Ausência Recorrente - para sempre no Dia das Mães.








Chuva permanente


Quando se perde alguém querido, sempre resta algo de irreal na ausência
Mando um zap-zap para uma amiga que dias antes perdeu o pai. Como ela e a mãe estão indo? Responde que tudo agora parece muito estranho. Ocorre-me que é isto mesmo: uma perda torna irreal aquilo que antes nos era familiar. Afinal, o luto é o período durante o qual essa irrealidade vai lentamente se impondo como nova realidade.

Retrocedendo nos dias e anos, desapareceram na minha família ou no círculo de amizades: outro pai, um tio-avô, uma irmã, um marido, duas tias, cinco amigos... Por mais que o tempo passe, porém, não “cura” nada. Sempre restará algo de irreal nessas ausências. Paradoxo: elas continuarão presentes para todo o sempre. O nosso sempre.

Minha mãe morreu há mais de duas décadas, depois de quase dois meses lúcida numa CTI. Era relativamente jovem, 63 anos, sofria do coração. Até a internação, eu ligava para ela todos os dias, no final de tarde, começo de noite, que é quando os cadernos de Cultura costumam fechar. Vinte anos. Pois ainda hoje, após jornadas de trabalho muito intensas em casa, eu tenho o impulso de passar a mão no telefone para ouvir a sua voz (que luto para não esquecer). Quem sabe, numa realidade paralela, uma senhora franzina e silenciosa aguarde em vão uma ligação do filho.

Uma de minhas cunhadas morreu há cinco anos. Era ainda mais jovem, 40 anos, teve meningite. Morava no interior de Minas. Víamo-nos sempre que possível, logo sempre menos que o desejável. Só consegui retornar à sua cidade em outubro, para a festa de 75 anos de minha sogra. Saber que não encontraria minha cunhada antecipava um problema de difícil superação. Mesmo tendo ido a seu enterro, pareceu-me absurdo que ela não estivesse mais lá. Quem sabe, numa realidade paralela, uma moça bonita e engraçada aguarde a visita da irmã e do cunhado que moram no Rio.

Não diferencio os objetos de nossos amores — e, portanto, de nossos lutos — pela sua família animal. Um de meus gatos, uma fêmea siamesa, morreu no ano passado. Era idosa, tinha quase 19 anos, viveu o que tinha para viver, em boa forma até os meses finais. Enquanto estou em casa, sua ausência preenche todos os cantos. Está na poltrona arranhada do escritório, entre os travesseiros da cama do casal, na porta em que eu tamborilava para que saltasse. Ela só pode ter se escondido em algum lugar, a safada.

Quando escrevi sobre minha gata, recebi inúmeras mensagens de solidariedade e carinho. Numa delas, a leitora contava que, depois de perder um cão muito querido, tinha enorme dificuldade de subir da portaria para o apartamento e constatar que ele não estava lá — isso todo dia, todo dia, um pesadelo recorrente. Entendo. Voltar aqui para casa tem sido dar pela falta de um dos gatos. (Por enquanto, um.) Meus olhos a procuram pelos cômodos e, quando caio na real, uma bigorna se reinstala em meu peito.

Não é verdade que, como escreveu Nietzsche, “o que não nos mata nos torna mais fortes”, frase tão popular que serviu de epígrafe para o “Conan, o bárbaro” com Arnold Schwarzenegger. Em “Altos voos e quedas livres”, livro concluído por um ensaio sobre a morte da mulher, Julian Barnes rebateu o filósofo alemão: “Há muitas coisas que não nos matam, mas que nos enfraquecem para sempre”. Acho que, se tanto, tornam-se o metro pelo qual medimos outros sofrimentos. Lembro-me da avó que eu chamava de “minha gata”, a mãe de minha mãe: “Só não há remédio para a morte”.

Leio “1913 — antes da tempestade”, do historiador de arte alemão Florian Illies. É um almanaque culto, mês a mês, do ano que precedeu a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Antes, em 1912, após ser traído por Fernande Olivier, Picasso tomara como amante Marcelle Humbert, a quem rebatizou de Eva Gouel. Refugiou-se com ela em Céret, nos Pireneus, para conseguir trabalhar. “Para Picasso, como sempre acontecia com o surgimento de uma nova amante, a vida e a arte transformaram-se por completo”, escreve Illies. O pintor passava do cubismo inicial, analítico, ao cubismo sintético.

Em março de 1913, Picasso e Eva estão de volta a Céret, mas as coisas não vão bem. O pai do pintor, José Ruiz y Blasco, que o ensinara a desenhar, está morrendo, em Barcelona. Eva também cai doente, com câncer. A cadela Frika agoniza. Quando o veterinário diz que não há mais nada a fazer, o pintor pede a um inspetor de caça que dê o tiro de misericórdia. “Até o final de sua vida. Picasso não esquecerá o nome do atirador — ‘El Ruquetó’ – e também o quanto ele chorou naqueles dias”, conta Illies. “O pai morto, o cão morto, a amante doente de morte e, lá fora, uma chuva permanente. Picasso enfrenta, na primavera de 1913, em Céret, sua maior crise psíquica”.

Na fase seguinte, o “cubismo de cristal”, destilaria uma geometria minimalista, quase abstrata. É tentador pensá-la como uma resposta às perdas acumuladas. Se meu chute tiver alguma validade, mais do que até então Picasso ensaiaria ali uma nova realidade alternativa, tentativa de replicar nos quadros a irrealidade dos lutos.
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Voltarei a “1913”.


Arthur Dapieve

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