Eu sou fã desse cara, pensei ao assistir fascinada ao "Arquivo N", da Globonews. Tão fascinada que perdi a hora de ir para o trabalho. Mas como desviar os olhos daquela figura absolutamente comum, daquele tipo que se esbarra nas ruas, mas que era um gigante nas telas? Jack Lemmon, claro.Acho que todo mundo já pegou um livro, um artigo, um texto, qualquer coisa assim e foi tomado pelas palavras, enredo, história e se viu lendo avidamente até chegar ao final, como um orgasmo necessário. Não é exagero. Jack Lemmon atuando era assim.
E foi assim que fiquei assistindo fragmentos de filmes, entrevistas, o memorável diálogo final de “Quanto mais quente melhor”, de um fôlego só. Mas esse que é um dos meus filmes prediletos, eu deixo para o final.

Lemmon era um ator tão completo que transitava bem entre o drama e a comédia.Quando Blake Edwards, diretor especializado em comédias, deu a Jack o seu primeiro papel dramático em "Vício Maldito" (1962), onde contracena com Lee Remick e os dois interpretam de forma soberba um casal de alcoólatras (ambos seriam indicados ao Oscar), a crítica se rendeu ao talento do ator. No entanto, reconhecimento mesmo do seu talento dramático, só viria em 1973 , quando ganhou o Oscar de ator por "Sonhos do Passado".






Jack era avesso a badalações, costumava dizer: "Não me considero um astro, sou um operário da arte cinematográfica, que se esforça para dizer algo". E fazia bem, muito bem.Jack Lemmon nasceu dentro de um elevador enguiçado de um prédio de maternidade, em Boston , estado norte-americano de Massachusetts, em 8 de fevereiro de 1925. "Acho que sofro de claustrofobia por causa disso", dizia ao falar sobre o nascimento.
Foi alcoólatra e não escondia de ninguém. Tocava piano, motivo pelo qual a primeira esposa o abandonaria, declarando que ele gostava mais do instrumento do que dela.

Duas de suas parcerias se tornariam memoráveis. A primeira com o diretor, que particularmente considero o melhor de todos os tempos, Billy Wilder e Walter Matthau.
Matthau foi o parceiro perfeito, ácido, falso ranzinza, um casamento perfeito que começaria em "Uma Loura Por um Milhão" de 1966 e se estenderia por suas vidas com maior ou menos frequencia.
Já com o genial diretor Billy Wilder, Jack faria, apenas pra citar dois de sua longa filmografia, seus melhores filmes.

Em "Se Meu Apartamento Falasse" (1960), narrativa tragicômica, faz uma critica as fórmulas ditadas por um establishment que envolve e controla os anseios e mazelas do homem contemporâneo. "Bud" Baxter (Jack Lemmon), que divide o seu tempo e vida entre o escritório onde trabalha e o pequeno apartamento onde mora. Diante deste suposto reduzido universo, irá se desdobrar a imensidão e complexidade do indivíduo e de suas relações com uma dezena de outros "iguais". Dentro da tradição do que o americano médio chama de "sucesso", Bud Baxter, não mede esforços para agradar seus superiores, mesmo que isso lhe cause noites de frio e insônia. Não que ele trabalhe na rua durante o inverno madrugada à dentro, mas muito mais por ser solteiro e poder ceder seu apartamento para encontros sexuais ocultos de seus superiores. Jack esta soberbo e o filme arrebata cinco merecidos Oscar.







Nunca escondi de ninguém que o filme, “Quanto mais quente melhor” é o meu queridinho na filmografia de Billy e Jack.
Houve um tempo em que o conteúdo de um filme era o que havia de mais importante. Esse conteúdo se traduzia em diálogos primorosos, cenas e enquadramentos minuciosamente estudados, calculados que ora nos traziam para perto do ator/cena ora afastavam. Tudo absolutamente preciso e no entanto tão natural que íamos e víamos ao sabor dos acontecimentos, sem nos darmos conta disso. Hoje, infelizmente os (d) efeitos especiais são o que há de mais importante num filme, para muitos, não para todos, felizmente, mas ainda assim é difícil encontrar hoje um filme que não esteja entres os clássicos da época de ouro de Hollywood, que nos surpreenda com diálogos ricos.

Em Quanto Mais Quente Melhor" , Curtis e Lemmon são dois músicos que testemunham um assassinato e, temendo ser mortos pela máfia, encontram um único jeito de escapar com vida: se infiltrar em uma banda só de garotas e fugir para a Flórida. Mas para o plano dar certo, os rapazes têm de criar uma nova identidade e se disfarçar de garotas. É aí que aparece a estonteante Sugar Cane (Monroe), cantora da banda, que se torna a grande amiga dos rapazes.
Surge um interesse amoroso entre Sugar e um dos músicos disfarçados - que eu não vou revelar para não perder a graça -, mas isso só tende a aumentar a dificuldade da dupla manter o disfarce e, conseqüentemente, a própria vida.

Curtis como Josephine e Jack como Daphne estão impagáveis, mas é Jack que protagoniza a cultuada cena final, na qual tenta se livrar de um pedido de casamento a todo custo.
Peguei o filme e transcrevi aqui os diálogos, não podia ser diferente, afinal estamos falando de Jack Lemmon, que nos deixaria em 27 de junho de 2001, vitimado por um câncer. Definitivamente, ninguém é perfeito...



Osgood: Liguei pra mamãe. Ela ficou tão feliz que chorou. Quer que use seu vestido de noiva. É todo de renda branca.
Jack/ Daphne: Osgood, não posso usar o vestido da sua mãe. Ela e eu não temos o mesmo corpo.
Osgood: Podemos alterar.
Jack/Daphne: Não pode, não. Vou ser direta, não podemos nos casar.
Osgood: Por que não?
Jack/Daphne: Bem...Em primeiro lugar, não sou loura natural.
Osgood: Não tem importância.
Jack/Daphne: Eu fumo. Fumo sem parar!
Osgood: Não importa.
Jack/Daphne: Tenho um passado. Vivi com um saxofonista nos últimos três anos!
Osgood: Eu lhe perdôo.
Jack/Daphne: Não posso ter filhos!
Osgood: Podemos adotar.
Jack/ Daphne: Você não entende, Osgood. (tirando a peruca e falando grosso) Eu sou homem!!
Osgood: Bem, ninguém é perfeito.




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