29/10/2008
25 anos da morte de Ana C.
/
/
                          
/
/

"Poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem" (1990) Curta metragem em homenagem à poeta Ana C.
A voz feminina no vídeo é da própria Ana C. O áudio está ruim. Segue transcrição (faltando partes...)

"Pode começar a gravar?
Tá, começar.
Já comecei.

Um curativo aberto
Um silêncio aberto
Um fantasma romântico no peito
Se você dançar...

(...) na estrada ponho as chinelas havaianas
(...) calor
(...) rubro

Eu procurava as chaves
(...)
Atravessava a luz deserta da praia
de cabo a rabo,
de vestido."
/
/
...
/
Revista de CINEMA – "Poesia é Uma ou Duas Linhas e Atrás uma Imensa Paisagem", sobre a poeta Ana Cristina César, é seu único curta. Por quê? Um média ou um longa-metragem sobre ela resultaria excessivo?
/
Moreira Salles – Nunca houve a possibilidade de "Poesia" ser maior. Explico. Eu estava terminando de editar "América", no ISER, e lá conheci o Waldo César. Eu não sabia que ele era pai da Ana Cristina. Nós ficamos amigos e um dia ele me entregou uma fita cassete, dizendo que sua filha havia gravado um poema, será que eu podia transformá-lo em um vídeo? Fui pra casa sem saber o que tinha nas mãos. Em casa, ouvi a fita. Era a Ana Cristina. O poema é lindo – fala do passado, da memória de um tempo sem peso, daquele momento sutilíssimo em que se passa da inocência para a vida adulta. "Poesia" é apenas isso: a tentativa de atender ao pedido do Waldo.
Entrevista na íntegra aqui.
/
/

Foto montagem - Luiza Santoloni - site IMS
/
"Ao fechar o livro que contava sua própria história, em 29 de outubro de 1983, Ana C. provocou uma comoção geral. "Um acontecimento dessa ordem não afeta somente o que você escreve, mas a sua vida inteira; ainda mais quando acontece com alguém de sua intimidade", declarou em uma revista o poeta carioca Armando Freitas Filho, que foi um de seus poucos amigos.
/
Para Armando Freitas Filho, Ana C. "encarava a modernidade". Certa vez o poeta relacionou esta característica à brevidade de sua passagem: "Talvez por isso tenha morrido cedo pura passagem permanente muitas asas e um desdém pelo que poderia ser raiz. O lugar que ocupa é linha do horizonte virtual e veloz".
/
Ana Cristina Cesar, por ela mesma, não disse nada. Não deixou bilhete de despedida não que tenha sido revelado. Deixou poesia. E em seus poemas sobre a vida não falou. Apenas sussurrou ao vento alguns versos, que, dizem, só ouviu quem assim como ela tinha alma de veludo."
/
/
Três inéditos de Ana Cristina Cesar nos 25 anos da sua morte.
Do Prosa Online
/


lá onde o silêncio é relva
de lá corrói-se hoje o texto
corrói-se porque hoje o agarra
o pré-texto que nunca se alheia
e o antecede em silêncio
lá onde os signos me esquecem
separados pré-texto e soneto
esqueço que os tenho alheios
à pressa de separá-los
esqueço que lábios e signos
sem pressa se fazem relva
e inscrevo desconhecido
o último verso desgarrado:
26.9.72



***

Projeto para um romance de vulto


- Você se importaria de ler algo sórdido? Não, não é bem algo sórdido, pelo contrário, é uma página importante que testemunha a obsessão de registrar todos os pormenores de uma mente e todo o desenrolar da história do pensamento. Eu me curvo e me escondo ante o que escrevi ao me entregar totalmente a esta obsessão. E sinto inclusive o infeliz medo da tua leitura mas fico subitamente feliz porque percebo que deste medo posso fazer outros textos que tematizem o medo e depois falem do texto que escrevi para aplacar o medo e dos outros textos que escrevi para aplacar os primeiros textos.

***

MÍMESIS


quando esqueço
as grandes assombrações
e beijo teu regaço escuro, tua pequena
pele surpreendente
temo que o meu rosto se desfigure e volte
a imitar
os mistérios da noite e a trágica história do
malabarista
/
/


