por falar em saudade...




E quando penso em saudade, penso que a minha saudade tem sempre nome e sobrenome, RG e CPF. É tão particular, tão única tão de quem ou do sinto que não cabe dizer: sinto saudades dele. "Dele" atende pelo nome de Ricardo Bastarrica Lapuente, é dele que sinto saudades, é por causa dele que a casa fica enorme sempre que viaja, mas é também por causa da minha mãe: Dona Neusa.
Nessa época do ano, ausência é o que mais preenche meus dias e minhas noites.
Indaoutrodia, vi no Face uma imagem da minha mãe com antigas colegas de trabalho. Não esperava ver e dei de cara. Chorar foi a reação imediata, nem sabia que andava precisando tanto chorar tanto, mas estava e sei que não foi só pela saudade dela, certamente haviam mais coisas e eu não parei para pensar. Só chorei. E foi assim que dormi na noite daquele dia, com todas as minhas ausências.




Leminskiniano...



Hoje acordei tão Leminski. Por mim, se hoje pudesse, dormia agora e só despertava no dia 28 quando você vai voltar.





Haja saco para tanto tempo.



sempre.


Carta a um jovem imaturo



Essa carta nunca será lida a quem se destina e talvez seja melhor assim. A vida ensina, o tempo aprimora, o que antes era ótimo pode ser revisto como uma grande falha. Talvez o tempo lapide caráter, atitudes e generosidades até porque se não for por amor será pela dor.
"Por amor" essa é uma tentativa de pegar pela mão e corrigir o rumo embora pareça até cruel. Se um dia você chegar até aqui, lembre-se é assim que você é visto não só por mim, mas por várias pessoas . A mim coube colocar no papel, aglutinar sentimentos e sobretudo dizer: ninguém escreve tanto para outra pessoa apesar de ter sérias dúvidas quanto ao caráter se não gostasse tanto de você. E eu gosto. Acredite.




CARTA A UM JOVEM IMATURO


Você organizou sua vida de maneira muito própria ao se casar "cedo", ao praticamente sair da casa da mãe e se casar com uma mulher mais velha e note, com filhos. A praticidade da escolha se define sobretudo pelo fato dela ser mãe e por excelência ser uma organizadora de lares, vidas e pessoas. Você se insere nessa realidade tendo alguém que assim como a sua mãe, organiza sua vida prática, que sabe desde que remédio tomar na maioria das circunstancia  assim  como a administração do dia a dia de uma casa. Nesse mundo perfeito onde a sua vida é organizada por alguém, você tem o melhor dos mundos, você pode transar com a "mãe" sem que seja ilícito e não se preocupar com a chata administração de um lar. Junte-se a isso, o fato de haver filhos, faz com que você olhe a si mesmo como pai e aja como tal e como gostaria que seu próprio pai tivesse agido com você. Você conserta o seu passado sendo o "pai" amigo, que conversa, entende e participa da vida do "filho" assim como lhe faltou. Isso faz com que você se sinta bem, pleno e satisfeito porque tem uma família que preenche todas as suas carências ainda que não se dê conta disso.

É bom? É ruim? Se a sua escolha o satisfaz e o deixa feliz, aceite e não tente interpretar, porém o tempo a rigor e a despeito da sua vontade vai torná-lo maduro e pronto para uma relação de verdade onde querendo ou não você terá que se posicionar. Deixar apenas acontecer, que as coisas se conduzam por si só, que outros tomem as rédeas da sua vida é bom até a página 20, depois com a natural maturidade há o surgimento de insatisfação latente. Consequência direta disso, é essa insatisfação que não se identifica, você sabe que alguma coisa incomoda mas não sabe exatamente o quê e muitas vezes toma decisões em áreas de sua vida que estavam relativamente boas, porém a necessidade de modificar alguma coisa, mexer o fundo, revolver o lodo é urgente. Alguma coisa tem que acontecer e acontece. Desviado o foco real, a vida segue e a insatisfação continua, abrindo espaço não só para decisões desastrosas, como envolvimentos fugazes, a necessidade de não estar tão presente na vida cotidiana  aumentando com isso a  vontade de tomar as rédeas da vida, fazer acontecer, se tornar autor da própria história. O desenlace dessa situação quando você não se dá conta do que  esta vivenciando para melhor elaborar a questão e até reorganizar a vida amorosa sob novos critérios pode acontecer na ilusão de uma paixão avassaladora. Ilusão? Provavelmente. Tudo que é novo, diferente, desconhecido, encanta. Tudo que põe a vida em movimento quando se sente tão estagnado, a sensação de sentir-se vivo na essência, encanta, estimula, acorda o sentidos. Uma paixão em geral é assim e pode até dar certo, desde que se saiba que no decorrer dessa experiência, a química produzida por esse sentimento, acaba e aquilo que hoje é novo, inusitado, apaixonante, se tornar normal. No entanto normal não é banal, qualquer relação para dar certo seja a atual ou as que virão exigem maturidade emocional, sem isso , você não consegue nem estabelecer novos critérios para a relação antiga e muito menos construir um relacionamento novo. Pense nisso.

Na questão dos filhos, acredito que ainda terá os seus quando amadurecer plenamente. Por enquanto criar "crianças" sob a supervisão da "mãe" é infinitamente mais fácil do que ter os próprios e ter que exercer a função de pai em sua abrangência. Ser o legal que conversa e entende mas não dá limites, é fácil. Ser "pai" dessa maneira, é brincar de ser adulto, é ser a parte fofa da relação e não o educador que muitas vezes terá que dizer não a despeito do medo de perder o amor da criança. Ser pai requer muito mais esforço e dedicação do que você até o presente momento poderia dar. Nesse momento não é questão de querer e sim de poder, você não pode dar o que não tem. Falta a você toda a maturidade de sair do papel de filho para o de pai, para o que decide e forma uma pessoa. Esse ainda não é você. Nesse momento você ainda esta na posição de filho ainda que da sua mulher.


Situação análoga você vive na vida profissional. A sua imaturidade profissional é gritante ainda que contradiga todo preparo que você possui. Assim como na vida pessoal, profissionalmente você se tem em altíssima conta. Você se acha um cara extremamente justo que é capaz de tomadas de decisões coerentes e assertivas. No entanto a sua imaturidade, a sua criancice se reflete também nessa parte da sua vida. Você é  incapaz, apesar de se achar um cara justo de intervir em qualquer coisa seja a situação que se apresentar única e exclusivamente para o benefício de outrem. Você se desculpa, amenizando essa questão quando se convence de que apesar de ter lucrado, o outro também se deu bem. Algo errado nisso?. Nada, desde que você não se coloque como o justo, o que toma a frente pelos outros unica e exclusivamente. Você é incapaz de fazer e incapaz de entender que existe quem o faça. A sua atitude profissional é estudada e feita para agradar e se adaptar ao ambiente de trabalho. Falar baixo e pausadamente, ouvir educadamente o que outro esta dizendo mesmo que tenha sido interrompido, se conter na vontade expressar sua opinião. Mais uma vez: algo errado? Absolutamente nada, desde que fique claro que tudo é estudado, preparado, premeditado para agradar, se fazer gostado e acredite, dá muito certo e continuaria dando não fosse tamanha a imaturidade profissional que se sobrepuja e se manifesta em birras e manhas homéricas.

