O Acusado

Quando eu nasci, já as lágrimas que eu havia
De chorar, me vinham de outros olhos.

Já o sangue que caminha em minhas veias pro futuro
Era um rio.

Quando eu nasci já as estrelas estavam em seus lugares
Definitivamente
Sem que eu lhes pudesse, ao menos, pedir que influíssem
Desta ou daquela forma, em meu destino.

Eu era o irmão de tudo: ainda agora sinto a nostalgia
Do azul severo, dramático e unânime.
Sal - parentesco da água do oceano com a dos meus olhos,
Na explicação da minha origem.

Quando eu nasci, já havia o signo do zodíaco.

Só, o meu rosto, este meu frágil rosto é que não
Quando eu nasci.

Este rosto que é meti, mas não por causa dos retratos
Ou dos espelhos.

Este rosto que é meu, porque é nele
Que o destino me dói como uma bofetada.
Porque nele estou nu, originalmente.
Porque tudo o que faço se parece comigo.
Porque é com ele que entro no espetáculo.
Porque os pássaros fogem de mim, se o descubro
Ou vêm pousar em mim quando eu o escondo.

Cassiano Ricardo




Espaço Lírico

Não amo o espaço que o meu corpo ocupa
Num jardim público, num estribo de bonde.
Mas o espaço que mora em mim, luz interior.
Um espaço que é meu como uma flor

Que me nasceu por dentro, entre paredes.
Nutrido à custa de secretas sedes.
Que é a forma? Não o simples adorno.
Não o corpo habitando o espaço, mas o espaço

Dentro do meu perfil, do meu contorno.
Que haja em mim um chão vivo em cada passo
(mesmo nas horas mais obscuras) para

Que eu possa amar a todas as criaturas.
Morte: retorno ao incriado. Espaço:
Virgindade do tempo em campo verde.

Cassiano Ricardo
J.G.de Araújo Jorge

Esse não é um poeta de minha predileção. Na verdade li muito pouco da obra dele, mas ainda assim lhe tenho um certo carinho. Inexplicável, para quem gosta de poemas completamente opostos ao lirismo de J.G.de Araújo Jorge. Mas penso que ele teve sua função dentro do panorama poético da época em que viveu. Cumpriu seu papel e como li em uma de suas biografias: “Foi um dos poetas mais lido, e talvez por isto mesmo, o mais combatido do Brasil. Hoje, completamente maltratado pelo esquecimento e pela crítica.”

Lembro ainda, a primeira vez que li seus poemas. Era um livro de capa vermelha, encadernação luxuosa, conveniente para época e o tema que trazia escrito em letras douradas: “Os mais belos poemas de amor de J.G.de Araújo Jorge.” Silêncio na Biblioteca, finalzinho de tarde e o sol pela janela refletia o brilho das letras. Talvez todas as tardes, o sol tenha refletido aquelas letras, mas naquele dia, era para lá, para aquele ponto da estante que eu olhava. Peguei o livro e abri. Lembro que identifiquei na hora o estilo lírico, excessivamente romântico de J.G.de Araújo Jorge, mas também foi naquele momento que o carinho pelo poeta nasceu. Carinho de pensar em quantas moças românticas, de um tempo em que o pudor ainda ruborizava faces, sonharam com seus versos e amores impossíveis. Deu saudade de um tempo mais fácil, onde o amor parecia tão simples como amar. E ainda hoje, quando um poema dele me cai nas mãos, penso que houve um tempo em que dizer “eu te amo” exigia pompa e circunstância, um certo recato, como se o peso das palavras selasse a eternidade.

J.G.de Araújo Jorge nasceu em 20 de maio de 1914, na Vila de Tarauacá, Estado do Acre e faleceu 27 de Janeiro de 1987.



E o resto é silêncio...

E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois caminhos
que se juntam
num mesmo caminho...
.
Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso, e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...

Nada há mais a dizer, depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...

Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos...



J.G.de Araújo Jorge
Lord Byron
"Os espinhos que colhi são da árvore Que plantei; picaram-me, e sangro;
Eu deveria ter sabido que espécie de fruto essa semente iria dar."


