Jack Unterweger
O poeta assassino
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Seres humanos são bichos estranhos mesmo. Como explicar o fascínio por histórias bizarras, por pessoas cuja as vidas são um enredo tão intrincado que o melhor thriller psicológico não seria capaz de reproduzir ou se tentasse soaria inverossímil?
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Talvez a explicação resida no fato de sermos "normais". De não nos sentirmos capazes de fazer o mesmo jamais...ou talvez na maioria das vezes. Assim como Hitchcock, também acho que todos somos capazes de matar. Não acha? Então pense em alguém que você ama muito, talvez mais do que a você mesmo, um filho, seus pais, um irmão, um amigo. Pensou? E se essa pessoa estivesse sob ameaça, você não seria capaz de matar para salvá-la? Pois é, acho que sim, mas essa não é a história de Jack.
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A história de Jack Unterweger começa em 16 de agosto de 1951, data em que nasceu. Sua mãe era prostituta, sua avó alcoólatra e seu pai um soldado amreicano desconhecido. A pobreza era extrema e a vida difícil para todos. Mas Jack sobreviveu e desenvolveu um ódio especial contra prostitutas. A primeira que ele assassinou usando o soutien da vítima, era Margaret Schaefer. Tinha 18 anos. O ano era 1976. Nesse mesmo ano seria preso e condenado.
A vida na prisão não seria seu destino final. Preso, o carismático Jack, começa a escrever compulsivamente caindo nas graças de críticos literários e editores por consequência.
Em 1990, Jack consegue sair da prisão e se torna o darling do momento. Dizendo-se reabilitado, vende a imagem de alguém que conseguiu se recuperar e de quebra descobriu o talento como escritor.
Não era bem assim. Talento literário talvez, reabilitação nunca. No primeiro ano de sua libertação seis prostitutas foram assassinadas. Modus operandi? Estranguladas com os próprios soutiens. Não seriam as últimas. Em meio as investigações, ele ainda conseguiria tempo para assassinar mais cinco, num total de onze assassinatos. Condenado, seria preso em 18 de junho.
Não ficaria preso, o promissor escritor austríaco, símbolo nacional de reabilitação se mataria enforcado em sua cela, dando fim a sua história. Era 29 de junho de 1994.
Leia mais.
A noite passada sonhei com a paz.



Dang Thuy Tram

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Ontem a noite, entre uma taça de vinho e outra, soube de um livro fascinante. Um livro que conta uma história real, romantica e sobretudo emocionante.
O livro em questão é na verdade um diário escrito pela médica Dang Thuy Tram. Assim como Anne Frank, essa jovem médica deixou um registro de uma época sombria e infelizmente muito atual, uma vez que as guerras ainda se espalham pelo mundo matando e marcando famílias para sempre.

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Dang Thuy Tram tinha apenas 24 anos quando, em dezembro de 1966, deixou a casa dos pais – uma remediada família de Hanói – rumo ao sul do país, até a pequena aldeia de Quang Ngai, para trabalhar como médica voluntária durante a Guerra do Vietnã.

A jovem Thuy Tram partiu para Quang Ngai “atendendo ao chamado do país e do amor”. Profundamente idealista, muitas vezes ingênua, a jovem se alistou como voluntária para ficar mais próxima de sua grande paixão – o jovem M., de quem nunca se soube o nome, seis anos mais velho que ela, chefe de um grupo responsável pela instalação de minas. Os passos de M. serviram de modelo para a escolha política de Thuy, ela se esforçou para fazer parte do Partido Comunista e viver de forma patriótica, até o fim de sua vida.


O livro começa um ano depois de Thuy chegar ao hospital de campanha da Frente de Libertação Nacional – o diário com as anotações sobre os doze primeiros meses da jovem no sul se perdeu. Lá, em meio a aldeias arrasadas por intensos bombardeios, Thuy era a única responsável por gerenciar a clínica, tratar dos feridos e dar aulas aos aspirantes à medicina, ainda mais jovens que ela, a quem tratava como irmãos. Ela também participava ativamente das reuniões do partido comunista, do qual aspirava se tornar uma líder ativa. As anotações do diário foram feitas nos intervalos entre as diversas atividades da jovem médica, em enfermarias, trincheiras e abrigos subterrâneos.
Em seu diário, Thuy salta da análise política para observações pessoais, da confissão para a reflexão. O tom e o ritmo da narrativa acompanham suas mudanças de ânimo e humores. Ela usa belas metáforas para descrever a dor da perda em meio à guerra – “a vida se estende diante de mim em mil pedaços de amor, esperança e inveja”. Faz avaliações duras, muitas vezes injustas, sobre suas próprias fraquezas: - ‘ah, Thuy, sua garotinha! Você ainda é uma criança, você deixa que os sentimentos se sobreponham à razão’. Logo depois, ela tenta se animar e escreve palavras de encorajamento para ela própria: – “permaneça calma e firme sabendo que está certa” .
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Com o acirramento dos conflitos, em abril de 1969, o tom dos relatos se torna ainda mais emocionado. A morte se aproxima por todos os lados. As perdas humanas aumentam. Thuy, a equipe e os pacientes são obrigados a deixar a clínica. A partir daí, ela e seus companheiros de trabalho passam a se deslocar com freqüência, sem encontrar um local seguro para instalar o hospital de campanha. Em 2 de junho de 1970, a clínica provisória montada nas montanhas é bombardeada. Todos deixam o local no dia seguinte, exceto Thuy, três enfermeiras e cinco pacientes gravemente feridos. A partir daí, começa a contagem regressiva para a salvação, que mais parece um devaneio, de tão improvável. /
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A salvação nunca chegou para Thuy. Ela foi morta com um tiro na testa, por soldados norte-americanos durante uma das inúmeras ofensivas à inóspita região, conhecida como baluarte da guerrilha comunista. Junto ao corpo, foi encontrado um rádio, um registro contábil de arroz, anotações sobre os ferimentos que tratou, frascos de remédio e ataduras, poemas e um diário.

/Escrito ao longo de dois anos, de 1968 a 1970, o caderno sobreviveu à guerra e foram salvos da fogueira graças ao jovem Fred Whitehurst, que, à época, trabalhava no serviço de inteligência militar na base de Duc Pho. Desobedecendo às regras, ele guardou o diário de Thuy por 40 anos. Só em 2005, depois de deixar o FBI, onde trabalhou depois da guerra, Whitehurst decidiu refazer os passos da jovem e localizar a sua família no Vietnã. Encontrou a mãe de Thuy e a ela entregou o diário.

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As imagens dos diários estão no site norte-americano dedicado a este livro.
Há também um documentário Finding Thuy, de Neil Alexander que em 2005 acompanhou a viagem de Fred Whitehurst e do seu irmão quando se foram encontrar com a família de Dang Thuy Tram.
Pra quem perguntou, o livro saiu pela Editora Rocco.

João Guimarães Rosa
O vaqueiro das grandes Veredas.





27/06/1908 - centenário de nascimento.



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"Vivo no infinito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa"



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Em 1967, João Guimarães Rosa seria indicado para o prêmio Nobel de Literatura. A indicação, iniciativa dos seus editores alemães, franceses e italianos, foi barrada pela morte do escritor. A obra do brasileiro havia alcançado esferas talvez até hoje desconhecidas. Quando morreu, em 19 de novembro de 67, Guimarães Rosa tinha 59 anos. Tinha-se dedicado à medicina, à diplomacia, e, fundamentalmente às suas crenças, descritas em sua obra literária. Fenômeno da literatura brasileira, Rosa começou a escrever aos 38 anos. Depois desse volume, escreveria apenas outros quatro livros. Realização, no entanto, que o levou à glória, como poucos escritores nacionais. Guimarães Rosa, com seus experimentos lingüísticos, sua técnica, seu mundo ficcional, renovou o romance brasileiro, concedendo-lhe caminhos até então inéditos. Sua obra se impôs não apenas no Brasil, mas alcançou o mundo.


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"Sufoquei numa estrangulação de dó. Constante o que a Mulher disse: carecia de se lavar e vestir o corpo. Piedade, como que ela mesma, embebendo toalha, limpou as faces de Diadorim.
Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo mundo sair. Eu fiquei. E a mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo e disse...
Diadorim - nú de tudo. E ela disse:
- "A Deus dada. Pobrezinha..."
Diadorim era mulher como o sol não ascende a água do rio Urucuia, como eu solucei meu desespero. "
Grande Sertão: Veredas
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"Não me envergonho em admitir que Grande Sertão Veredas me rendeu um montão de dinheiro. A esse respeito, quero dizer uma coisa: enquanto escrevia Grande Sertão, minha mulher sofreu muito, porque eu estava casado com o livro. Por isso dediquei-o a ela, como sou um fanático da sinceridade lingüística, isso significou para mim que lhe dei o livro de presente, e portanto o dinheiro ganho com esse romance pertence a ela, somente a ela, e pode fazer o que quiser com ele".