/
/
[...] Ana Cristina é ela mesma. E, enquanto tal, não somente surpreende:desconcerta. (...) Língua afiada e ferina, a de Ana Cristina, que com humorferocíssimo, sequer a si mesma se poupa [...] A autora se despe ao nível de um confessionalismo que beira às vezes a afronta aos cânones comportamentais da pequena-burguesia. Poderão argüir alguns que essa linguagem nada tem a ver com poesia. Engano. Tem, sim. E tem,sobretudo porque, exatamente no plano da linguagem –, são estes os vetores que mais vêm colaborando para a definitiva estratificação de uma poética feminina (não necessariamente feminista) cujo objetivo é integrar a mulher na ordem social de nossos dias (JUNQUEIRA, 1979, on line)
/
/
Sua obra, apesar de breve e fragmentária, está longe de demonstrar, pela literatura, o interesse diletante ou o modismo exibicionista, de muitos poetas de sua geração. Sua apurada consciência artesanal e o à-vontade com que manipula uma complexa rede de alusões e referências literáriasmostram que levava a literatura talvez muito a sério, uma seriedade que certo humor amargo e ferino só faz acentuar. Lúcida, ela sabe que empenhar-se a fundo na criação literária traduz uma forma de paixão cujo destino primeiro poderia ou deveria ser a própria vida [...] Toda obra de Ana Cristina é fortemente autobiográfica, não enquanto relato de uma vida, mas enquanto análise impiedosa e radical da impossibilidade de vivera vida plena que sua sensibilidade pedia [...] (MOISÉS, 1985, on line).
Cada carta é um poema de Ana Cristina César, tocados todos de um"sentimento", forte o bastante para fazer brotar, no canto do olho, mesmodo leitor mais distraído, uma furtiva lágrima, sobretudo face ao encanto, este poroso encanto capaz, só ele, de dar notícia do ido e do vivido; do aziago da vida sim; mas, tanta vez, também do seu mel.
Retalhos nostálgicos, notícias de ontem, o que estas cartas falam ninguém poderia falar com mais propriedade senão ela própria, Ana C., a cavalo de seu mito e de sua "mitologia" pessoal, na vivência minuciosa dos "anos loucos"onde oscilávamos entre comprar ou não um revólver para os momentos de pânico. Errar de cálculo, este tempo, se mostrou sempre fatal. Ana C., por um descuido, se enganou de pulso e de impulso e se atirou do oitavo andar do edifício feito o tropeço lúdico dentro de um sonho, ou de um pesadelo,do qual invariavelmente acordamos. Acontece que Ana C. não acordou mais. Para se tornar, daí em diante, o mito incurável de uma lenda sem-fim (BUENO, 2002, on line).


/
/
/
/
Ana Cristina morreu em 29 de outubro de 1983 e, com certeza, pela sua juventude ebeleza, pelo conteúdo e forma de sua obra, pela interrupção brusca de sua vida e do seu talento, tornou-se símbolo e ícone. Quando a vida segue o seu curso normal, as pessoastêm tempo de se preparar para a passagem daqueles que, de alguma forma, têm parte ou influência em suas vidas. Isso não acontece, em casos como o de Ana Cristina, onde a ruptura abrupta sempre deixa o único recurso de uma saudade brutal ou de uma veneração desmedida.
/
De qualquer forma é importante a noção, e o consolo, de que as pessoas se perpetuam, nos corações e nas almas, pelo que deixam, na forma de obras materiais, como é o caso de Ana Cristina, ou através das lembranças de atitudes, palavras ou gestos, que podem fazer melhor a vida dos que ficaram.
/
Conforme mencionado, escreveu para diversos jornais e revistas. Além disso, fez parte da antologia 26 poetas hoje, publicada em 1976. Em edições independentes, publicouLuvas e Pelica, Cenas de Abril e Correspondência Completa, além de Literatura não é Documento, uma pesquisa sobre a literatura no cinema.
/
/

Para Queiroz (2002, on line),
/
vários livros seus são póstumos e o interesse por ela cresceu no bojo dasleituras críticas feministas, recorrentes a partir do final dos anos noventa.A sedução que a obra de ACC exerce sobre seu público advém não apenasdas qualidades inegáveis de uma forte e sofisticada lírica, a despeito dotom coloquial, mas também do cruzamento de fatores que conferem à obra um surplus de significação, a saber, o próprio evento do suicídio, que canaliza em quem se aproxima de seus textos uma vocação irresistível para investigar as pistas que possam explicar o trágico desfecho.
/

Acredita-se que os aspectos da vida privada na obra, sob forma de uma sexualidade e eroticidade explicitamente tematizadas no feminino, em primeira pessoa e com referências a personagens reais, se expressa numa lírica coloquial. Tal fato confere à obra da autora singularidade única, em termos de qualidade e de atualidade. Ana Cristina César bancava uma tortuosa discussão sobre o papel das mulheres, acompanhando, não sem ironia, os estudos de gênero que então despontavam na Europa, investigando no feminino sem ser feminista, ela defendia que literatura tem gênero, o que só reafirmou em seu trabalho.Tendo em vista as circunstâncias de sua morte e o fato de Ana Cristina ter deixado uma série de documentos, tais como cartas, poesia, diários, traduções, desenhos etestemunhos, seus livros foram reagrupados e republicados, como foram também publicados outros documentos inéditos.

Segundo Eliot (1997, p.43),

Ana C. pensou sua poesia, pensou literatura, fez crítica, estudou traduçãoe, como podemos notar no conjunto de seus escritos, isso tudo participava,e muito, da sua criação literária. Em seus ensaios e artigos críticos encontramos uma teórica bastante consistente, levantando questões que nos parecem fundamentais para a leitura de seus próprios textos.
/
/
/
/
De acordo com o autor, todo poeta ao criar coloca em ação sua habilidade crítica,avalia seus procedimentos, estabelece parâmetros, faz comparações, aciona seu conhecimento histórico, literário. Esse exercício crítico era consciente para Ana Cristina César, que, após concluir o Mestrado em Comunicação, embarcou para a Inglaterra para um curso de tradução literária onde viu a oportunidade de estudar teoria.

Como reza o senso comum, a respeito de Ana Cristina César, seus textos literários são percebidos como relatos e confidências, em forma, às vezes, de diários e de correspondências.
Em Correspondência Incompleta a poeta Ana Cristina César extrai o sublime do prosaico e fala sobre a perplexidade de estar viva.