George Gordon Noel Byron: 1788 - 1824



Se alguém aproveitou a vida até o limite da impossibilidade foi George Gordon Noel Byron, Lord Byron.
Nascido em Londres em 22 de janeiro de 1788, logo de pronto herda um título de nobreza entrando nas altas rodas da sociedade local.
Adolescente toma consciência do seu poder de atração, poder esse que seduziria homens e mulheres durante toda sua vida.
Conta a lenda que Lady Caroline Lamb era a mais notória e determinada a conquistar Byron. Emocional e excêntrica, Caroline era da alta corte e casada. Ela chegou, inclusive, a lhe enviar seus pêlos pubianos. Byron, para escapar das garras de Caroline, confessou sua preferência sexual por garotos. Então, ela apareceu em seu quarto, vestido de oficial do exército, na tentativa de conquistá-lo.
E foi pelas mãos de Caroline que tratou de espalhar boatos sobre a sodomia do poeta que a sociedade londrina fecharia suas portas a ele.
Nada que o perturbasse muito, Byron teria espaço em qualquer lugar naquela época.
O cinismo e o pessimismo de sua obra haveriam de criar, juntamente com o mirabolante de sua vida, uma legião de jovens poetas "byronianos" por todo o mundo.

Em 1822, Allegra, sua filha, morreu de febre. Byron ficou devastado. Em fevereiro de 1824, teve um ataque epilético. Dois meses depois, após enfrentar uma tempestade enquanto cavalgava, pegou um resfriado do qual nunca se recuperou. Em 19 de abril do mesmo ano, na cidade de Missolonghi, um Domingo de Páscoa chuvoso, aos 36 anos de idade, sua voz se calou após sofrer de delírios por dias a fio. O mundo perdia um dos mais empolgantes escritores de todos os tempos.


Estâncias para a música

Alegria não há que o mundo dê, como a que tira. Quando, do pensamento de antes, a paixão expira na triste decadência do sentir; não é na jovem face apenas o rubor que esmaia rápido, porém do pensamento a flor vai-se antes de que a própria juventude possa ir.
Alguns cuja alma bóia no naufrágio da ventura aos escolhos da culpa ou mar do excesso são levados; O ímã da rota foi-se, ou só e em vão aponta a obscura praia que nunca atingirão os panos lacerados.
Então, frio mortal da alma, como a noite desce; Não sente ela a dor de outrem, nem a sua ousa sonhar; toda a fonte do pranto, o frio a veio enregelar; Brilham ainda os olhos: é o gelo que aparece.
Dos lábios flua o espírito, e a alegria o peito invada, na meia-noite já sem esperança de repouso: É como na hera em torno de uma torre já arruinada, verde por fora, e fresca, mas por baixo cinza anoso.
Pudesse eu me sentir ou ser como em horas passadas, ou como outrora sobre cenas idas chorar tanto; Parecem doces no deserto as fontes, se salgadas: No ermo da vida assim seria para mim o pranto.

Lord Byron

Leia: http://www.speculum.art.br/bio.php?a_id=389

Resignação

Como todas as mulheres da montanha, que no meio do gosto do amor enviuvam com os homens vivos do outro lado do mar, também ela teria de sofrer a mesma separação expiatória, a pagar os juros da passagem anos a fio, numa esperança continuamente renovada e desiludida na loja da Purificação, que distribuía o correio com a inconsciente arbitrariedade dum jogador a repartir as cartas dum baralho.
-O teu homem tem-te escrito, Maria? - perguntava o prior de Páscoa a Páscoa.
-Ele não, senhor. Há quinze anos...
Não acrescentava a mínima queixa à resposta. Fiel ao amor jurado, deixava que todos os encantos lhe mirrassem no corpo, numa resignação digna e discreta. Com o filho sempre agarrado às saias, como um permanente sinal de que já pagara à vida o seu tributo de mulher, mourejava de sol a sol para manter as courelas fofas e gordas. Depositária do pobre património do casal, queria conservá-lo intacto e granjeado. Se o outro parceiro desertara, mais uma razão para se manter firme e corajosa ao leme do pequeno barco.
-Nada, Maria? - O prior já nem se atrevia a alargar a pergunta.
-Nada.
Respondia sem revolta ou renúncia na voz. Objectivava a situação, lealmente. O que sentia por dentro era o segredo da sua serenidade.

Miguel Torga - Contos da Montanha (1941)



Coimbra, 08 de maio de 1953


Apelo

Porque não vens agora, que te quero,
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro, e eu desespero.
O futuro é o disfarce da impotência...