Todo o seu teatro cai por terra no momento em que contrariado você se descompensa, perde o prumo e o norte, não consegue mais dominar a situação. Nada se revela no entanto através de cenas, gritos ou descontrole, você apenas se recolhe e trata de não fazer absolutamente nada que ultrapasse um décimo do que você se propôs ao ser contrato. Daquele momento em diante, em seu pensamento mágico, a vontade é sair de onde esta, largar e deixar na mão para sentirem a falta do grande profissional que você é. Infelizmente isso não acontece apesar de como foi dito antes, você realmente ser um profissional extremamente bem preparado, pelo menos em teoria. Atualmente as relações interpessoais nas empresas são quase tão importantes quanto um currículo recheado de diplomas, às vezes são até mais, porque o ambiente de trabalho é feito de matéria humana donde pressupõe-se há toda uma gama de vulnerabilidades e incoerências possíveis. Onde o ser humano esta presente, o elemento surpresa também estará. De nada adiantará classificar pessoas por signo solar, chinês ou numerologia, o ser humano sempre trará o novo, sempre será capaz de surpreender, de agir de maneira totalmente inusitada apesar de todas as projeções inventadas. A situação define a atitude, o medo mobiliza e paralisa, nada é estático e achar que conhece uma pessoa apenas por alguns dados é no mínimo temeroso.
Dizem que crescer dói e dói mesmo. Particularmente e apesar de não ter vivido essa experiência, acho que a dor é semelhante a do parto. Dói pra cacete, mas é tão maravilhoso tudo que vem depois, todas as infinitas possibilidades, a sensação de plenitude, de estar preparado para enfrentar, aproveitar, sorver tudo que é oferecido e sobretudo se tornar finalmente o autor da própria vida, que vale a pena. Experimente sem restrições.

Seja Feliz.

bjs
Andrea Augusto angelblue83

Quem????




imagem casal sem vergonha  


                                           Quem??????????

Como se dá o encantamento amoroso - Flávio Gikovate




Como se dá o encantamento amoroso

FLAVIO GIKOVATE
Até hoje, muita gente gosta de pensar que o encantamento amoroso acontece por acaso e de modo mágico (como se fôssemos mesmo vítimas das flechadas aleatórias do Cupido). Não é o que acredito.

Desde 1976 venho tentando entender quais as variáveis que determinam a escolha dos parceiros sentimentais. A tarefa é difícil porque está relacionada com múltiplas variáveis e isso costuma ser motivo para que algumas pessoas privilegiem uma delas e desconsiderem outras igualmente importantes.

Penso que existem pelo menos três ingredientes muito relevantes na escolha sentimental: o fato daquela pessoa despertar algum tipo de entusiasmo erótico, a presença nela de alguns ingredientes particularmente agradáveis para o que se encanta e também um aspecto claramente racional relacionado com a admiração.

Cada um desses elementos tem seu peso e, de alguma forma, todos participam do fenômeno, aparentemente mágico, que faz com que uma pessoa neutra se transforme, em pouco tempo, em alguém essencial e único, longe de quem parece impossível imaginar a continuidade da vida.

Muitos são os que privilegiam, mais que tudo o ingrediente erótico: quando um homem sente um forte desejo sexual por uma mulher, costuma confundir isso com amor – até porque em nossa cultura ainda prevalece a ideia freudiana de que “todo amor é sexual”.

Quando uma mulher se sente fortemente excitada ao se perceber desejada por um dado homem também costuma atribuir isso ao fato dele poder ser o tão esperado “príncipe”.

O desejo sexual nem sempre é um bom conselheiro, visto que ele muito frequentemente se manifesta como consequência de uma forma mais exibicionista com que certas mulheres se apresentam socialmente ou da maneira mais agressiva e direta de expressão do desejo por parte dos homens mais ousados e, por vezes, impertinentes.
Sem desprezar sua importância, penso que o entusiasmo sexual deve ser avaliado com cautela e à luz dos outros ingredientes.

Os aspectos menos específicos e que são, juntamente com o sexo,  capazes de despertar entusiasmos sentimentais quase imediatos – amor à primeira vista – estão relacionados com peculiaridades daquela dada pessoa e que entusiasmam a alguns e não obrigatoriamente a outros: o timbre de voz, o jeito de andar, o sorriso, a maneira de se apresentar socialmente, a delicadeza dos gestos, além de alguns aspectos da aparência física e que podem lembrar pessoas relevantes do passado daquele que irá se encantar. A esse conjunto, costumo chamar de “fator x”, algo indefinido e muito personalizado. “O fator x” nos influencia bem mais do que costumamos pensar.

