Recebi esse texto atravês de uma lista de biblioteconomia e achei emocionante. Acredito nisso, no amor, na paixão por aquilo que se faz, não importa o que, contando que seja um caso de amor explícito. Concordam? ;)





A bibliotecária dos sonhos

A mensagem era um oásis no deserto de spams, mensagens comerciais e declarações políticas. Assinava-a Tiziana, uma bibliotecária de Genebra, e dizia mais ou menos assim:

"Caro senhor:

Se o senhor esteve em Genebra no princípio de novembro de 1997 e veio à biblioteca de francês (Salle Thibaudet) da Faculdade de Letras da Universidade de Genebra para consultar a obra de Matarasso e Petitfils "Álbum Rimbaud", da Pléiade (1967), e se o senhor é autor das palavras de agradecimento anexas, eu sou a bibliotecária que encontrou a obra para o senhor. Trocamos poucas palavras, mas o senhor disse que talvez voltaria.

Talvez, até uma próxima."


Depois disso, tive a ocasião de comprar, numa loja de livros raros, um exemplar da obra acima mencionada - obra não encontrável, como o senhor sabe. Eu a guardei para poder lhe oferecer, caso o senhor voltasse.
A vida decidiu de outra forma. Mudei de posto de trabalho. Talvez o senhor não tenha me encontrado ou não tenha tido a oportunidade de voltar. Saiba que, se tiver oportunidade de voltar a Genebra, terei um grande prazer em lhe entregar a obra."
A mensagem termina com a promessa de Tiziana - uma promessa de enviar pelo correio o bilhete de agradecimento que o freqüentador da biblioteca tinha escrito. No momento, ela estava sem scanner, logo, teria de enviar a fotocópia da forma tradicional.
Assim que terminei de ler a mensagem, compreendi que havia um engano. Talvez tenha estado na Faculdade de Letras num debate em 1997. Mas não me lembro da biblioteca nem do livro de Rimbaud. Desfiz o equívoco e agradeci, mas não podia deixar de manifestar minha admiração pelo gesto. "Se todos os bibliotecários do mundo..."
Já havia tido uma experiência, quando asilado na Suécia. Procurei um livro numa biblioteca de bairro. Não tinham. Era um texto de Sartre sobre Flaubert, um calhamaço editado pela Gallimard, com um preço acima de meus recursos. A bibliotecária disse: "Não se preocupe, vamos comprá-lo e emprestaremos a você".

A diferença nos casos é que, na Suécia, a coisa era fria e profissional. O texto de Sartre ou um manual de jardinagem teriam o mesmo tratamento. Neste caso de agora, há um envolvimento emocional, uma espécie de relação pessoal com o texto, uma compreensão da raridade do livro.
Estou consciente de que essas coisas acontecem apenas em países onde se investe mais dinheiro para oferecer livros ao público. No entanto, não é essa a questão. O exemplo de Tiziana me comoveu porque reforçou uma das crenças que nunca me abandonaram, apesar de tantas revisões intelectuais. É a da superioridade de se fazer o que se gosta, de se apaixonar pelo trabalho.

Houve um momento em que duvidei disto. Foi, talvez, no meio da década de 70, quando Herbert Marcuse falava de um outro tipo de trabalhador, que despendia apenas a energia necessária para ganhar a vida, que não se envolvia emocionalmente com o sistema. Era exatamente como vivia, fazendo trabalho temporário aqui e ali. Mesmo nesse momento, no entanto, o distanciamento emocional do trabalho, o consumo mínimo de energia existiam para liberar tempo e disposição para fazer o que se gostava realmente.

Não tenho talento, ou melhor, conhecimentos suficientes, para texto de auto-ajuda. O pouco que sei também não é válido para todos. Com a volta ao Brasil, incorporei uma nova dimensão a esse respeito pelo amor ao que se faz. É a dimensão pedagógica.
Volta e meia, a gente se vê discutindo sobre adolescentes que têm baixo rendimento escolar, mas são apaixonados por outra coisa - esporte, por exemplo. E sempre digo: se gosta muito de alguma atividade, acabará aprendendo nela os mistérios do mundo e da existência. Não há tanto com que se preocupar.