/
* Infelizmente a postagem automática não colocou no dia certo, 29/10, mas tá valendo, já tinha preparado muito antes.  Eu amo essa mulher e o irmão dela também, claro.
Links: As cartas de Ana Cristina Cesar.
IMS
/
A difícil arte de conceder.
/
/
Certamente não é esse o título da crônica de Martha Medeiros, mas quando recebi do meu amigo Luiz, achei ótima e por isso estou publicando por aqui. Obrigada. Luiz.
Ps: O título correto e o texto completo foram enviados pela querida amiga e poeta, Fernanda Guimarães. Brigada querida!
//
/
Batalha entre duas generosidades
/
Quando vejo reportagens femininas que buscam desvendar o que as mulheres levam na bolsa, sempre me surpreende a falta de um objeto de uso fundamental. Estão lá o batom, o celular o iPod, mas e um livro? Nem pensar? O mercado editorial já assimilou a potencialidade dos pockets books e, até onde sei, eles vendem bem. Como não venderiam? São pequenos, baratos e oferecem títulos de primeira. Eu sempre carrego um dentro da bolsa, porque nunca se sabe quando terei que enfrentar uma fila ou uma sala de espera.
/
"O último livro que andou partilhando a intimidade da minha bolsa foi “A felicidade conjugal”, de Tolstoi. Com essa obra, o russo, além de exterminar de vez a discussão boba sobre diferenças entre literatura feminina e masculina (a gente jura que é uma mulher escrevendo), consegue revelar de forma brilhante (e, ao mesmo tempo, perturbadora) o segredo que mantém tantos casais unidos: homens se sacrificam, mulheres se sacrificam, e fica mais tempo junto o casal que tiver o maior potencial de generosidade.
/
Parece, mas não é uma noticia alentadora. É literalmente bonito, daria uma boa novela das seis, mas, de minha parte, meu sonho não é um homem que sacrifique seus desejos em detrimento dos meus, e vice-versa. O que Tolstoi define elegantemente como uma “batalha entre duas generosidades”, nós, mundanos, chamamos de “concessões”. Essa palavra mais sugere uma batalha jurídica do que de generosidade, mas é tudo a mesma coisa.
/
Óbvio que temos que conceder. O tempo inteiro, desde que nascemos. Até aí, estamos falando de família, um ringue onde regras são criadas coletivamente. Mas quando casamos com o senhor fulano de tal, ou com a dona sicrana da silva, que vieram sabe-se lá de onde e amparados em tais fundamentos, a concessão vira o calcanhar-de-aquiles do contrato. Ele adora dançar, você odeia música. Ela adora natureza, você não suporta passarinho. Mas se amam, olha que situação. Quem cede ?
/
A felicidade conjugal só sobrevive quando os dois dão sua cota de sacrifício de forma menos dolorida possível. Ninguém morre se tiver que dançar um pouquinho ou tiver que passar um fim de semana no sítio, isso é cláusula previamente acertada e nem comporta a rigidez da palavra “sacrifício”.
/

Mas e se você tiver que enfrentar uns “nunca mais” pela frente? E se os seus sonhos de juventude tiverem sido enterrados? E se o seu trabalho ficar comprometido? E se sua vida virar um palco e você tiver que assumir um personagem 24 hs por dia? E se sentir saudades de alguém que você já não é mais? Não pense que isso é dramatismo. É mais comum do que se imagina. Tem pessoas que renunciam a si mesmas e só percebem isso quando não há mais retorno possível.
//
Generosidade, mesmo, é você permitir e incentivar que o amor da sua vida seja exatamente como ele é, e ele retribuir na mesma moeda, sem querer mudar você nem um naquinho assim.
/
Mas esse romance ainda está para ser escrito."
/
Martha Medeiros (Revista de O Globo de 26.10.08)

/
Excelente, alias, o último parágrafo resume tudo e acho mais, não é só a generosidade de deixar o outro ser. Acho que amar outra pessoa é exatamente isso: deixar o outro ser o que é.
/
/
Rio derrota a chance de mudar.

/
/

Infelizmente o Gabeira foi derrotado aqui no Rio. Junto com ele a possibilidade de ver mudanças reais acontecerem.
/
Como bem escreveu o jornalista Antonio Caetano no seu Café Impresso:
/
"Nunca uma eleição se pareceu tanto com a luta entre o bem o mal - pq nunca houve dois candidatos tão contrastantes: um que se recusava a falar mal do adversário, a sujar as ruas, a fazer conchavos; um candidato que cresceu sozinho, por sua pura força moral, e outro que usou de todos os recursos disponíveis para vencer, vencer a qualquer preço, com qualquer um.
/
Ou melhor: Gabeira ganhou. Quem perdeu fomos nós. Ganhou pq mostrou q uma outra maneira de fazer política é possível. Isos em si é muito interessante. Havia claramente algo de messiânico no trajeto de Gabeira na eleição, mas acho que se soube transformar esse fervor em ação entusiasmada e eficaz. Gabeira fez a anticampanha e alcançou resultados surpreendentes."
/
Ou o jornalista Noblat com Pobre cidade linda:
/
"No início dos anos 80, quando morava no interior de São Paulo, eu sonhava em morar no Rio de Janeiro. Lá havia tudo que eu imaginava ser bom neste país: paisagens deslumbrantes, povo alegre e trabalhador, prosperidade. Contudo, a vida me levou para longe de lá.
/
Pelo bem ou pelo mal, eu vim para Sampa e aprendi, como o bife após muitas marteladas, que esta terra também tem muita poesia escondida sob seu concreto. Hoje, eu gosto tanto ou mais de Sampa quanto do Rio. Mas, no fundo do meu coração, ainda bate o som do compasso carioca: sou flamenguista, adoro as escolas de samba do Rio e ainda fico maravilhado com a sua beleza.
/
Por tudo isso, hoje eu estou de luto, como aconteceu na derrota das diretas em 84; não exatamente pela derrota de Gabeira, mas pela derrota da ética, da honestidade e da coerência. Hoje, uma pequena maioria carioca pisou sobre um broto de mudança na política neste país. Espero isso seja, apenas, um acidente e não uma morte definitiva."
/
Desnecessário acrescentar qualquer coisa, né?