O terceiro componente relacionado com o surgimento do encantamento amoroso tem a ver com a admiração, aspecto racional e que deriva dos critérios de valor de cada pessoa e também de sua autoestima. Pessoas com baixa autoestima tendem a admirar aqueles que são seus opostos – os tímidos admiram os extrovertidos, os mansos valorizam os mais agressivos… Se levarmos em conta apenas esse aspecto da questão, fica claro porque tendem a ser frequentes os encantamentos entre pessoas diferentes, em geral diametralmente opostas. Fica clara também a tendência à repetição, ou seja, à escolha de sucessivos parceiros com características semelhantes – e nem sempre as que melhor combinam com aquele que escolhe.

Aquelas pessoas portadoras de boa autoestima e mais corajosas tendem a se encantar por criaturas mais parecidas consigo mesmas. Digo que a coragem é peça essencial nesse processo porque o encantamento entre pessoas com mais afinidades tende a ser mais intenso, determinando uma sensação de iminência de fusão, algo que aparece como muito ameaçador. Surge uma dependência muito forte, associada a um enorme medo de sofrimento em caso de ruptura. Surge também uma grande sensação de ameaça à individualidade, como se os amantes fossem mesmo se “fundir” e se transformar em “uma só carne”. Surge um terceiro medo, relacionado com a própria sensação de felicidade, como se ela atraísse “más vibrações” vindas das pessoas não tão satisfeitas sentimentalmente. O medo transborda as fronteiras do razoável e aparece consubstanciado em algumas expressões que usamos correntemente: “isso está bom demais”! “Estou morrendo de felicidade”! O tema é muito importante e certamente voltaremos a ele.

É importante registrar também que nossa cultura sempre privilegiou a escolha de parceiros complementares, tipo “a tampa e a panela”, de modo que a aliança entre pessoas muito semelhantes ainda é vista como inadequada e tediosa por muitos dos defensores das formas mais tradicionais de encantamento amoroso. Isso porque não existem muitas divergências, atritos ou brigas, o que pode parecer, para alguns, motivo de desgosto. A verdade é que a maioria dos casais se desentende sempre pelos mesmos motivos e as brigas sim é que são monótonas e repetitivas.

Penso assim: a vida em comum é chata e tediosa quando as pessoas que se casam são chatas e tediosas!

Nasce Jim e morre John...


8 dezembro de 1943 - Nasce Jim Morrison
8 dezembro de 1980 - Morre John Lennon



Em mim os planos não nascem e por isso nunca morrem enquanto a vida vai acontecendo  e surpreendendo.
















"Vida é o que acontece enquanto você esta ocupado fazendo planos." John Lennon

Por isso não gosto de fazer planos. Tenho dificuldades. Nem a longo ou a médio e mesmo curto prazo, não faço. Não consigo mais. Prefiro me ocupar de viver intensamente e assim tem sido. Estranhamente nada externo, a vida interior esta revirada,  queimando, me consumindo todos os dias, horas, minutos. Não é ruim, só deixa a vida em suspenso  até que tudo se acalme e a vida siga seu rumo tranquila, serena como deve ser...ou não.



será?


Saudade...








Saudade esquisita essa. Não sei do que ou de quem que não as ausências de sempre. Hoje estou com saudades, uma sensação de falta, um não sei o quê que incomoda. Desassossego, como diria Fernando Pessoa. Hoje, não sei porque, estou desassossegada...








Sem mais e muito menos...

Imagem do ótimo casal sem vergonha.


É o que temos pra hoje.

Biscoito da Sorte




Prosa Erótica





Inda outro dia jogando conversa fora com um conhecido, falávamos sobre poesia erótica, sensual ou seja lá como queira chamar e eu me lembrei de um caso ocorrido há anos. 
Foi  uma discussão em uma lista de literatura sobre as formas de se escrever o erotismo, seja em prosa ou verso. O debate era sobre a forma, uns diziam que em matéria de erotismo bom era "no osso" ou seja sem meias palavras, outros que era melhor com certo lirismo e outros ainda falavam em misturar tudo. Pessoalmente acho tudo possível, mas há que se ter boa mão para isso, sobretudo na forma "vamos misturar osso e lirismo" por exemplo. Na época eu andava de namoro firme com Henry Miller e pra mim nada melhor do que um bom e suculento "no osso." Foi daí que nasceu a prosa abaixo. Se você um dos meus sete leitores for puritano, pudico aconselho a não ler...





