Marguerite Yourcenar



Certa vez, perguntaram a Marguerite por que deixara pronto seu túmulo com a inscrição 1903-19... "Não procuro apressar nem provocar, mas estou pronta. E mandei gravar os dois primeiros algarismos pois penso que o ano 2000 não é para mim."

Marguerite Yourcenar, ou melhor, Marguerite Antoinette, Jean, Marie, Ghislaine de Crayencourt, nasceu em 18 de Junho de 1903 em Bruxelas, em uma família aristocrática. Perde a mãe ao nascer e o pai aos 26 anos e abandona os palacetes da aristocracia por uma vida errante de escritora.
Marguerite dedicou-se com afinco ao ofício, o que acabou por conduzi-la a Academia Francesa de Letras. Foi a primeira mulher eleita.
Dos anos de viagem com seu pai acumulou erudição que empregou como contista, romancista, ensaísta e tradutora. Os prêmios se sucederam e a sua literatura ganhou reconhecimento mundial.
Marguerite viveu 40 anos com a namorada, Grace Frick. Aos 76 anos conhece Jerry Wilson, quarenta e seis anos mais novo, com quem se lança numa louca viagem pelo mundo: o seu lápis de pau assinalará no mapa os locais que falta conhecer antes da morte: Caraíbas, Guatemala, Egito, Itália, Japão, Tailândia, Índia, Quênia, Marrocos, Europa, de novo. Atravessar o mundo loucamente, como se o tempo tivesse parado nos anos vinte e não houvesse nada mais a perder ou a ganhar até ao fim.
Desta espécie de última noite de glória, que foi a derradeira fase da vida de Marguerite, uma fotografia a preto e branco, tirada em Marrocos, encerra tudo o resto que ficou para trás. A face da escritora recorta-se em grande plano, terminado num minúsculo brinco de ouro que parece brincar sozinho no lóbulo arredondado da orelha. Traços longos e finos como hastes atravessam-lhe a testa, as fontes, a curva dos olhos. Ela própria se questiona sobre esse lento vestígio do tempo, impiedoso e cruel, com quem atravessou uma existência. E acaba por responder no alto do seu último livro. "O quê? A Eternidade".
Marguerite Yourcenar morreu um ano depois de seu último companheiro, no dia 17 de dezembro de 1987. Ela havia escrito profeticamente na juventude: "Solidão... Eu não acredito como eles acreditam. Não vivo como eles vivem. Não amo como eles amam... Eu morrerei como eles morrem."



Cantilena Para Um Tocador De Flauta Cego


Flauta da noite que se cerra,
Presença líquida de um pranto,
Todos os silêncios da terra
São as pétalas do teu canto.

Espalha teu pólen na alfombra
Do catre que por fim te acoite
Mel de uma boca de sombra
Como um beijo na boca da noite

Marguerite Yourcenar



Leia: http://diferencial.ist.utl.pt/edicao/22/yourcenar.htm
http://www.nossacasa.net/recomeco/default.asp?item=030

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