Biscoito da Sorte




Prosa





Inda outro dia jogando conversa fora com um conhecido, falávamos sobre poesia erótica, sensual ou seja lá como queira chamar e eu me lembrei de um caso ocorrido há anos. 
Foi  uma discussão em uma lista de literatura sobre as formas de se escrever o erotismo, seja em prosa ou verso. O debate era sobre a forma, uns diziam que em matéria de erotismo bom era "no osso" ou seja sem meias palavras, outros que era melhor com certo lirismo e outros ainda falavam em misturar tudo. Pessoalmente acho tudo possível, mas há que se ter boa mão para isso, sobretudo na forma "vamos misturar osso e lirismo" por exemplo. Na época eu andava de namoro firme com Henry Miller e pra mim nada melhor do que um bom e suculento "no osso." Foi daí que nasceu a prosa abaixo. Se você um dos meus sete leitores for puritano, pudico aconselho a não ler...





Mendigo Rei

O homem magro e suarento aproximou-se sob o olhar desdenhoso da prostituta. Era só a metade do valor e ela não estava disposta. O que lhe daria  com o pouco que trazia, ele pensava ansioso. Ela andava pelo quarto olhando-o com repúdio e nojo. Sentou-se junto a mesa permitindo uma aproximação. Ele ajoelhou a seus pés. Olhando para o chão levou a mão até a saia dela. Lentamente , tão lentamente quanto possível. Queria passar desapercebido, como se olhar da puta pudesse determinar um tempo limite.
Subserviente como um cachorro magro e faminto, farejou as carnes da puta, avançando os dedos trêmulos em direção ao talho. Forçou as pernas dela. Precisava apenas de um vão para acomodar a cabeça. Ela cedeu, ele se acomodou. Começou a fode-la com a língua. Penetrou-a diversas vezes sentindo a boceta sumarenta da puta. Ela segurou-lhe pelos cabelos ensebados, tesuda. Trazia - o para si. Afundava-lhe a cabeça entre as pernas. Semicerrados olhos, murmurava palavras desconexas.Pedia para foder-lhe, pedia muito e se contorcia sob a língua quente dele.
Ela retirou-o da posição de joelhos acomodando-o entre as pernas. Puxou-lhe as calças com exatidão criminosa. Ele penetrou as carnes sujas da vagabunda, seus olhos miravam o rosto disforme dela. Ergueu a cabeça encarando-a com um sorriso debochado. Ela o queria. Queria o mendigo desprezível. Ela implorava pela estocada que não vinha. Ele mantinha-se parado enquanto a puta rebolava no seu pau a beira do gozo.
A boceta abocanhava -lhe o membro gulosamente. Ele observava - o sumir dentro dela.
Estava perto, o gozo se aproximava, a vagina apertava o pau em espasmos. 
Ele o retirou sob os palavrões dela. Ergueu a mão e largou-a na cara da puta. Ela caiu desmaiada a seus pés enquanto o mendigo às gargalhadas esporrava como um cavalo pelo seu corpo.
Agora o mendigo era Rei.

andrea augusto ©angelblue83





RIP: Manoel de Barros





Em 1986, o poeta Carlos Drummond de Andrade declarou que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. Antonio Houaiss, um dos mais importantes filólogos e críticos brasileiros escreveu: “A poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor”. Os poemas publicados nesta seleção fazem parte do livro “Manoel de Barros — Poesia Completa Bandeira”, editora Leya. Por motivo de direitos autorais, apenas trechos dos poemas foram publicados.
 

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas

Aprendimentos

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.
Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.
E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.
Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.
Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Uma didática da invenção

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

III

Repetir repetir — até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

V

Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.

VI

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

VIII

Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.

IX

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

X

Não tem altura o silêncio das pedras.
Fonte: Revista Bula

RIP Ariano Suassuna

Definitivamente o céu esta ficando muito melhor.

