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Sou uma iniciada sem seita.
Água Viva (1973)

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Os MISTÉRIOS DE CLARICE
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Quem escreveu: “Sou tão misteriosa que não me entendo”, não poderia mesmo ser facilmente interpretada. Contudo, até as mais impenetráveis esfinges se preocupam em oferecer, aqui e ali, pistas para a decifração de seus enigmas. Os textos de Clarice Lispector estão repletos de chaves e senhas, mesmo que estas porventura abram apenas caixas que escondem outras caixas, que escondem outras caixas que escondem outras caixas... As pistas que possibilitavam rastrear o caminho até seu eu profundo, Clarice concedia apenas aos familiares e aos amigos íntimos, mas poucos foram os que as seguiram até o fim, imbuídos da certeza de que não convém decifrar certos mistérios para não lhes embaçar o esplendor.
É difícil definir bem a própria irmã. Sempre fomos muito unidas, Clarice, Tânia e eu. Lembro-me que na infância, Clarice demonstrou logo ser independente, imaginativa e cheia de ternura. Tivemos todas uma vida muito agradável e feliz no Recife, e temos muitas saudades daqueles tempos. Embora casadas, e muitas vezes morando muito longe, estávamos sempre em contato umas com as outras, seja por carta, ou telefone. O que mais impressiona em Clarice não é fato de ser irmã, e ótima como sempre foi, mas como tornou-se mãe maravilhosa. Sua maior qualidade é ser absolutamente realizada em casa. Sua sensibilidade extremamente apurada capta as sutis reações dos filhos, atendendo-os e amparando-os em todas as situações. Fora isso, gosta de música, não é gulosa, e é sobretudo um tanto frugal. Não é política, e antes de tudo, é uma dedicadíssima dona de casa. Provando assim que uma mulher pode se realizar em dois setores diferentes em grande escala.
Clarice pela irmã, Elisa Lispector, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
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Clarice Lispector deixou de ser um nome para ser um fenômeno de nossa literatura. Um fenômeno com todas as características de um estado emocional, quero dizer, que as admiradoras de Clarice entram em transe à simples menção de seu nome. Não querem escrever artigos, querem fazer teses. Não querem notas, querem livros. E a grande autora de “Perto do Coração Selvagem” transformou-se num monstro sagrado, ela que desejava apenas ser uma escritora humana. Clarice para mim é a autora de “Perto do Coração Selvagem” e de “O Lustre”, dois romances que eu gostaria de ver mais lidos e estudados. Também é autora dos contos admiráveis de “Laços de Família”. E por que não a de “A maçã no escuro”? Não, não é esta nem a de “Cidade sitiada”. Alguns acham que eu tenho má vontade com esses dois romances. É que quase ninguém sabe que Clarice Lispector, com “O Lustre”, se tornou uma das minhas mais violentas paixões literárias. E quem ama exige.
Clarice Lispector pelo crítico e ensaísta, ganhador do Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, Fausto Cunha, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
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A partir do conhecimento que um amigo nos oferece começamos a compreender a necessidade de acumular tudo aquilo que — um receber explicando o que se entrega — nos ajuda a elaborar o que se é. Não há dádiva compensando-se como esta. Talvez por isto tenha-se pudor de explicar porque se admira, porque apenas se quer bem — quando, do outro lado, existente e integral, encontra-se Clarice Lispector, quando a linguagem acessível, onde nem mesmo se dispensa o embaraço, é tanto mais aquela que sem esclarecer sente-se constrangida apenas de reconhecer. A tarefa de identificar Clarice Lispector é extremamente penosa: não é fácil atribuir-lhe o que ela própria ultrapassa, ou retirar-lhe aquilo que tão naturalmente ela ilumina, na sua constante vigília de gente. Não sei confessar admiração que se abastece cada vez mais na sua parte humana, onde a generosidade, nobreza, bondade obrigam-me a aceitar apenas o que idealisticamente recebera crédito — pois certas aprendizagens são sempre imperfeitas na sua arrecadação. Nunca silenciei, no entanto, quanto ao seu desempenho de criadora. Considerei-a sempre, cada vez com um entusiasmo mais moderado e por isso mesmo menos sujeito a transformações, uma escritora insuperável, cuja categoria intelectual, para vergonha nossa, ainda não foi devida e necessariamente reconhecida. Embora dissesse pouco, apenas no silêncio vai-se ao encontro de um amigo.
Clarice Lispector pela escritora, jornalista e professora Nélida Piñon, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.