Mendigo Rei

O homem magro e suarento aproximou-se sob o olhar desdenhoso da prostituta. Era só a metade do valor e ela não estava disposta. O que lhe daria  com o pouco que trazia, ele pensava ansioso. Ela andava pelo quarto olhando-o com repúdio e nojo. Sentou-se junto a mesa permitindo uma aproximação. Ele ajoelhou a seus pés. Olhando para o chão levou a mão até a saia dela. Lentamente , tão lentamente quanto possível. Queria passar desapercebido, como se olhar da puta pudesse determinar um tempo limite.
Subserviente como um cachorro magro e faminto, farejou as carnes da puta, avançando os dedos trêmulos em direção ao talho. Forçou as pernas dela. Precisava apenas de um vão para acomodar a cabeça. Ela cedeu, ele se acomodou. Começou a fode-la com a língua. Penetrou-a diversas vezes sentindo a boceta sumarenta da puta. Ela segurou-lhe pelos cabelos ensebados, tesuda. Trazia - o para si. Afundava-lhe a cabeça entre as pernas. Semicerrados olhos, murmurava palavras desconexas.Pedia para foder-lhe, pedia muito e se contorcia sob a língua quente dele.
Ela retirou-o da posição de joelhos acomodando-o entre as pernas. Puxou-lhe as calças com exatidão criminosa. Ele penetrou as carnes sujas da vagabunda, seus olhos miravam o rosto disforme dela. Ergueu a cabeça encarando-a com um sorriso debochado. Ela o queria. Queria o mendigo desprezível. Ela implorava pela estocada que não vinha. Ele mantinha-se parado enquanto a puta rebolava no seu pau a beira do gozo.
A boceta abocanhava -lhe o membro gulosamente. Ele observava - o sumir dentro dela.
Estava perto, o gozo se aproximava, a vagina apertava o pau em espasmos. 
Ele o retirou sob os palavrões dela. Ergueu a mão e largou-a na cara da puta. Ela caiu desmaiada a seus pés enquanto o mendigo às gargalhadas esporrava como um cavalo pelo seu corpo.
Agora o mendigo era Rei.

andrea augusto ©angelblue83





RIP: Manoel de Barros





Em 1986, o poeta Carlos Drummond de Andrade declarou que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. Antonio Houaiss, um dos mais importantes filólogos e críticos brasileiros escreveu: “A poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor”. Os poemas publicados nesta seleção fazem parte do livro “Manoel de Barros — Poesia Completa Bandeira”, editora Leya. Por motivo de direitos autorais, apenas trechos dos poemas foram publicados.
 

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas

Aprendimentos

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.
Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.
E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.
Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.
Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Uma didática da invenção

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

III

Repetir repetir — até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

V

Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.

VI

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

VIII

Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.

IX

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

X

Não tem altura o silêncio das pedras.
Fonte: Revista Bula

RIP Ariano Suassuna

Definitivamente o céu esta ficando muito melhor.

