Continuando e agradecendo: Isso está virando um tratado, Well, um belíssimo tratado. Muito Obrigada!




Ulysses em Viena
(Antes do Amanhecer)



Se você (ainda) não viu “Antes do Amanhecer” e/ou “Antes do Pôr-do-sol”, o texto a seguir não é recomendável, pois comenta diversos elementos da trama, talvez tirando o prazer de se surpreender com dois belíssimos filmes.

Ser jovem é voar, as infinitas possibilidades embriagando, levando a um ritmo mais intenso que a própria realidade. Facilmente desenraizados, tais como as plantas-arame típicas do faroeste, permitimos que o vento nos leve a lugares que julgamos mais irrigados. Vento, vontade e velocidade, julgamos que nada pode nos impedir de sonhar e buscar, seja lá o que for.

..........Um trem em alta velocidade, trilhos que se cruzam, dois jovens se verão pela primeira vez.

.........Um casal discute em alemão. A jovem francesa, incomodada, vai mais para o fundo do vagão, onde vê de relance o jovem dos EUA. Ele também a avalia e parece aprovar o que viu. O casal (alemão, austríaco?) passa pelos dois, a discussão mais áspera do que antes, o que fornece assunto para conversarem (a tendência de casais perderem a capacidade de ouvir um ao outro, com o tempo, talvez uma adaptação para evitar o aniquilamento mútuo...rsrs). Perguntam pelo livro que o outro está lendo. Ela mostra uma coletânea de George Bataille
[1], ele a autobiografia de Klaus Kinski.[2] No seu cartão de visitas, ela já mostra suas preocupações e verniz intelectual. Ele se sente inferiorizado (e na realidade está, pois foi rejeitado pela antiga namorada, em Madri), daí o título do livro refletir tão bem o seu estado de espírito. Mas o contato foi feito, olhares trocados, aprovaram-se.

..........Vão para o vagão-restaurante. Falam dos respectivos países (assim como no início do segundo filme, que ainda estaria nove anos no futuro), dos preconceitos de sempre, do que fazem ali, dos planos. E, da maneira mais sincera, abrem-se. Mencionam a morte e ele faz um comentário crucial, sobre ter visto a bisavó (já morta) quando pequeno; narra o episódio da maneira mais natural e serena. Crucial porque, a partir daí, segundo as palavras dela, ele a conquistou. Mexem nervosamente com o que está às mãos, como o saleiro.

..........Pela janela, ela menciona que chegaram a Viena. Jesse sai, mas antes de desembarcar convence Celine a desfrutarem o dia juntos, sem eira nem beira. Sua argumentação é profética (e se, daqui a dez, quinze anos, insatisfeita com o eventual casamento, ela ficar pensando no que poderia ter sido, com alguém que ela mal tenha encontrado?), mas irônica, pois será ele que estará casado (e insatisfeito...).

..........Abandonam o trem (o espaço da velocidade, o fugaz, o descompromisso) e desembarcam na estação. A partir daí, o ritmo será muito mais lento (mesmo no bonde elétrico).[3] Dão-se as mãos e se dizem os nomes, pela primeira vez. O trajeto pode começar.

..........16 de junho, Bloomday, o dia eterno de “Ulysses”, de Joyce[4], o qual resolveu imortalizar a data do primeiro encontro com Nora, sua mulher e musa, nas peripécias de Leopold Bloom e Molly. Pois, na riqueza infinita da Odisséia, o clímax é o (re)encontro de Uysses e Penélope.

..........Conversam com dois vienenses, atores em uma peça non-sense. Ela se apresenta como se estivessem em lua-de-mel; Jesse se espanta, inicialmente, e depois se acostuma à idéia, inclusive acrescentando detalhes, “ela ficou grávida e casamos”. Novamente profético (e inconsciente), antecipa o que acontecerá em sua vida, mas com outra mulher, conforme será visto no filme seguinte.

..........Uma catedral, antes de começarem a conversar num bonde elétrico (análogo à visão de Notre Dame, no segundo filme, quando conversam no barco). Entre diversas passagens da conversa, uma se destaca: Celine comenta sobre sua primeira atração sexual, diz que ao final das férias prometeram se corresponder, mas “claro que nada escreveram”. De certa forma, Jesse intui que talvez aconteça o mesmo com eles. Em outra passagem, ela diz acreditar em “reencarnação”, enquanto que no segundo filme (já bem mais cética) descarta rapida e negativamente o tema.