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Na última fase da vida de Clarice surgiram outros, mas desde o princípio de sua vida literária fui de seus melhores amigos. Recentemente minha mulher, encarregada de uma exposição sobre ela na Casa de Cultura Laura Alvim, por ocasião dos dez anos de sua morte, ficou surpreendida ao verificar, consultando o acervo na Casa de Rui Barbosa, que a parte substancial da sua correspondência eram as cartas trocadas comigo ao longo da vida.Em 1943 recebi em Belo Horizonte um exemplar com dedicatória de um romance chamado Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, que eu não sabia quem era. Também não sabia por recomendação de quem, talvez de Lúcio Cardoso.Fiquei deslumbrado com o livro.Rubem Braga conheceu Clarice em Nápoles durante a guerra — Maury Gurgel valente, seu marido, servia lá como diplomata. Quando ela veio ao Brasil, Rubem nos apresentou um ao outro.Fiquei deslumbrado com ela.Imediatamente nos tornamos amigos, de encontro diário, enquanto ela esteve aqui. Depois que deixou o país, a amizade continuou, intensamente vivida através de cartas, com uma freqüência ás vezes semanal, de 1946 a 1969 — durante 23 anos, portanto.Trocávamos idéias sobre tudo. Submetíamos nossos trabalhos um ao outro. Juntos reformulávamos nossos valores e descobríamos o mundo, ébrios de mocidade. Era mais do que a paixão pela literatura, ou de um pelo outro, não formulada, que unia dois jovens “perto do coração selvagem da vida”: o que transparece em nossas cartas, que reli recentemente, é uma espécie de pacto secreto entre nós dois, que nos fazia solidários ante o enigma que o futuro reservava para nosso destino de escritores.Tornei-me uma espécie de agente literário de Clarice no Brasil. Andava às voltas com editoras para os seus livros e encaminhando seus contos para revistas. Como Senhor, por exemplo, dirigida por Paulo Francis e Nahum Sirotsky, aos quais a apresentei, numa visita que fizemos à redação da revista, na rua Santa Clara, quando ela voltou ao Brasil.Levei-a também para os Cadernos de cultura, excelente coleção dirigida por Simeão Leal no Ministério da Educação. Saiu uma edição com o título Mistério em São Cristóvão e com um erro no nome da autora — Clarice com dois SS —, que por causa disso recolhemos, hoje uma raridade. Depois saiu outra, chamada Alguns contos, com o nome certo.Nos originais que ela me enviou de Washington, onde passou a morar, do romance A maçã no escuro, título que sugeri — ia se chamar A veia no pulso —, fiz 340 sugestões... Ela aceitou praticamente todas. Acabei sendo eu próprio seu editor, com Rubem Braga, na Editora do Autor e a Editora Sabiá.
Lembrança de Clarice pelo escritor, cronista, editor, produtor e diretor Fernando Sabino. Foi um dos mais fiéis e dedicados amigos de Clarice, empenhando-se em encontrar editor para seus livros e publicando-os depois em sua própria editora, a Sabiá. Texto extraído de O tabuleiro de damas. Trajetória do menino ao homem feito. Rio de Janeiro: Editora Record, 1988.
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Clarice Lispector é uma coisa escondida sozinha num canto, esperando, esperando. Clarice Lispector só toma café com leite. Clarice Lispector saiu correndo correndo no vento na chuva, molhou o vestido perdeu o chapéu. Clarice Lispector é engraçada! Ela parece uma árvore. Todas as vezes que ela atravessa a rua bate uma ventania, um automóvel vem, passa por cima dela e ela morre. Me escreva uma carta de 7 páginas, Clarice.
Clarice Lispector, por Fernando Sabino. O escritor já havia terminado sua longa carta, tendo, inclusive, assinado-a. Mas, parece que ao perceber que ainda resta meia folha disponível, lançou-se nesse improviso lírico, assinando-o ao final. Carta manuscrita, enviada de Nova York e datada de 10 de junho de 1946. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
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Porisso (sic) não te posso mandar nenhuma palavra animadora. Digo apenas que não concordo com você quando você diz que faz arte apenas porque “tem um temperamento infeliz e doidinho”. Tenho uma grande, uma enorme esperança em você e já te disse que você avançou na frente de nós todos, passou pela janela, na frente deles todos. Apenas desejo intensamente que você não avance demais para não cair do outro lado. Você tem de ser equilibrista até o fim da vida. E suando muito, apertando o cabo da sombrinha aberta, com medo de cair, olhando a distância do arame já percorrido e do arame a percorrer — e sempre tendo de exibir para o público um falso sorriso de calma e facilidade. Tem de fazer isso todos os dias, para os outros como se na vida não tivesse feito outra coisa, para você como se fosse sempre a primeira vez, e a mais perigosa. Do contrário seu número será um fracasso.
Carta de Fernando Sabino, enviada de Nova York em 6 de julho de 1946.. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.

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