Homenagem - Clarice Lispector


Será lançado no centro Cultural do Instituto Moreira Salles carioca, a edição especial dos Cadernos de Literatura Brasileira (revista semestral do IMS) dedicada à escritora Clarice Lispector (1920-1977), nesta quinta (09/12), a partir das 19h. Trata-se do aniversário de morte da ficcionista e véspera do dia de seu nascimento. O grande "furo" do novo número dos Cadernos está na seção Manuscritos, que apresenta pela primeira vez aos leitores os originais - literalmente manuscritos - de A Hora da Estrela, o último livro seu que Clarice Lispector - uma entusiasta da máquina de escrever - viu editado.

No IMS-Rio, o lançamento da publicação coincidirá com o vernissage de uma exposição de fotos, manuscritos, datiloscritos e objetos de Clarice Lispector. Na próxima segunda-feira (13/12), a partir das 19h, no Centro da Cultura Judaica de São Paulo também abriga o lançamento, com uma palestra da professora e crítica Berta Waldman, da Universidade de São Paulo, sobre a presença judaica no texto clariceano - que sempre foi discreta, já que a autora nunca se identificou muito com a religião.

Ensaios e teses

São 344 páginas em dois volumes, dissecando a obra e o gênio de Clarice Lispector. Em Ensaios, a publicação do Instituto Moreira Salles reúne textos do português Carlos Mendes de Sousa, da Universidade do Minho; de Benedito Nunes, da Universidade Federal do Pará; de Silviano Santiago, ficcionista e crítico literário; e das professoras Vilma Arêas (Universidade Estadual de Campinas), Berta Waldman (Unicamp/Universidade de São Paulo), Yudith Rosenbaum (USP) e Olga de Sá (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Em Confluências, a escritora é tema de depoimentos do economista Paulo Gurgel Valente, filho da autora; do escritor Lêdo Ivo; do jornalista Alberto Dines; e do poeta Ferreira Gullar. Ucraniana de Tchetchelnik, Clarice chegou ao Brasil em março de 1922 e aqui viveu em Maceió, Recife, Belém e Rio de Janeiro. Casada entre 1943 e 1959 com o diplomata Maury Gurgel Valente, passou temporadas na Itália, Suíça, Inglaterra e Estados Unidos.

Auto-retrato

Clarice por Ela Mesma constitui um amplo levantamento de suas declarações a respeito das obras que escreveu e de si - um autêntico auto-retrato. Avessa a se expor diante de repórteres, Clarice Lispector, no entanto, trabalhou em funções jornalísticas. Foi colunista feminina e escreveu crônicas para jornais. Aliás, sua atividade na imprensa é objeto de um encarte (que se vale parcialmente de estudos sobre o assunto realizados pela pesquisadora Aparecida Maria Nunes). Como sempre, os Cadernos se completam com as seções Geografia Pessoal, que mostra fotografias de Edu Simões realizadas nas cidades onde Clarice morou por mais tempo: Recife e Rio. Memória Seletiva, interessante painel cronológico, desta vez foi preparado com a consultoria de Nádia Battella Gotlib, da USP, biógrafa da autora.

No IMS-Rio, o lançamento da publicação coincidirá com o vernissage de uma exposição de fotos, manuscritos, datiloscritos e objetos de Clarice Lispector. O Instituto também promoverá um ciclo de filmes inspirados em sua literatura e sessão com contadores de histórias, que lerão livros de Clarice destinados ao público infantil. Confira a programação detalhada no site do IMS
(http://www.ims.com.br/).


A revista Cadernos de Literatura Brasileira - Clarice Lispector custa R$ 80,00.
Instituto Moreira Salles - Rua Marquês de São Vicente, 476; (21) 3284-7400.




Para sempre, Clarice.

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"Quero ter a liberdade de dizer coisas sem nexo como profunda forma de te atingir. Só o errado me atrai, e amo o pecado, a flor do pecado... Eu quero a desarticulação, só assim sou eu no mundo. Só assim me sinto bem... Eu na minha solidão quase vou explodir. Morrer deve ser uma muda explosão interna o corpo não agüenta mais ser corpo... E se morrer for um prazer, egoísta prazer?"

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"- Que é que eu faço, é de noite e eu estou viva. Estar viva está me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro."




"Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tornava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos."
( Repartição dos Pães)


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"Quero escrever noções, Sem o uso abusivo da palavra Só me resta ficar nua: Nada mais tenho a perder."



"É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo. Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas estou tão pouco preparada para entender. Mas como faço agora? Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê."

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Clarice Lispector


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