Hoje é o dia da Poesia, mas Poesia é sempre...








"Ah! Queria com os meus beijos rasgar a tua carne com tão cruéis mordeduras para que ao menos pela dor fosses minha - e enterrar, esses beijos, no fundo de vós se no fundo houvesse pregos que pregassem as nossas peles unidas."

Camille Lemonnier




São mínimas coisas entrançando
a vida: o passo no corredor,
a mão que acalma, o corpo
que arde e apazigua. O sono. O sonho.
Silêncios. Solidões.
O filho que se faz e vê, com
certo espanto, assumir
identidade própria. O carro. A casa.
A árvore plantada a quatro mãos,
e um dia seus ramos brincam
no telhado.
Vida se cumprindo.

Lya Luft



Um ritmo perdido...
Se uma pausa não é fim
e silêncio nâo é ausência,
se um ramo partido não mata uma árvore,
um amor que é perdido,será acabado?

um ouvido que escuta
uma alma que espera...
-uma onda desfeita
É ou já não era?

Nuvem solitária,
silenciosa e breve,
nuvem transparente,
desenho etéreo de anjo distraído...

nuvem,
esquecida em céu de esperança,
forma irreal de sonho interrompido...

nuvem,
luz e sombra,
forma e movimento,
fantasia breve de ânsia de infinito...

nuvem que foste
e já não és:
desejo formulado e incompreendido.

Ana Hatherly













Ciúme

8.
Esquece-me. Quero andar
Ao sabor do meu instinto
Cultivado na desgraça.
O amor,
Deixa um travo, mas passa
Não tenhas pena.
Do alto do meu aprumo
Desafio a tua verve:
Para morrer,
Qualquer lugar,
Qualquer corpo,
E qualquer bôca me serve.

Antonio Botto




Escrever nem uma coisa
Nem outra -
A fim de dizer todas -
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vagalumes.

Manoel de Barros - in O Guardador de Águas














Estratégia

Dia vai vir
Você vai ter que travar
Batalhas de verdade

Ai da tua estratégia
Ai da tua tática
Ai da tua defesa
Ai do teu ataque
Se você não fez bom uso
do tempo da sua paz

Pense nisto, rapaz
E nunca, nunca, nunca mais
Olhe pra frente
Sem antes olhar pra trás


Leminski




"... tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações..."

(texto de Eça de Queiroz - Primo Basílio)






A Claridade

A claridade coroa-se de cinza, eu sei:
é sempre a tremer que levo o sol à boca.
Eugênio de Andrade
Eros

Nunca o verão se demorara
assim nos lábios
e na água
- como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?
Eugênio de Andrade












Poema da amiga

AMIGA, SE EU PUDESSE SER livre e não ter nada,
Nem mesmo o desejo de não ter nada,
Nem mesmo a consciência de ti, nem mesmo
O humilde silêncio das coisas que passam!
Amiga, Esta bruma da manhã é irredutível como o meu desejo de expressá-la.
Toda bruma e todas as coisas são irredutíveis
A tudo que não seja a mais impossível pobreza.

Hélio Pellegrino, inédito, dedicado a Maria Urbana, em “Arquivinho de Hélio Pellegrino”



Amor

Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente á tua boca,
abre-se a alma à lingua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.

Eugênio de Andrade



7

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Mario de Sá-Carneiro - Lisboa, Fevereiro de 1914.













DOIS ANJOS

Não é um anjo apenas
que me afeiçoa e guia.
Como embalam as duas
orlas ao mar, embalam-me
o anjo que traz o gozo
e o que traz a agonia;
o que tem asas voantes
e o que tem asas fixas.


Eu sei, quando amanhece,
qual vai reger-me o dia,
se o anjo cor de chama,
se o anjo cor de cinza.
E dou-me a eles como
alga às ondas, contrita.


Voaram uma só vez
com asas unidas:
foi o dia do amor,
o da epifania.


Fundiram-se numa asa
as asas inimigas
e apertaram o nó
que junta à morte a vida.


Gabriela Mistral






0 comentários: