Que é que eu acho do amor?

Não acho. Amo. Achei: Míriam. As pessoas chama de amor ao amor próprio. Chamam de amor ao sexo. Chamam de amor uma porção de coisas que não são amor. Enquanto a humanidade não definir o amor, enquanto não perceber que o amor é algo que independe da posse, do egocentrismo, da planificação, do medo de perder, da necessidade de ser correspondido, o amor não será amor. O que faz o mundo se mover em sentido construtivo é a verdade. Ainda que provisória. Ainda que seja mais que caminho que meta.

"Não há mérito em eu amar Míriam, porque nela encontro todas as mulheres do mundo. Ela me acompanha em tudo. No trabalho - é a minha colaboradora melhor, na reabilitação da voz - na vida, em tudo. Ela é tão despida de egoísmo, que chega às raias do desumano. Nunca vi de Míriam um gesto, uma palavra, uma atitude que não fosse para o bem dos outros. Quis casar com ela na mesma hora em que a conheci. Mas, agora que a conheço mais, gostaria de tornar a casar todos os dias"

Pedro Bloch





"Até mesmo na vida comum observamos que o verdadeiro amor, ou a verdadeira amizade, é uma afinidade mental e não uma mera proximidade física dos corpos."


("A Busca", Paul Brunton, Ed. Pensamento)




(...)
Vem para que eu possa ... contar dos meus muitos ou poucos passados, futuros possíveis ou presentes impossíveis, dos meus muitos ou nenhum eus. Vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro com kol, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer alguma coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida. Porque ... tenho medo e estou sozinho, porque não tenho medo e não estou sozinho, porque não, porque sim, vem e me leva outra vez para aquele país distante onde as coisas eram tão reais e um pouco assustadoras dentro da sua ameaça constante, mas onde existe um verde imaginado, encantado, perdido. Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois.

Caio Fernando Abreu, Ovelhas Negras, Ed. LP&M Pockets



"... tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações..."

(texto de Eça de Queiroz - Primo Basílio)



Beijo


Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no de abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mas beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
E dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja

Jorge de Sena




... deitar com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não somente diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher).

Trecho- A insustentável leveza do ser - Milan Kundera








Finalmente ontem à noite fui assistir "Diários de Motocicleta".
Última sessão, noite seca e fria, boa companhia, cinema lotado, um cafezinho numa livraria antes da sessão, um puxão pelo braço pra ser arrancada da livraria (sempre acontece isso, rss) e finalmente o filme.

A história todo mundo a essa altura já sabe: em 1952, dois jovens argentinos, Ernesto Guevara e Alberto Granado decidem fazer uma viagem, usando uma velha motocicleta Norton 500 - apelidada de "La Poderosa" - para percorrer cerca de 12 mil quilômetros, em nove meses, do sul da Argentina ao norte da Venezuela, passando pelo Chile e Peru. Através desta viagem, eles vão conhecendo as realidades sociais e políticas dos países.
Mas o filme é muito mais do que isso. Sabe aqueles filmes que logo no início roubam sua atenção totalmente? Iniciado o filme, olhos vidrados, nada me incomodava, nem o papel da bala, a pipoca, os cochichos, nada, era eu e eles, só.
Não sei se alguém é assim, mas mesmo quando estou assistindo a um filme, penso muito durante a exibição. Cada cena, imagem, diálogo, vai sendo registrado e ao mesmo tempo fico pensando nos fios que a trama tece.

Quando eles pegam a moto pensei: o que existe de mais libertário do que o vento na cara, o ato despojado de estar em cima de uma moto em contato direto com a natureza, com o tempo, desprotegido de tudo, livre. Eu sei, eu sei que era o veículo que eles tinham, mas como nada é por acaso e tudo tem um sentido que vai além, a moto é sim uma metáfora, no meu entender.
Os críticos viram em determinadas cenas, um tom apelativo propício para um vale de lágrimas. Ora, com licença poética, que tom apelativo? Onde foi que se pesou na mão com intenção explícita de fazer chorar? Nada ali esta fora do lugar. No filme Ernesto era o rascunho do que viria a se tornar, tinha caráter, sinceridade e sobretudo idealismo. Ele acreditava. Essa viagem sem que o soubesse seria o estofo necessário para fazer dele o que se tornou.