Hoje,aqui,já,neste momento
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento...
O desejo é o limite dos mortais.

Miguel Torga, in "Antologia Poética"




A Ceia

...

Nunca mais
Meus olhos terão de ver
Tanta solidão sem fim:
- Ser dono desta desgraça
De não ter terra onde nasça
Uma flor que cresça em mim...

Miguel Torga



A um Secreto Leitor


No silêncio da noite é que eu te falo
Como através dum ralo
De confissão.
Auscultadores impessoais e atentos,
Os teus ouvidos são
Ermos abertos para os meus tormentos.

Sem saber o teu nome e sem te ver
- Juiz que ninguém pode corromper -,
Murmoro-te os meus versos, os pecados,
Penitente e seguro
De que serás um búzio do futuro,
Se os poemas me forem perdoados.

Miguel Torga




Miguel Torga, poeta que eu adoro, era o pseudonimo de Adolfo Correia da Rocha.
Ele nasceu em 1907 em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, Trás-os-Montes, e faleceu em 17 de Janeiro de 1995 em Coimbra. Veio para o Brasil e ficou até 1925 quando regressou a Coimbra onde se formou em Medicina. Por volta de 1930, funda a revista Sinal. Funda pouco depois a revista Manisfesto. Começou a ser conhecido como poeta, tendo mais tarde ganho notoriedade com os seus contos ruralistas e os seus dezasseis volumes de Diário, estes publicados entre 1941-1995. Várias vezes nomeado para o Prémio Nobel da Literatura, tornou-se um dos mais conhecidos autores portugueses do século XX.



Leia mais: http://www.vidaslusofonas.pt/miguel_torga.htm
http://www.bragancanet.pt/filustres/torga.html




"Ele quis encontrar no mundo real a fraca imagem que sua alma, indefinidamente, contemplava. Ele não sabia onde ou como procurá-la. Mas uma premonição lhe disse que esta imagem iria encontrá-lo, independente do que fizesse. Os dois iriam se encontrar tranqüilamente, como já se conhecessem, como já tivessem se encontrado antes, talvez em um dos portões ou em algum lugar secreto. Os dois estariam sozinhos, cercados pela escuridão e pelo silêncio. E em um momento de suprema ternura, ele mudaria. Se desbotaria em algo impalpável diante de seus olhos e, num breve momento, ele se transformaria. Fraqueza, timidez e inexperiência tombariam diante dele naquele momento trágico."

"Retrato de um Artista Quando Jovem"



James Augustine Eloysios Joyce nasceu no dia 2 de Fevereiro de 1882, em Rathgar, subúrbio de Dublin, a capital da República da Irlanda. Filho de proletários à beira da pobreza, James Joyce foi educado dentro dos valores da Igreja Católica Romana. Os estudos foram realizados em escolas jesuíticas como Clongowes Wood College, Belvedere College e UCD. Porém, leituras de autores como Byron, Hardy, Ibsen e Yeats povoaram sua mente de adolescente e não muito depois, ele entrou em conflito com o Catolicismo.
Educado com rigor, Joyce desenvolveria uma personalidade multifacetada. Escritor revolucionário, pai dedicado, capaz de virar noites ao lado da filha doente e um obsceno de primeira são alguma delas.
Ulisses inaugura o romance moderno. Seus personagens, Stephen Dedalus, Leopold Bloom e Molly Bloom, enfrentam situações correspondentes aos episódios da Odisséia, de Homero. Nessa obra, Joyce reinventa a linguagem e a sintaxe. Radicaliza a linguagem narrativa, explorando processos de associação de imagens e recursos verbais, paródias estilísticas e o fluxo da consciência. Também incorpora teorias da psicanálise freudiana sobre o comportamento sexual. O livro é proibido no Reino Unido e nos Estados Unidos, onde só é liberado em 1936. Joyce sofre seguidas cirurgias em razão de problemas na visão. Sua última obra é Finnegans Wake (1939), na qual leva às últimas conseqüências as inovações estéticas e lingüísticas apresentadas em Ulisses.


Joyce teve uma vida de privações e sofrimento. Relutava em aceitar o diagnóstico de insanidade de sua filha. Quando o agravamento progressivo e intenso da doença de Lucia o obrigou a acatar de vez sua internação em clinicas psiquiátricas, só o fez para proteger Lúcia dela mesma. Durante algum tempo deixou de lado o andamento de seu livro "Finnegans Wake", para acompanhar de perto o tratamento da filha. A doença de Lucia marcaria profundamente vida e obra de Joyce.


