"Viver consiste em morrer. Em se estar preparado para a morte. Para morrer como um homem. Um homem se reconhece de dar sua vida. Não apenas numa batalha, mas em tudo aquilo que faz. Não apenas na morte - que, para um guerreiro, sobretudo, pode ser o ponto mais alto ou mais baixo de sua vida - mas a cada instante e ato de sua vida."

Hagakure




Todo samurai tem de estar pronto. Pronto para o embate, pronto para a morte, ainda que venha pelas próprias mãos.
Praticar o seppuku, dar-se à própria morte, era privilégio do samurai. Ele tinha o direito de usá-lo para se desagravar de uma injustiça, para manter sua honra, ou simplesmente para sugerir o caminho correto ao seu superior.
Havia um minucioso ritual para tais ocasiões solenes, mas em situações de emergência o samurai utilizava a própria wakizashi, a espada curta de que também se servia para decapitar os que vencera ou justiçara com a katana (espada longa). O uso desse par de espadas (dai-sho) era, igualmente, privilégio restrito ao samurai.

Foi assim que no dia 25 de novembro de 1970, Yukio Mishima pôs vim a própria vida, num longo e doloroso ritual, o seppuku.
Quando um guerreiro queria se livrar de uma grande desonra ou demonstrar lealdade, ele sentava-se à maneira japonesa no tatame e, com sua espada, furava a barriga, abrindo o corte até o outro lado. Mesmo durando horas, o sofrimento até a morte deveria ser suportado sem gritos ou choros pelo guerreiro, que agonizava em frente à família. Ao final, sua cabeça decepada era entregue aos parentes.
O ritual foi realizado diante da tropa das Forças Armadas de Tóquio, Mishima leu para os soldados uma declaração em que denunciava a decadência dos códigos de honra mais tradicionais do país, bem como a ocidentalização a que o Japão se submetia. Após o inflamado discurso, rumou até o gabinete do comandante e lá rasgou o ventre com a espada.


Mishima, escritor japonês, nome indispensável da literatura daquele país escolheu morrer do modo que viveu. Masoquista e homossexual, atormentado, genial, mas sobretudo contraditório. Intelectual, ele era também um militarista de direita que mantinha seu próprio exército particular. Um nacionalista que queria restaurar o poder do Imperador, ele era obcecado pela cultura ocidental e ofendia seu próprio povo adotando a imagem de uma celebridade no estilo ocidental.
Sua morte diz muito sobre sua vida e obra. Tudo em Mishima era extremo, carregado de tintas fortes. Seus romances repletos de personagens densos, apaixonantes, repugnantes. Lírico e irônico, nada em Mishima passa desapercebido. A batalha é constante. Seus conflitos, sua personalidade conturbada, a opção sexual, tudo é luta e desafio e nada passa impune, nem mesmo o leitor ao final de um livro seu será o mesmo. E é essa marca, indelével que faz a diferença entre a genialidade e a mediocridade.




As ruas sempre vão ficar

As ruas sempre vão ficar no mesmo lugar
Isso faz meus dias sempre iguais
A imagem na janela é sempre a mesma
Impossível viver dessa maneira
Na terra, esperando as lágrimas correrem de novo...
As ondas nunca vão ficar no mesmo lugar
Tudo que eu posso ouvir é a minha própria voz
O mar refugia horizontes vazios
E neles passaria a vida inteira
Esperando as luzes do porto
E desejando o que mais odeio.


Yukio Mishima

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