A fotografia de Eric Gautier, é deslumbrante, enche os olhos, é poética, vai do colorido ao preto e branco na medida exata que o tom deve ter. Outro detalhe técnico, que se configura em uma linguagem fotográfica interessante, é que o filme foi rodado em Super 16mm, sendo que a película padrão, 35mm, só foi utilizada durante as cenas noturnas.

Fim da sessão, quase meia-noite, estacionamento, o carro. Do lado um cara sobe numa moto e sai e eu pensei, nunca como agora tive tanta vontade de estar ali em cima, sem capacete, sentir quando a força do vento extrai lágrimas dos olhos e ela rola pela face voando na noite, excelente desculpa para chorar.
Enfim, Diários de Motocicleta é poesia pura e quando Alberto Granado aparece no final olhando o avião partir, seus olhos parecem dizer: Acreditem, eu realmente estive lá.



Alberto Granado



Leia: http://www.motorcyclediaries.net/html/granadoInterview.html


Hoje é aniversário do blog do meu querido amigo, Milton Ribeiro. Mais do que os parabéns, quero agradecer. Agradeço, Milton, a sorte de tê-lo como amigo, a oportunidade de ler o que você generosamente posta no seu blog e sobretudo possibilidade de sonhar em ser como você quando crescer! Obrigada! ;)

Beijus querido e vida longa para a nossa amizade e para o seu blog! Te gosto um tantão assim! 0:)
angel

ps: convido a todos para uma visitinha! O vinho tá ótimo, os queijos deliciosos, o endereço é aqui. Entre sem bater que o dono além de ótima pessoa, é hospitaleiro :)




"Amar é mudar a alma de casa."
Mário Quintana



No passeio pelo ideal amoroso na literatura encontramos em Roland Barthes, já citado antes, uma boa definição do que nos causa uma ausência ou o que fazemos com essa situação inevitável:

"Devo infinitamente ao ausente o discurso da sua ausência; situação com efeito extraordinário; o outro está ausente como referente, presente como alocutário. Desta singular distorção nasce uma espécie de presente insustentável; estou bloqueado entre dois tempos, o tempo da referência e o tempo da alocução; você partiu (disso me queixo), você está aí (pois me dirijo a você). Sei então o que é o presente, esse tempo difícil: um simples pedaço de angustia. A ausência dura, preciso suportá-la. Vou então manipulá-la: transformar a distorção do tempo em vaivém, produzir ritmo, abrir o palco da linguagem (a linguagem nasce da ausência: a criança faz um carretel, que ela lança e retoma, simulando a partida e a volta da mãe: está criado um paradigma). A ausência se torna uma prática ativa, um afã (que me impede de fazer qualquer outra coisa); cria-se uma ficção de múltiplos papéis (dúvidas, reprovações, desejos, depressões). Essa encenação lingüística afasta a morte do outro: diz-se que um pequeno instante separa o tempo em que a criança ainda acredita que a mãe está ausente daquele em que acredita que ela já está morta. Manipular a ausência, é alongar esse momento, retardar tanto quanto possível o instante em que o outro poderia oscilar secamente da ausência à morte."

Roland Barthes






E a ausência se transmuta em solidão, não há um caminho e nada ao redor chama atenção que não seja um vazio, essa imensidão de estar só no mundo.
Diria Nietzsche sobre a sua solidão. Solidão de doente, encarcerado dentro de si, cego pela dor de cabeça que muitas vezes duravam dias.

"Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz - ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.
Ali as palavras e os tempos
poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar."



O desabitar constante de si, de seu corpo, da própria consciência sempre tão representativa do perder-se de amor encontra eco nos versos dos poetas de todos os tempos. O que move o poeta a dar voz àqueles que sofrem de amor, é toda dor que sente, ainda que não esteja amando, mas traz em si o estofo necessário de dores milenares.



Aqui está minha vida - esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz - esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está minha dor - este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança - este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.

