"Amar é mudar a alma de casa."
Mário Quintana




No passeio pelo ideal amoroso na literatura encontramos em Roland Barthes, já citado antes, uma boa definição do que nos causa uma ausência ou o que fazemos com essa situação inevitável:

"Devo infinitamente ao ausente o discurso da sua ausência; situação com efeito extraordinário; o outro está ausente como referente, presente como alocutário. Desta singular distorção nasce uma espécie de presente insustentável; estou bloqueado entre dois tempos, o tempo da referência e o tempo da alocução; você partiu (disso me queixo), você está aí (pois me dirijo a você). Sei então o que é o presente, esse tempo difícil: um simples pedaço de angustia. A ausência dura, preciso suportá-la. Vou então manipulá-la: transformar a distorção do tempo em vaivém, produzir ritmo, abrir o palco da linguagem (a linguagem nasce da ausência: a criança faz um carretel, que ela lança e retoma, simulando a partida e a volta da mãe: está criado um paradigma). A ausência se torna uma prática ativa, um afã (que me impede de fazer qualquer outra coisa); cria-se uma ficção de múltiplos papéis (dúvidas, reprovações, desejos, depressões). Essa encenação lingüística afasta a morte do outro: diz-se que um pequeno instante separa o tempo em que a criança ainda acredita que a mãe está ausente daquele em que acredita que ela já está morta. Manipular a ausência, é alongar esse momento, retardar tanto quanto possível o instante em que o outro poderia oscilar secamente da ausência à morte."

Roland Barthes



E a ausência se transmuta em solidão, não há um caminho e nada ao redor chama atenção que não seja um vazio, essa imensidão de estar só no mundo.
Diria Nietzsche sobre a sua solidão. Solidão de doente, encarcerado dentro de si, cego pela dor de cabeça que muitas vezes duravam dias. Dias plenas de solidão e dor.

"Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz - ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.
Ali as palavras e os tempos
poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar."


O desabitar constante de si, de seu corpo, da própria consciência sempre tão representativa do perder-se de amor encontra eco nos versos dos poetas de todos os tempos. O que move o poeta a dar voz àqueles que sofrem de amor, é toda dor que sente, ainda que não esteja amando, mas traz em si o estofo necessário de dores milenares.



Aqui está minha vida - esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz - esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está minha dor - este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança - este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.

Cecília Meireles




Talvez o poeta mais representativo dessa solidão intrínseca, ainda que nem sempre de fundo amoroso, seja Rilke. Ele, como ninguém dissemina ao longo da sua poesia todo o estado de solidão em que viveu. Era de fato seu combustível. Nele, a solidão encontrava-se em estado puro.


(...)

"Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe."


a solidão é como chuva.

sobe do mar nas tardes em declínio
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio
para cair do céu sobre a cidade

goteja na hora dúbia quando os becos
anseiam longamente pela aurora
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando

a solidão com os rios vão passando

rilke




O diálogo amoroso em versos foi visualizado por Paulo Mendes Campos, quando em uma das suas crônicas reuniu dois grandes escritores brasileiros: Cecília Meireles e Emílio Moura, dos maiores líricos da língua. A composição respeitou a integridade dos versos dos dois poetas, sendo utilizada a Obra Poética de Cecília Meireles e o Itinerário Poético de Emílio Moura. As afinidades do lirismo de ambos emprestam ao diálogo unidade e espontaneidade. Fiz questão de transcrever pela beleza e forma como foi feito.


