A impossibilidade de voltar.






Dizem que antes de um rio entrar no mar, ele treme de medo.
Olha para trás, para toda a jornada que percorreu, para os cumes, as montanhas, para o longo caminho sinuoso que trilhou através de florestas e povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto, que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.
E somente quando ele entrar no oceano é que o medo desaparecerá, porque apenas então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas de tornar-se oceano...
Osho




CHEIOS DE FOME - LEANDRO KARNAL



*CHEIOS DE FOME* LEANDRO KARNAL - O ESTADO DE S.PAULO

LEANDRO KARNAL É HISTORIADOR E PROFESSOR DE HISTÓRIA CULTURAL DA UNICAMP

Que ninguém acuse o PMDB de incoerência e contradição. Para negar valores é preciso primeiro que eles existam, diz historiador

Escrevo com o Brasil já sob nova administração. Crônica de uma morte longamente anunciada, a presidente Dilma foi afastada do cargo e o vice, Michel Temer, assumiu o posto máximo do Executivo. Vices são fundamentais no Brasil. A história da República tem tantos que seria prudente colocar em primeiro plano, nas próximas eleições, as ideias e a biografia do eventual substituto. Deodoro foi nosso primeiro presidente, mas renunciou meses após ter sido eleito. Seu vice- Floriano Peixoto, trouxe energia e ideologia ao cargo, e é chamado de “consolidador da República”. Nosso primeiro presidente civil, Prudente de Morais, tinha saúde frágil e o vice, o médico Manuel Vitorino Pereira, teve oportunidade de substituí-lo. A morte do presidente Afonso Pena, em 1909, levou o vice Nilo Peçanha ao poder. A gripe espanhola levou o eleito Rodrigues Alves e seu vice, Delfim Moreira, assumiu entre 1918 e 1919. O assassinato de um vice, João Pessoa, em 1930, foi o estopim de um movimento que levou Getúlio Vargas ao Catete. Sem vice ao subir, Getúlio caiu sem vice em 1945, levando o presidente do STF (José Linhares) a se tornar a alternativa possível. Outro vice, Café Filho, assumiu quando do suicídio de Vargas, em 1954, sendo o primeiro protestante a subir à presidência do Brasil. Outro vice, João Goulart, tornou-se presidente em 1961, com a renúncia de Jânio Quadros. Pedro Aleixo foi impedido de assumir quando o marechal Costa e Silva teve um problema de saúde. Daqui em diante a memória de muita gente ajuda: desde a redemocratização, 3 vices (Sarney, Itamar e Temer) tornaram-se presidentes. Os três últimos apresentam em comum serem membros do PMDB. Partido surgido com o Ato Institucional número 2 (outubro de 1965) que dissolveu o pluripartidarismo e criou MDB e ARENA, uma oposição confiável e um partido da situação. Curiosamente, nas justificativas para o ato institucional, os militares usaram um argumento que, de alguma forma, foi repetido por muitas pessoas nas votações da Câmara e do Senado recentes. Dizia o texto : “A Revolução é um movimento que veio da inspiração do povo brasileiro para atender às suas aspirações mais legítimas: erradicar uma situação e um Governo que afundavam o País na corrupção e na subversão.” É uma característica quase universal dos movimentos políticos invocarem que falam em nome do povo e não de interesses partidários ou pessoais. Desde que o conceito povo entrou no vocabulário político do Ocidente, com a Revolução Francesa, ele tem sido usado para tudo, menos para os interesses do povo propriamente ditos. O nome povo sempre foi sagrado, mas o povo real sempre foi alvo de gás de pimenta. O MDB virou PMDB e continuou sendo uma frente ampla, sem uma posição clara sobre a maioria das questões. Acima de tudo, o partido virou peça estratégica. Por quê? Ele é suficientemente variado e amplo para poder estar associado a qualquer projeto político mais claro. Pode estar ao lado de um político tradicional como Tancredo Neves ou ao lado de um emergente da política como Collor. Também não faz má figura ao lado de um ex-operário socialista como Lula. Não existe contradição em termos porque não existem termos no PMDB. Não há negação de valores porque isto implicaria a existência deles. Eventualmente, críticos do governo FHC podem levantar pontos e medidas que contrariam a tradição sociológica do ex-presidente ou a alegada social-democracia do seu partido. Da mesma forma, inimigos da era Lula-Dilma podem demonstrar que o mercado financeiro foi beneficiado de forma estranha para a orientação esquerdista de ambos. Esqueçam o que escrevi ou deletem quem eu fui são frases inerentes ao exercício do poder real no Brasil. Porém, seria injusto alegar qualquer incoerência com o PMDB. Incoerência em relação a qual princípio? O PMDB foi convidado para estas chapas eleitorais não pelos valores, mas pela sua presença no legislativo federal e nas prefeituras, pela sua imensa atomização e maleabilidade. Sei exatamente o que pensam os deputados Bolsonaro ou Jean Wyllys. E um deputado do PMDB? O novo presidente da República, Michel Temer, anunciou que constituiria um ministério de notáveis e com cortes no absurdo número daquela esplanada. Retrocedeu nas duas decisões. Lógica da Realpolitik: não é o idealismo da transformação que marca a ação nem de Temer e nem do PMDB, mas da já gasta ideia do príncipe de Salina de Lampedusa, da mudança superficial para garantir a manutenção estrutural. Dilma levou tempo para entender que o cão de guarda furioso ajuda o dono, desde que muito bem alimentado. O curioso é que o PMDB foi escolhido por representar esta segurança. Sarney era o líder do partido que apoiou a ditadura e seu nome deveria acalmar conservadores sobre as intenções da Nova República. Itamar Franco era o contrapeso à ação coruscante de Collor. Temer cumpriu o mesmo papel. O PMDB garantia a blindagem do governo e esta quase autonomia bonapartista que marca Brasília em relação à nação. O poder dos bastidores, o conchavo de sacristia, as reuniões que decidem tudo antes de levar a questão já acordada para o plenário foram e são as marcas dos políticos profissionais. A politica assim concebida, só entende valores como “clamor das ruas”, “respeito à constituição”, “bandeira da ética” ou outra qualquer como óleo a ser usado para lubrificar as engrenagens do poder. Democracia e povo são fundamentais, desde que, claro, não contrariem o objetivo prático e imediato do interesse político. Mas há um risco em passar de vice a titular. É o risco inerente a toda amante que deseja ser esposa. A vida alternativa tinha quase todos os benefícios e pouca exposição. Agora, a vidraça está exposta ao sol e ao alcance dos estilingues. Poderíamos inverter a frase de Jesus no Calvário: “Pai, eles podem ser perdoados? Não sei, mas eles sabem exatamente o que fazem”. Não duvide disto, leitor!

