior poeta" só pode ser alguém que, amando profundamente o universo, possui o maior alcance, tanto no espaço quanto no tempo, pois seu domínio abarca toda a natureza e toda a história. Conhecendo o passado e o presente, ele pode igualmente prever o futuro, conhecer os recessos da alma humana e comungar com a divindade. É, em suma, um profeta, que há de substituir os sacerdotes das decadentes religiões estabelecidas."

Whitman era um poeta das massas, Tomava para si as grandes causas humanitárias, traduzindo em versos o que o espanto lhe provocava. Sua obra a princípio teve pouca repercussão, mas ele viveria o bastante para conhecer o sucesso e ter o devido reconhecimento.
A 26 de Março de 1892, aos 72 anos, morre paralítico. Foi sepultado em Camden (New Jersey).





Uma mulher espera por mim


Uma mulher espera por mim, nela tudo se contém, não falta nada,
No entanto faltaria tudo se lhe faltasse o sexo ou a humidade do homem certo.
Tudo se contém no sexo, corpos, almas,
Significados, provas, purezas, delicadezas, proclamações, efeitos,
Ordens, canções, higidez, orgulho, o mistério materno, o leite seminal,
As esperanças todas, bens, outorgas, todas as paixões, belezas, amores,
os deleites da terra,
Todos os governos, juizes, deuses, o cortejo de pessoas da terra,
Tudo se contém no sexo como partes de si e justificações de si.
Sem pejo o homem de quem gosto sabe e confessa as delicias do sexo,
Sem pejo a mulher de quem eu gosto sabe e confessa as do sexo dela.
Pois eu me afasto das mulheres insensíveis,
Para ficar com a que espera por mim, e com as mulheres de sangue
quente que me satisfazem,
Eu vejo que elas me compreendem e não me repudiam,
Vejo que são dignas de mim e eu serei delas o marido vigoroso.
Essas mulheres não são em nada inferiores a mim,
Têm o rosto tisnado pelo brilho dos sóis e pelo sopro dos ventos,
Há na carne delas, antigas e divinas, agilidade, força,
Elas sabem nadar, remar, montar, lutar, atirar, correr, bater,
recuar, avançar, resistir, defender-se sozinhas,
São supremas por direito próprio - são calmas, límpidas, donas de si mesmas.
Puxo vocês para junto de mim, mulheres,
Não as posso deixar ir. vou lhes fazer bem
Existo para vocês e vocês para mim, não apenas para o nosso bem,
mas para o bem dos outros,
Envoltos em você dormem grandes heróis e bardos,
Eles se recusam a acordar pelo toque de outro homem que não eu.
Sou eu, mulheres, abro o meu caminho,
Sou severo, cáustico, indissuadível, mas amo vocês,
Não as machuco mais que o necessário a vocês mesmas,
Derramo a substância geradora de filhos e filhas dignos destes
Estados, assedio com músculo pausado e rude,
Me firmo eficazmente, não dou ouvido a rogos,
Não ouso retirar-me sem depositar o que há de muito acumulei dentro de mim.
Através de vocês eu dreno os rios enclausurados de mim mesmo
Em vocês concentro mil anos de futuro,
Em vocês faço enxerto dos tão amados por mim e pela América,
As gotas que em vocês destilo farão medrar moças atléticas e ardentes, novos artistas, músicos, cantores,
As crianças que em vocês procrio vão procriar, por sua vez, outras crianças,
Exigirei, dos meus dispêndios amorosos, homens e mulheres perfeitos,
Eles irão se interpenetrar, espero, como eu e você agora nos interpenetramos,
Contarei com os frutos dos generosos aguaceiros deles como conto
com os frutos dos aguaceiros que ora entorno.
Vou ficar à espera das ternas colheitas do nascimento, vida, morte, imortalidade
Que tão amorosamente planto agora.


Walt Whitman

(Tradução José Paulo Paes)




Vou dormir
Poema escrito por Alfonsina Storni momentos antes do suicídio.

Dentes de flores, coifa de orvalho
mãos de ervas, tu, amável nutriz,
prepara-me os lençóis de terra
e a colcha de musgos capinados.

Vou dormir, ama-de-leite, deita-me,
põe uma lâmpada na minha cabeceira,
uma constelação qualquer;
todas são boas; inclina a luz mais um pouco.

Deixa-me só: ouve brotar os ramos...
lá do alto do céu um pé te embala
e um pássaro desdenha teus compassos


para que esqueças... Gracias. Ah, um recado:
se ele chamar novamente ao telefone
diga-lhe que não insista, que me fui...




Esse seria o último poema escrito por Alfonsina Storni antes de atirar-se ao mar. O mesmo mar que tantas vezes esteve presente na poesia dela.
Alfonsina Storni nasceu em 29 de maio de 1892, em Sala Capriasca, Suíça. Mas sua vida seria na Argentina para onde sua família imigrou em 1896.

"Ela escrevia com a intuição. Os poemas vinham à sua mente "prontos na forma e no conteúdo. Quase em transe ela escrevia a maioria dos sonetos em poucos minutos, a lápis, em um lugar público, um veículo em movimento, ou em seu leito, acordando a toda hora"- ainda que depois gastasse meses em revisões. Seus livros foram escritos aos poucos, entre tarefas esmagadoras que a impediram de "serenar-me, completar minha cultura, fazer uma sossegada obra de arte."

Poeta de natureza apaixonada, desvendava as paixões de cada um nas linhas sinuosas de seus poemas. Celebrava seus impulsos eróticos sem pudores ou hipocrisia. Após sua morte era declamada com igual paixão pelo povo, nas esquinas, nas ruas pelos amantes que encontravam eco em sua poesia.




A carícia perdida

Sai-me dos dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos... No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará... andará...
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?

Alfonsina Storni



Levou uma vida de privação e solidão. Começou cedo a trabalhar. Foi caixa, balconista, atriz e professora, precisava sustentar a si e ao único filho que teve, Alejandro.
Com a publicação de seus livros alcançou alguma estabilidade, ainda que financeira, emocionalmente suas angústias apropriavam-se de corpo e mente. Frequentou rodas literárias, recebeu um importante prêmio, fez conferências, teve oito livros publicados. Andou pelo mundo e voltou para casa.
Um câncer no seio, decepções, o suicídio de seu melhor amigo, o escritor Horacio Quiroga levaram Alfonsina de encontro ao mar ou de volta a ele, presença constante em sua vida. Sereno, a espera, acolheu-a definitivamente em outubro de 1938.
Seu corpo seria encontrado no dia 25 de outubro de 1938 na praia de La Perla, onde hoje há um monumento em sua homenagem.