O lançamento de Grande Sertão Veredas causa grande impacto no cenário literário brasileiro. O livro é traduzido para diversas línguas e seu sucesso deve-se, sobretudo, às inovações formais.

Crítica e público dividem-se entre louvores apaixonados e ataques ferozes. Torna-se um sucesso comercial, além de receber três prêmios nacionais: o Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro; o Carmen Dolores Barbosa, de São Paulo; e o Paula Brito, do Rio de Janeiro. A publicação faz com que Guimarães Rosa seja considerado uma figura singular no panorama da literatura moderna, tornando-se um "caso" nacional. Ele encabeça a lista tríplice, composta ainda por Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, como os melhores romancistas da terceira geração modernista brasileira.

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"O mundo é mágico.
As pessoas não morrem, ficam encantadas".





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Em 62, é lançado PRIMEIRAS HISTÓRIAS, livro que reúne 21 contos pequenos. Nos textos, as pesquisas formais características do autor, uma extrema delicadeza e o que a crítica considera "atordoante poesia". No ano seguinte, em maio, candidata-se pela segunda vez à ABL(Academia Brasileira de Letras), sendo eleito por unanimidade. O ano de 1965 marca a expansão do nome e do reconhecimento de Rosa no exterior; já o ano de 67 anuncia-se grandioso para Guimarães Rosa. Em abril, vai ao México, representando o Brasil no I Congresso Latino-Americano de Escritores.

Na volta, é convidado, junto com Jorge Amado e Antonio Olinto, a integrar o júri do do II Concurso Nacional de Romance Walmap. No meio do ano, publica seu último livro, também uma coletânea de contos, TUTAMÉIA. Nova efervescência no meio literário, novo êxito de público. Tutaméia, obra aparentemente hermética, divide a crítica. Uns vêem o livro como "a bomba atômica da literatura brasileira"; outros consideram que em suas páginas encontra-se a "chave estilística da obra de Guimarães Rosa, um resumo didático de sua criação".O escritor decide, então, tomar posse na Academia Brasileira de Letras, no dia 16 de novembro de 67, dia do aniversário de João Neves da Fontoura, seu antecessor. No dia 19, Guimarães Rosa morreu, em decorrência de um enfarte.


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-"Diacho, de menino, carece de trabalhar, fazer alguma coisa, é disso que carece! - o Pai falava, que redobrava: xingando e nem olhando Miguilim. Mãe o defendia, vagarosa, dizia que ele tinha muito sentimento. - "Uma póia!" - o Pai desabusava mais. - "O que ele quer é sempre ser mais do que nós, é um menino que despreza os outros e se dá muitos penachos. Mais bem que já tem prazo para ajudar em coisa que sirva, e calejar os dedos, endurecer casco na sola dos pés, engrossar esse corpo!" Devagarzinho assim, só suspiro, Mãe calava a boca. E Vovó Izidra secundava, porque achava que, ele Miguilim solto em si, ainda podia ficar prejudicado da mente do juízo.Daí por diante, não deixavam o Miguilim parar quieto. Tinha de ir debulhar milho no paiol, capinar canteiro de horta, buscar cavalo no pasto, tirar cisco nas grades de madeira do rego. Mas Miguilim queria trabalhar, mesmo. O que ele tinha pensado, agora, era que devia copiar de ser igual como o Dito."
(ROSA, João Guimarães. Manuelzão e Miguilim. in Ficção completa. v.1. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.526).

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Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG). Aos seis anos, começou sozinho a estudar francês. Em 1917, com a chegada de um frade holandês à cidade, continuou o aprendizado de francês e, de quebra, iniciou-se no holandês. Estudou, depois, em Belo Horizonte, no Colégio Arnaldo, dirigido por padres alemães. Foi o suficiente para que ele também se interessasse pelo alemão.
Numa entrevista, Guimarães Rosa disse, certa vez: "Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.
"Em 1930, já casado com Lígia Cabral Penna, Rosa forma-se em medicina na Universidade de Minas Gerais. Vai exercer a profissão na cidade de Itaguara, então pertencente ao município de Itaúna (MG). O casamento, que lhe deu duas filhas, durou pouco. Achando-se pouco vocacionado para a medicina, Rosa presta concurso para o Itamarati e, em 1938, é nomeado cônsul adjunto em Hamburgo, Alemanha.
Na Europa, conhece Aracy Moebius de Carvalho, que se tornaria sua segunda esposa. Durante a guerra, várias vezes o escritor escapou da morte.
Uma vez, ao voltar para casa, encontrou-a destruída por um bombardeio. Como diplomata, Rosa facilitou a fuga de judeus perseguidos pelo nazismo. Dava-lhes o visto de entrada no Brasil, sem mencionar a religião do portador.
Nessa empreitada, o escritor contou com a ajuda da esposa Aracy. A concessão dos vistos representava uma atitude temerária, tanto em relação aos nazistas como ao governo brasileiro. Como se sabe, a ditadura getulista nutria francas simpatias pelo nazi-fascismo até meados da guerra. Basta lembrar que, em 1936, Vargas entregou aos nazistas a alemã Olga Benário Prestes, judia e comunista, sabendo que isso era o mesmo que condená-la à morte.


Em reconhecimento à ajuda de Guimarães Rosa e Aracy, o governo de Israel, em 1985, deu o nome do casal a um bosque em Jerusalém. Segundo Aracy, que esteve presente à cerimônia de inauguração do bosque, o marido não gostava de tocar nesse assunto. Tinha pudor de falar de si mesmo.


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Ao lado de um grande homem
uma mulher excepcional:
Aracy de Carvalho Guimarães Rosa


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Paranaense de Rio Negro, filha de pai brasileiro e mãe alemã, separada do primeiro marido, Johannes Edward Ludwig Tess, numa época em que o casamento era sagrado, Aracy Moebius de Carvalho mudou-se para a Alemanha em 1934 para morar com uma tia e com o filho Eduardo, então com cinco anos. Fluente em alemão, francês e inglês, encontrou trabalho no consulado brasileiro em Hamburgo, como chefe do setor de vistos. Chocada com a perseguição aos judeus promovida pelo nazismo, Aracy resolveu ignorar as determinações do Itamaraty para impedir a entrada dos "semitas" no Brasil e ajudou a conceder vistos a dezenas deles, talvez uma centena.
Em 1938, o diplomata João Guimarães Rosa, que depois se tornaria um dos maiores escritores brasileiros, foi nomeado cônsul-adjunto em Hamburgo. Ele teve pleno conhecimento da "transgressão" de Aracy e lhe deu apoio. Casaram-se em 1940. Viveram em Hamburgo, sob bombardeios da RAF (Royal Air Force), até voltarem ao Brasil, em 1942. Grande sertão: veredas, de 1956, obra-prima da literatura brasileira, foi dedicado a Aracy, carinhosamente chamada de "Ara" por Guimarães Rosa. Dedicado, não; dado: "A Aracy, minha mulher, Ara, pertence esse livro".
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A solidariedade do casal a perseguidos não se limitou à época do nazismo. Em 1964, eles ajudaram o jornalista e crítico literário Franklin de Oliveira a se exilar. Em 1968, quando as trevas do AI-5 desabaram sobre o País, Aracy, já viúva, escondeu em sua casa no Rio de Janeiro o cantor e compositor Geraldo Vandré, perseguido pela repressão política.
Pelo seu trabalho em Hamburgo, em 1983 Aracy de Carvalho Guimarães Rosa foi incluída entre os quase 22 mil nomes que estão no Jardim dos Justos, no Museu do Holocausto, em Jerusalém. Tratase de uma homenagem e um reconhecimento que o Estado de Israel presta aos góim (não-judeus) que ajudaram judeus a escapar do genocídio. Entre os mais famosos estão o empresário alemão Oskar Schindler - que inspirou o filme A lista de Schindler, de Steven Spielberg - e o diplomata sueco Raoul Wallenberg.

Apenas outro brasileiro, o embaixador Luiz de Souza Dantas (1876-1954), recebeu a mesma honraria, em 2003. "Discreta, sem jamais ter caído na tentação de se promover por ter sido quem foi, Aracy paga hoje o preço do esquecimento", diz o historiador e escritor René Daniel Decol, empenhado no resgate dessa personagem. "Até sua influência sobre o escritor tem sido negligenciada pela crítica, pelos historiadores da literatura e pela mídia."


