Em algum lugar do passado


Ao tocar a décima oitava variação de Rapsódia, de Rachmaninoff, inspirada em O Capricho no. 24, para violino solo, de Paganini, desconfiei que mais uma vez não dormiria cedo.

Tá bom é um contrasenso para quem gosta de Fellini, Almodóvar, Woody Allen dos primeiros filmes e outros tantos, mas hoje eu não vou falar só desse filme apenas, vou além dele, na essência ou apenas do passado, de algum lugar que deixei lá.

Se alguém ainda não sabe, qual o filme tem esse tema é Em algum lugar do passado. Conta a história de Richard Collier (Christopher Reeve), jovem teatrólogo, após a estréia de uma de suas peças, recebe das mãos de uma velha senhora um antigo relógio de bolso e ouve dela uma frase enigmática: "volte para mim" . Em 1980, Richard se hospeda no Grande Hotel e, numa sala dedicada aos eventos históricos do hotel, descobre o retrato de uma linda mulher, Elise McKenna (Jane Saymour), atriz famosa do início do século, cujo rosto, não apenas o impressiona pela beleza, como também lhe parece familiar ... A revelação da imagem de Elise transforma-se numa fixação romântica. Pelas pesquisas e depoimentos, Richard fica sabendo quem foi a atriz e, através da auto-hipnose, regride até o ano de 1912 - sem, contudo, perder a consciência. Reencontra Elise e ambos revivem a aventura amorosa que, por algum motivo, fora subitamente interrompida.

Eu sei, é daqueles filmes considerados água com açucar, melodramáticos, talvez seja mesmo, mas para quem viveu algo semelhante, é inesquecível e eu tinha certeza de que essa vontade de chorar presa na garganta estava só esperando uma desculpa para vir. Não, eu não voltei no tempo, nem me apaixonei por um retrato, na verdade foi a essência, viver um grande amor uma vez na vida, dizer: "eu te amo" para uma pessoa em anos e nunca mais. Não falo de paixão, falo de amor, falo de olhar para alguém é saber, é ele. Foi assim.

Se eu tivesse que comparar, seria mais ou menos como no livro: "O amor no tempo do cólera" de Gabriel Garcia Marquez. O ponto forte do livro é o amor. Mais precisamente o amor de Florentino Ariza e Fermina Daza. Conta o amor platônico de Florentino Ariza por Firmina Daza que durou mais de cinqüenta e um anos. Neste período ele não ficou recluso e ensimesmado. Muito pelo contrário, viveu, trabalhou e construiu sua própria vida. Esteve pronto para o dia em que sua amada estivesse livre para ele novamente. Este fato só acontece quando o marido dela morre. E os dois se vêem livres para se envolverem.
Na última página do livro, eles estão num navio, Florentino responde ao comandante que deseja ir e vir no navio, já o tinha feito antes, e o comandante pergunta por quanto tempo isso duraria?

Florentino Ariza tinha a resposta preparada havia cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites.

— Toda vida — disse


É disso que falo. Eles tinham vivido tempo suficiente para perceber que o amor, era maior sempre em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte.

Passam os séculos, mudam os anos e os tempos modernos nos falam da independência amorosa, das noites onde o desencontro esta marcado em algum bar, festa ou lugar, onde estamos, mas ele nunca esta. Ele? Ele mesmo, esse tipo de amor ou melhor vontade de amar que o tempo não supera ou apaga. Esse que quando estamos sem ele, o objeto amado continuamos sentindo sua presença onde não mais se encontra. Ou que telefonamos, escrevemos só para nos certificarmos de sua presença no mundo. É quando se percebe que mesmo o desejo de esquecê-lo é o mais forte estímulo para dele se lembrar.

Não há solução, como disse Nietz, quando descobriu "a fórmula da grandeza do homem : amor fati". Não evitar nem se conformar e muito menos dissimular, mas afirmar o necessário, amar o que não pode ser mudado.

amar o que não pode ser mudado... é simples assim...




Mesma Fonte


“Eu quero te contar
a minha vida
espalhar na mesa
os vidrilhos,as lãs
com que fiei meus sonhos
e te falarei dos meus infernos e precipícios
de quantas mortes morri
enquanto me olhava no espelho

eu quero te falar
de longas esperas
em plataformas vazias
te falar de um trem
que nunca chegava
de um navio de areia
escorrendo entre os dedos

eu quero te contar
a minha vida
em suas insignificantes nuances
sem esconder os fantasmas
nos bolsos internos da alma

eu quero te contar
a minha vida
no que ela tem de náusea e desejo
amassando as palavras
como se fosse argila

eu quero te falar
dos ventos que embaralhavam a casa
das minhas caixas e cofres
das minhas magoadas estrelas

eu quero te falar
da minha vida
como se escrevesse em tua pele
e me inscrevesse nela
porque em algum recanto sombrio
a minha vida tem folhas
que são da tua
e não me pertence
o meu cotidiano é feito com a mesma
esgarçada renda dos teus
e nesse lugar
a beira do imaginário
nos encontramos
e bebemos na mesma fonte”

R.Murray

























































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