Ausência Recorrente - para sempre no Dia das Mães.








Chuva permanente


Quando se perde alguém querido, sempre resta algo de irreal na ausência
Mando um zap-zap para uma amiga que dias antes perdeu o pai. Como ela e a mãe estão indo? Responde que tudo agora parece muito estranho. Ocorre-me que é isto mesmo: uma perda torna irreal aquilo que antes nos era familiar. Afinal, o luto é o período durante o qual essa irrealidade vai lentamente se impondo como nova realidade.

Retrocedendo nos dias e anos, desapareceram na minha família ou no círculo de amizades: outro pai, um tio-avô, uma irmã, um marido, duas tias, cinco amigos... Por mais que o tempo passe, porém, não “cura” nada. Sempre restará algo de irreal nessas ausências. Paradoxo: elas continuarão presentes para todo o sempre. O nosso sempre.

Minha mãe morreu há mais de duas décadas, depois de quase dois meses lúcida numa CTI. Era relativamente jovem, 63 anos, sofria do coração. Até a internação, eu ligava para ela todos os dias, no final de tarde, começo de noite, que é quando os cadernos de Cultura costumam fechar. Vinte anos. Pois ainda hoje, após jornadas de trabalho muito intensas em casa, eu tenho o impulso de passar a mão no telefone para ouvir a sua voz (que luto para não esquecer). Quem sabe, numa realidade paralela, uma senhora franzina e silenciosa aguarde em vão uma ligação do filho.

