"Ich bin von Kopf bis Fuss auf Liebe eingestellt"
"Da cabeça aos pés estou inteiramente pronta para o amor", diz o personagem desta canção de 1930, interpretada por Marlene Dietrich no filme O Anjo Azul, longa do cineasta Josef von Sternberg.

Para quem ainda não sabe, meu nickname foi escolhido por causa dela, por causa da minha adoração pela época de ouro do cinema, onde os de(efeitos) especiais sequer existiam.
Mas por que Marlene? Nem de longe era a mais bonita, Greta Garbo, Gene Tierney, Ava Gardner ou Hedy Lamarr certamente a desbancariam em qualquer concurso de beleza. Por que Marlene, então? Justamente por isso, por não ter a beleza plástica facilmente reconhecida, nunca gostei, nem em homens, nem em mulheres. Marlene era de uma sensualidade absurda, envolta em mistério, distante e fria. Começou exibindo suas belas e comentadas pernas. Sobre elas, disse bem-humorada certa vez: As pernas não são tão bonitas, apenas sei o que fazer com elas. Sem falar na excelente atriz que se utilizou da expressividade de um rosto singular e uma voz marcante.
Mas ela ia mais longe: misteriosa, complexa, provocadora de terremotos emocionais. Fumava com extraordinária sedução. Nem a poderosa Bette Davis lhe passava a perna na nuvem de fumaça. Marlene pode ser interpretada como um estado da imaginação, um vislumbre penetrante do desejo.
Suscitou debates acalorados entre ícones da literatura brasileira, como deixaria registrado Manuel Bandeira.




Marlene


por Manuel Bandeira (*)

Ainda será tempo de falar de Marlene Dietrich? Não a vi quando de sua passagem pelo Rio: televi-a apenas, o que não é a mesma coisa, sobretudo levando em conta como foi tecnicamente imperfeita a sua apresentação (viam-se mais as costas do locutor do que a figura da artista).

Todavia, resistiu ela a tudo o que, desde o Anjo Azul, me impressionou como essencial no extraordinário encanto da mulher Marlene - aquele sorriso de olhar infinitamente apiedado e que parece dizer-nos, sem gosma de sentimentalismo, aliás: "Criança, a vida é tão absurda, tão triste!". Mas a vinda de Marlene proporcionou-nos um espetáculo bem divertido, que foi a polêmica entre os cronistas C.D.A. e Vinicius de Moraes. Defendendo cada um a sua estrela, C.D.A. Greta Garbo, Vinicius a Marlene, reviveram ambos galhardamente os dias românticos em que Castro Alves e Tobias Barreto se digladiavam no Recife por causa de duas artistas da mesma companhia no Teatro Santa Isabel.

Para Vinicius Marlene é a mulher, talvez a mulher-idéia de Platão, ou o Eterno Feminino de Goethe; para C.D.A a Garbo é um mito. Vinicius tomou nojo da sueca porque a viu, num coquetel de Mlle. Schiappparelli, recusar uma beberragem estranha onde boiava uma pétala de rosa e pedir vodca. Tive vontade de acudir em auxílio de C.D.A, fornecendo-lhe certo trecho de carta de Vinicius, datada de 49 em Hollywood, na qual o poeta me contava a sideração em que ficara ao cruzar na rua com o Mito.

Mas procurei a carta e não a achei. Achei foi outra, em que ele me falava de Marlene: "Você sabe, ela está cada dia mais linda, mais elegante, mais tudo. É uma mulher incrível, sem o menor desgaste, e de uma naturalidade fantástica. Tira fotografias de publicidade com o netinho, sem dar a menor bola para a legião de apaixonados que tem aí - por esse mundo todo. Eu, depois que a vi com o neto ao colo, fiquei mais apaixonado do que nunca. Imagine você a gente a...". Bem, não posso transcrever o resto, mas a avó Marlene tentava o poeta. "Isso nunca me aconteceu, pelo menos que eu soubesse", concluía Vinicius.

Quanto a mim, o que me ficou de todos os filmes em que vi Marlene foi aquele sorriso a que me referi no começo destas linhas. Lembro-me fortemente é de seus "partners". Jannings, no "Anjo Azul", Gary Cooper, em "Marrocos", ao passo que da Garbo me recordo nitidamente, indeslembravelmente, em todos os filmes, sem ter a menor reminiscência dos homens - e eram todos astros - que trabalharam com ela.

(*)Publicado na Folha da Manhã, em 09/08/1959)




O escritor Ernest Hemingway dizia que ela podia derreter um homem com um levantar de sobrancelhas e destruir uma rival com o olhar. Certamente podia.
Dietrich teve domínio absoluto sobre sua vida e mesmo sua morte. Reza a lenda que ao ouvir sobre a possibilidade de ser removida para um asilo, teria ingerido elevada dose de calmantes que acabaria por mata-la. Era dia 06 de maio de 1992.

Marlene era assim, a nuance do subentendido, entrelinhas nas linhas das sobrancelhas, sombra e luz, o velado, um segredo nunca pronunciado. Um anjo onde todo azul e suas infinitas variantes se escondiam.


leia: http://www.taste.com.br/news/templates/noticia.asp?idNoticia=1775
http://www.ccba.com.br/asp/imprensa/clipping/031016-anjo.asp
http://www.prefeiturasdobrasil.com.br/tribunalivre072.php

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