Leia: http://www.anamirandaliteratura.hpg.ig.com.br/carosamtex3.htm
http://www.contenidos.com/literatura/storni/vida.htm



Conheci a história da vida dessa mulher atravês do modo como ela morreu. Lembro que a primeira coisa que li sobre ela, antes de conhecer a pessoa fascinante que foi, era uma matéria que dizia: ...morreu estrangulada pela própria écharpe, que se prendeu numa das rodas do carro em que estava, em Nice. A príncipio ri, né? Quem usaria uma echarpe gigantesca que fosse capaz de enroscar -se nas rodas de um carro provocando-lhe a morte??? Quem? Isadora Duncan, a bailarina que reinventou a dança.

A bailarina e coreógrafa americana Isadora Duncan foi pioneira da dança moderna, criando coreografias inspiradas na arte clássica grega. Além de ter revolucionado a dança, lutou pelo direito das mulheres na virada do século XX. Ela foi a primeira bailarina a dançar descalça e completava os movimentos com echarpes coloridas jogadas sobre os ombros. Também ousou dançar músicas de grandes compositores, então só tocadas em concertos e recitais. Essa fascinante mulher, nascida no dia 27/05/1877 viria para reinventar o balé.

Hoje em dia é natural que uma bailarina dance com vestes transparentes como um ninfa, descalça, que crie seus próprios movimentos inspirada por um sensiblidade aguçada, mas em se tratando da América de 1907, era de uma ousadia ímpar.
Isadora foi a bailarina que odiava o balé. Chegou a escrever mais tarde: "Sou inimiga do balé, o qual considero arte falsa e absurda, que de fato está de fora de todo o âmbito da arte". Detestava sapatilhas e malhas, por isso dançava descalça, sempre com uma túnica esvoaçante sobre sua silhueta esguia. Para Isadora, corpo e natureza eram uma coisa só. Por isso, além de inspirar-se na Grécia antiga, inspirou-se também no mar. Escreveu em seu diário que tentava imitar o ritmo das ondas.




"Aprendi a andar; desde então, deixo-me correr, aprendi a voar, desde então não preciso mais que me empurrem para mudar de e lugar. Agora sou leve, agora eu vôo... agora um deus dança em mim."
Isadora Duncan




Isadora desprezava o casamento, jamais se casou e teve vários amantes. Além da dança, Isadora dedicou-se também ao ensino. Fundou, com sua irmã Elisabeth em Berlim, sua primeira escola onde passou adiante seus princípios. Bastante empolgada com os ideais da revolução soviética, abriu também uma escola em Moscou em 1921.





A vida de Isadora parecia um conto de fadas, era uma mulher livre, fazia o que amava e dançava como queria, teve grandes paixões, dispertou outras tantas, mas como parece a sina das grandes vidas pagou um preço alto por isso.
Teve dois filhos, um com o ator, encenador e cenógrafo inglês, Eduard Gordon Craig e outro com o poeta soviético Serge Essenin. No livro "Minha vida", sua biografia, ela descreve as crianças como pequenos anjinhos de cachos loiros e o acidente que os matou dilacerando sua vida. Acabado o almoço as crianças iriam com a governanta para casa, Isadora ficaria no estúdio para ensaiar, despediu-se de Deirdre e Patrick, seus filhos, diante do carro. Ainda momentos antes de partir, Deirdre encostou seus lábios na janela embaçada pelo frio e recebeu um beijinho de sua mãe. Despediram-se e essa seria a última vez que os veria. Naquele mesmo dia as crianças morreriam afogadas, quando o automóvel em que iam caiu no rio Sena, Paris, França.

Por muito tempo Isadora dizia escutar suas vozes pela casa, suas risadas e passos. Nos dias seguintes, fechou-se em casa. Não recebia visitas. Só saía do estúdio de Neuilly para caminhar ao longo do Sena. Seus irmãos a visitavam e um deles Raymond convenceu-a a ir com ele e a esposa para a Albânia, a fim de ajudar refugiados gregos. Foram para Corfu.

A miséria imperava no campo de refugiados. Isadora viu homens, mulheres e crianças morrerem de fome. Esquecendo seu sofrimento, empregou seu dinheiro levantando tendas e comprando alimentos e medicamentos. Ela e Raymond organizaram um centro de tecelagem onde os refugiados conseguiam ganhar um dracma por dia.

Tempos depois outra tragédia se abateria sobre ela, o poeta soviético com quem vivia na época enforcou-se com a correia de sua mala. No dia anterior, escreveria um poema com o próprio sangue, que terminava assim:

" Não há nada de novo no morrer,
Mas o que há de novo no viver?"



Ela nutria-se da dança para sobreviver e foi assim que deu continuidade a sua vida até o dia 14 de setembro de 1927. Quando entrou no carro e ajeitou o xale que lhe cobria o pescoço. O motorista girou a manivela e instalou-se no lugar do piloto. O veículo deslizou. O xale de Isadora dançava ao vento. Alguns metros adiante, as franjas do xale prenderam-se na roda. A cabeça de Isadora foi lançada para trás e a nuca foi quebrada. Morreu estrangulada.
Terminava assim a vida da bailarina Isadora Duncan, a ninfa que deslizava descalça pelos palcos do mundo.



leia mais: http://www.dunia.com.br/inspiracao/isadora.htm
http://www.revistaetcetera.com.br/06/teatro/duncan1.htm


Para ler em dias cinzas de sol...







Vida ao Natural


Pois no Rio tinha um lugar com uma lareira. E quando ela percebeu que, além do frio, chovia nas árvores, não pôde acreditar que tanto lhe fosse dado. O acordo do mundo com aquilo que ela nem sequer sabia que precisava como numa fome. Chovia, chovia. O fogo aceso pisca para ela e para o homem. Ele, o homem, se ocupa do que ela nem sequer lhe agradece: ele atiça o fogo na lareira, o que não lhe é senão dever de nascimento. E ela - que é sempre inquieta, fazedora de coisas e experimentadora de curiosidades - pois ela nem se lembra sequer de atiçar o fogo: não é seu papel, pois se tem o seu homem para isso. Não sendo donzela, que o homem então cumpra a sua missão. O mais que ela faz é às vezes instigá-lo: "aquela acha", diz-lhe, "aquela acha ainda não pegou". E ele, um instante antes que ela acabe a frase que o esclareceria, ele por ele mesmo já notara a acha. Não a comando seu, que é a mulher de um homem e que perderia seu estado se lhe desse ordem. A outra mão dele, a livre, está ao alcance dela. Ela sabe, e não a toma. Quer a mão dele, sabe que quer, e não a toma. Tem exatamente o que precisa: pode ter.

Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja.

Clarice Lispector




Fragmentos


"Esse esforço que farei agora por deixar subir à tona um sentido, qualquer que seja, esse esforço seria facilitado se eu fingisse escrever para alguém. Mas receio começar a compor para poder ser entendida pelo alguém imaginário, receio começar a "fazer" um sentido, com a mesma mansa loucura que até ontem era o meu modo sadio de caber no sistema. Terei de ter a coragem de usar um coração desprotegido e de ir falando para o nada e para o ninguém? - assim como uma criança pensa para o nada - e correr o risco de ser esmagada pelo acaso."

" E eis que de repente eles param e mudos, graves, espantados se olham nos olhos: é que eles sabiam que um dia iriam amar."



"Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras."


Clarice Lispector













dos diários


Era assim que eu o sabia, sem ver, ouvir ou sentir, havia um lugar onde o indizível estava escrito e era o suficiente.Naquele dia oscilei entre tocar o avesso de mim mesma ou deixa-lo ir. Onde mais poderia encontra-lo? No escrito, a despedida é a mesma e a cada leitura excede a perda e o tempo não passa. Nunca clareia minha escuraessência .
Jamais voltarei ali.






cenário


desarrumei a casa
e deixei escorrer
nossas sombras
pelas paredes cansadas


todo dia, pontual
a tristeza passa
entre cantos e vãos


pelo chão, ilusões exaustas
tapetes desgastados
plenos de sentimentos remendados

pela janela, o cenário é abismo
saudades sem dono
no parapeito do tempo.



andrea augusto©angelblue83





No dia 22 de maio de 1885, faleceu um dos poetas românticos mais importantes da França, Vitor Hugo. Morreu rico, seu corpo foi levado do Arco do Triunfo ao Panthéon, acompanhado por um milhão de pessoas pelas ruas de Paris. Virou mito, lenda, referência. Foi feliz? Talvez, mas o preço foi alto.
Victor Hugo teve sucesso em vida, o que é raro e não morreu na miséria como é tão comum, mas a vida não foi tão generosa com ele.
A vida familiar do escritor foi repleta de tragédias. O irmão mais velho, Eugène, era apaixonado por Adèle, a amiga de infância com quem Hugo se casou. O irmão acabou no hospício. Adèle, nos braços de Sainte-Beuve, o principal crítico francês da época e amigo do escritor. Léopoldine, sua filha, morreu afogada em 1843. A outra filha, Adèle, se apaixonou por um tenente e morreu esquizofrênica num asilo, depois de perseguí-lo alucinadamente. Alguém se lembra do filme "A história de Adele H." com a belíssima Isabelle Adjani? Pois é, Adèle H. era filha de Victor Hugo.
A morte da esposa e de dois filhos provocaram nele um abatimento do qual nunca se recuperou completamente. Em 1878, seu estado piorou, devido à uma congestão cerebral que o levou a viver em reclusão na avenida que, no seu aniversário de 80 anos, em 1882, passaria a ter o seu nome.
O golpe final que acabou de abater Victor Hugo foi a morte de sua amante, Juliette, em 1883. Dois anos depois, ele faleceu.
A biografia é breve para uma vida extensa, de exílio, luta, glória, de intensa atividade literária como poeta e prosador ao longo de 60 anos, mas para quem ficou para a posteridade o que há para acrescentar? Victor Hugo fala por si.


Para não cair nos textos de sempre do escritor: "Desejo", Homem e Mulher", prefiro deixar uma carta dele para Adèle Foucher, do livro "Cartas do Coração". Livro do qual já falei por aqui. São cartas de algumas personalidades para suas paixões/amores. Muito interessante porque prova o que Fernando Pessoa poetizou, "todas as cartas de amor são ridículas". Ridículas e lindas, claro.



Sexta-feira à noite, 15 de março de 1822.

Após os dois deliciosos serões de ontem e anteontem, certamente não sairei esta noite, vou me sentar aqui e escrever a você. Além disso, minha Adèle, minha adorável e adorada Adèle, quanta coisa tenho a dizer! Oh! Deus, há dois dias que me pergunto a todo momento se tal felicidade não é um sonho. O que sinto não parece ser da Terra. Ainda não consigo compreender este céu sem nuvens.

Você ainda não sabe, Adèle, ao que me havia conformado. Ai de mim! E eu sei? Porque era fraco, imaginei-me calmo; porque me estava preparando para todas as loucuras do desespero, julguei-me corajoso e resignado. Ah, deixe-me cair humildemente aos seu pés, você é tão generosa, tão terna e tão forte! Estive pensando que o limite máximo da minha devoção só podia ser o sacrifício da minha vida: mas você, meu generoso amor, estava pronta a me sacrificar o repouso da sua.

Adèle, a que insanidades, a que delírio não se ia entregando o seu Vítor nestes intermináveis oito dias! Às vezes estava decidido a aceitar a oferta do seu amor admirável; achava que, se fosse levado ao extremo pela carta de meu pai, poderia levantar algum dinheiro e levá-la - a você, minha noiva, minha companheira, minha esposa - para longe de todos os que nos querem separar; achei que pudéssemos atravessar a França, eu como seu marido, e ir a outro país, onde nos dessem os nossos direitos. De dia viajaríamos na mesma carruagem, de noite dormiríamos sob o mesmo teto.

Mas não pense, minha nobre Adèle, que eu me aproveitaria de tanta felicidade. Não é verdade que nunca me atribuiria a infâmia de pensar em tal coisa? Você seria o objeto mais digno de respeito, a criatura mais respeitada por seu Victor; poderia até dormir no mesmo quarto sem temer que ele a alarmasse com um toque ou mesmo com um olhar. Eu apenas dormiria ou ficaria em vigília sentado numa cadeira ou estendido no chão ao lado do seu leito, sentinela do seu repouso, protetor do seu sono. O único direito de esposo a que este seu escravo aspiraria seria o de proteger, até que um sacerdote lhe concedesse os outros...

Adèle, oh! Não me odeie, não me despreze por ter sido tão fraco e abjeto enquanto você era tão forte e sublime! Considere a minha situação aflitiva, a minha solidão, o que eu esperava de meu pai; considere que por uma semana julguei perdê-la, e não se espante da extravagância do meu desatino. Você - uma criança - foi admirável. E penso que seria lisonjear um anjo compará-la com ele. Você foi privilegiada ao receber todos os dons da natureza, a firmeza e as lágrimas. Oh! Adèle, não confunda estas palavras com cego entusiasmo - entusiasmo por você sempre o tive e crescerá a cada dia. A minha alma inteira lhe pertence. Se toda a minha existência não fosse sua, a harmonia do meu ser ter-se-ia perdido e eu teria morrido - morrido inevitavelmente.

