A boca feminina guarda beijos antigos, segredos,poemas, peças de teatro, romances, palavras, encantamento, meias, paisagens invisíveis, silêncios. Mulher, Hilda Hilst é Hilda Hilst, escritora e poeta brasileira, de um Brasil que inverte seus vices, que se deixa levar por vulgaridade, pelas sombras, por essa frase medíocre sempre feita da boca dos algozes. Hilda Hilst é essa mulher querer ficar ausente. Não lhe interessa mais abrir os braços para as tardes. É possível que o dia não exista mais. Falar o quê? Nada tem a falar para ninguém. As palavras secaram no lábio de vinho. Falar o quê, para quem e para quê? Hilda Hilst é Hilda Hilst. Mas quem é essa mulher que, com um vestido longo, um xale de lã, ouve Beethoven às 10 horas da manhã? Quem é essa mulher de olhos claros, olhar generoso? Está cansada de falar. De escrever. Escreveu a vida inteira. Quem lê Hilda Hilst? Não esconde o desconforto. É uma dor que não merecia. Quem é essa mulher que, ao abrir as grandes janelas de sua casa enorme no meio das árvores, tem nas mãos um copo de vinho do Porto? Quem é essa mulher que se mostra cansada e que se nega a escrever mais? Quem é essa mulher que há mais de 30 anos refugiou-se num sítio na região de Campinas e vive cercada de perso-nagens calados no fundo dos livros? Lembranças antigas povoam sua imensa sala de estar. A figura de seu pai, poeta e fazendeiro, Apolônio de Almeida Prado Hilst. Sua mãe, Bedecilda Vaz Cardoso. Os primeiros estudos na Colégio Santa Marcelina, em São Paulo. Oito anos de colégio interno. Depois o Mackenzie. E ainda a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde se formou advogada, profissão que nunca exerceu. Nasceu na cidade de Jaú, interior de São Paulo, em 1930. Seu pimeiro livro, Presságio, foi editado em 1950. Tinha 20 anos. Era ainda estudante. Muitas lembranças percorrem as paredes da "Casa do Sol", onde vive com cerca de 60 cães. Quase todos têm nome. Andam pela casa o dia inteiro. Sobem nas poltronas, dormem nos tapetes. Têm absoluta liberdade dentro dos cômodos. Muitos são carentes e estão sempre à procura da dona. Hilda Hilst afaga seus cachorros, diz a eles palavras doces. Hilda Hilst, que já escreveu tudo que tinha de escrever na vida. Mais de 50 anos escrevendo. E para quê, para quem, meu Deus? Não vale a pena escrever tanto. Não vale a pena nada. Absolutamente nada. Os últimos livros são pornográficos. Um deboche, mas um debode de Hilda Hilst. Alguns amigosatése afastaram dela. Disseram que ela perderia todo o seu prestígio. Mas que prestígio? Lia trechos dos originais a um crítico. Ele se escandalizava. Publicou sua pornografia com palavras vãs, com palavras vis. Perder prestígio? Que pestígio? Prestígio também significa ilusão. Hilda Hilst cansou de ilusão. Chega. Por isso pára. Agora só lê. Lê o dia inteiro. Não existe mais motivo algum para que volte a escrever peças de teatro, prosa, poemas. Os motivos acabaram. Também não quer mais falar. Não sente nenhuma necessidade de falar com ninguém. Fala com seus cães, e isso lhe basta. É uma pessoa ressentida, sem nenhum sonho. Não há sonho a sonhar. Ressentida, não amargurada, Fazer algumas fotos? Fotos para quê? Não quer se arrumar para mais ninguém. Não quer pentear seus cabelos porque alguém vai visitá-la. Quer ficar em paz. Não quer esperar ninguém. Não quer mais perguntar: "Quem bate à minha porta?". As palavras morreram. Pelo menos as suas palavras. As que estão sufocadas por dentro. Há dias quietos, em que pega seus livros e lê. Diz: "São coisas