/
/
E seria dia de Vincent Price, até porque foi no dia 25 de outubro de 1993 que ele faleceu. Mas o Lord dos filmes de terror vai ficar para outro dia. Hoje eu preciso falar de um filme tosquérrimoo que assisti por acaso. Trata-se "Planeta Terror".
Na verdade é um projeto que acabou se transformando em dois filmes: "Planeta terror", de Robert Rodriguez, e "À prova de morte", de Tarantino.
/
/
/
/
A sinopse explica a bizarrice:
Planeta Terror mostra o que acontece quando produtos químicos detidos e negociados pelo exército norte-americano caem nas mãos erradas. Como resultado, grande parte da população de uma pequena cidade texana vira zumbi. Todos sedentos por carne fresca e, claro, miolos.
Ao mesmo tempo, acompanhamos a história dos renegados Wray (Freddy Rodríguez) e Cherry (Rose McGowan), ele um fora-da-lei que namorou Cherry, go go dancer que sonha em ser comediante. Os dois se reencontram quando os zumbis tomam conta da cidade e se unem para liderar um bando de sobreviventes.
/
Muito sangue, miolos, mulheres semi-nuas e tosquices como uma perna metralhadora, você chega a conclusão que é melhor não tentar entender a intenção de Tarantino com esse projeto.
/
/


/
/
/
/
Após ter a perna devorada por um zumbi, a belíssima Rose McGowan, usa o toquinho restante para adaptar uma metralhadora. Tornando-se então uma heroína sexy e mortal. Fiquei fã! É a tosquice elevada ao cubo! rsss
/
/
/
/
/
/
Se você quer se divertir, rir muito com situações pra lá de bizarras, esse é o filme.
/
Porque hoje é dia de Vinicius de Moraes

/
/
/
Da solidão
/
/
Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à idéia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu "O corvo": o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua saudade a pungente litania do "nunca mais".
/
Será esta a maior das solidões? Realmente, o que pode existir de pior que a impossibilidade de arrancar à morte o ser amado, que fez Orfeu descer aos Infernos em busca de Eurídice e acabou por lhe calar a lira mágica? Distante, separado, prisioneiro, ainda pode aquele que ama alimentar sua paixão com o sentimento de que o objeto amado está vivo. Morto este, só lhe restam dois caminhos: o suicídio, físico ou moral, ou uma fé qualquer. E como tal fé constitui uma possibilidade - que outra coisa é a Divina comédia para Dante senão a morte de Beatriz? - cabe uma consideração também dolorosa: a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão.
/
Qual será maior então? Os grandes momentos de solidão, a de Jó, a de Cristo no Horto, tinham a exaltá-la uma fé. A solidão de Carlitos, naquela incrível imagem em que ele aparece na eterna esquina no final de Luzes da cidade, tinha a justificá-la o sacrifício feito pela mulher amada. Penso com mais frio n'alma na solidão dos últimos dias do pintor Toulouse-Lautrec, em seu leito de moribundo, lúcido, fechado em si mesmo, e no duro olhar de ódio que deitou ao pai, segundos antes de morrer, como a culpá-lo de o ter gerado um monstro. Penso com mais frio n'alma ainda na solidão total dos poucos minutos que terão restado ao poeta Hart Crane, quando, no auge da neurastenia, depois de se ter jogado ao mar, numa viagem de regresso do México para os Estados Unidos, viu sobre si mesmo a imensa noite do oceano imenso à sua volta, e ao longe as luzes do navio que se afastava. O que se terão dito o poeta e a eternidade nesses poucos instantes em que ele, quem sabe banhado de poesia total, boiou a esmo sobre a negra massa líquida, à espera do abandono?
/
Solidão inenarrável, quem sabe povoada de beleza... Mas será ela, também, a maior solidão? A solidão do poeta Rilke, quando, na alta escarpa sobre o Adriático, ouviu no vento a música do primeiro verso que desencadeou as Elegias de Duino, será ela a maior solidão?
/
Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.

Vinicius de Moraes - in Para viver um grande amor (crônicas e poemas) - in Poesia completa e prosa: "Para viver um grande amor"
/
//
/
/
/
/
Dia de sábado
/
/