 

Ariano Suassuna por Millôr Fernandes

cena da minissérie a pedra do reino
cena da minissérie a pedra do reino
 
O nome de Millôr Fernandes, está associado a mais de cem espetáculos teatrais, caso de O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna — Millôr é o autor do cartaz da montagem dirigida por Ziembinski em 1958. Abaixo o que ele diz de Ariano Suassuna:
“O passado, todos sabem, é uma invenção do presente. Quem busca datas para os acontecimentos já os está deturpando. Além do que, de datas eu não sei mesmo. Por isso afirmo que foi no fim dos anos 50 que me levantei entusiasmado e invejoso, no Teatro Dulcina, na Cinelândia, para aplaudir o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Ao meu lado, fazendo o mesmo, Silveira Sampaio, médico que há pouco tinha abandonado a medicina para se transformar no autor de algumas peças leves e refinadas, que dirigia e interpretava. Terminado o espetáculo, fomos os três para minha casa — já na praia de Ipanema, idílica então — e ficamos conversando, varando a noite. E o dia foi amanhecendo por trás das montanhas Dois Irmãos, ainda livres do Hotel Sheraton, da favela do Vidigal, dos sinais luminosos, do tráfego ensandecido, enfim, da civilização. Só com raparigas em flor caminhando cronologicamente pro encontro fatal com Vinicius e Tom.
Não me lembro de uma só palavra de Ariano. Ficou-me a forte impressão. Resíduos. A memória da memória.
Quantos encontros tive com Ariano desde então? Não mais de dez. mas em nossa profissão, lavradores do nada, o contato é permanente. E, se fiz alguma coisa para decepcioná-lo, não sei. Ele não fez nada que me decepcionasse. Não lhe cobro nem com a Academia. Merece todas as imortalidades, até mesmo essa, pechisbeque (corrida ao Aurélio).
Meu outro e imediato contato com Ariano foi em O Santo e a Porca. A pedido de Walmor Chagas e Cacilda Becker fiz o cartaz para a peça, cartaz que me defrontou um dia, para minha vergonha — sempre tenho vergonha do que faço, meu sonho é ser autor morto —, num dos caminhos do Aterro. Nem sei se Ariano jamais viu ou soube desse contato.
Enquanto isso, Ele se expandia. Professor nato — não há nada mais fascinante do que didática, e a dele é excepcional — e criador compulsivo, se fez batalhador de causas culturais populares, exibiu em espetáculos teatrais sua capacidade de representar — é um grande showman, quem não viu não sabe o que perdeu —, fez-se um desenhista primoroso e escreveu A Pedra do Reino, que coloco facilmente entre os 10 maiores romances brasileiros (nunca me arrisco a dizer que alguma coisa é a maior), incluindo aí Guimarães Rosa e excluindo Machado de Assis, quem quiser que me siga.
Uma das outras vezes que estive com meu herói foi no Recife, Instituto Joaquim Nabuco, onde Ele, enquanto aguardávamos minha oportunidade de incitar o povo com meu verbo flamante, recitou o primeiro poema (soneto) que escrevi na vida, aos 20 anos (já tive!, posso provar), e que também recito aqui, para vocês verem que há que ter memória:
Penicilina puma de casapopéia
Que vais peniça cataramascuma
Se partes carmo tu que esperepéias
Já crima volta pinda cataruma.
Estando instinto catalomascoso
Sem ter mavorte fide lastimina
És todavia piso de horroroso
E eu reclamo Pina! Pina! Pina!
Casa por fim, morre peridimaco
Martume ezole, ezole martumar
Que tua pára enfim é mesmo um taco.
E se rabela capa de casar
Estrumenente siba postguerra
Enfim irá, enfim irá pra serra.
No dia seguinte, autor ingrato, almoçando com Ele, cobrei ter errado uma palavra no soneto. ‘Errei não’, voltou ele. ‘Corrigi. Você é que errou a métrica”. Somos do tempo em que havia métrica.
E a última vez em que estivemos juntos foi o momento mais extraordinário. Na casa de nosso comum amigo José Paulo Cavalcanti, jornalista, escritor e causídico (a ordem é a do leitor), numa praia de quatro quilômetros de extensão, em Porto de Galinhas. Ficamos lá horas, conversando dentro d’água, num mar indizível mas que vou tentar dizer.
A meu lado, dentro das águas claras, mansas e verdes, a presença absolutamente surreal de Ariano, secundado por (apertem os cintos!) Luis Fernando Verissimo. E eu ali, galera, me boquiabrindo diante da loquacidade brilhante de Suassuna e me boquifechando diante do mutismo perturbador de Verissimo, mostrando, como sempre, que não é homem de jogar conversa fora.
Ao redor, a meteorologia no seu melhor, enviando leves pancadas de chuva em momentos precisos, e vento sempre fresco, com dezoito nós e alguns laços — os da amizade.
PS: Ah, e existe coisa mais nobre do que criar cabras? Ele cria. Coisas de grão-senhor.”
CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, nº 10, nov. 2000. pp. 20-21.
Cadernos de Literatura Brasileira
sobre Ariano Suassuna
Instituto Moreira Salles
===
Cadernos de Literatura Brasileira
sobre Ariano Suassuna
Instituto Moreira Salles
 