Quando Joyce se tornou célebre, Nora exclamou um dia, rindo: "Não faço ideia se o meu marido é um gênio ou não, mas o que sei, de certeza, é que ele tem uma mente bem suja." Talvez se recordasse das cartas que ele lhe escrevera de Dublin, no célebre ano de 1909, quando ela ficou em Trieste. Segundo Maddox, essas mensagens íntimas, "obscenas mas não eróticas, com uma imagética demasiado escatológica, pueril e repetitiva" são importantes pelo o que revelam da relação entre Nora e Jim ( só ela é que o podia tratar por este diminutivo) e da sexualidade de ambos. (Richard Ellmann acabou por editar e publicar as famosas cartas, indo contra o desejo de Stephen, o neto do escritor).

Nora Barnacle que viria a ser companheira de Joyce por toda vida, era uma personalidade tão fascinante quanto o genial escritor. Em muitas biografias seu valor é minimizado por ser tratar de pessoa de cultura inferior a dele, uma simples empregada de hotel. Mas Nora exerceu influência sobre Joyce e foi capaz de viver com ele todas as obscenidades que a mente de Joyce imaginava.
"Joyce viveu sempre obcecado pelo "mistério" que rodeava a sexualidade da mulher, oscilando tortuosamente entre considerá-la santa ou prostituta. Nora era uma bela mulher de vinte anos, que fazia virar as cabeças, quando Joyce a abordou na rua, não a largando enquanto não marcou um primeiro encontro, ao qual, aliás, ela não compareceu. Joyce tinha ficado encantado com o que viu e ouviu. Apesar de míope reparou que as ancas dela se moviam livremente sob o vestido, criando uma imagem de sensualidade assumida. Para além do aspecto físico, Nora era possuidora de uma belíssima voz e respondia com espírito e desenvoltura às investidas do jovem escritor. Joyce detestava as meninas da sociedade piedosa e hipócrita de Dublin que se mostravam fascinadas por ele, ao mesmo tempo que o temiam. Era considerado um selvagem e nem todas as famílias bem pensantes gostavam de o receber, apesar de, já nessa altura, a sua genialidade ser do conhecimento público. Mas foi com Nora, com o seu riso contagiante e sem afetação, que Joyce se sentiu imediatamente à vontade. Ela era alguém muito independente que sabia o que custava a vida e conhecia todos os perigos que corriam as mulheres sozinhas, numa cidade como Dublin."

O primeiro encontro deles já deixava bem claro que Nora já tinha alguma vivência. Passearam pelas ruas que vão dar ao cais e foram até a área de Ringsend que, à noite, estava deserta. A atração entre ambos foi instantânea e Nora não perdeu tempo. Desabotoou as calças de Joyce e masturbou-o com mestria, "fazendo dele um homem". Era a primeira vez que Joyce tinha sexo de graça e o facto revestiu-se de grande importância. Habituado à sensação provocada pelos complexos de culpa, que a educação nos jesuítas contribuíra para exacerbar, ficou imediatamente fascinado com a franqueza e a desinibição de Nora. Em vez de "perder o respeito" por ela, como seria o caso se ele fosse um homem banal, apaixonou-se perdidamente. Anos mais tarde, a perícia dela nesse primeiro encontro, que fazia adivinhar uma experiência adquirida junto de outros homens, haveria de o torturar e provocar uma explosão de ciúmes, que levaram a uma crise muito séria.
Nora acompanhou Joyce em todas as provações, como mudança repetida de alojamento, pobreza extrema e até fome, controlou o seu alcoolismo, "suportou-o", como ele próprio dizia, e exerceu a sua influência em todos os sentidos, mantendo sempre um sentido de humor picante e uma capacidade de dar respostas rápidas e incisivas, que o fascinavam.
Joyce casou-se com ela pouco antes de morrer.

"Existe alguém que me entende?", perguntou Joyce certa vez. Sim, muitos leitores pelo mundo todo, alguns que ainda tentam entender seus livros, suas idéias, seu jeito, mas a resposta mais segura seria apenas uma: Nora.
No dia 13 de Janeiro de 1941, o maior escritor do Século 20 encontra a morte após uma operação de úlcera duodenal.