Porque hoje é sábado, comprei um violão para minha filha Susana, a fim de que ela aprenda dó maior e cante um dia, ao pé do leito de morte de seu pai, a valsa "Lágrimas de dor", de Pixinguinha – e seu pai possa assim cerrar para sempre os olhos entre prantos e galgar a eternidade ajudado pela mão negra e fraterna do grande valsista...
/
Porque hoje é Sábado, desejarei ser de novo jovem e tremer, como outrora, à idéia de encontrar a mulher casada, de pés de açucena; desejarei ser jovem e olhar, como outrora, meus bícepes fortes diante do espelho...
/
Porque hoje é Sábado, desejarei estar num trem indo de Oxford para Londres, e à passagem da estação de Reading lembrar-me de Oscar Wilde, a escrever na prisão que o homem mata tudo o que ele ama...
/
Porque hoje é Sábado, desejarei estar de novo num botequim do Leblon, com meu amigo Rubem Braga, ambos negros de sol e com os cabelos, ai, sem brancores; desejarei ser de novo moreno de sol e de amores, eu e meu amigo Rubem Braga, pelas calçadas luminosas da praia atlântica, a pele salgada de mar e de saliva de mulher, ai...
/
Porque hoje é Sábado, desejarei receber uma carta súbita, contendo sobre uma folha de papel de linho azul a marca em batom de uns grossos lábios femininos, e ver carimbado no timbre o nome Florença...
/
Porque hoje é Sábado, desejarei que a lua nasça em castidade, e que eu a olhe no céu por longos momentos, e que ela me olhe também com seus grandes olhos brancos cheios de segredo…
/
Porque hoje é Sábado, desejarei escrever novamente o poema sobre o dia de hoje, sentindo a antiga perplexidade diante da palavra escrita em poesia e como dantes, levantar-me com medo da coisa escrita e ir olhar-me ao espelho para ver se eu era eu mesmo...
/
Porque hoje é Sábado, desejarei ouvir cantar minha mãe em velhas canções perdidas, quando a tarde deixava um alto silêncio na casa vazia de tudo que não fosse sua voz infantil...
/
Porque hoje é Sábado, desejarei ser fiel, ser para sempre fiel; ser com o corpo, com o espírito, com o coração fiel à amiga, àquela que me traz no seu regaço desde as origens do tempo e que, com mãos de pluma, limpa de preocupações e angústia a minha fronte imensa e tormentosa...
/
Vinicius de Moraes - 09.1953 - in Para uma menina com uma flor (crônicas) - in Poesia completa e prosa: "Para uma menina com uma flor"
/
/
/

/
Para três jovens casais

/
/
A
Marcos Anibal de Morais
José Joaquim de Sales e
Clementino Fraga Neto
/
The world was all before them, where to chose.
Their place of rest, and Providence their guide.
They, hand in hand, with wand' ring steps and slow.
Through Eden took their solitary way.


/


Assim John Milton, o maior poeta inglês do seu século, ditou das trevas de sua cegueira os últimos versos desse incomparável monumento de poesia que é "Paraíso perdido", e de cuja transcendental beleza não há tradução possível, por isso que constituem, em sua tristeza intrínseca, uma prodigiosa síntese de toda a Criação: o primeiro casal, que é o eterno par, partindo para o mundo cheio de amor e perplexidade, as mãos unidas e os passos incertos a afastá-los cada vez mais do Paraíso conspurcado pela fatalidade do sexo, de onde se criam a vida e a morte.
/
Impossível nada mais belo. Um dia dois olhos se encontram e deles, subitamente, irrompe uma chama imponderável. Nas veias o sangue começa a circular mais forte, e o coração parece pulsar na garganta. A voz fica trêmula, os joelhos se afrouxam, a pessoa não sabe o que fazer das próprias mãos. Ele se fosse um beija-flor, entraria a bater asas freneticamente, num vertiginoso ballet diante da pequenina fêmea expectante, para maravilhá-la com a vivacidade do seu colorido. Ela deixa-se num divino recato, mas já consciente, em sua perturbação, que vai ser dele.
/
É o amor que nasce como uma fonte subterrânea a romper, em seu movimento para a luz, a última resistência de terra, e se põe a jorrar ao sol, em toda inocência e claridade. Que milagre determinou o seu surgimento naquele justo instante? Por que a outra pessoa, até então desconhecida, ou apenas conhecida, passa a ter toda a importância do mundo, a tal ponto que por ela se seria capaz de morrer ou de matar? Por que passa o corpo a ser como um cofre inviolável, só vulnerável ao toque das mãos amadas, e a idéia de infidelidade a última das baixezas?
/
A posse total do ser amado torna-se como uma obsessão: possuí-lo em sua carne e seu espírito; unir-se a ele numa transubstanciação tão perfeita que um passe a ser o outro em pensamentos, palavras e obras: tal é o comando do amor. E uma vez possuído, aninhá-lo num cantinho, a coberto da ferocidade da vida e da natureza, e da maldade dos homens – e postar-se de fora vigilante como um arcanjo, o gládio em punho, para que nenhuma ofensa lhe seja imposta, nenhum dano lhe sobrevenha.
/
Um ninho... Que beleza! A place of rest, como diz o poeta, de onde se possa sair para lutar pela sua subsistência, e para o qual se possa voltar com um livro, um doce, uma rosa para cativá-lo... E a grande viagem se inicia para vida, e ai de nós, para a morte. A fonte nascida procura o seu curso entre as pedras, em busca de um leito mais ameno, um talvegue mais brando, sem a memória anterior das estreitas gargantas e corredeiras perigosas que surpreendem o jovem rio e o impelem quem sabe para a vertigem das altas quedas, quem sabe para os vales pacíficos onde nada acontece, quem sabe para que feliz ou trágico destino... Mão na mão, com vagarosos passos erradios, através do Éden eles iniciam seu caminho solitário. Ei-lo que parte, o eterno casal amoroso, unido numa imagem ainda sem sombra, e de tal modo imerso em sua solidão que é como se só ele existisse no mundo.
/
São dois pobres. Não importa em que berço tenham nascido, se de ouro ou se de palha, são dois pobres, porque o tudo ou o nada que um tenha quer dar ao outro. A necessidade é encontrar um abrigo, não importa quão pequenino, onde haja uma mesa, duas cadeiras e uma cama, rústicas que sejam, pois o mais divertido, justamente, é pintar: comprar um pincel e uma lata de tinta e sair pintando tudo de branco e azul, que são as cores do amor; e ficar bem sujo de cal, e interromper a cada instante o trabalho com beijos intermináveis, e ir tomar banho e amar-se muito, e depois ter fome, e ela atarefar-se com frigideiras e panelas, enquanto ele põe um disco na vitrola e passa os olhos nas manchetes, pouco se danando para guerras e cosmonautas, e com toda razão, de vez que está inaugurando o mundo. E alta madrugada, os corpos exaustos de amor, começar o dueto das almas, uma buscando possuir a outra, em infindável justa singular que só se dará tréguas no final dos tempos.
/
O eterno par... Onde quer que estejam, estão sós, protegidos pela redoma do seu amor. Juntam-se os jovens rostos sorridentes para se sussurrar doces absurdos, para cantar cantigas lembradas, ou se põem sérios para fazer contas de chegar, no dever e haver conjugal, em permanente imantação. Ela sai a compras, encontra as amiguinhas de colégio que olham com maliciosa inveja sua felicidade transparente, o brilho de seus cabelos e seus olhos, a frescura de sua pele de mulher – porque agora ela é mulher – bem amada e possuída. Tudo amor.
Sim, meus jovens amigos, tudo ao amor!
/
Vinicius de Moraes - 
Rio de Janeiro, 03.08.1969 - in Poesia completa e prosa: "Crônicas"