Uma de minhas cunhadas morreu há cinco anos. Era ainda mais jovem, 40 anos, teve meningite. Morava no interior de Minas. Víamo-nos sempre que possível, logo sempre menos que o desejável. Só consegui retornar à sua cidade em outubro, para a festa de 75 anos de minha sogra. Saber que não encontraria minha cunhada antecipava um problema de difícil superação. Mesmo tendo ido a seu enterro, pareceu-me absurdo que ela não estivesse mais lá. Quem sabe, numa realidade paralela, uma moça bonita e engraçada aguarde a visita da irmã e do cunhado que moram no Rio.

Não diferencio os objetos de nossos amores — e, portanto, de nossos lutos — pela sua família animal. Um de meus gatos, uma fêmea siamesa, morreu no ano passado. Era idosa, tinha quase 19 anos, viveu o que tinha para viver, em boa forma até os meses finais. Enquanto estou em casa, sua ausência preenche todos os cantos. Está na poltrona arranhada do escritório, entre os travesseiros da cama do casal, na porta em que eu tamborilava para que saltasse. Ela só pode ter se escondido em algum lugar, a safada.

Quando escrevi sobre minha gata, recebi inúmeras mensagens de solidariedade e carinho. Numa delas, a leitora contava que, depois de perder um cão muito querido, tinha enorme dificuldade de subir da portaria para o apartamento e constatar que ele não estava lá — isso todo dia, todo dia, um pesadelo recorrente. Entendo. Voltar aqui para casa tem sido dar pela falta de um dos gatos. (Por enquanto, um.) Meus olhos a procuram pelos cômodos e, quando caio na real, uma bigorna se reinstala em meu peito.

Não é verdade que, como escreveu Nietzsche, “o que não nos mata nos torna mais fortes”, frase tão popular que serviu de epígrafe para o “Conan, o bárbaro” com Arnold Schwarzenegger. Em “Altos voos e quedas livres”, livro concluído por um ensaio sobre a morte da mulher, Julian Barnes rebateu o filósofo alemão: “Há muitas coisas que não nos matam, mas que nos enfraquecem para sempre”. Acho que, se tanto, tornam-se o metro pelo qual medimos outros sofrimentos. Lembro-me da avó que eu chamava de “minha gata”, a mãe de minha mãe: “Só não há remédio para a morte”.

Leio “1913 — antes da tempestade”, do historiador de arte alemão Florian Illies. É um almanaque culto, mês a mês, do ano que precedeu a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Antes, em 1912, após ser traído por Fernande Olivier, Picasso tomara como amante Marcelle Humbert, a quem rebatizou de Eva Gouel. Refugiou-se com ela em Céret, nos Pireneus, para conseguir trabalhar. “Para Picasso, como sempre acontecia com o surgimento de uma nova amante, a vida e a arte transformaram-se por completo”, escreve Illies. O pintor passava do cubismo inicial, analítico, ao cubismo sintético.

Em março de 1913, Picasso e Eva estão de volta a Céret, mas as coisas não vão bem. O pai do pintor, José Ruiz y Blasco, que o ensinara a desenhar, está morrendo, em Barcelona. Eva também cai doente, com câncer. A cadela Frika agoniza. Quando o veterinário diz que não há mais nada a fazer, o pintor pede a um inspetor de caça que dê o tiro de misericórdia. “Até o final de sua vida. Picasso não esquecerá o nome do atirador — ‘El Ruquetó’ – e também o quanto ele chorou naqueles dias”, conta Illies. “O pai morto, o cão morto, a amante doente de morte e, lá fora, uma chuva permanente. Picasso enfrenta, na primavera de 1913, em Céret, sua maior crise psíquica”.

Na fase seguinte, o “cubismo de cristal”, destilaria uma geometria minimalista, quase abstrata. É tentador pensá-la como uma resposta às perdas acumuladas. Se meu chute tiver alguma validade, mais do que até então Picasso ensaiaria ali uma nova realidade alternativa, tentativa de replicar nos quadros a irrealidade dos lutos.
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Voltarei a “1913”.


Arthur Dapieve

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