Ele e Ela


ELE: Por que não te conheci menina?
ELA: Fui morena e magrinha como qualquer polinésia, e comia mamão, e mirava a flor da goiaba. E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras...
ELE: Por que não te conheci quando ias ao colégio?
ELA: Conservo-te o meu sorriso para, quando me encontrares, ver que ainda tenho ares de aluna do paraíso.
ELE: Teu sorriso é tão puro que te ilumina toda.
ELA: Quero apenas parecer bela.
ELE: Nunca te entendo, tantas te vejo. Qual a que vive, qual a que inventas?
ELA: A vida só é possível reinventada.
ELE: E a vida o que é?
ELA: Ando à procura de espaço para o desenho da vida. Saudosa do que não faço, do que faço arrependida.
ELE: De repente, tudo se torna tão irreal que te sinto invisível.
ELA: Digo-te que podes ficar de olhos fechados sobre o meu peito, porque uma ondulação maternal de onda eterna te levará na direção do mundo.
ELE: Tudo em ti é viagem.Viagem até mesmo ao redor de tua inacreditável imobilidade.
ELA: Até sem barco navega quem para o mar foi fadada.
ELE: Eis a nossa fraqueza: essa necessidade de compreender e de sermos compreendidos, essa febre de ser, esse espanto...
ELA: Agora compreendo o sentido e a ressonância que também trazes de tão longe em tua voz.
ELE: Eu queria que me pertencesses como a cor à luz, como a poesia ao poeta.
ELA: Tenho fases como a Lua. Fases de andar escondida, fases de vir para a rua...Perdição da minha vida! Perdição da minha vida! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha.
ELE: Tenho medo de mim, de ti, de tudo...Cada gesto que fazes é uma aventura nova que se inicia.
ELA:Nunca eu tivera querido dizer palavra tão louca...
ELE: Quero-te muito. É como recriar uma rosa.
ELA: Sou como todas as coisas: e durmo e acordo em tua cabeça, com o andar do dia e da noite, o abrir e o fechar das portas.
ELE: Sonho.És sonho.É tarde, é cedo ?
ELA:Quero um dia pra chorar. Mas a vida vai tão depressa!
ELE:Ah! ser contraditório, dividido, disperso !
ELA: Somos um ou dois? Às vezes, nenhum. E em seguida, tantos.
ELE: Vieste do Cântico dos Cânticos: " Os teus cabelos são como um rebanho de cabras ..."
ELA: Já fui loura, morena, já fui Margarida e Beatriz. Já fui Maria e Madalena. Só não pude ser como quis.
ELE: Sonho que surges diante de mim como quem desce do Líbano.
ELA: Serás o Rei Salomão? Por isso, meu corpo vão brotando em mornos canteiros, incenso, mirra, e a canção.
ELE: Fabrico uma esperança como quem apaga algo sujo num muro e ali, rápido, escreve: Futuro.
ELA: Uma palavra caída da montanha dos instantes desmancha todos os mares e une terras mais distantes.
ELE: É sonho o sonho ?
ELA: Nunca existiu sonho puro, tão puro como o da minha timidez.
ELE: Na verdade, eu já te esperava desde o princípio.
ELA: O mar imóvel dos teus olhos...
ELE: És linda como a manhã que nasce. Que amor o meu! Olha, até parece que somos eternos, livres e eternos.
ELA: Tu és como o rosto das rosas, diferente em cada pétala.
ELE: E a rosa, a rosa o que será?
ELA: A surda e silenciosa, e cega e bela e interminável rosa.
ELE: Quanto mais nos falamos, mais sinto necessidade de ti. Que nos ficou de tudo o que não fomos?
ELA: Nada sei. De nada. Contemplo.
ELE: Estou diante de ti. Nu e silencioso. Por que não prevaleces deste instante e não me revelas quem sou ?
ELA: AH! Se eu nem quem sou...
ELE: Para onde vão teus caminhos? De onde vêm eles?
ELA: Primeiro, foram os verdes e as águas e pedras da tarde, e maus sonhos de encontrar-te. Mas depois houve caminhos pelas florestas lunares, e, mortos em meus ouvidos mares brancos de palavras. E eram flores encarnadas, por cima das folhas verdes. (E entre os espinhos de prata, só meus sonhos de perde-te...)
ELE: Aqui estou, tímido e humilde.
ELA: Pois aqui estou, cantando.
ELE: Agora que estou diante de ti, já não me pertenço.
ELA: Nossas perguntas e respostas se reconhecem como olhos dentro dos espelhos. Olhos que choraram.
ELE: Tua presença me invade como a revelação do irreal.
ELA: Conversamos dos dois extremos da noite,como praias opostas.
ELE: Diante de meus olhos matinais, as coisas se ordenam simples e perfeitas: o céu, o mar, teu corpo. Ah!, o teu corpo!
ELA: Por mais que me procure, antes de tudo ser feito, eu era amor.
ELE: Que tudo o mais está perdido...


The End

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