Segundo a Concise Encyclopedia of the Holocaust, editada pela International School for Holocaust Studies, Yad Vashem, Aracy começou a ajudar os judeus depois do progrom ocorrido na noite de 9 de novembro de 1938, que ficaria conhecido como Kristallnacht - Noite dos Cristais. Naquela noite, hordas nazistas na Alemanha e na Áustria atacaram e destruíram sinagogas, residências e estabelecimentos comerciais judaicos, matando cerca de 90 pessoas, marcando o início da repressão aos judeus que terminaria na "solução final", o extermínio puro e simples. Apesar de ter um filho pequeno e a mãe que dependia dela, Aracy não se intimidou. "Minha mãe achava aquilo tudo injusto, ignorou a determinação do Itamaraty e, com a maior discrição, continuou a preparar os processos de vistos para judeus, à revelia de seus superiores", disse a ISTOÉ o advogado Eduardo de Carvalho Tess, filho de Aracy. Para tanto, ela contou com a cumplicidade de um funcionário da polícia de Hamburgo, que emitia passaportes para judeus sem o infame "J" vermelho que os identificava como tais. Isso viabilizava a emissão de vistos para eles, que passavam por europeus. "Depois, ela enfiava os vistos no meio da papelada que despachava com o cônsul-geral, que os assinava sem ver", diz Tess.
clandestinamente o carro do serviço consular para transportar judeus que se escondiam em sua casa e em casas de amigos e para distribuir entre eles alimentos que ela desviava da cota que o consulado recebia - na época da guerra, a Alemanha vivia sob racionamento. "Muitas vezes, ela transportou judeus no porta-malas do carro do consulado. Eu me lembro que era um Opel Olympia alemão. Chegou a levar uma pessoa até a Dinamarca", diz o filho. Personalidade forte, Aracy não se intimidava quando era parada pela Gestapo. Pelo menos uma vez, enfrentou os policiais de dedo em riste, desconcertando-os com seu alemão impecável. "Minha mãe exibia muita segurança e autoridade, os alemães respeitavam a autoridade."

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"Nunca tive medo, quem tinha medo era o Joãozinho (o escritor Guimarães Rosa). Ele dizia que eu exagerava, mas não se metia muito e me deixava ir fazendo", disse Aracy ao Jornal do Brasil.
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De volta ao Brasil, ela se dedicou inteiramente a colaborar com a atividade literária do marido. Mas ainda voltaria a desafiar o arbítrio. O escritor Franklin de Oliveira relata no prefácio de 1992 de Grande sertão: veredas, que em 1964, quando começou a caça às bruxas, Aracy e Guimarães Rosa quiseram que ele fosse se esconder na casa deles. A oferta foi recusada, e então eles organizaram uma lista de embaixadas nas quais o escritor pudesse buscar asilo. Em 1968, pouco depois de ter se tornado viúva, Aracy participava de reuniões de intelectuais que se opunham à ditadura militar no País.
No dia 13 de dezembro, quando o regime baixou o AI-5, um dos artistas caçados pela polícia encontrou guarida no apartamento de Aracy no Posto 6, Arpoador, com vista para o Forte de Copacabana. Era o compositor Geraldo Vandré, autor de Pra não dizer que não falei das flores. "Do apartamento, ele podia ver a movimentação de soldados e policiais na rua", diz Tess.

Centenária, quase esquecida num apartamento dos Jardins, não se lembra de mais nada disso.
Reservada, no passado ela pouco falou de sua epopéia, que veio à luz através dos depoimentos de alguns de seus protegidos - quase todos mortos. Triste fim para uma grande mulher.
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Leia mais aqui e aqui.





Silêncio, sexo e verdade
Uma entrevista com Michel Foucault
realizada em inglês em Toronto, 22 de jun de 1982.

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- A apreciação do silêncio é uma das numerosas coisas que um leitor, sem que se espere, pode aprender de sua obra. Você tem escrito sobre a liberdade que o silêncio permite, sobre suas múltiplas causas e significações. Em seu último livro[1], por exemplo, você diz que não existe apenas um, mas numerosos silêncios. Seria fundado pensar que há ai um potente elemento autobiográfico?
- Penso que qualquer criança que tenha sido educada em um meio católico justamente antes ou durante a Segunda Guerra Mundial pôde experimentar que existem numerosas maneiras diferentes de falar e também numerosas formas de silêncio. Certos silêncios podem implicar em uma hostilidade virulenta; outros, por outro lado, são indicativos de uma amizade profunda, de uma admiração emocionada, de um amor. Eu lembro muito bem que quando eu encontrei o cineasta Daniel Schmid, vindo me visitar, não sei mais com que propósito, ele e eu descobrimos, ao fim de alguns minutos, que nós não tínhamos verdadeiramente nada a nos dizer. Desta forma, ficamos juntos desde as três horas da tarde até meia noite. Bebemos, fumamos haxixe, jantamos. Eu não creio que tenhamos falado mais do que vinte minutos durante essas dez horas. Este foi o ponto de partida de uma amizade bastante longa. Era, para mim, a primeira vez que uma amizade nascia de uma relação estritamente silenciosa.
É possível que um outro elemento desta apreciação do silêncio tenha a ver com a obrigação de falar. Eu passei minha infância em um meio pequeno-burguês da França provincial, e a obrigação de falar, de conversar com os visitantes era, para mim, ao mesmo tempo algo muito estranho e muito entediante. Eu me lembro de perguntar por que as pessoas sentiam a obrigação de falar. O silêncio pode ser uma forma de relação muito mais interessante.

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- Há, na cultura dos índios da América do Norte [2], uma apreciação do silêncio bem maior do que nas sociedades anglofônicas ou, suponho, francofônica.
- Sim. Eu penso que o silêncio é uma das coisas às quais, infelizmente, nossa sociedade renunciou. Não temos uma cultura do silêncio, assim como não temos uma cultura do suicídio. Os japoneses têm. Ensinava-se aos jovens romanos e aos jovens gregos a adotarem diversos modos de silêncio, em função das pessoas com as quais eles se encontrassem. O silêncio, na época, configurava um modo bem particular de relação com os outros. O silêncio é, penso, algo que merece ser cultivado. Sou favorável que se desenvolva esse êthos do silêncio.