Leia: http://www.speculum.art.br/htm/james_joyce.htm
http://www.e-biografias.net/biografias/james_joyce.shtml
http://www.wapol.org/ornicar/articles/lsr0076.htm

Lamartine de Azeredo Babo



Humor e irreverência, essas eram as marcas registradas de Lamartine de Azeredo Babo, o Lalá. Compositor, cantor, humorista e produtor que nasceu no dia 10/1/1904, Rio de Janeiro, RJ e viria revolucionar o Carnaval.
Lalá era uma das pessoas mais bem humoradas e divertidas de sua época, não perdendo nunca a chance de um trocadilho ou de uma piada. Em uma entrevista afirmou "Eu me achava um colosso. Mas um dia, olhando-me no espelho, vi que não tenho colo, só tenho osso". Numa outra, o entrevistador pergunta qual era a maior aspiração dos artistas do broadcasting, Lalá não vacila: "A aspiração varia de acordo com o temperamento de cada um... Uns desejam ir ao céu... já que atuam no éter... Outros 'evaporam-se' nesse mesmo éter... Os pensamentos da classe são éter... ó... gênios..." - valeu-lhe o título de O Pior Trocadilho de 1941. E aconteceu também o caso dos correios: Lalá foi enviar um telegrama. O telegrafista bateu então o lápis na mesa em morse para seu colega: "Magro, feio e de voz fina". Lalá tirou o seu lápis e bateu: "Magro, feio, de voz fina e ex-telegrafista".

Na maioria de suas piadas, o próprio compositor era o tema, ele e sua magreza. Certa vez, ao ser convidado para ser juiz, num jogo de futebol, disse: "- Aceito, desde que não vente". Num outro momento disse : "-Não foi à toa que Deus me fez magro assim - homem de poucos quilos, poeta de muitos quilates..." Apresentado por um amigo a um admirador: - Este é o grande Lamartine Babo, em carne e osso. E Lalá: "-Exagero, exagero. Em osso só, em osso só". Várias vezes declarou também que não dava fotografia a suas fãs. Dava radiografias.

Era o espírito carioca personificado. Teve uma vida de muitos sucessos e mesmo quando desafiado, conseguia sair vitorioso. Foi o caso da composição dos Hinos dos clubes de futebol. Certa vez, o radialista Héber de Bôscoli desafiou Lalá a fazer um hino para cada clube de futebol do Rio de Janeiro. E ele fez. Claro que aqui deixo o Hino do meu glorioso Botafogo, certamente o hino mais bonito composto por Lamartine Babo.


Hino do Botafogo

Botafogo! Botafogo!
Campeão desde 1910!
Foste um herói em cada jogo
Botafogo!
Por isso é que tu és
E hás de ser
Nosso imenso prazer
Tradições aos milhões
Tens também
Tu és o glorioso
Não podes perder
Perder pra ninguém
Noutros esportes tua fibra
Está presente
Honrando as cores do Brasil
De nossa gente
Na estrada dos louros
Num facho de luz
Tua estrela solitária te conduz!


E nesse mesmo hino que a princípio era: Botafogo! Botafogo!Campeão de 1910! Ele ao ser confrontado sobre esse de e o fato do Botafogo ser campeão de muitos outros anos, respondeu: Não! Claro que não é um de foi um erro, na verdade eu escrevi: Botafogo! Botafogo! Campeão desde 1910! E assim ficou!

Em fevereiro de 1963 Lalá teve um enfarte, mas conseguiu recuperar-se. Porém, estava por vir uma das maiores emoções de sua vida. Carlos Machado preparou um grande show baseado na vida e obra de Lamartine. Este, por sua vez, tentava convencer Carlos que sua vida e obra não davam assunto para um show, e começou a freqüentar os ensaios. Muito emocionado, poucos dias depois teve o segundo enfarte, que foi fatal. Perdemos Lalá, mas o Carnaval jamais seria o mesmo.

Leia: http://www.geocities.com/aochiadobrasileiro/Biografia/BiografiaLamartineBabo.htm
http://www.tvebrasil.com.br/links/memoria/lamartine_babo/



Rimbaud mostra-se um adolescente revoltado, do tipo que arrota na mesa e quebra objetos alheios. Numa nota mais positiva, urina num escritor medíocre, numa roda de poesia.