Cecília Meireles



Talvez o poeta mais representativo dessa solidão intrínseca, ainda que nem sempre de fundo amoroso, seja Rilke. Ele, como ninguém dissemina ao longo da sua poesia todo o estado de solidão em que viveu. Era de fato seu combustível. Nele, a solidão encontrava-se em estado puro.

(...)



"Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe."



Rilke




O diálogo amoroso em versos foi visualizado por Paulo Mendes Campos, quando em uma das suas crônicas reuniu dois grandes escritores brasileiros: Cecília Meireles e Emílio Moura, dos maiores líricos da língua. A composição respeitou a integridade dos versos dos dois poetas, sendo utilizada a Obra Poética de Cecília Meireles e o Itinerário Poético de Emílio Moura. As afinidades do lirismo de ambos emprestam ao diálogo unidade e espontaneidade. Fiz questão de transcrever pela beleza e forma como foi feito.


Ele e Ela


ELE: Por que não te conheci menina?
ELA: Fui morena e magrinha como qualquer polinésia, e comia mamão, e mirava a flor da goiaba. E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras...
ELE: Por que não te conheci quando ias ao colégio?
ELA: Conservo-te o meu sorriso para, quando me encontrares, ver que ainda tenho ares de aluna do paraíso.
ELE: Teu sorriso é tão puro que te ilumina toda.
ELA: Quero apenas parecer bela.
ELE: Nunca te entendo, tantas te vejo. Qual a que vive, qual a que inventas?
ELA: A vida só é possível reinventada.
ELE: E a vida o que é?
ELA: Ando à procura de espaço para o desenho da vida. Saudosa do que não faço, do que faço arrependida.
ELE: De repente, tudo se torna tão irreal que te sinto invisível.
ELA: Digo-te que podes ficar de olhos fechados sobre o meu peito, porque uma ondulação maternal de onda eterna te levará na direção do mundo.
ELE: Tudo em ti é viagem.Viagem até mesmo ao redor de tua inacreditável imobilidade.
ELA: Até sem barco navega quem para o mar foi fadada.
ELE: Eis a nossa fraqueza: essa necessidade de compreender e de sermos compreendidos, essa febre de ser, esse espanto...
ELA: Agora compreendo o sentido e a ressonância que também trazes de tão longe em tua voz.
ELE: Eu queria que me pertencesses como a cor à luz, como a poesia ao poeta.
ELA: Tenho fases como a Lua. Fases de andar escondida, fases de vir para a rua...Perdição da minha vida! Perdição da minha vida! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha.
ELE: Tenho medo de mim, de ti, de tudo...Cada gesto que fazes é uma aventura nova que se inicia.
ELA:Nunca eu tivera querido dizer palavra tão louca...
ELE: Quero-te muito. É como recriar uma rosa.
ELA: Sou como todas as coisas: e durmo e acordo em tua cabeça, com o andar do dia e da noite, o abrir e o fechar das portas.
ELE: Sonho.És sonho.É tarde, é cedo ?
ELA:Quero um dia pra chorar. Mas a vida vai tão depressa!
ELE:Ah! ser contraditório, dividido, disperso !
ELA: Somos um ou dois? Às vezes, nenhum. E em seguida, tantos.
ELE: Vieste do Cântico dos Cânticos: " Os teus cabelos são como um rebanho de cabras ..."
ELA: Já fui loura, morena, já fui Margarida e Beatriz. Já fui Maria e Madalena. Só não pude ser como quis.
ELE: Sonho que surges diante de mim como quem desce do Líbano.
ELA: Serás o Rei Salomão? Por isso, meu corpo vão brotando em mornos canteiros, incenso, mirra, e a canção.
ELE: Fabrico uma esperança como quem apaga algo sujo num muro e ali, rápido, escreve: Futuro.
ELA: Uma palavra caída da montanha dos instantes desmancha todos os mares e une terras mais distantes.
ELE: É sonho o sonho ?
ELA: Nunca existiu sonho puro, tão puro como o da minha timidez.
ELE: Na verdade, eu já te esperava desde o princípio.
ELA: O mar imóvel dos teus olhos...
ELE: És linda como a manhã que nasce. Que amor o meu! Olha, até parece que somos eternos, livres e eternos.
ELA: Tu és como o rosto das rosas, diferente em cada pétala.
ELE: E a rosa, a rosa o que será?
ELA: A surda e silenciosa, e cega e bela e interminável rosa.
ELE: Quanto mais nos falamos, mais sinto necessidade de ti. Que nos ficou de tudo o que não fomos?
ELA: Nada sei. De nada. Contemplo.
ELE: Estou diante de ti. Nu e silencioso. Por que não prevaleces deste instante e não me revelas quem sou ?
ELA: AH! Se eu nem quem sou...
ELE: Para onde vão teus caminhos? De onde vêm eles?
ELA: Primeiro, foram os verdes e as águas e pedras da tarde, e maus sonhos de encontrar-te. Mas depois houve caminhos pelas florestas lunares, e, mortos em meus ouvidos mares brancos de palavras. E eram flores encarnadas, por cima das folhas verdes. (E entre os espinhos de prata, só meus sonhos de perde-te...)
ELE: Aqui estou, tímido e humilde.
ELA: Pois aqui estou, cantando.
ELE: Agora que estou diante de ti, já não me pertenço.
ELA: Nossas perguntas e respostas se reconhecem como olhos dentro dos espelhos. Olhos que choraram.
ELE: Tua presença me invade como a revelação do irreal.
ELA: Conversamos dos dois extremos da noite,como praias opostas.
ELE: Diante de meus olhos matinais, as coisas se ordenam simples e perfeitas: o céu, o mar, teu corpo. Ah!, o teu corpo!
ELA: Por mais que me procure, antes de tudo ser feito, eu era amor.
ELE: Que tudo o mais está perdido...