- Você parece estar fascinado pelas outras culturas, e não somente pelas culturas antigas; durante os dez primeiros anos de sua carreira, você viveu na Suécia, na Alemanha Ocidental e na Polônia. Este parece um itinerário um pouco atípico para um acadêmico francês. Você poderia explicar as razões que o motivaram a deixar a França e por que, quando você retorna em 1961, você teria, se me permite dizer, preferido viver no Japão?
- Há hoje, na França, um esnobismo do antichauvinismo. Espero que eu não seja, por meio do que eu disse, associado como representante desta atitude. Se eu fosse americano ou canadense, talvez eu sofresse com certos aspectos da cultura norte americana. De todo modo, eu sofri e sofro ainda muitos aspectos da vida social e cultural francesa. Esta é a razão pela qual eu deixei a França em 1955. Por outro lado, eu vivi também dois anos na Tunísia, de 1966 a 1968, mas por razões puramente pessoais.
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- Você poderia lembrar alguns dos aspectos da sociedade francesa que afetaram você?
- Quando eu deixei a França, a liberdade em matéria de vida pessoal era terrivelmente restrita. Na época, a Suécia parecia um país muito mais liberal. Mas lá, eu descobri que ter um certo tipo de liberdade pode ter, se não os mesmos efeitos, pelo menos tantos efeitos restritivos quanto em uma sociedade diretamente restritiva. Esta foi, para mim, uma experiência muito importante. Depois, tive a oportunidade de passar um ano na Polônia onde, claro, as restrições e o poder de opressão do Partido Comunista é algo verdadeiramente diferente. Em um tempo relativamente pequeno, eu pude experimentar ao mesmo tempo o que era uma velha sociedade tradicional - como era a França dos fins dos anos quarenta e o início dos ano cinqüenta - e a nova sociedade livre que era a Suécia. Eu não diria que tive a experiência da totalidade das possibilidades políticas, mas tive uma amostra do que era, naquela época, as diferentes possibilidades das sociedades ocidentais. Essa foi uma boa experiência.
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- Centenas de americanos vieram a Paris nos anos vinte e trinta, atraídos por aquilo que levou você deixar a França nos anos cinqüenta.
- Sim, mas se eles vêm hoje a Paris, não é mais, penso, a fim de encontrar a liberdade. Eles vêem para apreciar o sabor de uma velha cultura tradicional. Eles vêem na França como os pintores iam à Itália no séc. XVII: a fim de assistir ao declínio de uma civilização. De todo modo, o sentimento que experimentamos da liberdade é lembrado bem mais em países estrangeiros do que em nosso próprio país. Enquanto estrangeiros, podemos fazer pouco caso de todas essas obrigações implícitas que não são inscritas na lei, mas no modo geral de comportamento. Por outro lado, o fato apenas de mudar as obrigações é percebido ou experimentado como uma espécie de liberdade.
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- Retornemos um pouco, se isso não o entedia, a seus primeiros anos em Paris. Creio que você trabalhou como psicólogo no hospital Sainte-Anne.
- Sim. Eu trabalhei durante pouco mais de dois anos, creio.
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- E você disse em algum lugar que você se identificava mais com os pacientes do que com o corpo médico. Isso é, seguramente, uma experiência bem pouco habitual para um psicólogo ou um psiquiatra. Daí vem o fato de que você tenha - notadamente depois desta experiência - experimentado a necessidade de colocar radicalmente em questão a psiquiatria, quando tantas outras pessoas se contentavam em tentar refinar os conceitos estabelecidos?
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- De fato, eu não tinha um emprego oficial. Eu estudava psicologia no hospital Sainte-Anne. Era o início dos anos cinqüenta. Na época, o estatuto profissional dos psicólogos nos hospitais psiquiátricos não era claramente definido. Em minha qualidade de estudante de psicologia (de início estudei filosofia e depois psicologia), eu tinha, em Sainte-Anne, um estatuto muito bizarro. O chefe do serviço era muito gentil comigo e me deixava em total liberdade de ação. Ninguém, entretanto, cuidava do que eu deveria fazer: eu podia fazer qualquer coisa. Eu ocupei, de fato, uma posição intermediária entre o quadro de pessoal e os pacientes; mas eu não tinha, nisso, nenhum mérito, isso não era o resultado de uma conduta particular de minha parte, era a consequência desta ambigüidade de meu estatuto, que fazia que eu não estivesse verdadeiramente integrado ao quadro de pessoal. Tenho clareza que o meu mérito não tinha nada a ver com minha ocupação, porque na época eu sentia tudo isso como uma forma de mal-estar. Apenas alguns anos mais tarde, quando eu comecei a escrever um livro sobre a história da psiquiatria, que esse mal-estar, esta experiência pessoal pôde tomar a forma de uma crítica histórica ou de uma análise estrutural.
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- O hospital Sainte-Anne tinha alguma coisa de particular? Poderia, em algum de seus empregados, uma imagem particularmente negativa da psiquiatria?
- Não!!! Era um desses grandes hospitais como você pode imaginar; e eu devo dizer que ele era antes melhor que a maioria dos grandes hospitais de província que eu visitei para a continuação. Era um dos melhores hospitais de Paris. Não, não havia nada de apavorante. E precisamente isto era importante. Se eu tivesse feito o mesmo trabalho em um pequeno hospital de província, talvez eu me sentisse tentado a imputar esses fracassos à sua situação geográfica ou à suas insuficiências próprias.
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- Você chega a evocar, com um tom de leve desprezo, que é o lugar onde você nasceu; você tem, no entanto, boas lembranças de sua infância em Poitiers, nos anos trinta e quarenta?
- Claro. Minhas lembranças são antes... eu não usaria exatamente a palavra "estranhas", mas isso que me bate hoje, quando eu tento reviver essas impressões, é que a maior parte de minhas grandes emoções são ligadas à situação política. Eu me lembro muito bem de ter experimentado um de meus primeiros grandes terrores quando o chanceler Dollfus foi assassinado pelos nazistas. Era 1934, eu acho. Tudo isso já é muito distante. Raras são as pessoas que se lembram do assassinato de Dollfus. Mas eu me lembro de estar aterrorizado por isto. Eu penso que eu senti ai o meu primeiro grande medo da morte. Eu lembro também da chegada de refugiados espanhóis à Poitiers; e de me embater em sala de aula com meus colegas em função da guerra na Etiópia. Eu penso que os meninos e meninas da minha geração tiveram sua infância estruturada por esses grandes acontecimentos históricos. A ameaça de guerra era nosso pano de fundo, a moldura de nossa existência. Depois veio a guerra. Bem mais que as cenas da vida familiar, esses são os acontecimentos que dizem respeito ao mundo que é a substância de nossa memória. Eu digo "nossa" memória, porque eu sou quase certo que a maior parte de jovens franceses e francesas da época viveram a mesma experiência. Pesava uma verdadeira ameaça sobre nossa vida privada. É talvez a razão pela qual eu sou fascinado pela história e pela relação entre a experiência pessoal e os acontecimentos nos quais somos situados. Este é, penso, o núcleo de meus desejos teóricos.
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- Você continua fascinado por este período, mesmo que não escreva sobre ele?
- Sim, com certeza.
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- O que originou sua decisão de se tornar filósofo?
- Veja, eu não penso que eu tenha jamais tivesse o projeto de me tornar filósofo. Eu não tinha idéia do que iria fazer de minha vida. Eu acho que isso também é bem característico de pessoas de minha geração. Não sabíamos, quando tínhamos dez ou onze anos, se nos tornaríamos alemães ou continuaríamos franceses. Não sabíamos se iríamos morrer ou sobreviver aos bombardeios. Quando eu tinha dezesseis ou dezessete anos, eu sabia apenas de uma coisa: a vida na escola era um ambiente protegido das ameaças exteriores, protegido da política. E a idéia de viver protegido em um ambiente estudantil, em um meio intelectual sempre me fascinou. O saber, para mim, é isso que deve funcionar como o que protege a existência individual e o que permite compreender o mundo exterior. Eu creio que seja isso. O saber como um meio de sobreviver, graças à compreensão.
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- Você poderia dizer algumas palavras sobre seus estudos em Paris? Algo que tenha uma influencia particular sobre o trabalho que faz hoje? Ou antes algum professor para o qual você tem reconhecimento, por razões pessoais?
- Não, eu fui aluno de Althusser e, na época, as principais correntes filosóficas na França eram o marxismo, o hegelianismo e a fenomenologia. Eu as tinha estudado, claro, mas essa que me deu, pela primeira vez, o desejo de completar um trabalho pessoal foi a leitura de Nietzsche.
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- Um público não francês é, sem dúvida, pouco apto para compreender as repercussões dos acontecimentos de maio de 1968; você às vezes diz que eles tornaram as pessoas mais sensíveis a seu trabalho. Você poderia explicar por quê?
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- Eu penso que antes de maio de 1968, na França ao menos, um filósofo tinha que ser marxista, fenomenólogo, estruturalista, e eu não aderi a nenhum desses dogmas. O segundo ponto é que na época , na França, o estudo da psiquiatria ou da história da medicina não tinha, politicamente, um estatuto real. Ninguém se interessava. A primeira consequência de maio de 1986 foi o declínio do marxismo enquanto quadro dogmático e a aparição de novos interesses políticos, culturais, concernentes à vida pessoal. É a razão pela qual eu penso que meu trabalho não encontrou nenhum eco, salvo num círculo muito restrito, antes de 1968.

- Algumas das obras que você faz referência no primeiro volume de sua História da Sexualidade - penso, por exemplo, nesta narrativa da época vitoriana, My Secret Life -, tem uma longa parte sobre fantasias sexuais. É as vezes impossível distinguir a realidade da fantasia. Haveria algum valor, em sua maneira de pensar, em ligar explicitamente ao estudo das fantasias sexuais e em elaborar uma arqueologia dessas fantasias, mais que uma arqueologia da sexualidade?
- Não. Eu não tento fazer uma arqueologia das fantasias sexuais. Eu tento fazer uma arqueologia dos discursos sobre a sexualidade, isto é, no fundo, da relação entre o que fazemos, que nos é imposto, permitido e proibido fazer em matéria de sexualidade e o que nos é permitido, imposto ou proibido de dizer a respeito de nossas condutas sexuais. Este é o problema. Não é uma questão de fantasias: é um problema de verbalização.

- Você poderia explicar como chegou à idéia de que a repressão sexual que caracterizou os sécs. XVIII e XIX na Europa e na América do Norte - uma repressão ao sujeito que nos parece bem documentada historicamente - era de fato ambígua, e que haveria atrás dela, forças que agiriam em direção oposta?
- Não se trata, claro, de negar a existência desta repressão. O problema é mostrar que a repressão se inscreve sempre em uma estratégia política muito mais complexa, que visa a sexualidade. Isto não é simplesmente haver repressão. Há, na sexualidade, um grande número de prescrições imperfeitas, no interior dos quais os efeitos negativos da inibição são contrabalançados pelos efeitos positivos da estimulação. A maneira pela qual, no séc. XIX, a sexualidade foi certamente reprimida, mas também trazida à luz, acentuada, analisada por através de técnicas como a psicologia e a psiquiatria mostra claramente que não se trata de uma simples questão de repressão. Trata-se, antes, de uma mudança na economia das condutas sexuais de nossa sociedade.