/
/
/
/
Separação
/
Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.
/
Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.
/
Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.
/
Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.
De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...
/
Vinicius de Moraes - in Para viver um grande amor (crônicas e poemas) - in Poesia completa e prosa: "Para viver um grande amor"
Leia muito mais.

/
/
Vinicius de Moraes
Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 — Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980
/
/
Em algum lugar do passado...
aqui no presente.
/
/
/
/
/
Hoje no Telecine Cult, na verdade escrevo e vejo aqui na TV ao lado, o início do filme "Em algum lugar do passado" .São 18:55 de um domingo chatinho como todos os domingos, em geral são.
Eu não sou saudosista, mas tenho muita saudade de alguns dias da minha vida e esse filme me lembra tanto o primeiro amor, o Miguel. Altíssimo, cabelos pretos e olhos azuis. Às vezes, penso que o único amor puro na essência é o primeiro mesmo, e não precisa ser necessariamente na adolescência, basta ser numa idade em que ainda não se aprendeu a jogar, que dizer "eu te amo" com medo de ser o primeiro a dizer, nem passa pela cabeça. Que demonstrar  amor não gera no outro um sentimento de poder, de estar  no domínio da situação, apenas um conforto, um calor aconchegante no coração dizendo: em algum lugar tem alguém que pensa em mim com  amor.
/
Coisa difícil nos dias de hoje e por isso mesmo continuo achando que nasci na época errada. Admiro o tempo em que um fio de barba, uma palavra dada era o necessário para se fechar acordo, cumprir promessas.
Hoje não, nada nos garante sequer que alguém está dizendo a verdade, muito menos seria uma temeridade aceitar uma palavra sem lavrar em cartório. Uma pena, que tudo isso tenha se perdido.
/
Passam os séculos, mudam os anos e os tempos modernos nos falam da independência amorosa, das noites onde o desencontro esta marcado em algum bar, festa ou lugar, onde estamos, mas ele nunca esta. Ele? Ele mesmo, esse tipo de amor ou melhor vontade de amar que o tempo não supera ou apaga.
/
Esse que quando estamos sem ele, o objeto amado, continuamos sentindo sua presença onde não mais se encontra. Ou que telefonamos, escrevemos só para nos certificarmos de sua presença no mundo. É quando se percebe que mesmo o desejo de esquecê-lo é o mais forte estímulo para dele se lembrar.
Não há solução, como disse Nietz, quando descobriu "a fórmula da grandeza do homem : amor fati". Não evitar nem se conformar e muito menos dissimular, mas afirmar o necessário, amar o que não pode ser mudado.
/
A décima oitava variação de Rapsódia, de Rachmaninoff, é o toque do meu celular quando quem liga não tem música própria. Não há quem não reclame, quando toca dizendo que é fúnebre. Não acho e pensando bem, talvez seja uma forma de me manter ligada a um passado que faz parte da minha história.
/
...mas deixa eu continuar a ver o filme.
/
Hoje, se as rosas falassem
renderiam homenagens a ti, Cartola.
/
/
/
₢Gerald Braendle

/
/

O mundo é um moinho
Cartola
/
/
Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que iras tomar
/
Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões à pó
Preste atenção querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés.
/
/
/
/
Ao amanhecer
//
Ao amanhecer , ao anoitecer
Cantam em bando aves fazendo verão
Ouve-se os acordes de um violão
E são eles , verdes periquitos
/

Têm o peito forte tal qual o granito
E são lindas as suas cancões.
Quando a tarde vai morrendo,
/
Ai, meu Deus

O crepúsculo vem descendo
/
Reúne-se o bando na rua
E cheios de harmonia
Entoam uma melodia
Que faz dancar, a própria lua
Cartola
/
/
/
Espero por ti
//
Mesmo sem saber


Se viras um dia
Eu espero por ti
Confiante e só aqui
Eu espero por ti
Pra te dar o amor
Que existe em mim
E encontrar a paz
Por fim
Não sei como foi
Mas aconteceu
Este imenso amor
Só sei que não vivo
Longe dos olhos
Sem sentir teu calor
E enquanto eu viver
Eu hei de viver
A te esperar
Mesmo sem saber
Se vais voltar.
Cartola