O comportamento revolucionário e livre do pupilo genial ("o que eu já fiz é muito bom, mas o que você escreve é genial", diz Verlaine, a certa altura) atrai Verlaine, que não tem na sua esposa rica, bonita e burra a ressonância para as suas idéias sobre a vida. Os dois embarcam num romance, selado físicamente na noite em que Mathilde dá à luz ao primeiro filho dela com Verlaine.



A vida tranqüila que Verlaine levava cai por terra. Abandona mulher e filho para seguir o jovem Rimbaud. Partem para Bruxelas.

Sucedem rupturas e reconciliações. Eles formam um par tumultuado. As complicações de um relacionamento homossexual na França do final do século passado são intensificadas pela natureza dos dois amantes. Rimbaud é sempre o mais questionador, por isso, o mais maduro dos dois. Verlaine fica entre admirador apaixonado e homem confuso, sexual e socialmente. O romance de natureza passional caminha para um desfecho trágico.

"Mas quem sofre mesmo nisso tudo é Verlaine. Ele é a própria contradição. Um homem casado, com a mulher grávida, que se vê envolvido numa paixão que nasce da afinidade poética. Verlaine tem alma parnasiana. Ele não mergulha no desregramento como Rimbaud, ele vai e volta o tempo todo e acaba com a alma dilacerada nesse processo"

Em Bruxelas, em 1873, Verlaine dá um tiro de pistola em Rimbaud.
Ele é preso, condenado e passará dois anos na prisão. Em 1874, em seu cárcere de Mons, ele compõe poemas místicos, marcas de um sincero arrependimento.

Ao sair da prisão em 1875, Verlaine embarca para a Inglaterra, onde será professor durante dois anos. Ele volta lá em 1879, onde vive com seu novo amante Lucien Létinois, um ex-aluno da instituição em que Verlaine ensinou durante dois anos, em Rethel, nas Ardennes. Eles foram expulsos de lá por causa de sua "amizade particular".

Os últimos anos que viveu foram particularmente duros. Morou em pardieiros com prostitutas e errava de hospital em hospital, de café em café. Independente disso, publicou seus poemas em diversos livros e foi eleito "príncipe dos poetas". Verlaine morre em Paris, aos cinqüenta e dois anos, em 8 de janeiro de 1896.


Leia: http://www.ambafrance.org.br/abr/label/label26/letras/verlai.html
http://carcasse.com/revista/rimbaud/arthur.htm
Hélio Pellegrino faria 80 anos hoje, se um enfarte não tivesse abreviado sua vida em 1988.
Assim começa a matéria do segundo caderno do O Globo de hoje. Matéria, alias, maravilhosa onde um pouco da vida e obra dele é contada.
Poderia colocá-la aqui na íntegra, mas preferi transcrever alguns trechos da entrevista de Hélio à Clarice Lispector, do livro dela, De corpo inteiro. Já coloquei as entrevistas de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Neruda por aqui, mas confesso que de todas que o livro traz, a de Hélio Pelegrino foi a que mais gostei.





Um homem chamado Hélio Pellegrino


- Diga qual é a sua fórmula de vida. Eu queria imitar.

Há, no Diário íntimo de Kafka, um pequeno trecho ao qual gostaria de permanecer para sempre fiel, fazendo dele a minha fórmula de vida: "Há dois pecados humanos capitais dos quais todos os outros decorrem: a impaciência e a preguiça. Por causa de sua impaciência, foi o homem expulso do paraíso. Por causa de sua preguiça, não retornou a ele. Talvez não exista senão um pecado capital, a impaciência. Por causa da impaciência, foi o homem expulso, por causa dela não consegue voltar. Tenhamos paciência - uma longa, interminável paciência - e tudo nos será dado por acréscimo"

- Por que você escreve esporadicamente e não assume de uma vez por todas o seu papel de escritor e criador?

Poderia driblar essa pergunta, respondendo com uma meia-verdade - escrevo menos esporadicamente do que publico. Mas esta seria uma saída falsa, e não quero ser falso. Escrever e criar constituem, para mim, uma experiência radical de nascimento. A gente, no fundo, tem medo de nascer, pois nascer é saber-se vivo e - como tal - exposto à morte. Escrevo mais do devo para - quem sabe? - manter a ilusão de que tenho um tempo longo pela frente. A meu favor, posso dizer a você que, com freqüência, agarro-me pelas orelhas e me ponho ao trabalho. Há umas coisas valiosas nas quais acredito, com muita força. Preciso dizê-las e vou dize-las.

