Dia da Saudade

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Hoje é o Dia da Saudade.
Saudade nem precisava de dia, todo dia sentimos saudades de alguém ou alguma coisa e até de nós mesmos. Mas tem dia e não poderia passar em branco, nada mais poético.
Antes de fazer esse post dei uma navegada na net e além da definição do Aurélio, li em algum lugar que saudade não tinha cor, cheiro etc. Discordo totalmente. Nada tão repleto dos nossos cinco sentidos do que a saudade.

Saudade segundo o Aurélio é: “Substantivo feminino - Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia.”

Gostei! Nada mais substantivo do que a saudade ser feminino. Melhor dizendo, acho tão próprio do gênero feminino sentir saudade e gosto de senti-la, até porque não associo à tristeza propriamente dita e sim a uma doce melancolia.
Quando a saudade aperta e por conseqüência as lembranças vão chegando de mansinho, sempre tenho uma vontade esquisita. Sempre penso em como seria bom voltar a um dia no tempo com determinada pessoa sabendo o que sei agora.
O último abraço na minha mãe, ter dito “eu te amo” para o meu pai quando ele foi colocado na ambulância para nunca mais voltar, ter perdoado o primeiro amor que por inexperiência, assim como eu, ainda não sabia amar, dormir com a sensação de paz inigualável no peito dele somente mais uma vez. Pescar da infância o melhor dia e vivê-lo de novo.

Um dia para cada pessoa que me foi tão cara, pessoas que foram embora, outras que mandei, algumas que gostaria de ter conhecido melhor.
Um único dia com cada uma delas, para aproveitar com a intensidade do sabor das coisas findas/muito mais que lindas/estas ficarão...como escreveu o poeta e me atrevo a dizer: ficaram.



Saudade

na solidão na penumbra do amanhecer.
Via você na noite, nas estrelas, nos planetas,
nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.

Via você no ontem , no hoje, no amanhã...
Mas não via você no momento.

Que saudade...
Mário Quintana


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"e a saudade que eu tinha de gente fazia com que eu rolasse horas na areia do sol abrasador, abraçando meu próprio corpo, inventando um prazer que eu precisava para me sentir vivendo talvez, porque eu não tinha medos nem preocupações nem mágoas nem nada concreto nem expectativas, as minhas células amorteciam, eu sentia que ia acabar virando uma palmeira, os meus pés agora parecem raízes, mas ainda tenho mãos, então eu rolava na areia quente enquanto meus dentes faziam marcas fundas roxas nos meus braços, nas minhas pernas e de repente todas as minhas células explodiam em vida, exatamente isso, em vida, eu tinha dentro de mim todo aquele sol todo aquele mar tudo aquilo que eu conhecera antes, que conheceria depois, se não estivesse aqui. Eu ficava amplo, na areia, abraçado a mim mesmo”
Caio Fernando Abreu – Trecho (In O Inventário do Ir-remediável)

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“Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."
Clarice Lispector
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“O tempo não pára!
A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...”

Mário Quintana

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“Teus olhos verdes são maiores que o mar.
Se um dia eu fosse tão forte quanto você
eu te desprezaria e viveria no espaço.
Ou talvez então eu te amasse.
Ai! que saudades me dá da vida que nunca tive!”
Tom Jobim

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Saudade

Saudade
É uma palavra
Saudade
Só existe na língua portuguesa
Saudade de Val vendendo pó na esquina
Saudade do que nunca vai voltar

E dos amigos que se foram
Eu hoje estou com saudade
Na noite quente e no calor
Que sobe do asfalto
Saudade quente
Saudade da roda de cerveja
Dos amigos da madruga e
Saudade de nadar no mar
E um dia ter sido mais puro
Saudade da primeira namorada
E namorado também
Saudade, principalmente
Da irresponsabilidade
Saudade, meus amigos
Daqui a pouco vou estar com vocês.
Cazuza

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"Ai. Saudade é uma coisa azul e amarga
com carne por fora e espinho por dentro."
Caio Fernando Abreu

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É uma saudade tão doída de você Que eu não sei mais nada, não. E é isso aí sempre que o amor não pode ser, Sempre que a distância pode mais que o coração."
As Razões do Coração – Toquinho

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"Agora era fatal que o faz de conta terminasse assim, Prá lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim. Pois você sumiu no mundo sem me avisar, E agora eu era um louco a perguntar: O que é que a vida vai fazer de mim?"
João e Maria – Chico Buarque






Sobre a saudade.