/
/
/

Fita os meus olhos
/
Fita os meus olhos

Vê como eles falam
Vê como reparam o seu proceder
Não é preciso dizer deve compreender
Até mesmo notar só no meu olhar
Não abuses por eu te convessar
Que nascestes só para eu te amar
Gosto tanto tanto de você
Que os meus olhos falam o que não vê
Ainda há de chegar o dia

Que eu hei de ter tanta alegria
Quando você souber compreender
Num olhar o que eu quero dizer
Cartola
/
/
/
Senhora Tentação
/

Sinto abalada minha calma,
Embriagada minha alma,
Efeitos da tua sedução,
Oh! Minha romântica senhora Tentação,
Não deixes que eu venha a sucumbir,
Neste vendaval de paixão.
Jamais pensei em minha vida,
Sentir tamanha emoção,
Será que o amor por ironia,
Move esta fantasia vestida de obsessão,
A ti confesso que me apaixonei,
Será uma maldição, não sei,
Sinto abalada minha calma,
Embriagada minha alma,
Efeitos da tua sedução,
Oh! Minha romântica senhora Tentação,
Não deixes que eu venha a sucumbir,
Neste vendaval de paixão.
Jamais...
Cartola
/
/
/

* O samba não é a minha praia, a poesia sim e Cartola era um grande poeta.
/
/
Chove chuva
chove sem parar...
/
/
/
/
Chove direto no Rio de Janeiro. Nem me lembro do último dia de sol e sinceramente nunca gostei disso. Sou suscetível à chuva, tempo cinza, dias incertos. Acabo assimilando o tempo interiormente, só que dessa vez e em especial hoje, estou me sentindo relativamente bem.
Esse ano algumas coisas, pessoas estão indo embora definitivamente da minha vida e por mais que no momento seja dolorido, às vezes pelo modo, outras pelas máscaras que caem, no final o saldo é positivo. E a chuva parece ser um bom sinal. Ainda que seja um contratempo, lava, leva embora tudo, inclusive as sujeiras do caminho, limpa, renova e é assim que me sinto agora, renovada. Pronta pra recomeçar de verdade, do zero. É um alívio pleno pra mim.
E é também uma boa desculpa para postar poemas. No final tudo passa, inclusive essa chuva e o sol voltará a brilhar.
/
/

/
/
"O amor é o solitário do balcão, a retirar vagaroso o rótulo úmido da garrafa porque não pode despir sua mulher. Fica delirando em braile. Aprende inglês com as moscas. Joga dama com os cascos. Reza dez ave-marias para cada pai-nosso. Descobre que o terço é feminista. A cada vez que pensa em si, pensa dez vezes no corpo dela. Não se limpa um amor no banheiro. Limpa-se com as mangas da camisa na frente de todos. O amor é a boca assoando. O amor não pede a conta na mesa, é a conta. Não há amor se você não for o último cliente. O último a sair é que está realmente amando."
Fabrício Carpinejar

/

É... o amor sempre pede recibo. Ainda bem que temos as ave-marias e os padre-nossos...
/
/
Chapéu da chuva
/
"Quando chove, há sol dentro do livro. A tempestade envelhecia o dia. Minha personalidade estava indecisa entre o cavanhaque e a barba. Eu me roubei a eternidade. Não preciso de uma pátria, só daquilo que conheço. Nossa casa era manca na colina. Todos percebiam sua descida parada. Uma alvorada que andava. Existia grande número de afogamentos na cerração. A neblina não aceitava ser dominada, mas conduzida. Tem o mesmo fermento do fogo. Ao atingir grau avançado de espessura, as pessoas caminhavam anônimas lado a lado. O vidro assumia o cansaço dos vitrais, causando embaraço ao observador discernir o dentro do fora. Tomada de baixa visibilidade, a cidade retornava a um tempo em que não era cidade. Fui deixando o povoado, minha mulher, meus filhos, enviuvando a terra. Atravessei as paredes da fruta, o longo caule da varanda. O cordame do poço rolou sozinho. que vai escrito no corpo, a amante não corrige. Cruzei a linha da fronteira de balsa, silencioso, levando um parente enterrado na mala, o violino embalsamado."
Fabrício Carpinejar
/
/
A Chuva
/
A chuva é a única chama