 
 


RIP Rubens Alves


Apenas um dia após a morte de  João Ubaldo Ribeiro, hoje perdemos o poeta Rubem Alves.
Psicanalista, educador, teólogo, escritor e um poeta brilhante. Um triste dia para aqueles que amam as palavras bem escritas, desenhadas em rimas ou não, mas sempre bem colocadas direto no coração de todos.



"A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nome de ruas, e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que veem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo..." [Rubem Alves]
 
 
 
imagem 946 - poesia
 
 
 
 
 
Sou psicanalista. E tenho fé. E não tenho de cometer nenhum suicídio intelectual para que elas convivam dentro de mim.
A psicanálise diz em prosa aquilo que a poesia e a literatura souberam sempre: “somos feitos da mesma matéria dos nossos sonhos” (Shakespeare). Essa afirmação, se interpretada cientificamente, é um non-sense. Pois ela diz que o nosso corpo é feito com uma mistura impossível de realidade e irrealidade. Realidade: ossos, músculos,sangue, cérebro, neurônios, hormônios – entidades que moram no mundo da ciência. Mas sonhos? Sonhos são irrealidades. Não possuem substância. São imagens que aparecem fortuitamente na mente para logo desaparecerem, faltando-lhes as qualidades cartesianas de clareza e distinção. Não é por acaso que a ciência os tenha eliminado do seu discurso, com a consequente redução da poesia e da literatura à categoria de “diversões”, brinquedos mentais vazios de qualquer realidade. Um cientista, como cientista, jamais iria à literatura para aprender sobre a realidade. Literatura é relax, uma alternativa aos tranquilizantes… A frase de Shakespeare, na verdade, contém uma nova filosofia herética que afirma que “aquilo que não é, é”. E a prova de que “o que não é,é” está em que o corpo chora, ri, ama, luta, produz arte, movido por essa irrealidade. Parafraseando Sartre: “O nada é ser”.
A psicanálise, assim, antes de ser uma prática terapêutica, é uma metafísica. E o seu poder terapêutico se deve ao fato de que ela trata as coisas que não foram não são e não serão como se fossem. Tudo começou nos sonhos: “A interpretação dos sonhos é o caminho áureo para o conhecimento do inconsciente”. O grande salto filosófico aconteceu quando Freud se deu conta de que os traumas que se encontravam na origem dos sofrimentos dos seus pacientes não pertenciam ao mundo que a ciência define como realidade. Não haviam acontecido de fato. Eram fantasias. Mesmo quando havia um núcleo de realidade na memória desses traumas, seu poder patogênico se encontrava numa ficção, a forma literária que a mente lhes dava.
Mas isso não era novidade para os místicos e os poetas. Eles sempre o souberam. Está escrito no texto sagrado que o corpo é o Verbo encarnado. D. Miguel de Unamuno, filósofo e místico espanhol (Guimarães Rosa, perguntado sobre o que ele pensava dos filósofos, respondeu: “A filosofia é a maldição do idioma. Mata a poesia desde que não venha de Kierkegaard ou Unamuno, mas então é metafísica” [Arte em Revista, ano I, na 2. São Paulo: Centro de Estudos de Arte Contemporânea, p. 7]), num humoroso diálogo fictício com um materialista que chamava as produções poéticas de “sardinhas fritas”, conclui o diálogo impossível retornando à sua solidão e repetindo para si mesmo:
Unamuno
Recuerda, pues, o suena tu, alma mia
- Ia fantasia es tu sustância eterna -,
Io que no fué;
con tus figuraciones hazte fuerte,
que eso es vivir, y Io dernás es muerte.
(Miguel de Unamuno, “Conversación segunda”, Ensayos. Madri: Aguilar Ediciones, 1951, p. 554)
Fernando Pessoa também se movia no mundo dás coisas que não existem:
O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas que nunca existirão…
São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor…
(Fernando Pessoa, Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1990, p. 169)
Manoel de Barros, esse maravilhoso poeta mato-grossense, especialista em aforismos, também faz a sua escritura sobre o que não existe: “As coisas que não existem são mais bonitas…” (Livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 1993, p. 7).
E Paul Valèry: “Que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem?”. Então o que não existe ajuda? Se ajuda, tem poder. Se tem poder, é real. Será que Deus pertenceria a essa classe de
não existentes que existem?
Riobaldo diria que sim: “Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver”  (Guimarães Rosa, Grande sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1978, p. 49).
Esse “mas” parece introduzir uma diferença entre a “realidade” de Deus e a “realidade” do demônio. Mas basta ler o texto com atenção para perceber que tanto Deus quanto o demônio não precisam existir para haver; existem mesmo quando não há. O que nos conduz ao aforismo por meio do qual Guimarães Rosa resumiu essa metafísica insólita:
“Tudo é real porque tudo é inventado”.
Os artistas fazem amor com o que não existe. Trabalham para dar forma sensível a esse objeto – sabendo que ele sempre lhes escapará.
 