..........Escutam “Come Here”, de Kath Bloom[5] em uma cabine de loja de discos. À música inebriante e espaço reduzido contrapõe-se o medo de se olharem, como o temor de sucumbir aos encantos das sereias.[6]

..........No cemitério dos desconhecidos, Celine fala que “quando as pessoas não sabem se você morreu ou não, de certa forma você está vivo”. Será o caso dos dois, durante nove anos...

.........Numa roda-gigante (a imobilidade, o deslocamento circular, a figura do Mundo) o primeiro beijo é trocado. A entrega dos dois é profunda, não só pelo prazer fugaz.

..........Andando, Celine menciona que a avó, apesar de parecer ser feliz no casamento, confidenciara a ela que “sonhava com outro homem por quem era apaixonada”. Dessa vez, é Celine quem profetiza, espelhada na parente a quem é mais chegada...

..........E, ao longo das horas que compartilham, são constantemente avisados por arautos, seja a quiromante ou o poeta à beira do rio. Depois, quando consegue negociar o vinho com o barman (tom persuasivo digno do original Ulysses), Jesse é lembrado: “À melhor noite de sua vida”.

..........Fazem amor sob as estrelas, na grama do parque. O contato com a terra lembra o leito de Ulysses e Penélope, moldado a partir da raiz viva de uma oliveira. Sentem-se com a pessoa certa, sem dúvida na mente e alma, completos, ao contrário de muitas outras ocasiões “felizes”.

..........De manhã, as poucas horas se escoando até a despedida, têm cada vez mais certeza do que os une. A despedida é emocionante, prometem-se o reencontro.. Mas ao contrário do Bloomday[7], a odisséia durará vários anos.

E, no final, sucedem-se as imagens dos vários recantos percorridos, apenas memória, Labirinto em que se perderam. Uma anciã passará perto da garrafa vazia e dos copos, no parque, oferenda de um ritual mágico. Sem a presença um do outro, não saberão como sair. Tentarão levar a vida (como a canção de fechamento, “Living Life”, não cansa de repetir no refrão), buscarão se provar que tudo foi vaga ilusão
.[8] E Ulysses prolongará sua Odisséia, passando por Circe (e/ou Calypso), em busca de reencontrar Penélope, que nunca o terá esquecido.


[1] Incluindo “Minha mãe”, “Madame Edwarda” e “O Morto”. Bataille é autor cultuado e polêmico, que explora a fundo os temas da morte, (des)integração psicológica e erotismo.
[2] Kinski é ator consagrado, colaborador de Werner Herzog em diversos filmes, como “Aguirre, a Cólera dos Deuses”, “Nosferatu” e “Fitzcarraldo”. Sua autobiografia se denomina “All I need is love” (rsrs).
[3] No segundo filme, o ritmo também é lento (caminhar, barco ou carro em baixa velocidade).
[4] Há outras menções a Joyce, nos dois filmes. “Before Sunrise” também é o título da tradução de Joyce para uma peça do alemão Gerhart Hauptmann. A livraria em que Jesse divulga o livro (Shakespeare & Co.) tem o mesmo nome daquela de Sylvia Beach, editora de Joyce (a livraria não é a mesma, os atuais donos compraram de Beach os direitos quanto ao nome).
[5] Afinal, estamos num Bloomday...
[6] Esse compartilhamento de espaço exíguo, com o mesmo temor nos olhares, pode ser visto no segundo filme, na subida da escada em direção ao apartamento de Celine.
[7] Bloomday também significa dia do florescimento...
[8] O começo do segundo filme, em que se mostram os vários locais por onde os dois ainda passarão, em Paris, reforça a imagem de entrada/saída do labirinto.



Wellington Dantas de Amorim
(novembro de 2004)
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* Milton, amei a Campanha: Um blog para Wellington! Já estou cantando o rapaz e acho que ele tem mesmo muito a dizer e nada melhor do que um blog! Muito obrigada a você e aos leitores pelo carinho com esse amigo queridíssimo!

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