A pior escritora da História


A pior escritora da História

Em trecho do livro ‘Epic Fail’, inédito no Brasil, o crítico Mark O’Connell conta a história da irlandesa Amanda McKittrick Ros, romancista que se tornou célebre pelo fracasso de sua escrita

Por Mark O'Connell*

Quem foi o pior romancista da História? Uma resposta definitiva é impossível, já que o fracasso artístico total resulta em obscuridade total. Mas seria tolo não levar em conta uma notável exceção a essa regra — uma professora de escola da Irlanda do Norte cujos romances eram tão arrebatadoramente terríveis que, nos primeiros anos do século XX, ela se tornou uma celebridade entre os notáveis da cultura em sua época. Sua história nos dá alguma perspectiva sobre o que considerar um fenômeno exclusivamente contemporâneo: a apreciação irônica da arte ruim — como afrescos com cara de macaco. A péssima romancista foi uma espécie de avatar precoce do espírito do Fracasso Total.

Ela nasceu Anna McKittrick no vilarejo de Drumaness em 1860, e se tornou Anna Ross quando, após assumir um cargo de professora em Larne, casou-se com o chefe das estações de trem da cidade, Andrew Ross. Começou a escrever sob o pseudônimo Amanda McKittrick Ros, extraindo o nome Amanda de um romance irlandês e abandonando um “s” do sobrenome do marido como referência à família nobre Ros, de County Down. Em seu décimo aniversário de casamento, convenceu Andrew a financiar seu primeiro romance, “Irene Iddesleigh”, publicado em Dublin.

“Irene Iddesleigh” conta a história de uma jovem de Canterbury que se casa com um homem mais velho, se dá conta de que não o ama e foge para a América com seu tutor, Oscar Otwell. Certa noite Oscar chega em casa bêbado e ou estupra Irene ou apenas diz um monte de coisas horríveis para ela (não fica claro na narrativa de Ros, que é nominalmente onisciente mas com frequência deixa o leitor sem esclarecimento). Ele então se afoga, e Irene decide voltar para a Inglaterra. Pelo menos acho que é o que acontece. Não gostaria de me comprometer completamente com essa interpretação. De todo modo, pouco importa. Não é por suas tramas que as pessoas leem os romances de Ros. Elas os leem pelas frases rigorosamente terríveis e pelo prazer masoquista de traduzi-las em algo que faça sentido.

A prosa de Ros corresponde a um certo surrealismo acidental. Há uma intenção de metáfora — uma estocada em direção à literatura — mas uma incompreensão óbvia de como ela funciona (e muitas vezes de como a sintaxe funciona). Uma das críticas mais significativas à obra de Ros é o ensaio “Euphues redivivus”, de Aldous Huxley, de 1923. Ele discute a prosa de Ros em relação ao eufuísmo, estilo que ganhou o nome a partir do didático e afetado “Euphues: The anatomy of wit" (1578), romance de John Lyly. Huxley reconhece a improbabilidade de Ros ter lido Lyly, mas ainda assim se impressiona com a estranha semelhança entre os tratamentos da linguagem. “Em Ros”, escreve, “vemos, como nos romancistas elizabetanos, o resultado da descoberta da arte por uma mente pouco sofisticada e de sua primeira tentativa consciente de produzir o artístico. É notável o quão tarde na história de cada literatura a simplicidade é inventada. As primeiras tentativas em ser conscientemente literária sempre acarretam na mais elaborada artificialidade”.

Relação azeda com a crítica

Ros tem aversão a chamar uma coisa pelo seu nome. Olhos são “globos de brilho intenso”. Quando se está infeliz, esses globos ficam “recheados de tristeza”. É como se circunlocução e literatura fossem sinônimos. Quando Oscar aceita o emprego de professor de escola na América, ele é “compelido a renunciar ao cortejo ao grande amor pelo todo-poderoso monstro do poder mutilado”. E há esta frase extraordinária sobre a heroína epônima de seu segundo romance, “Delina Delaney”: “Ela se esforçou para se manter estranha à modesta renda de seu velho pobre pai pelo uso da melhor produção de aço, cujo corte duro observava a cobertura com forte ganância, e oferecia sua flecha afiada às fábricas de tecidos de linho fino sem defeitos.” (Ou seja, Delina trabalhou como costureira para não viver às custas do pai).