- Quais são os exemplos mais marcantes que você pode citar em apoio a sua hipótese?
- Um exemplo é a masturbação das crianças. Uma outra, a histeria e toda a balbúrdia que foi feita em torno da histeria feminina. Esses dois exemplos indicam, claro, a repressão, a proibição, a interdição. Mas o fato de que a sexualidade das crianças tenha se tornado um verdadeiro problema para os pais, uma fonte de questionamento e inquietação, teve múltiplos efeitos ao mesmo tempo sobre as crianças e seus pais. Ocupar-se da sexualidade de suas crianças não era somente, para os pais, uma tarefa moral, mas também uma tarefa prazerosa.
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- Prazerosa? Em que sentido?
- No sentido de uma estimulação e de uma gratificação de natureza sexual.
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- Para os pais?
- Sim. Chame isso uma violação, se você prefere. Alguns textos são quase uma sistemática da violação - da violação pelos pais, da atividade sexual das crianças. Intervir nesta atividade íntima, secreta que é a masturbação não é algo de neutro para os pais. É não somente uma questão de poder, de autoridade, uma tarefa ética; é também um prazer. Concorda? Há, evidentemente um prazer da intervenção. A proibição severa que pesa sobre a masturbação das crianças era, naturalmente a causa dessa inquietação. Mas era também isso que favoreceu a intensificação desta prática, a masturbação recíproca e, sobre este tema, o prazer de uma comunicação secreta entre as crianças. Tudo isso deu uma forma particular à vida familiar, as relações entre pais e filhos e as relações entre as crianças mesmas. Tudo isso teve como consequência não somente a repressão, mas também uma intensificação da inquietação e dos prazeres. Minha proposta não é de dizer que os prazeres dos pais eram o mesmo que o dos filhos ou de mostrar que não há repressão. Eu tento encontrar as raízes dessa proibição absurda.
Uma das razões pelas quais essa interdição estúpida da masturbação tenha persistido durante muito tempo é devido ao prazer e à inquietude, e a toda uma rede de emoções que essa interdição suscita. Qualquer um sabe bem que é impossível de impedir que uma criança se masturbe. Não há nenhuma prova científica de que a masturbação seja nociva. Pode-se estar seguro, ao menos, que este é o único prazer que não é nocivo a ninguém. Então, por que se tem proibido a masturbação por tanto tempo? Tanto quanto eu conheça, não se encontra em toda a literatura greco-romana mais que duas ou três referências à masturbação. A masturbação não é considerada um problema. Ela passaria, na civilização grega e latina, por uma prática à qual se entregam os escravos e os sátiros. Não havia sentido nenhum em falar de masturbação para os cidadões livres.
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- Estamos em um ponto de nossa história onde o futuro é bastante incerto. A cultura popular nos fornece em abundância visões apocalípticas do futuro. Eu penso, por exemplo, no filme de Louis Malle My Dinner with André [1981]. Não é sintomático que, em um tal clima, a sexualidade e a reprodução tornem-se problemáticas e não se pode ver, neste projeto de uma história da sexualidade, um signo desse tempo?
- Não, não penso que possa estar de acordo com isso. De início a preocupação da ligação entre sexualidade e reprodução foi maior, por exemplo, nas sociedades greco-romanas e na sociedade burguesa dos sécs. XVIII e XIX. O que me surpreende é o fato de que hoje a sexualidade tenha, ao que parece, se tornado uma questão que não tem mais ligação direta com a reprodução. É a sexualidade enquanto conduta pessoal que coloca o problema, em nossos dias.
Tome a homossexualidade, por exemplo. Eu penso que uma das razões pelas quais a homossexualidade não constitui um problema importante no séc. XVIII tem a ver com a idéia de que se um homem tem filhos, o que ele possa fazer com outros não importa quase nada. No curso do séc. XIX, começa-se a ver emergir a importância do comportamento sexual na definição da individualidade. E isso é algo totalmente novo. É interessante constatar que antes do séc. XIX, os comportamentos proibidos, mesmo quando severamente julgados, eram sempre considerados como um excesso, uma libertinagem, uma forma de exagero. A conduta homossexual passava sempre por uma forma de excesso do comportamento natural, um instinto, um instinto que era difícil de confinar no interior dos limites particulares. A partir do séc. XIX, constata-se que um comportamento tal qual a homossexualidade passa por um comportamento anormal. Mas quando falo, a esse respeito, de libertinagem não quero dizer, para tanto, que ela era tolerada.
Penso que antes do séc. XIX não se encontra, ou se encontra raramente, a idéia de que os indivíduos se definissem por suas condutas ou seus desejos sexuais. "Dize-me teus desejos e eu te direi quem tu és": essa afirmação é característica do séc. XIX.
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- A sexualidade quase não parece, hoje, figurar como o grande segredo da vida. Há algo que a substitua neste sentido?
- É evidente que o sexo não é mais hoje o grande segredo da vida, pois um indivíduo pode, em nossos dias, deixar aparecer pelo menos certas formas gerais de suas preferências sexuais sem se arriscar à maldição ou à condenação. Mas penso que as pessoas consideram ainda, e são convidadas a considerar, que o desejo sexual é um índice de sua identidade profunda. A sexualidade não é mais o grande segredo, mas ela é ainda um sintoma, uma manifestação disso que há de mais secreto em nossa individualidade.
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- A questão que eu gostaria de colocar agora pode parecer, à primeira vista, estranha, mas se for o caso, eu a explicarei porque, em minha opinião, ela merece ser colocada. A beleza tem uma significação especial para você?
- Penso que ela tem uma significação para todos! Eu sou míope, certamente, mas não cego a ponto de que ela não tenha significação para mim. Mas por que você me coloca esta questão? Eu estou seguro de ter dado a você provas de que não sou insensível à beleza.

- Uma das coisas que impressionam em você é esta espécie de austeridade monástica em que você vive. Seu apartamento em Paris é quase inteiramente branco. Mal se pode encontrar nele os objetos de arte que decoram a maior parte dos apartamentos franceses. Em Toronto, nessas últimas semanas, você tem sido visto, em diversas ocasiões, ostentar trajes tão simples como uma calça branca, uma camiseta branca e uma jaqueta de couro negra. Você disse que se ama tanto o branco é porque em Poitiers nos anos trinta e quarenta as fachadas das casas nunca eram de fato brancas. Você ocupa aqui uma casa de muros brancos ornada com esculturas negras cortadas, e você disse que o ponto que você ama é a nitidez e a força do negro e o branco puros. Há também na História da sexualidade essa memorável expressão: "a austera monarquia do sexo". Você não corresponde à imagem do francês refinado que pratica a arte do bem viver. Você é também o único francês que ama dizer que prefere a cozinha americana.
- Sim, é verdade. Um bom sanduíche com coca-cola. Não há nada igual. É verdade. Com sorvete, é claro.
De fato, eu tenho dificuldade em ter a experiência do prazer. O prazer me parece ser de um controle muito difícil. Isso não é tão simples como usufruir das coisas. Eu devo confessar que é meu sonho. Eu gostaria e espero morrer de overdose de prazer, qualquer que seja. Porque eu penso que é muito difícil, e tenho sempre a impressão de não experimentar o verdadeiro prazer, o prazer completo e total; o prazer para mim está ligado à morte.
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- Por que diz isso?
- Porque o gênero de prazer que eu considero como o verdadeiro prazer seria tão profundo, tão intenso, me submergiria tanto que eu não sobreviveria. Eu morreria. Um exemplo que será ao mesmo tempo muito claro e simples: uma vez eu fui atropelado por um carro na rua. Eu caminhava. E por dois segundos talvez, eu tive a impressão de que eu estava a caminho da morte e experimentei um prazer muito, muito intenso. Fazia um tempo maravilhoso. Eram umas sete horas, uma tarde de verão. O sol começava a se por. O céu estava magnífico, azul. Deste dia fica uma de minhas melhores lembranças.
Há também o fato de que certas drogas são muito importantes para mim, porque elas me permitem ter acesso a esses prazeres terrivelmente intensos que eu busco, e que eu não seria capaz de atingir sozinho. É verdade que um copo de vinho, de bom e velho vinho, pode ser agradável. Mas isso não é para mim. Um prazer deve ser alguma coisa de incrivelmente intenso. Mas eu não penso ser o único nesse caso.
Eu não sei conceder a mim nem aos outros, esses prazeres intermediários que criam a vida cotidiana. Esses prazeres não significam nada para mim e eu não sou capaz de organizar minha vida de maneira a deixar um lugar pra eles. É a razão pela qual eu não sou nem um ser social, nem sem dúvida, no fundo, um ser cultural; e isso é o que faz de mim algo de entediante na vida cotidiana. Viver comigo, que chato!
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- Costuma-se citar a observação de Romain Rolland, segundo a qual os românticos franceses eram visuais, para os quais a musica era apenas um barulho. Mesmo que esta observação seja evidentemente um exagero, alguns estudos bem recentes apontam neste sentido. Encontra-se em muitos de seus livros numerosas referências à pintura, mas poucas à música. Você é um representante desse traço da cultura francesa que tem sublinhado Rolland?
- Sim, isto é certo. Claro, a cultura francesa não concede nenhum lugar à musica ou, se ela concede algum, é um lugar negligenciável. Mas é fato que a música desempenha um papel importante na minha vida pessoal. O primeiro amigo que tive, quando eu tinha vinte anos, era um músico. Mais tarde, eu tive um outro amigo, que era compositor que já é morto. Graças a ele eu conheço toda a geração de Boulez. Esta foi uma experiência muito importante para mim. Em primeiro lugar porque ela me colocou em contato com um tipo de arte que para mim é verdadeiramente enigmática. Eu não tive e nem tenho nenhuma competência neste assunto. Mas eu era capaz de sentir a beleza em qualquer coisa que me fosse muito enigmático. Há algumas obras de Bach e de Webern que me regozijam, mas a verdadeira beleza é para mim uma frase musical, um trecho de música que eu não compreendo, alguma coisa da qual não se possa dizer nada. Tenho essa idéia - talvez arrogante ou presunçosa - de que eu possa dizer algo sobre as grandes pinturas do mundo. E é a razão pela qual elas não são absolutamente belas. Enfim, escrevi algo sobre Boulez. Sobre a influência que teve sobre mim, o fato de viver com um músico durante muitos meses. Sobre a importância que isto teve sobre minha vida intelectual.