Era nisso que pensava, Adèle, quando me chegou a carta que devia trazer a esperança ou o desespero. Se me ama, sabe qual foi a minha alegria. Não descreverei o que deve ter sentido.

Minha Adèle, por que não há outra palavra para isso a não ser alegria? Será que por não haver força na lingüagem humana para exprimir tamanha felicidade?

O repentino salto de melancólica resignação para a infinita felicidade parecia perturbar-me. Mesmo agora ainda estou fora de mim e às vezes tremo de despertar deste sonho divino.

Oh, agora é minha! Afinal é minha! Breve, dentro de alguns meses talvez, meu anjo irá repousar em meus braços, despertar em meus braços, viver aqui comigo. Todos os seus pensamentos em todos os momentos, todos os seus olhares serão para mim; todos os meus pensamentos, todos os meus momentos, todos os meus olhares serão para você! Minha Adèle!...

E agora você me pertencerá! Agora poderei gozar na terra a felicidade celeste. Vejo-a minha jovem esposa, em seguida uma mãe extremosa, mas sempre a mesma, sempre a minha Adèle, tão meiga, tão adorada na castidade da vida conjugal como nos dias virginais do seu primeiro amor - responda-me querida - diga-me se pode conceber a felicidade de um amor imortal na união eterna! E esse será o nosso amor por um dia...

Minha Adèle, nenhum obstáculo poderá levar-me a coragem agora, nem no que escrevo nem em minha tentativa de obter uma pensão, pois cada passo que dou para triunfar numa e noutra coisa me aproxima de você. Como qualquer coisa poderia agora me parecer penosa? Não me atribua tamanha fraqueza, imploro. Que é um pequeno esforço, quando se conquista tanta felicidade? Não implorei ao céus milhares de vezes que me deixasse possuí-la à custa de meu sangue? Oh, como sou feliz! Como vou ser feliz!

Adeus, meu anjo, minha adorada Adèle! Adeus! Beijo seus cabelos e vou para a cama. Ainda estou longe, mas posso sonhar com você. Talvez muito em breve esteja a meu lado. Adeus, perdoe o delírio de seu marido, que a beija e adora nesta vida e na outra.

O teu retrato?




Leia: http://veja.abril.uol.com.br/140301/p_152.html
http://www.vaidarcerto.com.br/artigo.php?acodigo=195




** Para quem esta no RJ fica a dica: não perca de jeito nenhum a Bienal. Estive por lá a trabalho e por prazer e simplesmente surtei de felicidade. Esta maravilhosa, dá para comprar muita coisa boa e já adianto que de tudo que comprei, um livro me é especial, de Clarice, claro! O livro é a reunião de entrevistas que ela fez para a Manchete, lembram que postei três delas aqui? Pois é, o livro é inacreditável, se chama: "De corpo inteiro", da Editora Rocco. Entrevistas maravilhosas com o toque todo especial de Clarice... sempre!



"Ele quis encontrar no mundo real a fraca imagem que sua alma, indefinidamente, contemplava. Ele não sabia onde ou como procurá-la. Mas uma premonição lhe disse que esta imagem iria encontrá-lo, independente do que fizesse. Os dois iriam se encontrar tranqüilamente, como já se conhecessem, como já tivessem se encontrado antes, talvez em um dos portões ou em algum lugar secreto. Os dois estariam sozinhos, cercados pela escuridão e pelo silêncio. E em um momento de suprema ternura, ele mudaria. Se desbotaria em algo impalpável diante de seus olhos e, num breve momento, ele se transformaria. Fraqueza, timidez e inexperiência tombariam diante dele naquele momento trágico."
"Retrato de um Artista Quando Jovem"



James Augustine Eloysios Joyce nasceu no dia 2 de Fevereiro de 1882, em Rathgar, subúrbio de Dublin, a capital da República da Irlanda. Filho de proletários à beira da pobreza, James Joyce foi educado dentro dos valores da Igreja Católica Romana. Os estudos foram realizados em escolas jesuíticas como Clongowes Wood College, Belvedere College e UCD. Porém, leituras de autores como Byron, Hardy, Ibsen e Yeats povoaram sua mente de adolescente e não muito depois, ele entrou em conflito com o Catolicismo.
Educado com rigor, Joyce desenvolveria uma personalidade multifacetada. Escritor revolucionário, pai dedicado, capaz de virar noites ao lado da filha doente e um obsceno de primeira são alguma delas.
Ulisses inaugura o romance moderno. Seus personagens, Stephen Dedalus, Leopold Bloom e Molly Bloom, enfrentam situações correspondentes aos episódios da Odisséia, de Homero. Nessa obra, Joyce reinventa a linguagem e a sintaxe. Radicaliza a linguagem narrativa, explorando processos de associação de imagens e recursos verbais, paródias estilísticas e o fluxo da consciência. Também incorpora teorias da psicanálise freudiana sobre o comportamento sexual. O livro é proibido no Reino Unido e nos Estados Unidos, onde só é liberado em 1936. Joyce sofre seguidas cirurgias em razão de problemas na visão. Sua última obra é Finnegans Wake (1939), na qual leva às últimas conseqüências as inovações estéticas e lingüísticas apresentadas em Ulisses.


Joyce teve uma vida de privações e sofrimento. Relutava em aceitar o diagnóstico de insanidade de sua filha. Quando o agravamento progressivo e intenso da doença de Lucia o obrigou a acatar de vez sua internação em clinicas psiquiátricas, só o fez para proteger Lúcia dela mesma. Durante algum tempo deixou de lado o andamento de seu livro "Finnegans Wake", para acompanhar de perto o tratamento da filha. A doença de Lucia marcaria profundamente vida e obra de Joyce.







Quando Joyce se tornou célebre, Nora exclamou um dia, rindo: "Não faço ideia se o meu marido é um gênio ou não, mas o que sei, de certeza, é que ele tem uma mente bem suja." Talvez se recordasse das cartas que ele lhe escrevera de Dublin, no célebre ano de 1909, quando ela ficou em Trieste. Segundo Maddox, essas mensagens íntimas, "obscenas mas não eróticas, com uma imagética demasiado escatológica, pueril e repetitiva" são importantes pelo o que revelam da relação entre Nora e Jim ( só ela é que o podia tratar por este diminutivo) e da sexualidade de ambos. (Richard Ellmann acabou por editar e publicar as famosas cartas, indo contra o desejo de Stephen, o neto do escritor).