Ariano Suassuna por Millôr Fernandes

cena da minissérie a pedra do reino
cena da minissérie a pedra do reino
O nome de Millôr Fernandes, está associado a mais de cem espetáculos teatrais, caso de O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna — Millôr é o autor do cartaz da montagem dirigida por Ziembinski em 1958. Abaixo o que ele diz de Ariano Suassuna:
“O passado, todos sabem, é uma invenção do presente. Quem busca datas para os acontecimentos já os está deturpando. Além do que, de datas eu não sei mesmo. Por isso afirmo que foi no fim dos anos 50 que me levantei entusiasmado e invejoso, no Teatro Dulcina, na Cinelândia, para aplaudir o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Ao meu lado, fazendo o mesmo, Silveira Sampaio, médico que há pouco tinha abandonado a medicina para se transformar no autor de algumas peças leves e refinadas, que dirigia e interpretava. Terminado o espetáculo, fomos os três para minha casa — já na praia de Ipanema, idílica então — e ficamos conversando, varando a noite. E o dia foi amanhecendo por trás das montanhas Dois Irmãos, ainda livres do Hotel Sheraton, da favela do Vidigal, dos sinais luminosos, do tráfego ensandecido, enfim, da civilização. Só com raparigas em flor caminhando cronologicamente pro encontro fatal com Vinicius e Tom.
Não me lembro de uma só palavra de Ariano. Ficou-me a forte impressão. Resíduos. A memória da memória.
Quantos encontros tive com Ariano desde então? Não mais de dez. mas em nossa profissão, lavradores do nada, o contato é permanente. E, se fiz alguma coisa para decepcioná-lo, não sei. Ele não fez nada que me decepcionasse. Não lhe cobro nem com a Academia. Merece todas as imortalidades, até mesmo essa, pechisbeque (corrida ao Aurélio).
Meu outro e imediato contato com Ariano foi em O Santo e a Porca. A pedido de Walmor Chagas e Cacilda Becker fiz o cartaz para a peça, cartaz que me defrontou um dia, para minha vergonha — sempre tenho vergonha do que faço, meu sonho é ser autor morto —, num dos caminhos do Aterro. Nem sei se Ariano jamais viu ou soube desse contato.
Enquanto isso, Ele se expandia. Professor nato — não há nada mais fascinante do que didática, e a dele é excepcional — e criador compulsivo, se fez batalhador de causas culturais populares, exibiu em espetáculos teatrais sua capacidade de representar — é um grande showman, quem não viu não sabe o que perdeu —, fez-se um desenhista primoroso e escreveu A Pedra do Reino, que coloco facilmente entre os 10 maiores romances brasileiros (nunca me arrisco a dizer que alguma coisa é a maior), incluindo aí Guimarães Rosa e excluindo Machado de Assis, quem quiser que me siga.
Uma das outras vezes que estive com meu herói foi no Recife, Instituto Joaquim Nabuco, onde Ele, enquanto aguardávamos minha oportunidade de incitar o povo com meu verbo flamante, recitou o primeiro poema (soneto) que escrevi na vida, aos 20 anos (já tive!, posso provar), e que também recito aqui, para vocês verem que há que ter memória:
Penicilina puma de casapopéia
Que vais peniça cataramascuma
Se partes carmo tu que esperepéias
Já crima volta pinda cataruma.
Estando instinto catalomascoso
Sem ter mavorte fide lastimina
És todavia piso de horroroso
E eu reclamo Pina! Pina! Pina!
Casa por fim, morre peridimaco
Martume ezole, ezole martumar
Que tua pára enfim é mesmo um taco.
E se rabela capa de casar
Estrumenente siba postguerra
Enfim irá, enfim irá pra serra.
No dia seguinte, autor ingrato, almoçando com Ele, cobrei ter errado uma palavra no soneto. ‘Errei não’, voltou ele. ‘Corrigi. Você é que errou a métrica”. Somos do tempo em que havia métrica.
E a última vez em que estivemos juntos foi o momento mais extraordinário. Na casa de nosso comum amigo José Paulo Cavalcanti, jornalista, escritor e causídico (a ordem é a do leitor), numa praia de quatro quilômetros de extensão, em Porto de Galinhas. Ficamos lá horas, conversando dentro d’água, num mar indizível mas que vou tentar dizer.
A meu lado, dentro das águas claras, mansas e verdes, a presença absolutamente surreal de Ariano, secundado por (apertem os cintos!) Luis Fernando Verissimo. E eu ali, galera, me boquiabrindo diante da loquacidade brilhante de Suassuna e me boquifechando diante do mutismo perturbador de Verissimo, mostrando, como sempre, que não é homem de jogar conversa fora.
Ao redor, a meteorologia no seu melhor, enviando leves pancadas de chuva em momentos precisos, e vento sempre fresco, com dezoito nós e alguns laços — os da amizade.
PS: Ah, e existe coisa mais nobre do que criar cabras? Ele cria. Coisas de grão-senhor.”
CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, nº 10, nov. 2000. pp. 20-21.
Cadernos de Literatura Brasileira
sobre Ariano Suassuna
Instituto Moreira Salles
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