Neruda



"Nasci no começo do século, no centro do Chile. Mas, ainda bebê meus pais me levaram para o extremo sul do país, para Temuco. Era, na época, uma aldeiazinha. ... Temuco é minha paisagem, o essencial de minha poesia." E como se define o "essencial" na poesia de Ricardo Eliecer Naftali Reyes y Basoalto, ou seja, Pablo Neruda? Ele mesmo responde:
"É descrever o que se sente verdadeiramente, a cada instante da existência. Não acredito num sistema poético, numa organização poética. Irei mais longe: não creio nas escolas, nem no Simbolismo, nem no Realismo, nem no Surrealismo. Sou absolutamente desligado dos rótulos que se colocam nos produtos. Gosto dos produtos, não dos rótulos".

Um poeta como Pablo Neruda não se enquadra em rótulos, definições, escolas literárias, características de qualquer espécie. Ele era poeta, vocês sabem, aqueles que estão em castas superiores. Aqueles que dão cor as palavras, que levam som ao silêncio que transformam cinza em prata. Neruda foi um deles, era natural que não gostasse de rótulos.



"Foi tão belo viver enquanto vivias!
O mundo é mais azul
E mais terrestre de noite
Quando durmo
Enorme, dentro de tuas breves mãos"

Pablo Neruda



Um poeta que procurou dar "ao homem o que é do homem: sonho, amor, luz e noite, razão e paixão". Versou guerra, saudade, solidão, seu país, o mar e sobretudo ou em tudo, amor.
Em Neruda vida e poesia se coadunam e se entrelaçam ultrapassando os limites da própria inspiração poética e há de tudo em pouco: desde os versos amorosos da juventude em "Veinte Poemas de Amor", à maturidade tenra, sensual, melancólica e apaixonante de "Los Versos del Capitan" (1952), à imersa depressão do autor em solidão, num mundo de subterrânea escuridão e forças demoníacas de "Residência en La Tierra" (1925-31), até à poesia épica melhor representada em "Canto General" (1950), onde tenta reinterpretar o passado e o presente da América Latina, a luta de seu povo oprimido e subjugado nos seus ideais de libertação. Por sua inspiração político-social e por seu amor a seu povo, Neruda era frequentemente referido como "o poeta da humanidade escravizada".


Antes de amar-te...


Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.



Pablo Neruda




A voz do poeta, Pablo Neruda, calou-se com sua morte no dia 23 de Setembro de 73, na Isla Negra , vítima de ataque cardíaco. Morre um regime e morre um grande poeta. Havia uma grande desolação na alma do povo chileno, tanto para os que ficaram oprimidos no país, quanto para os que se exilaram. Na verdade a leucemia já o havia debilitado sensivelmente, mas o coração do poeta se enfraquecera ainda mais ante ao que seus olhos viram ocorrendo no Chile que ele amou profundamente. Uma narrativa popular acerca de sua morte conta-nos que os militares foram culpados de negligência, por retardarem o envio de uma ambulância à isolada residência do poeta, com efeito deixando-o padecer até à morte sem assistência, numa evidência de que Neruda fora de fato um seu inimigo.



Leia: http://www.suigeneris.pro.br/cangerpn.htm
http://www.rabisco.com.br/08/neruda.htm

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