Por mais rosas e lírios que me dês
eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
sobrar-me-á sempre o que desejar…
(Fernando Pessoa, Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1990, p. 406)
A psicanálise, nos seus primórdios, participava da metafísica científica dominante. Considerava os sonhos (não existentes) como “efeitos” de “causas” históricas e biográficas, eventos realmente acontecidos. O processo interpretativo tinha por objetivo encontrar as raízes materiais das quais surgiam os sintomas que afloravam no corpo e na mente de pessoas perturbadas. Comentando Roheim (Magic and schizophreniã), Norman O. Brown diz o seguinte:
A psicanálise se iniciou como um avanço a mais da objetividade científica civilizada; expor os resíduos de participação primitiva, eliminá-los; estudar o mundo dos sonhos, da magia primitiva, da loucura. Mas o resultado da psicanálise foi a descoberta de que a magia e a loucura estão em todo lugar, e que os sonhos são aquilo de que somos feitos.
(Norman O. Brown, Love’sbody. Nova York: Random House, 1966, p. 154)
Assim, estamos destinados a viver fazendo amor com o que não existe. É impossível amar uma fórmula de física. Mas um poema, uma canção, um raio de Sol refletido numa gota d’água – isso nos comove. Amamos uma pessoa não por aquilo que ela é, mas pelo manto de fantasia com que a cobrimos.
Ludwig Feuerbach, antes de Freud, no seu livro A essência do cristianismo (que deveria ser leitura obrigatória para todo psicanalista), disse o seguinte:
 
A religião é um sonho da mente humana. (…) Vemos as coisas reais no fascinante esplendor da imaginação e do capricho… O homem – esse é o mistério da religião – projeta o seu ser na objetividade e, a seguir, faz-se objeto dessa imagem projetada de si mesmo, agora transformada em sujeito. (Ludwig Feuerbach, The essence of christianity. Nova York: Harper, 1957, pp. xxxix e 29-30)
Segundo Feuerbach – creio que Freud concordaria com ele -, o fenômeno objetivo denominado religião se deve a um mecanismo psicológico: o homem toma a sua essência (essa é a palavra usada por ele) e a projeta para fora, tendo o universo como tela. Assim, aquilo que era “sonho” é transformado numa realidade objetiva exterior, independente do homem, a qual se volta sobre ele e o domina. Essa é a essência da idolatria: a transformação do sonho em realidade. Os deuses são ídolos. Espero que as pessoas religiosas concordem comigo em que essa crítica está presente nos textos proféticos do Antigo Testamento. Entendo que toda a crítica freudiana da religião se refere a esse mecanismo de projeção e a seus resultados institucionais.
Eu me lembro a primeira vez que fui ao cinema. Menino, sete anos, sul de Minas. Terminado o filme, fiquei olhando para uma porta que havia ao lado da tela, esperando a saída dos artistas… Eu não sabia o que era “projeção”! As religiões são assim: pensam que as projeções que a alma faz sobre a tela da imaginação são coisas objetivas,
lá fora. Contra essa fé religiosa, a crítica freudiana é implacável. Pela simples razão de que a existência das projeções se dissolve sob a análise dos mecanismos mentais. A religião, assim entendida, não passa de uma ilusão.
Mas haverá outra forma de entender a fé? Uma fé que não seja crença nos seres que a religião afirma existir?
 
