Peter Sellers - 90 anos.


Peter Sellers, que faria 90 anos, era um gênio atormentado

LUIZ CARLOS MERTEN - O ESTADO DE S. PAULO -  08 Setembro 2015 | 18h 13

Fez história como o atrapalhado Inspetor Clouseau de 'A Pantera Cor de Rosa' e o guru de 'Muito Além do Jardim'; veja vídeos


Peter Sellers em cena de 'A Pantera Cor de Rosa', de 1963 (foto: Divulgação)
Peter Sellers em cena de 'A Pantera Cor de Rosa', de 1963 (foto: Divulgação)

Em 1965 - há 50 anos! -, Peter Sellers já tinha sido indicado e até ganhado o Bafta, o Oscar do cinema inglês. Já tinha sido indicado para o próprio Oscar, o Globo de Ouro. Era considerado excêntrico, irascível, mas um gênio. O biênio anterior havia sido decisivo para esse reconhecimento. Em 1963, Peter Sellers criou um personagem emblemático, o Inspetor Clouseau, na comédia A Pantera Cor de Rosa, de Blake Edwards. Os créditos, com a Pantera animada, fizeram tanto sucesso que os dois personagens estrelaram uma popular série de desenhos na televisão. E, naquele mesmo ano, Stanley Kubrick colocou à prova a versatilidade de Sellers, fazendo com que ele interpretasse diversos personagens na comédia de humor negro Doutor Fantástico - ou Como Parei de Me Preocupar e a Amar a Bomba.

Nascido em Southsea, Hampshire, em 8 de setembro de 1925 - há 90 anos -, Peter Sellers morreu em 24 de julho de 1980, aos 54 anos. Bem antes do cinema, ficou famosos ainda nos anos 1940 na rádio da BBC. Depois migrou para a TV, com a série The Goon Show. Em 1959, aos 34 anos e já com quase dez de carreira no cinema - iniciada em 1950 -, ganhou o primeiro Bafta por I'm all Right, Jack. Apesar do brilho cômico, muitos de seus papéis foram dramáticos, principalmente no começo da carreira. Mas o público acostumou-se a vê-lo provocar o riso, e o amava por isso. A Pantera Cor de Rosa, por exemplo, virou série e, em 1964, Sellers já estava fazendo o segundo filme - Um Tiro no Escuro. No ano seguinte, 1965, foi a vez de O Que É Que Há, Gatinha?.
Pode até ser que revista hoje, a comédia de Clive Donner nem seja tão boa e brilhante, mas na época fez sensação porque refletia um movimento cultural da época, o que se chamava de Swinging London. Os Beatles, Mary Quant, a minissaia, a pílula, tudo isso marcou a década conhecida como 'a que mudou tudo'. Quase como estandarte da época, What's New, Pussycat? bateu nas telas com humor, colorido e aquela trilha. Peter Sellers faz um sedutor em crise que pede socorro ao psicanalista Peter Sellers. O cara consegue ser no mínimo 100 vezes mais louco que seu pobre paciente. Surgem as maiores confusões e pela tela desfilam belíssimas mulheres - Romy Schneider, Ursula Andress, Paula Prentiss, Capucine. Havia também um cara baixinho de óculos que começava a despontar nos EUA e que ajudou a escrever os diálogos - um certo Woody Allen, que depois virou um dos grandes do cinema, não apenas da comédia, nos EUA.
Tem gente que jura que Allen aprendeu muito com Peter Sellers. Talvez tenha aprendido principalmente a se esforçar para não ser Peter Sellers. Porque o artista amado era um cara realmente complicado. Sellers revelou um dia que sofreu abuso da mãe autoritária e teve uma infância miserável. Se fez análise, não ajudou muito. Ele se casou muitas vezes, inclusive com a sueca Britt Ekland, que foi bondgirl no filme 007 contra o Homem da Pistola de Ouro, com Roger Moore. Infernizou a vida de todas as mulheres e as dos filhos. A todos submeteu a torturas psicológicas. "Odeio tudo o que faço, não sei como vocês podem gostar", desabafou numa entrevista. Em 1964, aos 38 anos, ele teve um ataque cardíaco no set de Beija-Me, Idiota e teve de abandonar a produção da comédia de Billy Wilder. Começaram aí os problemas de saúde que se agravaram nos anos seguintes. Na madrugada de sua morte, anunciou que ia excluir a então mulher, Lynne Frederick, de seu testamento, mas não teve tempo e ela ficou com toda a sua fortuna de milhões de libras. Os filhos receberam 800 libras cada.
Apesar da popularidade da série da Pantera e também do culto a Doutor Fantástico, não são poucos os críticos que consideram Muito Além do Jardim/Being There, de Hal Ashby, de 1979, o melhor filme de Peter Sellers. É uma adaptação do livro O Videota, de Jerzy Kocinski, com roteiro do autor. Sellers faz Chance, que viveu a vida toda confinado no jardim do título, recebendo informações pela televisão. Ao ganhar o mundo, diz coisas simples que são aceita como verdades universais e o transformam em guru do presidente dos EUA. Pelo papel, Sellers foi indicado para o Bafta, o Oscar e o Globo de Ouro. Venceu o último. Foi o que se pode definir como despedida gloriosa.

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