- Se eu entendi bem, os artistas e escritores tem, originalmente, uma reação mais positiva em consideração a seu trabalho que os filósofos, sociólogos e outros universitários.
- É verdade.
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- Há afinidades particulares entre o seu tipo de filosofia e as artes em geral?
- Eu não creio poder responder à esta questão. Veja, mesmo que eu resista em dizer, é verdade que eu não possa ser chamado de um bom acadêmico. Para mim o trabalho intelectual está ligado a isso que você define como uma forma de esteticismo - eu entendo isso como a transformação de si. Eu creio que meu problema seja esta estranha relação entre o saber, a erudição, a teoria e a história real. Sei muito bem - e creio que eu saiba desde minha infância - que o saber é impotente em transformar o mundo. Talvez eu esteja errado. E estou seguro que estou errado de um ponto de vista teórico, pois eu sei muito bem que o saber transformou o mundo.

Mas se eu me refiro à minha própria experiência, tenho o sentimento que o saber não pode nada por nós e que o poder político é capaz de nos destruir. Todo o saber do mundo não pode nada contra isso. Tudo o que eu disse se liga não a isso que eu penso teoricamente (eu sei que é falso), mas a isso que eu deduzo de minha experiência própria. Eu sei que o saber tem poder de nos transformar, que a verdade não é somente uma maneira de decifrar o mundo (talvez mesmo que isso que chamamos de verdade não decifre nada), mas que, se eu conheço a verdade, então eu serei transformado. E talvez salvo. Ou então eu morra, mas creio de todo modo, que seja a mesma coisa para mim.

É por isso, veja, que eu trabalho como um doente e que eu trabalhei como um doente toda minha vida. Eu não cuido de forma alguma do estatuto universitário disso que eu faço, porque meu problema é minha própria transformação. É a razão pela qual, quando as pessoas me dizem: "você pensa isso, há alguns anos, e agora diz outra coisa", eu respondo: "vocês acreditam que eu trabalho tanto, há tantos anos pra dizer a mesma coisa e não ser transformado?" Essa transformação de si pelo seu próprio saber é, creio, algo bem próximo da experiência estética. Para que um pintor trabalha senão para ser transformado por sua pintura?
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- Além da dimensão histórica, a História da sexualidade contem uma preocupação ética? Não estaria você no caminho de nos dizer como devemos agir?
- Não. Se você entende por "ética" um código que nos diga de que maneira devemos agir, então, claro, a História da sexualidade não é uma ética. Mas se por "ética" você entende a relação que o indivíduo tem consigo mesmo, quando age, então eu diria que ela tente a ser uma ética, ou ao menos mostrar isso que poderia ser uma ética do comportamento sexual. Essa seria uma ética não dominada pelo problema da verdade profunda que rege a realidade de nossa vida sexual. Penso que a relação que devemos ter conosco, quando fazemos amor, é uma ética do prazer, da intensificação do prazer.
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- Muitos são os que vêem em você um homem capaz de lhes dizer a verdade profunda sobre o mundo e sobre eles mesmos. Como você sente esta responsabilidade? Enquanto intelectual, você sente uma responsabilidade para com essa função de profeta, de formador de mentalidades?
- Estou bem mais certo de não dar a estas pessoas aquilo que elas esperam. Eu não me conduzo jamais como um profeta. Meus livros não dizem às pessoas o que elas devem fazer. Às vezes me repreendem por isso (e talvez tenham razão), e ao mesmo tempo me recriminam por aparecer como profeta. Escrevi um livro sobre a história da psiquiatria desde o séc. XVII até o início do séc. XIX. Neste livro eu não disse quase nada sobre a situação contemporânea da psiquiatria, e isso não impediu que as pessoas o lessem como um manifesto da antipsiquiatria. Um dia, fui convidado para um congresso sobre psiquiatria que aconteceu em Montreal. Eu não era um psiquiatra, mesmo tendo neste assunto, uma pequena experiência, uma experiência muito breve, como eu tenho dito a toda hora; de início recusei o convite. Mas os organizadores do congresso me asseguraram que me convidavam unicamente na qualidade de historiador da psiquiatria, para pronunciar o discurso de abertura. Como eu amo Quebec, fui. E lá, eu fui verdadeiramente pego, porque o presidente me apresentou como o grande representante francês da antipsiquiatria. Naturalmente, havia lá pessoas muito gentis, que nunca tinham lido uma linha sequer do que eu havia escrito e que estavam convencidas que eu era um antipsiquiatra.
Eu apenas tinha escrito a história da psiquiatria até o início do séc. XIX. Por que diabos tanta gente, inclusive psiquiatras, vêem em mim um anti-psiquiatra? Pela simples razão que eles não são capazes de aceitar a verdadeira história de suas instituições, o que, evidentemente, é o signo de que a psiquiatria é uma pseudociência. Uma verdadeira ciência é capaz de aceitar até mesmo as pequenas histórias infames de seus inícios.
Veja então até que ponto a chamada ao profeta é forte. É algo do qual, penso, temos que nos liberar. As pessoas devem elaborar sua própria ética, tomando como ponto de partida a análise histórica, a análise sociológica e toda a análise que pudermos fornecer. Eu não penso que as pessoas que tentam decifrar a verdade devam fornecer ao, mesmo tempo, no mesmo livro e através da mesma análise, princípios éticos ou conselhos práticos. Toda essa rede prescritiva deve ser elaborada e transformada pelas pessoas mesmas.

- Para um filósofo, ter sido objeto de uma reportagem da Time, como você o foi em novembro de 1981, é o indicativo de um certo tipo de popularidade [3]. O que você sente em relação a isso?
- Quando os jornalistas me pedem informações sobre meu trabalho, acho que devo lhes dar. Veja, somos pagos pela sociedade, pelos contribuintes para trabalhar. E eu penso realmente que a maior parte de nós tenta fazer o melhor trabalho possível. Eu acho que é normal, na medida do possível, apresentar e tornar acessível esse trabalho a todo mundo. Naturalmente, uma parte de nosso trabalho não pode ser acessível a todos, porque é difícil demais. A instituição à qual pertenço, na França (eu não trabalho na Universidade, mas no Collège de France), obriga a seus membros a dar conferências públicas, abertas a todos os que queiram assistir e nas quais devemos explicar nosso trabalho. Somos ao mesmo tempo pesquisadores e pessoas que devem expor publicamente nossas pesquisas. Eu penso que há, nesta velha instituição - ela data do séc XVII - algo de muito interessante. O sentido profundos é, eu creio, muito importante. Quando um jornalista vem me pedir informações sobre meu trabalho, eu tento fornecer-lhe da maneira mais clara possível.
Em todo caso, minha vida pessoal não apresenta nenhum interesse. Se alguém pensa que meu trabalho não pode ser compreendido sem referência a tal ou qual aspecto de minha vida, eu aceito considerar a questão. Sou pronto a responder se eu a vejo justificada. Na medida em que minha vida pessoal é sem interesse, não vale a pena fazer dela um segredo e pela mesma razão não vale a pena torná-la pública.


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[1] A vontade de saber, publicado em inglês em 1978.
[2] Stephen Riggins é de origem indígena.
[3] Referência a um artigo de Otto Friedrich: “France’s Philosopher of Power”, contendo o resumo de uma entrevista com Michel Foucault. Time, 118º ano, nº 20, 16 de novembro de 1981, pp. 147-148.
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*25/06/1984 - O mundo perdia Foucault.



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"(...) -O que é que se consegue quando se fica feliz? sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana. - Repita a pergunta...? Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros. - Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi. - Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?- repetiu a menina com obstinação. A mulher encarava-a surpresa. - Que idéia! Acho que não sei o que você quer dizer, que idéia! Faça a mesma pergunta com outras palavras... - Ser feliz é pra se conseguir o quê? (...)"
Clarice Lispector


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“Acho que tudo está bem”, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores Inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe."

" Não existe pátria para quem desespera e, quanto a mim, sei que o mar me precede e me segue, e minha loucura está sempre pronta. Aqueles que se amam e são separados podem viver sua dor, mas isso não é desespero: eles sabem que o amor existe. Eis porque sofro, de olhos secos, este exílio. Espero ainda. Um dia chega, enfim..."
Albert Camus
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"As memórias são como pássaros em vôo. Vão para onde querem. E podemos chamá-las que elas não vêm. Só vêm quando querem. Moram em nós, mas não nos pertencem."
Rubem Alves - em O velho que acordou menino.