The End



"Mas como podem eles, que já se atiraram uns aos outros e não mais se delimitam nem se distinguem, quer dizer, que nada mais possuem de seu, encontrar uma saída em si mesmos, no fundo de sua solidão já derramada?"

Rainer Maria Rilke




Rilke teve durante toda a sua vida uma companhia, a solidão. Filho único, foi educado pela mãe dentro de um rigoroso catolicismo como uma menina e obrigado pelo pai a freqüentar uma escola de cadetes, onde se sentia terrivelmente só. Talvez fosse mais um outsider, pensando bem, e como é bem próprio daqueles que não se encaixam em lugar nenhum, viajou pelo mundo durante boa parte de sua vida.



a solidão é como chuva.

sobe do mar nas tardes em declínio
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio
para cair do céu sobre a cidade

goteja na hora dúbia quando os becos
anseiam longamente pela aurora
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando

a solidão com os rios vão passando

rilke




Sua obra mais conhecida é "Cartas a um jovem poeta" onde ele mantém correspondência com o jovem Kappus, leitura indispensável para quem tem dúvidas. Dúvidas de que? De tudo, sobre tudo, sobre a real necessidade de seguir uma vocação ou apenas ter um trabalho, um título, uma vida dentro dos padrões.
Não parte daí nenhum julgamento do que é certo ou errado, mas sim o que move o ser humano no que ele tem de essencial, vital. No caso, o jovem poeta ainda em dúvida sobre sua vocação escreve a rilke e lhe pede ajuda no sentido de saber se deve ou não prosseguir pelo caminho das letras. As cartas entre os dois são trocadas entre 1903 e 1908. Não se sabe se Kappus tornou-se um poeta por profissão, mas sabe-se que muitos que vieram após ele e tiveram nas mãos este livro descobriram-se poetas.
Assim conta a história...




a hora inclina-se e toca em mim
com claro bater metálico
os sentidos me tremem. sinto: eu posso...
e colho o dia plástico.

nada estava acabado antes de eu ver:
todo o devir aguardando em quietude.
maduros meus olhares: a cada um
como uma noiva, chega a coisa ansiada.

nada é pequeno para mim: gosto de tudo
e tudo eu pinto sobre ouro com grandeza
e bem alto o levanto
sem saber de quem vai a alma libertar

rilke






Nascido em Praga em 1875, Rainer Maria Rilke viajou pela África do Norte e pela Europa e, na França, tornou-se secretário do escultor François Rodin. Escreveu em alemão várias obras em prosa, mas é mais conhecido por suas poesias, que se caracterizam pela nota espiritual e pelo gosto das imagens, como acontece em Elegias de Duíno, escritas entre 1912 e 1922.
Ao conhecer Lou Andréas-Salomé (que adoro e de quem já falei aqui), Rilke inicia um Diário: O diário de Florença. São as impressões do jovem poeta, de apenas 22 anos, completamente apaixonado por Lou, mulher culta e inteligente, amiga de Freud, Tolstói e Nietzsche, quinze anos mais velha do que ele, a musa inspiradora deste livro. "Sinto que minha alegria permanece impessoal e sem brilho, enquanto dela não participares como confidente", escreve Rilke nas primeiras linhas de seu diário. A relação tumultuada deu origem a um belo livro que não se furta em falar de tudo e não apenas da mola propulsora, sua paixão por ela.





se ao menos uma vez tudo se aquietasse
se se calassem o talvez e o mais ou menos
e o riso à minha volta...
se o barulho que fazem meus sentidos
não perturbasse mais minha vigília...

então, num pensamento multifário
poderia eu pensar-te até aos teus limites
e possuir-te (só o tempo de um sorriso)
e oferecer-te a vida inteira, como
um agradecimento




Rilke faleceu no dia 29 de dezembro de 1926 em Valmont (Suiça). Deixou mais que belos versos, prosas regadas de poesia em puro estado, deixou-nos uma interrogação, um outro olhar, um sentido maior de visão primeira direcionada para o interior porque somente ali estão todas as respostas.




"Só o que é interno é perto; o mais, distante.
E esse interno é tão denso e a cada instante
Mais denso ainda. Impossível descrevê-la.
A ilha é como uma pequena estrela
Que o espaço esqueceu..."

rilke





Leia: http://www.opoema.libnet.com.br/rainermariarilke/rainermariarilke_db.htm
http://www.pmresende.rj.gov.br/asillo.htm



Eu sei, isso é uma piada, mas sabe? Embora seja considerado uma piada, para mim não é não.
Para mim, amor é exatamente isso, dar o melhor de si.
Feliz Dia das Mães, para a minha, para a sua, para todas.


"Ich bin von Kopf bis Fuss auf Liebe eingestellt"
"Da cabeça aos pés estou inteiramente pronta para o amor", diz o personagem desta canção de 1930, interpretada por Marlene Dietrich no filme O Anjo Azul, longa do cineasta Josef von Sternberg.

Para quem ainda não sabe, meu nickname foi escolhido por causa dela, por causa da minha adoração pela época de ouro do cinema, onde os de(efeitos) especiais sequer existiam.
Mas por que Marlene? Nem de longe era a mais bonita, Greta Garbo, Gene Tierney, Ava Gardner ou Hedy Lamarr certamente a desbancariam em qualquer concurso de beleza. Por que Marlene, então? Justamente por isso, por não ter a beleza plástica facilmente reconhecida, nunca gostei, nem em homens, nem em mulheres. Marlene era de uma sensualidade absurda, envolta em mistério, distante e fria. Começou exibindo suas belas e comentadas pernas. Sobre elas, disse bem-humorada certa vez: As pernas não são tão bonitas, apenas sei o que fazer com elas. Sem falar na excelente atriz que se utilizou da expressividade de um rosto singular e uma voz marcante.
Mas ela ia mais longe: misteriosa, complexa, provocadora de terremotos emocionais. Fumava com extraordinária sedução. Nem a poderosa Bette Davis lhe passava a perna na nuvem de fumaça. Marlene pode ser interpretada como um estado da imaginação, um vislumbre penetrante do desejo.
Suscitou debates acalorados entre ícones da literatura brasileira, como deixaria registrado Manuel Bandeira.




Marlene


por Manuel Bandeira (*)

Ainda será tempo de falar de Marlene Dietrich? Não a vi quando de sua passagem pelo Rio: televi-a apenas, o que não é a mesma coisa, sobretudo levando em conta como foi tecnicamente imperfeita a sua apresentação (viam-se mais as costas do locutor do que a figura da artista).