"Eu era um sujeito perseguido pela saudade. Sempre fora, e não sabia como me desligar e viver tranqüilamente. Ainda não aprendi. É desconfio que não aprenderei nunca. Pelo menos já sei algo valioso: é impossível me desligar da memória. É impossível se desligar daquilo que se amou. Tudo isso estará sempre junto conosco. Sempre teremos tanto o desejo de refazer o bom da vida como o de esquecer e destruir a lembrança do mau. Apagar as maldades que cometemos, desfazer a recordação das pessoas que nos prejudicaram, remover as tristezas e as épocas de infelicidade.É totalmente humano, então, ser um nostálgico, e a única solução é aprender a conviver com a saudade. Talvez para a nossa sorte, a saudade possa transformar-se, de algo depressivo e triste, numa pequena chispa que nos dispare para o novo, para entregar-nos a outro amor, a outra cidade, a outro tempo, que talvez seja melhor ou pior não importa, mas que será diferente..."
(Trilogia Suja em Havana - Pedro Juan Gutierrez)

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"Não, as palavras não fazem amor
fazem ausência
Se digo água, beberei?
Se digo pão,comerei?"
Alejandra Pizarnik

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"(...) Só é triste quem não se recorda, quem não mistura os fatos com as impressões. Toque-me no pescoço, o braço ficará arrepiado e será um acontecimento. Toque-me na memória e vou me encontrar mais do que me pertenci. Nenhuma separação é maior do que a possibilidade de restauração da memória. Não existe escombro que não possa servir de pedra novamente. A memória devolve o que não tínhamos. A memória é a saudade do que virá. Não há quem não feche os olhos ao comer, não há quem não feche os olhos ao cantar a música favorita, não há quem não feche os olhos ao beijar, não há quem não feche os olhos ao abraçar. Fechamos os olhos para garantir a memória da memória. É ali que a vida entra e perdura, naquela escuridão mínima, no avesso das pálpebras. Concentramo-nos para segurar a dispersão, para segurar a barca ao calor do remo. O rosto é uma estrutura perfeita do silêncio. Os cílios se mexem como pedais da memória. Experimenta-se uma vez mais aquilo que não era possível. Viver é boiar, recordar é nadar. Escrevo na água, no vento da água. O passado sem os olhos fechados é como uma roupa enrugada. Sem corpo. Sem as folhas dos plátanos."
Carpinejar

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"Ah, se eu pudesse te transmitir a lembrança, só agora viva,
do que nós dois já vivemos sem saber."
Clarice Lispector

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"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto.
É com saudades de mim"
Mário de Sá-Carneiro

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Fragmentos 92

"Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!"
Fernando Pessoas

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*É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas, teu perfil exato e que , apenas, levemente, o vento das horas ponha um frêmito em teus cabelos...é preciso que a tua ausência trescale sutilmente, no ar, a trevo machucado, as folhas de alecrim desde há muito guardadas não se sabe por quem nalgum móvel antigo... Mas é preciso , também, que seja como abrir uma janela e respirar-te , azul e luminosa, no ar... É preciso a saudade para eu te sentir como sinto em mim a presença misteriosa da vida... Mas quando surges és tão outra...múltipla... imprevista... que nunca te pareces com o teu retrato... e eu tenho que fechar os olhos para ver-te!!"
Sob o olhar: Mário Quintana

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Chega de Saudade



Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela
Não pode ser, diz-lhe numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso
Mais sofrer. Chega de saudade a realidade
É que sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Mas se ela voltar, se ela voltar,
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca, dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser, milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim.
Não quero mais esse negócio de você longe de mim...

Tom Jobim

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Viver é saudade prévia...plantamos hoje a saudade de amanhã.
C.D.A

1 comentários:

    "Saudade
    é a presença da ausência."

    Vivo de saudade!

    Medo de lembrar...
    um abraço e um sorriso!