Nora Barnacle que viria a ser companheira de Joyce por toda vida, era uma personalidade tão fascinante quanto o genial escritor. Em muitas biografias seu valor é minimizado por ser tratar de pessoa de cultura inferior a dele, uma simples empregada de hotel. Mas Nora exerceu influência sobre Joyce e foi capaz de viver com ele todas as obscenidades que a mente de Joyce imaginava.
"Joyce viveu sempre obcecado pelo "mistério" que rodeava a sexualidade da mulher, oscilando tortuosamente entre considerá-la santa ou prostituta. Nora era uma bela mulher de vinte anos, que fazia virar as cabeças, quando Joyce a abordou na rua, não a largando enquanto não marcou um primeiro encontro, ao qual, aliás, ela não compareceu. Joyce tinha ficado encantado com o que viu e ouviu. Apesar de míope reparou que as ancas dela se moviam livremente sob o vestido, criando uma imagem de sensualidade assumida. Para além do aspecto físico, Nora era possuidora de uma belíssima voz e respondia com espírito e desenvoltura às investidas do jovem escritor. Joyce detestava as meninas da sociedade piedosa e hipócrita de Dublin que se mostravam fascinadas por ele, ao mesmo tempo que o temiam. Era considerado um selvagem e nem todas as famílias bem pensantes gostavam de o receber, apesar de, já nessa altura, a sua genialidade ser do conhecimento público. Mas foi com Nora, com o seu riso contagiante e sem afetação, que Joyce se sentiu imediatamente à vontade. Ela era alguém muito independente que sabia o que custava a vida e conhecia todos os perigos que corriam as mulheres sozinhas, numa cidade como Dublin."

O primeiro encontro deles já deixava bem claro que Nora já tinha alguma vivência. Passearam pelas ruas que vão dar ao cais e foram até a área de Ringsend que, à noite, estava deserta. A atração entre ambos foi instantânea e Nora não perdeu tempo. Desabotoou as calças de Joyce e masturbou-o com mestria, "fazendo dele um homem". Era a primeira vez que Joyce tinha sexo de graça e o facto revestiu-se de grande importância. Habituado à sensação provocada pelos complexos de culpa, que a educação nos jesuítas contribuíra para exacerbar, ficou imediatamente fascinado com a franqueza e a desinibição de Nora. Em vez de "perder o respeito" por ela, como seria o caso se ele fosse um homem banal, apaixonou-se perdidamente. Anos mais tarde, a perícia dela nesse primeiro encontro, que fazia adivinhar uma experiência adquirida junto de outros homens, haveria de o torturar e provocar uma explosão de ciúmes, que levaram a uma crise muito séria.
Nora acompanhou Joyce em todas as provações, como mudança repetida de alojamento, pobreza extrema e até fome, controlou o seu alcoolismo, "suportou-o", como ele próprio dizia, e exerceu a sua influência em todos os sentidos, mantendo sempre um sentido de humor picante e uma capacidade de dar respostas rápidas e incisivas, que o fascinavam.
Joyce casou-se com ela pouco antes de morrer.

"Existe alguém que me entende?", perguntou Joyce certa vez. Sim, muitos leitores pelo mundo todo, alguns que ainda tentam entender seus livros, suas idéias, seu jeito, mas a resposta mais segura seria apenas uma: Nora.
No dia 13 de Janeiro de 1941, o maior escritor do Século 20 encontra a morte após uma operação de úlcera duodenal.


Leia: http://www.speculum.art.br/htm/james_joyce.htm
http://www.e-biografias.net/biografias/james_joyce.shtml
http://www.wapol.org/ornicar/articles/lsr0076.htm



*Esse post é pra você.





Silêncio


É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembranças de palavras. Se és morte, como te alcançar. É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível - sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro - tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz. A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes. Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas. Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece. O coração bate ao reconhecê-lo. Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta - como ardemos por ser chamados a responder - cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga - como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença. Até que se descobre - nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio. Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror - o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio. Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssimos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio. Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio, mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora. Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo - de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia - ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.


Clarice Lispector in "Onde estivestes de noite" - 7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro - 1994







Em vida teve apenas sete poemas publicados; após a sua morte foram encontrados mais de mil poemas.
Emily Dickison utilizou-se de temas universais na sua poesia, mas tratou-os de forma muito pessoal tornando-os singular.
Faleceu no dia 15 de maio de 1886, viveu em reclusão, uma vida introspectiva. Raramente saia de casa, na verdade raramente saia do próprio quarto, onde, sempre vestida de branco como uma noiva, escrevia seus poemas. Sua reclusão era tal que obteve do pai permissão para não ir a missa e suas poucas amizades se mantiveram por correspondência.
Sofreu severas crises depressivas e no final da vida se auto denominava "Imperatriz da Dor" e "Noiva do Espírito Santo".




277

e se eu disser que já é demais
e arrebentar portas carnais
e extrapolar compassos?

e se eu limar até o sabugo
além da dor além do luto
e liberar meus passos?

ninguém me pega mais - nem morta!
corram masmorras com revólveres
nada mais faz sentido

como o sorriso - nem me lembrem!
laços & fitas - shows mambembes
e o que morreu - comigo

(tradução de M C Ferreira)





Emily entendia o mundo como uma prisão, ansiava pela liberdade e com ela própria se angustiava ao ponto da loucura. Viveu solitária. Seu cosmo é o âmbito familiar, o que impressiona pela riqueza de temas de sua poesia.
"A diversidade dos temas por ela tratados é impressionante: a morte, a fé, Deus, a perda de amor, o transcendentalismo, a dor, a solidão, a própria poesia... Na sua apropriação estética de tais temas é conferido um novo vigor às palavras e seu ordenamento cria um poder redobrado de significações. É também característica de seu estilo a capacidade de dizer-nos muito com uma economia de palavras surpreendente. Na sua poesia um tema se destaca, o desespero, e é onipresente, estando associado à experiência do vazio."




Uma palavra morre
Quando falada
Alguém dizia.
Eu digo que ela nasce
Exatamente nesse dia.

Emily Dickinson






Pouco se sabe da vida de Emily Dickinson, na verdade ela é ainda um enigma a ser desvendado, se é que enigmas desvendados consigam reter o que se pressupõe. Da grande reclusa, como era conhecida, só se sabe pelas cartas e poemas, mas do que mais precisamos quando tudo esta ali nas linhas e entrelinhas de Emily? Nada, absolutamente nada.