Todavia, resistiu ela a tudo o que, desde o Anjo Azul, me impressionou como essencial no extraordinário encanto da mulher Marlene - aquele sorriso de olhar infinitamente apiedado e que parece dizer-nos, sem gosma de sentimentalismo, aliás: "Criança, a vida é tão absurda, tão triste!". Mas a vinda de Marlene proporcionou-nos um espetáculo bem divertido, que foi a polêmica entre os cronistas C.D.A. e Vinicius de Moraes. Defendendo cada um a sua estrela, C.D.A. Greta Garbo, Vinicius a Marlene, reviveram ambos galhardamente os dias românticos em que Castro Alves e Tobias Barreto se digladiavam no Recife por causa de duas artistas da mesma companhia no Teatro Santa Isabel.

Para Vinicius Marlene é a mulher, talvez a mulher-idéia de Platão, ou o Eterno Feminino de Goethe; para C.D.A a Garbo é um mito. Vinicius tomou nojo da sueca porque a viu, num coquetel de Mlle. Schiappparelli, recusar uma beberragem estranha onde boiava uma pétala de rosa e pedir vodca. Tive vontade de acudir em auxílio de C.D.A, fornecendo-lhe certo trecho de carta de Vinicius, datada de 49 em Hollywood, na qual o poeta me contava a sideração em que ficara ao cruzar na rua com o Mito.

Mas procurei a carta e não a achei. Achei foi outra, em que ele me falava de Marlene: "Você sabe, ela está cada dia mais linda, mais elegante, mais tudo. É uma mulher incrível, sem o menor desgaste, e de uma naturalidade fantástica. Tira fotografias de publicidade com o netinho, sem dar a menor bola para a legião de apaixonados que tem aí - por esse mundo todo. Eu, depois que a vi com o neto ao colo, fiquei mais apaixonado do que nunca. Imagine você a gente a...". Bem, não posso transcrever o resto, mas a avó Marlene tentava o poeta. "Isso nunca me aconteceu, pelo menos que eu soubesse", concluía Vinicius.

Quanto a mim, o que me ficou de todos os filmes em que vi Marlene foi aquele sorriso a que me referi no começo destas linhas. Lembro-me fortemente é de seus "partners". Jannings, no "Anjo Azul", Gary Cooper, em "Marrocos", ao passo que da Garbo me recordo nitidamente, indeslembravelmente, em todos os filmes, sem ter a menor reminiscência dos homens - e eram todos astros - que trabalharam com ela.

(*)Publicado na Folha da Manhã, em 09/08/1959)




O escritor Ernest Hemingway dizia que ela podia derreter um homem com um levantar de sobrancelhas e destruir uma rival com o olhar. Certamente podia.
Dietrich teve domínio absoluto sobre sua vida e mesmo sua morte. Reza a lenda que ao ouvir sobre a possibilidade de ser removida para um asilo, teria ingerido elevada dose de calmantes que acabaria por mata-la. Era dia 06 de maio de 1992.

Marlene era assim, a nuance do subentendido, entrelinhas nas linhas das sobrancelhas, sombra e luz, o velado, um segredo nunca pronunciado. Um anjo onde todo azul e suas infinitas variantes se escondiam.


leia: http://www.taste.com.br/news/templates/noticia.asp?idNoticia=1775
http://www.ccba.com.br/asp/imprensa/clipping/031016-anjo.asp
http://www.prefeiturasdobrasil.com.br/tribunalivre072.php


O amor por entre o verde



Não é sem freqüência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque. Ela é uma menina de uns treze anos, o corpo elástico metido nuns blue jeans e num suéter folgadão, os cabelos puxados para trás num rabinho-de-cavalo que está sempre a balançar para todos os lados; ele, um garoto de, no máximo, dezesseis, esguio, com pastas de cabelo a lhe tombar sobre a testa e um ar de quem descobriu a fórmula da vida. Uma coisa eu lhe asseguro: eles são lindos, e ficam montados, um em frente ao outro, no corrimão da colunata, os joelhos a se tocarem, os rostos a se buscarem a todo momento para pequenos segredos, pequenos carinhos, pequenos beijos. São, na extrema juventude, a coisa mais antiga que há no parque, incluindo velhas árvores que por ali espapaçam sua verde sombra; e as momices e brincadeiras que se fazem dariam para escrever todo um tratado sobre a arqueologia do amor, pois têm uma tal ancestralidade que nunca se há de saber a quantos milênios remontam. Eu os observo por um minuto apenas para não perturbar-lhe os jogos de mão e misteriosos brinquedos mímicos com que se entretêm, pois suspeito de que sabem de tudo o que se passa à sua volta. Às vezes, para descansar da posição, encaixam-se os pescoços e repousam os rostos um sobre o ombro do outro, como dois cavalinhos carinhosos, e eu vejo então os olhos da menina percorrerem vagarosamente as coisas em torno, numa aceitação dos homens, das coisas e da natureza, enquanto os do rapaz mantêm-se fixos, como a perscrutar desígnios. Depois voltam à posição inicial e se olham nos olhos, e ela afasta com a mão os cabelos de sobre a fronte do namorado, para vê-lo melhor, e sente-se que eles se amam e dão suspiros de cortar o coração. De repente o menino parte para uma brutalidade qualquer, torce-lhe o pulso até ela dizer-lhe o que ele quer ouvir, e ela agarra-o pelos cabelos, e termina tudo, quando não há passantes, num longo e meticuloso beijo. Que será, pergunto-me eu em vão, dessas duas crianças que tão cedo começam a praticar os ritos do amor? Prosseguirão se amando, ou de súbito, na sua jovem incontinência, procurarão o contato de outras bocas, de outras mãos, de outras mãos, de outros ombros? Quem sabe se amanhã, quando eu chegar à janela, não verei um rapazinho moreno em lugar do louro ou uma menina com a cabeleira solta em lugar dessa com os cabelos presos? E se prosseguirem se amando, pergunto-me novamente em vão, será que um dia se casarão e serão felizes? Quando, satisfeita a sua jovem sexualidade, se olharem nos olhos, será que correrão um para o outro e se darão um grande abraço de ternura? Ou será que se desviarão o olhar, para pensar cada um consigo mesmo que ele não era exatamente aquilo que ela pensava e ela era menos bonita ou inteligente do que ele a tinha imaginado? É um tal milagre encontrar, nesse infinito labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado... Esqueço o casalzinho no parque para perder-me por um momento na observação triste, mas fria, desse estranho baile de desencontros, em que freqüentemente aquela que devia ser daquele acaba por bailar com outro porque o esperado nunca chega; e este, no entanto, passou por ela sem que ela o soubesse, suas mãos sem querer se tocaram, eles olharam-se nos olhos por um instante e não se reconheceram. E é então que esqueço de tudo e vou olhar nos olhos de minha bem-amada como se nunca a tivesse visto antes. É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaria que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos mirando muito além das estrelas.




Vinícius de Moraes

Hoje tô no clima dele...


"E me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com leve delicadeza, deixando claro em cada promessa não cumprida que nada devo esperar além dessa máscara colorida ... que me queres assim porque assim é que és, e unicamente assim é que me queres e me utilizas todos os dias, e nos usamos honestamente assim, eu digerindo faminto o que teu corpo rejeita, bebendo teu mágico veneno que me ilumina e anoitece a cada dia, e passo a passo afundo nesse charco que não sei se é o grande conhecimento de nós dois ou o imenso engano de ti e de mim ... nos afastamos depois cautelosos ao entardecer, e na solidão de cada um sei que tecemos lentos nossa próxima mentira, tão bem urdida que na manhã seguinte será como verdade pura e sorriremos amenos, desviando os olhos, corriqueiros ... à medida que o dia avança e estrutura milímetro a milímetro uma harmonia que só desabará levemente em cada roçar de olhos ou de peles, os vermes roendo esses porões que insistimos em manter indevassáveis até que o não-feito acumulado durante todo esse tempo cresça feito célula cancerosa para quem sabe explodir em feridas visíveis indisfarçáveis, flores de um louco vermelho na superfície da pele que não tocamos por nojo ou covardia ..."

Caio Fernando Abreu, in "À beira do mar aberto"



...dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão enredados que seria impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem aqui...

Caio Fernando Abreu