- Hélio, diga-me agora, qual é a coisa mais importante do mundo?

A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma e intensa mutalidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele. Na medida em que o recebo em sua graça, conquisto para a mim a graça de existir. É esta fonte da verdadeira generosidade e do entusiasmo - Deus comigo.
O amor genuíno ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo.

- Que é amor?

Amor é surpresa, susto esplêndido - descoberta do mundo. Amor é dom, demasia, presente. Dou-me ao Outro e, aberto à sua alteridade, por mediação dele, recebo dele o dom de mim, a graça de existir, por ter-me dado.

- Helio, você é analista e me conhece. Diga-me sem elogios - quem sou eu, já que você me disse quem é você...

Você, Clarice, é uma pessoa com uma dramática vocação de integridade e totalidade. Você busca, apaixonadamente, o seu self... e esta tarefa a consome e faz sofrer. Você procura casar, dentro de você, luz e sombra, dia e noite, sol e lua...


Fragmentos transcritos do livro "De corpo inteiro" , Clarice Lispector, Ed.Rocco, 1999, págs 54, 55.
John Ronald Reuel Tolkien
Pois é, Ronald, o nosso simpático órfão apaixonado era ninguém menos que, John Ronald Reuel Tolkien, o conhecido autor da obra, "O senhor dos Anéis".
Naqueles tempos, exercitava sua imaginação criando mais e mais histórias para entreter os filhos.
Um dia, a história chegarou às mãos de Stanley Unwin, da editora George Allen and Unwin, que decidiu publicá-la em 1937 com o título "O Hobbit" após seu filho de 10 anos, Rayner, ler e adorar o livro. Devido ao estrondoso sucesso alcançado, o editor pediu a Tolkien uma continuação para as aventuras de Bilbo.
E Tolkien a escreveu, acrescentando suas velhas lendas élficas. O processo foi longo e demorou mais de 16 anos para ser concluído e a história se tornou um épico de mais de mil páginas. Rayner, já adulto, ocupava o cargo de seu pai na editora e decidiu arriscar, publicando "O Senhor dos Anéis" em três volumes, lançados de 1954 a 1955. O sucesso, todos sabem, foi enorme e alcançou os cinemas do mundo.

Mas e Edith? Conta a lenda que ela não foi apenas a companheira de uma vida inteira, mas a inspiração dele também.


No Silmarillion Tolkien conta a história Beren e Lhútien. Beren era um homem mortal, e Lhútien a filha do mais poderoso rei dos elfos Sindar da Terra-média... um amor impossível. Poucos sabem, mas a idéia para compor este conto veio do próprio Tolkien e de Edith, em sua visão ele mesmo era Beren, e Edith era Lhútien... a cena de sua vida que inspirou este conto ocorreu enquanto Tolkien estava lutando na guerra contra os alemães.

"... quando conseguia uma licença, Ronald e Edith passeavam no campo. Perto de Roos acharam um pequeno bosque com uma vegetação rasteira de cicuta, e lá perambularam. Mais tarde Ronald relembraria a imagem de Edith nesta época: "Seus cabelos negros e sua pele clara, seus olhos brilhantes e sabia cantar - e dançar." E ela cantou e dançou para ele no bosque, e daí veio a história que seria um dos maiores contos do Silmarillion: a história do mortal Beren, apaixonado pela jovem élfica Lúthien Tinúviel, que ele vê pela primeira vez no bosque dançando entre a cicuta ..." (J. R. R. Tolkien, Uma Biografia, por Humphrey Carpenter, Pág. 109)



Edtih viria a falecer em 22 de novembro de 1971, Tolkien nascido em 3 de janeiro de 1892, faleceria em 2 de setembro de 1973. Enterrados juntos no cemitério de Wolvercote, em Oxford, um eco da mais bela história de amor de sua mitologia pode ser visto: em suas lápides Tolkien e Edith são identificados por Beren e Lúthien, personagens da história de amor que ele escreveu logo após o casamento.

Edith Mary Tolkien, Lúthien, 1889-1971
John Ronald Reuel Tolkien, Beren, 1892-1973




Leia: http://www.conselhobranco.com.br/tolkien/tolkien.htm
http://planeta.terra.com.br/arte/melkor/bio.htm