Por isso, se procurasse um livro inexistente na biblioteca de Tiziana, imagino sua preocupação em tentar encontrá-lo em algum canto do mundo. Mas diria o mesmo que o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade escreveu no poema "Hotel Toffolo", um mitológico lugar de Ouro Preto:


"E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Como se não houvesse outras fomes
e outros alimentos.
Como se a cidade não servisse o seu pão
de nuvens".



Certamente, com essa mensagem pela internet, você me ensinou mais do que aprenderia no "Álbum Rimbaud". Um beijo, Tiziana. (F.G.)


Fernando Gabeira - Folha de S. Paulo, 23 de abril de 2005.



* Esse post é em homenagem a todos os bibliotecários, em especial a Ana Lúcia Merege
, minha doce amiga Bibliotecária (dos sonhos, claro!)



Com apenas 23 anos de idade, Antero de Quental ateava fogo no conformismo e na monotonia do ultra-romantismo em Portugal, indignava-se, conclamava à verdade e à justiça. Era brilhante.

Antero nasceu em Ponta Delgada, nos Açores, em 1842, e aí se suicidou em 1891, com dois tiros de pistola. Do nascimento à morte uma vida de retidão moral e de altitude intelectual que permitiu o surgimento de algumas das mais belas páginas da literatura em língua portuguesa. Isso explica a influência que exerceu no espírito dos moços de seu tempo. No in memoriam que os amigos lhe consagraram, manifestações de admiração ao poeta das Odes Modernas não faltaram – e das mais altas, das mais fundas. Guerra Junqueiro afirmou que nele havia em germe “um santo, um filósofo e um herói”.


Aspiração

Meus dias vão correndo vagarosos,
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.

É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.

Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...

Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!

Antero de Quental



Após o suicídio de Antero, em 1891, Luís de Magalhães teve a idéia de pedir a vários amigos de Antero para sobre ele escreverem. Eça redigiu um belo ensaio, intitulado «Um Génio Que Era Um Santo». Começa por romanticamente lembrar o seu primeiro encontro com Antero. Vira-o, em Coimbra, ao longe, fazendo um discurso, nas escadarias da Sé Nova: «Então (...) destracei a capa, também me sentei num degrau, quase aos pés de Antero, que improvisava, a escutar, num enlevo, como um discípulo. E assim me conservei a vida inteira.» Não era verdade, mas era comovente. Antero, conta, era de uma beleza física rara. Desde cedo, contudo, instalara-se nele o desespero: «Já então o ditoso Antero, tão prodigamente dotado por Deus, se considera um filho abandonado de Deus.» Em volta de Antero reinava o otimismo - «Ninguém então, do Reno para cá, lera ainda Schopenhauer» -, mas Antero não partilhava dessa alegria.

Textos enxutos, plenos, poemas que são verdadeiros monumentos da literatura em qualquer tempo. Impecáveis, mas duros, a emoção cedia lugar ao pensamento.
São muitas as adversidades e contrariedades vivenciais de Antero que, não conseguindo atingir os seus ideais, até porque a doença assim não o permitia, cai num estado de grande tristeza, melancolia e abstração, conduzindo o desalento do poeta a um estado de renúncia, de abandono perante as contínuas decepções com que se confrontava e que atormentava o seu espírito: "Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram/ Ninho e filhos e tudo, sem piedade.../ Que a leve o ar sem fim da soledade/ Onde as asas partidas a levaram.../ Deixá-la ir, a vela que arrojaram/ Os tufões pelo mar, na escuridade,/Quando a noite surgiu da imensidade,/ Quando os ventos do Sul se levantaram.../ Deixá-la ir, a alma lastimosa,/ Que perdeu fé e paz e confiança,/ À morte queda, à morte silenciosa.../ Deixá-la ir, a nota desprendida/ Dum canto extremo... e a última esperança... E a vida... e o amor... deixá-la ir, a vida!" (Sérgio, 1979: 80).

Na realidade, mesmo que no seu ser, torturado pela dor da não concretização, haja rasgos de esperança que o fazem caminhar ansiosamente, rumo à conquista de um sonho, ele sabe que afinal jamais chegará.


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O cisne negro ou quando a pegada não realizada faz a diferença.




Eu sei, o título é esquisito mesmo, mas o papo é antiguíssimo.
Imagina a cena: pirata de olhos negros, tez morena, alto, levemente musculoso, agarra mocinha frágil, tez alva, boca rubra (nesse momento, arfante) e levemente relutante. Já viu essa cena? Eu também, nos filmes e na vida real.
Não, não foi num baile a fantasia, é que tal pegada é um clássico do cinema e da vida real.