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Saudade
Os meus amigos niilistas diriam que a saudade não existe, que não existe a saudade de um país, de um neto distante, da mulher amada, da aurora de nossas vidas que os anos não trazem mais, diriam que aquilo que chamamos saudade é apenas um sentimento de que perdemos alguma coisa nossa dentro de nós mesmos e não somos capazes de encontrar, diriam que saudade é apenas a nostalgia do outro, que sentimos saudades do que gostaríamos de ser, saudades do futuro, saudades do paraíso, do que não soubemos agarrar, do que não pudemos viver, do que nos foi oferecido e deixamos escapar, e o nome verdadeiro da saudade seria possessividade, ah teorias, diriam que sente saudades aquele que não ama a si mesmo o bastante para se bastar a si mesmo, mas, meu Deus, quem é o bastardo que se basta a si mesmo? Somos todos órfãos de nós mesmos, Clarice Lispector escreveu a bela frase, Ah quando eu morrer vou sentir tanta saudade de mim... e diriam que sentimos saudades de nós mesmos, mas seja assim, seja assado, a saudade dói, e como dói, e parece que mais da metade da humanidade passa mais da metade da vida sentindo saudade, seja a saudade assim ou assada e tenha este nome ou tenha outro, a verdade é que ela fica ali como um buraco no peito, um vazio, uma frente fria que não passa, uma muda cotovia, a saudade é uma contra-flor, diria o poeta Marco Lucchesi, a saudade é a sombra do nada, a superfície do nada, o não-perdão por aquilo que se foi, ou que nunca foi nem é e nem será, e vagamos à procura de um rosto, de uma infância, de um país, de um paraíso perdido, em estado de quase, o quase-ser no quase-dia, e a saudade nos deixa sensíveis, pálidos e felizes, reclamando a vida, ansiando o outro, invadidos pela inquietação dos anjos, e cheios de pedaços perdidos aos nossos pés ou dentro de nós graças a Deus, e somos escrito s pelo vento, perto do fundo das coisas, tomados das memórias, das miragens e dos sonhos que, de outro modo, não poderíamos ver
Ana Miranda
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"E ninguém sou eu, e ninguém é você. Esta é a solidão."
Clarice Lispector


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O esmagamento das gotas
Eu não sei, olha, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que a esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e vê-se que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore. Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada de cair e aniquilar-se. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.
Julio Cortázar
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"O que a memória amou fica eterno."
Adélia Prado

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O que é angústia
Um rapaz fez-me essa pergunta difícil de ser respondida. Pois depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusive, é palavra de que se orgulham de pronunciar como se com ela subissem de categoria - o que também é uma forma de angústia.Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. ou não se confessar nem a si próprio, ou não ser o que realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem de ter angústia - e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai. Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração entenda.
Clarice Lispector, em A Descoberta do Mundo.

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1. Um pequeno depósito de incredulidade no fundo dos teus olhos.
2. Um breve estremecimento no movimento do coração (do meu coração).
3. A impressão de alguém olhando--te atrás de ti.
4. Uma voz familiar num sítio cheio de gente (que só tu ouves dentro de ti).
5. Um súbito silêncio entre as sílabas de certas palavras que fica depois a pairar perto dos lábios.
6. A ignorância de alguma coisa que ainda não sabes que não sabes.
7. Uma palavra só, aguardando,uma palavra que basta dizer ou não dizer,abrindo caminho entre ser e possibilidade.
8. O que não sou capaz de dizer dizendo-me.
9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.
10. Outras duas pessoas de que outras duas pessoas se lembram.
11. Esse país estrangeiro, o tempo.
Manuel António Pina, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança.
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"Mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: e depois da morte? Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude... Venha, Deus, venha. Mesmo que eu não mereça, venha. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que eu não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. Venha antes que seja tarde demais."
Clarice Lispector
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Os Retratos
Os antigos retratos de parede
Não conseguem ficar longo tempo abstratos.

Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
Porque eles nunca se desumanizam de todo

Jamais te voltes pra trás de repente.
Não, não olhes agora!

O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim...
Sem fim e sem sentido...

Dessas que a gente inventava
enganar a solidão dos caminhos sem lua.
Mario Quintana

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“A cada dia viver me esmaga com mais força”
Caio Fernando Abreu
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*22-06 - Três anos do dia que tudo acabou. A vida mudou, o rumo se perdeu, o sentido se foi...
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Você já salvou a vida de alguém hoje?
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Outro dia trocava emails com a minha querida amiga e escritora Ana Suzuki, quando começamos a falar sobre desencontros amorosos. Alias, tema recorrente por aqui, em conversas entreouvidas pelas esquinas, bares e banheiros da vida.
Por isso hoje zapeando a TV, vi um filme que será tema do post de hoje e que me fez lembrar uma frase que ela escreveu sobre esse assunto: "O que mata é saber que alguém quer você, do jeito que você é, e não saber onde esse alguém está." Isso mata mesmo, assim como o amor salva...literalmente.
E foi o amor de uma mulher que salvou Johnny Cash da morte.

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Johnny e June
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Walk the line
, idiotamente "traduzido" para o português como: Johnny e June, como se fosse apenas a história de um casal, em detrimento ao título original "Andar na linha" algo que Johnny Cash quase nunca conseguiu fazer, atesta bem o que é ser salvo por amor.
Johnny Cash, lendário cantor de música country americana conheceu June Carter durante uma turnê com os iniciantes Elvis Presley e Jerry Lee Lewis.
Esse é o cenário de um romance que duraria 35 anos e passaria por traições, prisões, dependência química e muito mais sofrimento do que o filme foi capaz de relatar. Ainda assim e apesar de não ser uma obra - prima cinematográfica, Walk the line vale cada minuto.
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Cash foi um menino pobre do Arkansas que aprendeu a cantar, assim com o June ouvindo hinos religiosos. Foi também o filho rejeitado e injustiçado pelo pai que achava ter perdido o filho errado, quando o irmão de Cash morre operando uma serra elétrica.
Eu costumo dizer e acho mesmo, que algumas vidas são muito mais surpreendentes do que a melhor ficção que se possa produzir. E a história de Johnny Cash e June Carter foi assim.


June foi muito mais que a mulher que amou Johnny. Foi ela que o salvou da morte certa. Foi ela que o colocou na linha à duras penas, sorte, por exemplo, que não teve Elvis Presley que morreu obeso e drogado.
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Os atores que interpretam o casal foram escolhidos por eles mesmos.
Joaquin Phoenix foi uma escolha do próprio Johnny Cash, enquanto que Reese Whiterspoon foi escolhida por June Carter Cash.
E é surpreendente a atuação de ambos, em especial a de Reese Whiterspoon, uma atriz especialista em comédias românticas de fácil consumo.
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O filme narra a história de Cash até seu casamento com June. Fora das telas a vida seguiu e a longa carreira enfrentou altos e baixos.
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Em 1993, foi redescoberto pelo U2, com quem gravou uma canção. Cash então, passou por uma ressurreição artística e popular.
Até sua morte, em 2003, experimentou seu apogeu, registrado em quatro álbuns e em uma caixa póstuma com gravações inéditas.
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June morreria em 15 de maio de 2003, vítima de complicações durante uma cirurgia cardíaca. Era Johnny Cash que segurava sua mão no hospital.
Quatro meses depois, em 12 de setembro de 2003, era o próprio Cash que mais uma vez iria atrás dela, assim como quando se conheceram e ele soube que era ela a mulher de sua vida.

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Hoje repousam lado a lado em Hendersonville Memory Gardens, em Hendersonville, Tennessee.

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E você já salvou a vida de alguém por amor? Já foi salvo?

As cores proibidas de Mishima
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"Viver consiste em morrer. Em se estar preparado para a morte. Para morrer como um homem. Um homem se reconhece de dar sua vida. Não apenas numa batalha, mas em tudo aquilo que faz. Não apenas na morte - que, para um guerreiro, sobretudo, pode ser o ponto mais alto ou mais baixo de sua vida - mas a cada instante e ato de sua vida."
Hagakure
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Todo samurai tem de estar pronto. Pronto para o embate, pronto para a morte, ainda que venha pelas próprias mãos.
Praticar o seppuku, dar-se à própria morte, era privilégio do samurai. Ele tinha o direito de usá-lo para se desagravar de uma injustiça, para manter sua honra, ou simplesmente para sugerir o caminho correto ao seu superior.
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Havia um minucioso ritual para tais ocasiões solenes, mas em situações de emergência o samurai utilizava a própria wakizashi, a espada curta de que também se servia para decapitar os que vencera ou justiçar com a katana (espada longa). O uso desse par de espadas (dai-sho) era, igualmente, privilégio restrito ao samurai.

Foi assim que no dia 25 de novembro de 1970, Yukio Mishima pôs fim a própria vida, num longo e doloroso ritual, o seppuku.
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Quando um guerreiro queria se livrar de uma grande desonra ou demonstrar lealdade, ele sentava-se à maneira japonesa no tatame e, com sua espada, furava a barriga, abrindo o corte até o outro lado. Mesmo durando horas, o sofrimento até a morte deveria ser suportado sem gritos ou choros pelo guerreiro, que agonizava em frente à família. Ao final, sua cabeça decepada era entregue aos parentes.
O ritual foi realizado diante da tropa das Forças Armadas de Tóquio, Mishima leu para os soldados uma declaração em que denunciava a decadência dos códigos de honra mais tradicionais do país, bem como a ocidentalização a que o Japão se submetia. Após o inflamado discurso, rumou até o gabinete do comandante e lá rasgou o ventre com a espada.