que caminha contra o vento.
Refaço seu lastro
com a insônia dos sapatos.
/
Enlouqueço de ternura,
indeciso entre o furor e o fulgor.
Desperto amarrado em alguma estrela,
servindo de referência
para o alinhamento das esferas.
Fabrício Carpinejar
/
/
/
/
Falta de Tempo
/
Existe um único antídoto para a falta de tempo. Um único.
Estar apaixonado.
Esquecer de si para inventar o desejo.
O desejo transforma-se no próprio tempo.
Tudo é adiado.
Fabrício Carpinejar
/
/
/
Final de Vida
Em final de festa, sempre bate uma fome. E não poupamos esforços em procurar um cachorro-quente, caldo de feijão, um prensado, sopa, qualquer coisa para reanimar o corpo e voltar para casa com a obrigação atendida do café da manhã. Não escolhemos, aproveitamos o que vem, agradecemos o que está aberto. Não somos enojados, superamos as restrições alimentareis e sociais, capazes de comer o que nem estamos acostumados.
/
É agradável parar um pouco numa barraquinha ou num trailer e se deter diante de sua companhia com os olhos lavados e pacientes da noite. Afora o prazer do silêncio depois de deixar o som incessante de uma balada. Um silêncio total, onde se ouve com nitidez uma cigarra trocando de árvore ou as braçadas das estrelas voltando para a margem.
/
O final de nossa vida deveria ter a mesma fome. Não o conformismo. Não a desistência. Não o cansaço das virtudes e a complacência dos defeitos. Não a resignação de que já se fez o melhor e agora é tarde.
/
Manter a fome como se a vida fosse terminar a cada dia que passamos. Supor que se morrerá logo mais e ser um condenado à vida. Porque quem está com dias contados aprende a ser um condenado da vida e se liberta da morte. Da idéia da morte como extinção. Já quem pensa que pode viver até os 80 anos, é um condenado da morte e não aproveita nada, porque deixa para depois o que não virá a tempo.
/
Se eu morresse hoje, treparia com a minha mulher até perder a coordenação das pernas, largaria a caixa de mensagens e o computador e sairia com os amigos, telefonaria para conhecidos que não vejo há dez ou quinze anos, compraria presentes para os sobrinhos, deixaria minha mãe falar sem interromper, seria mais sutil como as mulheres, menos apressado como os homens, escreveria loucamente as memórias dos dias que não estarei aqui, experimentaria comidas exóticas, freqüentaria a praia de madrugada sem temor de assaltos, pularia ondas para me lembrar das voltas largas e do estalido da corda na escola, visitaria a casa de minha infância, não seguiria pedidos como o de não pisar na grama ou não conversar com o motorista, tornaria-me uma oração insubordinada, dançaria com a música das lojas e dos supermercados, subiria nas árvores com os filhos para jogar frutas nos outros bem escondido, andaria no cemitério para decorar lápides desconhecidas com flores, não sairia mais de guarda-chuva, leria o jornal com canetinha colorida, daria minhas roupas para os amigos que mais amo para vestirem em meu enterro, iria ser coroinha por uma missa, confessaria minha vida a um garçom.
/
Se eu morresse hoje, iria curiosamente esquecer de morrer, tão ocupado em me despedir.
Fabrício Carpinejar
/
/
/
"Vejo seus vizinhos... o trem, o ônibus, uma chuva permanente que vem do chafariz. É uma casa povoada, onde podem ser percebidos os ruídos ancestrais".
Fabrício Carpinejar
//
/
/
/ 
/

Nada mais bonito do que um casal se admirando

/
Não vejo o amor sem a admiração. Admirar é desejar ser igual estando junto. Admirar-se. Admirar a gentileza do homem jurando por Deus. Admirar sua lealdade com os amigos. Admirar seu jeito esforçado de assumir as contas. Admirar seu cuidado treinado com os idosos, cedendo assentos e lugares nas frases. Admirar os princípios herdados dos pais. Admirar sua masculinidade em sobrecarregar no abraço. Admirar seu riso infantil, sua ingenuidade no tropeço. Admirar sua vivacidade em brincar. Admirar, admirar-se. Admirar a conversa que tem com o filho sobre quem cuida de Deus. Admirar seu temperamento sereno em noites de chuva. Admirar sua inquietude para sair com o sol. Admirar sua concentração numa música nova. Admirar inclusive quando ele amarra os sapatos, debruçado como a água nas escadas. Admirar seu nervosismo nas provas, nos concursos, nos exames do trabalho. Admirar sua letra com ânsias de terminar. Admirar sua falta de jeito em dançar, compensada pela alegria de estar contigo. Admirar seu modo de transar, sua fixação por poltronas. Admirar quando ele interdita o dia para arrumar aparelhos quebrados. Admirar o perfeccionismo que o impede de ser totalmente seu. Admirar quando ele dorme no meio do filme e finge que assistia. Admirar suas mentiras encabuladas. Admirar, admirar-se. Admirar sua disposição em ser mais velho no medo e ser mais novo no aniversário. Admirar suas meias sem par na gaveta, suas fotos esquecidas de datas, seus recados de telefone faltando números. Admirar sua capacidade em desmemoriar compromissos. Admirar ao circular o sabão nos seios como se fosse uma vidraça. Admirar seu talento em provocar amizades no trem ou na rua, pouco preocupado em se preservar. Admirar quando urra desaforos no estádio, logo ele tão civilizado, tão cordato na família. Admirar quando chora e não se enxerga lágrimas, um choro de soluços, recalcado. Admirar sua vocação para pegar a joaninha da gola e a pôr novamente na grama. Admirar como disfarça que perdeu um botão abrindo as mangas ou o zíper quebrado colocando a camisa para fora. Admirar suas palavras de amor, incompreensíveis, mas terrivelmente musicais, e dizer "não entendi", para escutar outra vez. Admirar suas calças apertadas, justas como minhas pernas nas dele na cama. Admirar sua respiração pesarosa com o luto. Admirar sua caça de baratas voadoras pela sala e perceber que ele tem mais pavor do que eu. Admirar quando gosta de um livro e me conta tudo como se eu nunca fosse ler. Admirar quando fica bêbado e se enrola no cobertor do meu casaco, desculpando-se por aquilo que ainda não fez. Admirar seus roubos nos tabuleiros de criança. Admirar sua dificuldade em se livrar dos pijamas gastos. Admirar sua barba por fazer em minhas coxas. Admirar quando me busca antes de pedir.

Pode-se admirar um homem sem amá-lo. Mas não amar um homem sem admirá-lo.
Fabrício Carpinejar
/
/
* Que venham os dias de sol. :)

/