Leia: http://www.uc.pt/ciberkiosk/pagina1/dickinson.html


* em breve especial Bienal do Livro - RJ





Como Rita nunca houve Gilda que lhe chegasse aos pés. Um simples streap-tease de luva fez dela um mito. Não era a blondie corriqueira dos anos dourados de Hollywood, nem tampouco morena. Era ruiva e fatal. Tinha um olhar irônico de quem tem um segredo a revelar e nunca revelou. Era bela, desejada e inacessível. Assim era Gilda, a imagem que a marcaria definitivamente. Rita era outra. Tão bela como Gilda, Rita não teve sorte na vida e no amor.
Sofreu abuso sexual do pai ainda na infância, teve inúmeros casamentos, seis ao todo.
Um deles interrompeu sua carreira e a pausa custou-lhe muito caro, após a separação, em 1951, ela não mais alcançaria a fama da década anterior.

Rita nasceu Margarita Carmen Dolores Cansino no Brooklyn, em Nova York, em 17 de outubro de 1918. Filha e neta de dançarinos, começou a dançar aos 3 anos de idade, na escola que a família tinha em Hollywood, e foi dançando com seu pai Eduardo que começou sua carreira nos palcos.

Chamada de "deusa do amor" por muitos, Rita Hayworth foi um dos grandes ícones do glamour e da beleza do cinema da década de 1940. Eternizada na pele de Gilda e nos frenéticos e deliciosos passos de dança com Fred Astaire em "Ao Compasso do Amor", o appeal de Rita era tão grande e tão forte, que a revista Empire, em 1995, a considerou uma das 100 estrelas de cinema mais sexy da história da indústria. A atriz, uma das pin-ups prediletas durante a Segunda Guerra, também recebeu homenagens curiosas: seu rosto foi colado a uma das bombas atômicas jogadas no atol de Bikini, durante testes no ano de 1946. Diz a lenda, também, que o popularíssimo drinque margarita é uma homenagem à Rita, depois de ter se apresentado em um bar na cidade de Tijuana, México.
Teve longa filmografia e sua última aparição nas telas de cinema foi em 1972, no filme "Ira Divina". Depois disso ela retirou-se da vida pública e submeteu-se a tratamentos para o mal de Alzheimer. A doença prevaleceu e tomou a vida de Rita Hayworth finalmente em 14 de maio de 1987.
Rita entrava definitivamente para a constelação das grandes divas de Hollywood.




leia: http://www.miscellaneous.com.br/domenica/Domenica_28j_gilda.htm










"Mas como podem eles, que já se atiraram uns aos outros e não mais se delimitam nem se distinguem, quer dizer, que nada mais possuem de seu, encontrar uma saída em si mesmos, no fundo de sua solidão já derramada?"

Rainer Maria Rilke




Rilke teve durante toda a sua vida uma companhia, a solidão. Filho único, foi educado pela mãe dentro de um rigoroso catolicismo como uma menina e obrigado pelo pai a freqüentar uma escola de cadetes, onde se sentia terrivelmente só. Talvez fosse mais um outsider, pensando bem, e como é bem próprio daqueles que não se encaixam em lugar nenhum, viajou pelo mundo durante boa parte de sua vida.





a solidão é como chuva.

sobe do mar nas tardes em declínio
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio
para cair do céu sobre a cidade

goteja na hora dúbia quando os becos
anseiam longamente pela aurora
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando
a solidão com os rios vão passando

rilke







Sua obra mais conhecida é "Cartas a um jovem poeta" onde ele mantém correspondência com o jovem Kappus, leitura indispensável para quem tem dúvidas. Dúvidas de que? De tudo, sobre tudo, sobre a real necessidade de seguir uma vocação ou apenas ter um trabalho, um título, uma vida dentro dos padrões.
Não parte daí nenhum julgamento do que é certo ou errado, mas sim o que move o ser humano no que ele tem de essencial, vital. No caso, o jovem poeta ainda em dúvida sobre sua vocação escreve a rilke e lhe pede ajuda no sentido de saber se deve ou não prosseguir pelo caminho das letras. As cartas entre os dois são trocadas entre 1903 e 1908. Não se sabe se Kappus tornou-se um poeta por profissão, mas sabe-se que muitos que vieram após ele e tiveram nas mãos este livro descobriram-se poetas.
Assim conta a história...




a hora inclina-se e toca em mim
com claro bater metálico
os sentidos me tremem. sinto: eu posso...
e colho o dia plástico.

nada estava acabado antes de eu ver:
todo o devir aguardando em quietude.
maduros meus olhares: a cada um
como uma noiva, chega a coisa ansiada.

nada é pequeno para mim: gosto de tudo
e tudo eu pinto sobre ouro com grandeza
e bem alto o levanto
sem saber de quem vai a alma libertar

rilke










Nascido em Praga em 1875, Rainer Maria Rilke viajou pela África do Norte e pela Europa e, na França, tornou-se secretário do escultor François Rodin. Escreveu em alemão várias obras em prosa, mas é mais conhecido por suas poesias, que se caracterizam pela nota espiritual e pelo gosto das imagens, como acontece em Elegias de Duíno, escritas entre 1912 e 1922.
Ao conhecer Lou Andréas-Salomé (que adoro e de quem já falei aqui), Rilke inicia um Diário: O diário de Florença. São as impressões do jovem poeta, de apenas 22 anos, completamente apaixonado por Lou, mulher culta e inteligente, amiga de Freud, Tolstói e Nietzsche, quinze anos mais velha do que ele, a musa inspiradora deste livro. "Sinto que minha alegria permanece impessoal e sem brilho, enquanto dela não participares como confidente", escreve Rilke nas primeiras linhas de seu diário. A relação tumultuada deu origem a um belo livro que não se furta em falar de tudo e não apenas da mola propulsora, sua paixão por ela.




se ao menos uma vez tudo se aquietasse
se se calassem o talvez e o mais ou menos
e o riso à minha volta...
se o barulho que fazem meus sentidos
não perturbasse mais minha vigília...

então, num pensamento multifário
poderia eu pensar-te até aos teus limites
e possuir-te (só o tempo de um sorriso)
e oferecer-te a vida inteira, como
um agradecimento






Rilke faleceu no dia 29 de dezembro de 1926 em Valmont (Suiça). Deixou mais que belos versos, prosas regadas de poesia em puro estado, deixou-nos uma interrogação, um outro olhar, um sentido maior de visão primeira direcionada para o interior porque somente ali estão todas as respostas.




"Só o que é interno é perto; o mais, distante.
E esse interno é tão denso e a cada instante
Mais denso ainda. Impossível descrevê-la.
A ilha é como uma pequena estrela
Que o espaço esqueceu..."

rilke





Leia: http://www.opoema.libnet.com.br/rainermariarilke/rainermariarilke_db.htm
http://www.pmresende.rj.gov.br/asillo.htm


Hoje o dia é delas.
Feliz Dia das Mães!