Uma fé que não necessite de ídolos?
Uma fé que seja capaz de conversar tranquilamente com a psicanálise?
Uma fé que respire o ar dos sonhos? Digo agora o que entendo por fé.
Já disse que, na experiência artística, fazemos amor com coisas que não existem. “As coisas que não existem são mais bonitas”: delas, a alma se alimenta. A própria existência da arte é uma evidência de que “as coisas que não existem têm o poder de nos socorrer”.
Quando, no meio de todos os sonhos que amamos, encontramos um sobre o qual lançamos a nossa vida, abandonando-nos a ele em virtude de sua beleza, sem nenhuma certeza, quando “apostamos” (Pascal, Kierkegaard) a nossa vida e nos lançamos no vazio do “não ser” – a esse ato eu dou o nome de fé. Ele nada tem a ver com a crença na existência de seres sobrenaturais. Não se trata de um suicídio intelectual pelo qual afirmamos a existência de algo que não pode ser testado. Trata-se de um ato de amor, de vontade e de coragem. Abandonando todas as certezas, por esse sonho eu arrisco a minha vida. Paul Tillich dava a esse gesto supremo de amor por um sonho o nome de ultimate concern – expressão que não sei traduzir, talvez “comprometimento último”. Como disse Miguel de Unamuno, católico convicto, no seu livro O sentimento trágico da vida (Porto: Educação Nacional, 1953, p. 145), “acreditar em Deus é, antes de mais nada e principalmente, querer que ele exista”. Ora, existe uma distância abissal entre afirmar “creio que Deus existe” e “desejo que Deus exista”.
Segundo Ernst Jones, “Freud disse de Nietzsche que ele tinha um conhecimento mais penetrante de si mesmo que qualquer outro homem que tenha existido ou que venha a existir” (Walter Kaufmann, Basic wrítings of Nietzsche. Nova York: The Modern Library, 1968, p. xi). Nietzsche tinha um profundo desprezo pelas religiões e pelosreligiosos. E, no entanto, ele  era um homem de fé. Acusando os cientistas de sua época que só reconheciam a realidade física, ele disse: “Vós sois estéreis; esta é a razão por que não tendes fé.
Mas quem quer que tenha criado teve seus sonhos proféticos e signos astrais – fé na fé”. Segundo o próprio Nietzsche, a louca firmação do eterno retorno de todas as coisas foi a mais alta forma de afirmação da vida que ele encontrou. Fato empírico? Não. Sonho. Esperança. Fé. Como Nietzsche, Freud desprezava as religiões e o pensamento religioso: ilusões, neurose. Por vezes, psicose. E, no entanto, como Nietzsche, ele tinha também a sua fé. Olhando para a vida, ele podia ver potências invisíveis, por detrás de tudo o que acontece. Dois deuses poderosos, Eros e Tânatos, Amor e Morte. Realidades? Não. Poesia, metáforas, sonhos. E olhando para esses dois deuses, ele orientou a sua vida. Apostou em Eros, a despeito da sombra de Tânatos que ameaçava a civilização. Todo o trabalho psicanalítico é, em última instância, um ato de fé, uma batalha para fazer com que o Amor triunfe sobre a Morte.
Garantias de um final feliz não há. A experiência clínica o comprova. A despeito disso, a fé brilha, invocando o socorro das coisas que não existem.
Rubem Alves
 
 

Felicidades Mães!



 
Luz para a minha que já esta em outro plano,
 fazendo da saudade uma presença constante...
 
bjos mamãe!
 
 
 


Que venha 2014!!!



Sem mais.