Mishima, escritor japonês, nome indispensável da literatura daquele país escolheu morrer do modo que viveu. Masoquista e homossexual, atormentado, genial, mas sobretudo contraditório. Intelectual, ele era também um militarista de direita que mantinha seu próprio exército particular. Um nacionalista que queria restaurar o poder do Imperador, ele era obcecado pela cultura ocidental e ofendia seu próprio povo adotando a imagem de uma celebridade no estilo ocidental.
Sua morte diz muito sobre sua vida e obra. Tudo em Mishima era extremo, carregado de tintas fortes. Seus romances repletos de personagens densos, apaixonantes, repugnantes. Lírico e irônico, nada em Mishima passa desapercebido. A batalha é constante. Seus conflitos, sua personalidade conturbada, a opção sexual, tudo é luta e desafio e nada passa impune, nem mesmo o leitor ao final de um livro seu será o mesmo. E é essa marca, indelével que faz a diferença entre a genialidade e a mediocridade.


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As ruas sempre vão ficar

As ruas sempre vão ficar no mesmo lugar
Isso faz meus dias sempre iguais
A imagem na janela é sempre a mesma
Impossível viver dessa maneira
Na terra, esperando as lágrimas correrem de novo...
As ondas nunca vão ficar no mesmo lugar
Tudo que eu posso ouvir é a minha própria voz
O mar refugia horizontes vazios
E neles passaria a vida inteira
Esperando as luzes do porto
E desejando o que mais odeio.

Yukio Mishima
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*O Post de hoje é em homenagem aos 100 anos da imigração japonesa que na figura de Mishima demonstra bem a capacidade de vencer, lutar e morrer em nome do que acredita, assim como o povo japonês.
Cyd Charisse


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"Quando estávamos dançando, nós nem sabíamos que horas eram", disse Astaire, em uma entrevista sobre como era contracenar com Charisse.
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Faleceu hoje a dona de um dos pares de pernas mais bonitos de Hollywood: Cyd Charisse. Tinha 87 anos e deixa uma coleção dos melhores momentos em musicais de todos os tempos.
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Em "A Lenda dos Beijos Perdidos", Gene Kelly encontra por acaso uma passagem secreta para um vila escocesa parada no tempo, há 200 anos.
Essa passagem só é aberta uma vez a cada 100 anos – e Kelly fica perdido de amor por Cyd Charisse, mas não pode vê-la nunca mais depois que o portal é fechado.
Não chega a ser um grande filme, muito pelo contrário até, mas com o carismo do casal dá pra assistir facilmente.

Belíssima em "Cantando na Chuva" com Gene Kelly, ao contrário da mocinha do filme, a insossa Debbie Reynolds.
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No filme Gene Kelly é Don Lockwood astro do cinema mudo que, com a chegada do som, deve fazer a transição também em sua carreira. Enquanto Don se sai muito bem, Lina (Jean Hagen) se aproveita o quanto pode de Kathy Selden (Debbie Reynolds), uma jovem que sonha em ser atriz, mas tem que trabalhar como escrava dublando a péssima voz de Lina. Quando Don se apaixona por Kathy, decide fazer de tudo para que o talento da amada seja finalmente reconhecido.

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"Meias de Seda"
Ninotchka (Cyd Charisse), uma representante do governo soviético, vai à Paris para trazer de volta para a Rússia Peter Ilyitch Boroff (Wim Sonneveld), um importante compositor, pois os três enviados que tinham esta missão foram "motivados" a ficarem na cidade-luz por Steve Canfield (Fred Astaire), um rico americano que é produtor de cinema e que deseja que o músico trabalhe em seu novo filme. Inicilamente Ninotchka considera "decadente" tudo o que não é útil ao povo mas gradativamente é envolvida pela magia de Paris, que a faz se apaixonar por Steve.

Fred Astaire e Cyd Charisse parecem feitos um para o outro em "Meia de Seda", adaptado de show homônimo da Broadway de 1955 e inspirado na comédia Ninotchka de 1939, estrelada por Greta Garbo. Com a música de Cole Porter, muitas risadas e números de dança coreografados, captados em impressionantes tomadas panorâmicas. Um filmaço.
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Em "A Roda da Fortuna", Astaire é o narrador de uma trama de assassinato que envolve uma femme fatale, toda dançada, com a bailarina e atriz Cyd Charisse no melhor momento de seu estrelato (e também de suas lendárias pernas).
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Considerado o melhor musical de Vincente Minnelli este clássico do gênero conta a história de Tony Hunter (Fred Astaire), um famoso cantor e dançarino, cuja carreira está em franca decadência. Depois de três anos sem trabalhar em nenhum filme, Tony deve vender todos os seus bens, com exceção de alguns quadros de valor. Seus amigos Lester e Lily Marton (Oscar Levant e Nanette Fabray) escrevem um espetáculo e oferecem um papel a Tony. O trio se une ao diretor Jeffrey Cordova (Jack Buchanan), quem se auto-proclama "gênio", e que quer modificar a peça e fazer uma versão revisada do "Fausto". Os conflitos começam: as pretensiosas idéias de Cordova entram em choque com as de Marton e Tony não está muito feliz com sua parceira Gaby Gerard (Cyd Charisse), por considerá-la muito alta. Realizado em uma época de declínio para Hollywood, quando os consumidores começam a dirigir-se a novas formas de entretenimento, o musical de Minnelli propõe uma reflexão sobre o que é que uma audiência realmente deseja defendendo, implicitamente, a forma de diversão tradicional.
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Só pra citar alguns dos inúmeros musicais que Cyd Charisse estrelou e brilhou dançando magistralmente.
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Verde de raiva!
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Nos anos 70 e com reprises no anos 80, a série "O incrível Hulk" marcou a infância de muito gente, inclusive a minha.
Alias, a cada final ao som de The Lonely Man Theme, um solo de piano pra lá de melancólico, enquanto o Dr. Banner (Bill Bixby) se afastava por uma estrada pedindo carona era de cortar o mais duro dos corações. Nem me lembro do tema de abertura, mas dessa música...

Lou Ferrigno, essa figura estranha aí ao lado, era o Dr. Banner depois de se rasgar todo de raiva. A cada episódio ele surgia redentor, rugindo e fazendo "justiça" contra os valentões que ora batiam nele ora atacavam alguma mocinha desavisada.
Óbvio que para você, criança pequena que lê esse post seria a coisa mais ridícula e grotesca que já viu. E era mesmo, os (d)efeitos especiais eram limitados se compararmos ao que a indústria do entretenimento é capaz de fazer hoje e no entanto era essa a graça. Era cartático ver aquele monstro surgir e dar uma lição nos babacas que pontuam a série.
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Criança ou nem tanto, adorava porque via, ainda que não soubesse traduzir, a si mesma conseguindo se defender dos medos que a atormentava e por consequência aniquiláva-os sem dó nem piedade. Era o máximo!
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Na TV, o Dr.Banner era interpretado por Bill Bixby, que acabaria estigmatizado pela sombra de Hulk. Não há como relembrar a série sem visualizar a figura magra de Bixby.
Na vida pessoal, enquanto a série entrava para o imaginário infantil da época, Bixby não teria muita sorte.
Casou-se com, Brenda Bennet, uma das atrizes com quem contracenou. Tiveram um filho que acabou falecendo por problemas de saúde e acabaram se separando. Tempos depois, Brenda cometeria suicídio. A série ainda estava no ar.
Após o término, Bixby ainda faria outros trabalhos, mas um câncer na próstata terminaria por matá-lo em 21 de novembro de 1993.
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Lou Ferrigno, o incrível Hulk em pessoa aparentemente teve melhor sorte.
Muito alto, medindo 1,94 e magro, nosso herói tinha uma perda auditiva grave, cerca de 80%. Nada disso, no entanto o impediu de alcançar seus objetivos.
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Reza a lenda que q
uando ainda era muito jovem seu pai o levou a uma apresentação de Arnold Schwarzenegger. Segundo ele, o garoto teria ficado assutado com o tamanho de Arnold, seus músculos e aparente força.
A partir daí, o fisiculturismo se tornaria uma obsessão na vida do magrelo Lou, bem como a vontade de vencer Arnold, feito que nunca conseguiu, no entanto da TV e do cinema ele não conseguiria escapar.

Fez alguns filmes, mas foi na TV que teria destaque fazendo heróis musculosos como Hércules, no entanto, seria com Hulk que ficaria conhecido mundialmente. Nada que lhe rendesse um Oscar, claro, apenas o carinho de milhares de fãs no mundo todo.
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Agora com a estréia do segundo filme do Incrível Hulk, que assim como o primeiro não pretendo ver, fica a lembrança de tempos mais ingênuos onde uma criança só precisava de imaginação para acreditar na força daquela figura verde.
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