PERTENCER
(trecho)

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.

Clarice Lispector







Sexta-feira, friozimm, uma boa companhia, quem sabe um bom vinho e ela cantando ao fundo com a voz doce, daquelas que te abraçam a cada nota... que tal? Pois é, a dica é quente. Eu pretendo ir durante a temporada para revê-la. Tive a honra de conhecer a Claudinha quando era pequena, e vou dar um jeito de ir e tietar um pouquinho :)

No mais, vou preparar um post especial sobre Rilke, acho que ele passou o que senti ao ler pela primeira vez: uma vontade enorme de sair escrevendo por todo canto, folha, caderno, chão, muro, mão, rss Por isso, vou reunir o que tenho e colocar para os inspirados poetas e os amantes da poesia que me honram com sua visita. Esperem e confiem :)
Não esqueci dos pedidos e sugestões. Anotei tudo. Como gosto de pesquisar para montar uma pequena biografia, contando a história, tentando fugir do que todos já sabem, muitas vezes essa pesquisa passa não só por sites, mas pela transcrição de trechos de livros etc. Junte-se a isso uma vidinha sem stress e pacata do RJ, rss e já dá pra entender porque demora um pouco, ne? Mas como caso de amor não se explica, vive-se, eu sigo rabiscando na medida do impossível.


Essa carta é para vocês, os amigos que frequentam esse cantinho, que têm por dom a escrita e é tão forte que simples comentários são sempre repletos de poesia. Obrigada sempre.










Carta a um jovem poeta
Paris, 17 de fevereiro de 1903,

Meu estimado senhor:


Recebi sua carta há poucos dias. Quero lhe agradecer a grande e amável confiança que esta representa. Mas pouco mais posso fazer. Não examinarei os seus versos, pois sempre fui alheio a qualquer intenção crítica. Para penetrar uma obra de arte, nada pior do que as palavras da crítica, que somente levam a mal-entendidos mais ou menos infelizes. Nem tudo se pode saber ou dizer, como nos querem fazer acreditar. Quase tudo o que sucede é inexprimível e decorre num espaço que a palavra jamais alcançou. E nada mais difícil de definir do que as obras de arte - seres misteriosos cuja vida imperecível acompanha nossa vida efêmera.
Após isso, apenas acrescento que os seus versos não revelam uma maneira própria. Possuem, é certo, sinais de personalidade, porém ainda tímidos e ocultos. Senti-o no seu último poema, "Minha Alma". Neste, qualquer coisa peculiar procura achar solução e forma. E em toda a formosa poesia "A Leopardi" se sente uma espécie afinidade com este príncipe, este solitário. Entretanto, as suas poesias não têm existência própria, nem mesmo a última, nem mesmo a que é dedicada a Leopardi. Na sua missiva encontrei a explicação de certas insuficiências que, ao lê-lo, já havia percebido, mas a que não me foi possível dar nome. Indaga-me se os seus versos são bons. Pergunta a mim, depois de Ter perguntado a várias pessoas. Manda-os para as revistas, compara-os a outros versos e alarma se quando certos jornais repelem os sus ensaios poéticos. Doravante (já que me permite aconselhá-lo) peço-lhe que renuncie a tudo isso. O seu olhar está voltado para o exterior. Eis o que não deve tornar a acontecer. Ninguém pode dar-lhe conselhos nem ajudá-lo - ninguém! Só existe um caminho: penetre em si mesmo e procure a necessidade que o faz escrever. Observe se esta necessidade tem raízes nas profundezas do seu coração. Confesse à sua alma: "Morreria, se não me fosse permitido escrever?" Isso, principalmente. Na hora mais tranqüila da noite, faça a si esta pergunta: Sou de fato obrigado a escrever?"Examine-se a fundo, até achar a mais profunda resposta. Se ela for afirmativa, se puder fazer face a tão grave interrogação com um forte e simples "Sou", então construa a sua vida em harmonia com essa necessidade. A sua existência, mesmo na hora mais indiferente e vazia, deve tornar-se sinal e testemunho de tal impulso. Aproxime-se então da natureza. Depois procure como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite, de início, os temas demasiado comuns: são os mais difíceis. Nos assuntos em que tradições seguras, às vezes brilhantes, se mostram em grande número, o poeta só pode realizar obra pessoal na plena maturidade de sua força. Fuja dos grandes assuntos e aproveite aqueles que o dia-a-dia lhe oferece. Fale de suas tristezas e dos seus desejos, dos pensamentos que o tocam, da sua fé na beleza. Diga tudo com sinceridade calma e humildade. Utilize, para se exprimir, os objetos que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos, as suas lembranças. Se o quotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador nada é pobre, não há lugares mesquinhos e indiferentes. Mesmo num cárcere cujas paredes abafassem todos os ruídos do universo, não lhe ficaria sempre a sua infância, essa preciosa, essa esplêndida riqueza, esse tesouro de recordações? Volte, para esta direção, o seu espírito. Procure fazer regressar à superfície as impressões submersas desse longínquo passado. A sua personalidade fortificar-se-á, a sua solidão povoar-se-á, tornando-se, nas horas incertas do dia, uma espécie de moradia fechada aos sons exteriores. E se lhe vierem versos deste regresso a si próprio, deste mergulho no seu cosmo, não pensará em indagar se são bons ou não, não tentará conseguir que periódicos se interessem pelos seus trabalhos, porque desfrutará deles como de uma posse natural, como de uma de suas formas de vida e expressão. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade: é a natureza da sua origem que a julga. Por isso, meu prezado senhor, apenas me é possível dar-lhe este conselho: mergulhe em si próprio e sonde as profundidades de onde jorra a sua vida. Só desta maneia encontrará resposta à pergunta: "Devo criar?" De tal resposta recolha o som, sem desvirtuar o sentido. Talvez chegue à conclusão de que a Arte o chama. Neste caso, aceite o seu destino e siga-o, com o seu peso e a sua majestade, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir de fora. O criador deve ser um mundo para si próprio, tudo encontrar em si e nesse pedaço de natureza com que se identificou. Pode suceder que, depois dessa descida em si mesmo, ao âmago solitário de sim mesmo, tenha de renunciar a ser poeta. (Basta, no meu entender, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo.) Mesmo assim, a introspecção que lhe peço não terá sido inútil. A sua vida, desde aí, encontrará caminhos próprios. Que estes sejam bons, ricos e largos, é que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.
Que poderei acrescentar? Acredito ter abordado o essencial. No fundo, apenas fiz questão de aconselhá-lo a progredir segundo a sua lei, de modo grave e sereno. Não lhe seria possível perturbar mais violentamente "para fora", do que esperando "de que fora" as respostas que apenas o seu sentimento mais secreto, na hora mais silenciosa, poderá talvez proporcionar-lhe.
Gostei de encontrar na sua carta o nome do professor Horacek. Dediquei a esse sábio uma grande estima e uma gratidão que já duram anos. Quer transmitir-lhe isso da minha parte? É bondade dele, que muito aprecio, lembrar-se ainda de mim.
Restituo-lhe os versos que me confiou tão amigavelmente e mais uma vez lhe agradeço a cordialidade e a amplitude da sua confiança.
Procurei, nesta reposta sincera, feia o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, na minha qualidade de estranho.
Com toda a dedicação e toda a simpatia.