Em doses homeopáticas, isso é divertido, mas se você ler o suficiente, seu caráter absurdo parece se espalhar como um vírus contagioso. Em outras palavras, a escrita de Ros não é apenas ruim; sua ruindade é tão potente que parece minar a própria ideia de literatura, expor o empenho de fazer arte a partir da linguagem como irremediavelmente fraudulento — e, o que é pior, estúpido. Aqui há outro sentido pelo qual ela estava à frente do seu tempo. As reações a sua deficiência artística eram uma alegria masoquista e um desejo perverso de compartilhar a obra de arte fracassada. Os romances de Ros uniram as pessoas em torno do ridículo. Apesar da conexão feita por Huxley entre ela e um passado literário, é difícil evitar a suspeita de que ela possa ter inadvertidamente inventado o pós-modernismo.
O momento em que Ros se tornou um fenômeno viral underground veio em 1898, quando o crítico e poeta Barry Pain escreveu uma crítica de “Irene Iddesleigh” cujo espírito de falsa reverência deu o tom de toda a carreira de Ros. “O livro não era divertido. Ele começava assim. Então, à medida que suas enormidades se tornavam maiores a cada linha, o livro parecia algo titânico, gigantesco, inspirador. O mundo estava repleto de ‘Irene Iddesleigh’, por Mrs. Amanda McKittrick Ros, e eu caí em lágrimas e terror diante dele.”


Apesar de sua carreira literária se dever à crítica de Pain, Ros nunca o perdoou. Em “Delina Delaney”, ela incluiu um prefácio de 20 páginas em que afirma não se importar com “a opinião de oportunistas esfomeados, que vestem um surrado traje refinado, e de bom grado alimentam as mentes das pessoas com inúteis restos de ilusões roubadas”. Começava uma relação azeda com a crítica literária. Aqui está uma pequena seleção de epítetos que ela arremessou aos críticos: “leiloeiros de Satã”; “moleques bastardos de cabeça de jegue”; “instantâneos de rancor de mente demoníaca”; “árabes de rua”; e “vândalos odiosos.” Ros pode não ter sido boa romancista, mas teria sido ótima em dar nomes a bandas punk.

Pretensão ao Prêmio Nobel

Na biografia “O Rare Amanda!”, de 1954, Jack Loudan conta que, para ela, era falta de educação escrever sobre um livro sem ter sido convidado pelo autor. Mas o sucesso de que ela se vangloriava devia-se inteiramente à escala de seu fracasso artístico. Houve sociedades Amanda McKittrick Ros em Oxford e Cambridge. C.S. Lewis, J.R.R. Tolkien e seus colegas dos Inklings foram alguns dos responsáveis por esse entusiasmo: o grupo literário informal de Oxford realizava competições de leituras, em que vencia o membro que conseguisse ler um trecho de Ros por mais tempo sem cair no riso. No Jogo Amanda, popular no Clube Amanda Ros de Londres, uma pessoa fazia perguntas a outra, que tinha que responder no estilo e no espírito da escritora. Frases de seus livros eram comumente citadas nos corredores da Câmara dos Comuns. Ela foi uma espécie de Oscar Wilde do Mundo Bizarro: uma autora irlandesa que virou celebridade em Londres em função da total idiotice de sua escrita.

Pode ela não ter suspeitado de que era vítima de uma conspiração do ridículo? Certa vez Ros foi convidada pelo escritor Donagh MacDonagh para ir a Dublin participar de um debate sobre “A tendência da literatura moderna”. Talvez sentindo que ele não estivesse falando sério, nunca respondeu. Mas essas suspeitas raramente eram manifestadas. Como Pain apontara, um dos aspectos cruciais de sua obra magistralmente temerosa é a total ausência de senso de humor.

Ros acreditava que “Irene Iddesleigh” e “Delina Delaney” eram clássicos como a obra de Defoe, Eliot e Dickens. Não havia, para ela, nada de engraçado sobre o fato de que personagens de seu último romance, “Helen Huddleson”, tivessem nomes de frutas e vegetais (Lorde Framboesa, Madame Pêra, Lily Lentilha). Leitores como Lewis e Tolkien, para quem isso era fonte de diversão, eram, para ela, pouco sérios e invejosos de seu talento.

Uma característica comum a muitas encarnações do Fracasso Total é a recusa a ser dissuadido da crença na própria grandiosidade. Em 1930, ela escreveu para seu editor Stanley T. Mercer perguntando se tinha chances de ganhar o Nobel de literatura: “O que você acha desse prêmio? Acha que eu deveria me lançar a ele?”

Há algo cômico na ideia do escritor que deve sua carreira a ser terrível no que faz, e as comédias-pastelão das brigas Ros são excelentes. Mas — e não digo isso de forma irônica — também há algo paradoxalmente inspirador em sua confiança total no próprio talento. Escritores são famosos pelo egoísmo, mas tipicamente atormentados pela dúvida. A autoconfiança suprema de Ros foi o motivo para que ela produzisse uma obra tão passível à zombaria, mas fez com que fosse impermeável às gozações. Ela pode até ter sido um fracasso total na tarefa que se atribuiu, mas havia uma certa grandeza em seu caráter.


*Este trecho do livro “Epic Fail”, do crítico Mark O'Connell, lançado nos Estados Unidos como e-book, foi publicado na revista “Slate” (www.slate.com)
Fonte: AQUI

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