belas, porque ninguém lê?". Tudo de repente ficou pequeno, minúsculo. Agradece tudo que Deus lhe deu. Tem saudade de tantas pessoas. Umas desapareceram, outras se foram para sempre. Sente saudade. "Fodi muito bem com belos homens. Uns ricos, outros pobres. Fodi, fiz tudo o que tinha de fazer. Isto é o que me basta", afirma com palavras azuis. "Faz 20 anos que não fodo com ninguém. Eu esqueci. Está tudo seco em mim, dentro de mim, no fundo de mim,". Hilda Hilst parece alguém que salta de uma valsa. Fala hoje a linguagem dos cães. E quer falar como os cães. O ressentimento não tem tamanho. A falta de reconhecimento num cenário dominado por gente desonesta. Muitos dizem: "Ah , ela já foi traduzida para vários idiomas". Mas o que significa isso? Dois livros seus estão sendo lançados em Paris. Mas isso não significa nada para ela. Tem vários livros publi-cados em outros países. Nunca recebeu um centavo. De vez em quando as editoras estrangeiras lhe mandam um livro. Um único livro. Ela olha, conta as páginas, analisa a capa e sorri. Não sabe porque nasceu no Brasil, porque tem sempre um destino incerto. Tem muito medo da morte. Deus? Não conhece Deus. Nunca viu Deus. Tem medo de pensar em suicídio. O suicídio tem de ser num hotel, onde se deve pedir um quarto para, no mínimo 48 horas. Tem de colocar na porta todos aqueles avisos para não ser perturbado, em todas as línguas possíveis. Depois tem de tomar 40 comprimidos. É só. Não pode ser em casa porque no outro dia, logo cedo, alguém vai chamar e descobre. Tem de ser num hotel. Reuniu 70 poemas de amor de toda sua obra. Quem vai publicar?A mágoa é visível, escancarada. Eles não querem poemas de amor. Fala ao telefone: "Meu amor, estou muito triste hoje, estou muito triste". A voz ao telefone desaparece nas paredes e nos móveis escuros da sala, nos quadros, nos retratos de tantos amigos que há muito tempo não vê. Ah, os poemas de amor: "Que boca há de roer tempo? Que rosto/Há de chegar depois do meu? Quantas vezes/O tule do meu sopro há de pousar/Sobre a brancura fremente do teu dorso?/Quantas vezes dirás: vida, vésper, magma-marinha/E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas/ Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas/ Sem poder tocar-te. Quantas vezes amor/Uma nova vertente há de nascer em ti/E quantas vezes em mim há de morrer".



para um amado senhor

Nave
Ave
Moinho
E tudo mais serei
Para que seja leve
Meu passo
Em vosso caminho.
(I)

(Hilda Hilst - Poesia: 1959-1979 - São Paulo: Quíron; [Brasília]: INL, 1980.)



Uma vez se perguntou dentro de um poema: "E se eu ficasse eterna?". Em outro poema, calou por dentro seu próprio destino:"Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado/Faria do meu rosto de parábola/Rede de mel, ofício de magia". Num poema a García Lorca, ela afirmou: "Ah, se soubesses como ficou difícil a poesia". Vale para hoje as constatações de tantos anos, do tempo que escorreu pela face, o rosto transformado, o tempo guardado para sempre no bolso do casaco, como luas inexistentes que povoam seu espelho. Universal, Hilda Hilst não tem mundo para habitar, senão o desassossego, a inquietação, esse oceano noturno que sempre bate à janela, visita inesperada. Vivesse Hilda Hilst num país civilizado, a história seria diferente.


Hilda Hilst 21 de abril de 1930 (23horas e 45 minutos) - 4 de fevereiro de 2004 (4 horas da manhã).

Texto na íntegra: http://www.lumiarte.com/luardeoutono/hildaesp.html

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