No filme “O cisne negro”, Tyrone Power, que reza a lenda, não era muito chegado a mocinhas em geral, fazia o papel de pirata. Verdade seja dita, o homem tinha porte e uns olhos negros de tirar o fôlego de qualquer um e Maureen O'Hara, a mocinha frágil e desprotegida.
Previsivelmente rola uma tensão sexual entre os dois de imediato, mas como convém a mocinhas, principalmente em filmes de época, ela arfa, mas não cede.
E foi na cena da prensada na parede, a respiração ofegante, as bocas quase juntinhas, aquela olhada da boca-aos-olhos-dos-olhos-a-boca e o afastamento desdenhoso que me peguei pensando: é o beijo intuído, é a pegada não realizada, a vontade não concretizada, ali no momento do "quase" que o desejo reside...ainda hoje.







Pois é, ainda hoje. A sociedade anda consumindo bocas e beijos à granel. Adolescentes apostam em quantas bocas vão beijar e saem numa disputa enlouquecida sem saber que o “não fazer” que antecede o grande momento, é o clímax e depois de feito, não basta um beijo e a troca simultânea de boca, há que se ter a exploração devida e indevida da boca com a qual dividimos o beijo. Mas isso é outra história, o papo aqui é a pegada não realizada que prendia a mocinha e o público no escurinho do cinema. Ali, junto com a respiração ofegante da heroína, estávamos nós, tão ofegantes quanto, antecipando o momento, quase que fechando os olhos e esperando o beijo (naquela época se esperava o beijo), ainda que não viesse e não vinha.

Pode parecer papo de moralista, mas não é. Hoje o debate nas mesas de bar, entre amigos, nas comunidades do orkut, nos grupos do yahoo vai direto ao ponto: dar ou não dar na primeira noite? Ou seja, pula-se logo para a cama, quando a sedução é o ponto, o anticlímax, a tal pegada não realizada, o momento do "quase", quando o único ponto de conexão são os olhos e isso, acreditem, dar o maior tesão.


andrea augusto (angelblue83)




Ele viveu apenas 28 anos e deixou uma obra, mas sobretudo uma promessa não concretizada. Não me lembro de ter ouvido falar do poeta português Daniel Faria antes de tornar-me assídua freqüentadora dos ótimos blogs portugueses.Entre um poema e outro fui tomando conhecimento desse jovem poeta falecido aos 28 anos e considerado uma das vozes mais importantes da nova poesia portuguesa da década de 90.

Daniel Augusto da Cunha Faria nasceu em Baltar, Paredes, a 10 de Abril de 1971.
Freqüentou o curso de Teologia na Universidade Católica Portuguesa – Porto, tendo defendido a tese de licenciatura em 1996.
No Seminário e na Faculdade de Teologia criou gosto por entender a poesia e dialogar com a expressão contemporânea.Licenciou-se em Estudos Portugueses na faculdade de Letras da Universidade do Porto. Durante esse período (1994 - 1998) a opção monástica criava solidez.A partir de 1990, e durante vários anos, esteve ligado à paróquia de Santa Marinha de Fornos, Marco de Canaveses. Aí demonstrou o seu enorme potencial de sensibilidade criativa encenando, com poucos recursos, As Artimanhas de Scapan e o Auto da Barca do Inferno.




Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em enxame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vomito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a

Daniel Faria em “Homens que são como lugares mal situados”




Explicação da ausência

Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer – fosse abertura –
E a saudade é tudo ser igual.

Daniel Faria



Por tudo que já li, me parece um poeta póstumo. Chega a ser pouco conhecido entre os próprios portugueses e por muitos, considerado um poeta difícil. Conheço pouco da obra dele para discordar, só sei que o pouco que conheço me faz pensar no quanto perdemos, no que jamais saberemos e sobretudo na obra que jamais teremos em mãos para ler.
Daniel Faria faleceu a 9 de Junho de 1999 quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga.




Explicação do Homem

Não me verga a velhice nem o peso do crânio
Mas os olhos cansados na dor de te não ver.
O chão tornou-se a última paisagem.
No mais longínquo da terra te levantas
E vejo ergue-se a poeira dos teus pés.

Daniel Faria


E nunca mais acabarás
De regressar.


Daniel Faria




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