Rainer Maria Rilke
Poeta alemão / 1875 - 1926
Simbolista




** Em tempo: SHOW: Cláudia Telles estréia hoje no Vinicius Bar.




Freud e o sonhar acordado.





Freud parte da tese de que a pessoa feliz não fantasia, pois as fantasias são desejos insatisfeitos. Também os sonhos noturnos, seriam realizações de desejos reprimidos, que só se expressam de forma distorcida - é o que Freud chama de distorção onírica. Segundo Freud, o escritor criativo, e o "sonhador à plena luz do dia", fazem a mesma coisa que a criança quando brinca reorganiza o mundo de um modo que lhe agrade ou castigue usando para isso a matéria - prima, que são as fantasias. Portanto, sonhar acordado, transpor para o papel aquilo que considera certo é simplesmente o exercício pleno de sua criatividade.


Sigismund Schlomo Freud nasceu em 06/05/1856, na então cidade austrohúngara de Freiberg, Moravia (atualmente Pribor, Checoslovaquia). Ele inventou a teoria e a prática da psicanálise, termo criado em 1896. Freud morreu em setembro de 1939. Seu legado teve grande influência na cultura do século XX.

Sou praticante do "sonhar acordado" há um bom par de anos e adoro. Acho mesmo que um dia me retiro em definitivo para dentro de algum sonho perfeito e fico por lá até ficar bem velhinha e sair da vida para virar rima.


imag: mena barreto
Leia: http://www.dreamsonweb.net/pt/dreamsjournal/200101/o_sonho_para_sigmund_freud_14.html





"Amigos, não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas... Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida - a verdadeira - em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira." -

Mario Quintana




O doce poetinha nos deixou num dia 05 de maio, nos deixou assim como seus versos nos deixam com uma nota de flor na boca, um aroma de outono nas mãos e um sorriso como o dele que mesmo sorrindo parecia conter uma tristeza suave.
Quintana não era ranziza, zangado, nem mesmo tímido, era apenas calado, introspectivo, daqueles que ao olharmos ficamos intrigados, procurando desfrutar de um riquíssimo mundo interior que certamente existia.
Tinha um humor único, uma fina ironia a pontuar seus comentários sobre o corriqueiro da vida.
Tenho a impressão de que conviver com ele devia ser leve como algodão doce, uma surpresa constante em qualquer coisa de sempre como no velho poste iluminando a rua ou mesmo pela janela onde abril se abria diferente todos os dias.



Inscrição Para Um Portão de Cemitério


Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!

Mario Quintana





Mario Quintana nasceu em trinta de julho de 1906 em Alegrete - próxima à fronteira com a Argentina -, cidade banhada pelas margens do rio Ibirapuitan, cenário de muitas de suas poucas brincadeiras de criança. Poucas porque, apesar de ter dito inúmeras vezes que teve uma infância igual a de tantos outros, desde cedo teve uma inclinação natural à leitura.

Aos 7 anos foi alfabetizado pelos pais e já aos treze dominava a língua francesa - quando adulto, seus autores preferidos eram Rimbaud, Appollinaire e Verlaine. No primário, quando foi apresentado sem rodeios à gramática lusitana, recusou aceitá-la, alegando que não era aquela a língua que falava. Nisso acreditou até seu amadurecimento poético, pois sempre escreveu de forma coloquial todos os seus versos.


Na verdade, Quintana sempre escreveu de maneira simples o complexo da vida. Os poemas dele são como bordados ricos na complexidade dos pontos, mas formavam desenhos simples, desenhos que todos identificavam de imediato.
Graças a ele e suas traduções, os leitores brasileiros puderam ter acesso a Proust, Virgínia Woolf, Balzac e tantos outros, foram mais de cem livros traduzidos.
Publicou seu primeiro livro aos 34 anos, porque achava que quanto mais velho o poeta, "maior a tendência de ficar melhor, com estilo mais depurado".



Nunca ninguém sabe

Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar.
Por isso o meu verso tem esse quase imperceptível tremor...




Jardim Interior

Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

Mario Quintana





O que nos mata, é não ter um poetinha como ele para nos falar de nossos jardins, dos pássaros, do céu, do vento e sua tristeza por não ser colorido, das estrelas que não paramos mais para olhar... quando foi que você antes de entrar apressado no carro ou em casa olhou estrelas no céu? Pois olhe hoje, uma delas é ele.




Noturno

Ninguém no cais deserto... Apagaram-se os grilos.
As estrelas estäo imóveis e tristes como um mapa sideral.


Mario Quintana




Leia: http://www.noxinvitro.com/carus/felix/?author=58


"Mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: e depois da morte? Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude. Neste mesmo instante estou pedindo que Deus me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. E estou precisando da minha própria força. Sou forte mas também sou destrutiva. Autodestrutiva. E quem é autodestrutivo também destrói os outros. Estou ferindo muita gente. E Deus tem que vir a mim, já que eu não tenho ido a Ele. Venha, Deus, venha. Mesmo que eu não mereça, venha. Ou talvez os que menos merecem precisem mais. Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. Venha antes que seja tarde demais."

Clarice Lispector










dos diários

tão cúmplice, sem máscaras, a revelia todo tempo do mundo reside no relógio;

nas madrugadas onde você anda e sonha
onde sonho e ando cansada de não saber o que você faz às 6:00 da manhã?
ou numa tarde assim onde o azul escorre pingando cor no cinza da vida,
qual rosto tem o rosto de ninguém?

onde você vai quando fecha os olhos e os meus adquirem ambigüidade de
poço profundo lâmina luminosa sem alcance do sol?
e percebo que ainda não te conheço, mas espero paciente confundindo o eterno
restrito sob a minha pele, onde inscrito trago a certeza da sua existência.

Existirá você?


andréa augusto©angelblue83