Maomé e a Montanha






Sem mais pra hoje. 

:P





Clarice em mapa...





A maior escritora brasileira de todos os tempos. A mais aclamada, a mais descaradamente elogiada por todos os grandes da literatura, a única considerada aqui no Brasil como mito em vida. Por que será que existia isso em torno de Clarice? O que existe de especial em sua obra? Lendo alguns de seus textos não fica difícil entender. É uma escrita VERDADEIRA (assim mesmo, com todas as letras maiúsculas), mas verdadeira não no sentido de ser a “verdade” incontestável (Clarice acho que nem acreditava nesse bicho), mas sim num sentido de escrever a sua verdade. Uma escrita visceral, mas nem um pouco piegas ou profunda a ponto de ser incompreensível: Algo direto, evidente e sem rodeios, ainda que muitas vezes lembrem diálogos de foro íntimo transcritos em sua totalidade. Um estilo único, nem rebelde e nem sofisticado demais. Simples, tocante e incontestavelmente linda, assim é a obra de Clarice, que choca na simplicidade, que toca com sua honestidade, que é linda porque algo escrito com tanta sinceridade não poderia ser de outro jeito. 



Escrever astrologicamente sobre Clarice Lispector, entretanto, configura-se num sério problema. “Sou tão misteriosa que não me entendo”, dizia Clarice sobre si mesa. E de certa forma a vida dela é meio isso, algo meio insondável. A escritora apesar de compartilhar tanto da sua intimidade na forma da arte escrita ficcional, era absolutamente criteriosa ao referir-se a si mesma. Nunca quis fazer autobiografias, apesar de alguns autores já terem escrito muito sobre ela. Mas a verdadeira verdade sobre si mesma, dita por sua própria boca, se ela disse, o disse para alguém que sabe muito bem como guardar segredos. Em dado momento da sua vida começou a apresentar diversas datas de nascimento diferentes em diferentes pronunciamentos. Mesmo em documentos oficiais existe uma séria confusão! Em alguns consta que ela nasceu em outubro, em outros, novembro, mas os que aparecem com maior freqüência datam seu nascimento como sendo em 10 de dezembro de 1920. Cruel incerteza... 

Mas Clarice tinha interesse por ocultismo, incluindo aí interesse por astrologia. Por exemplo, no livro “A via Crucis do corpo”, no conto “Dia após dia” ela diz sobre si mesma (num raro espasmo de auto-revelação): “Mas sou sagitário com escorpião, tendo como ascendente aquarius. E sou rancorosa. Um dia um casal me convidou para almoçar no domingo e no sábado de tarde, assim à última hora, me avisaram que o almoço não podia ser porque tinham que almoçar com um homem estrangeiro muito importante. Por que não me convidaram também? Por que me deixaram sozinha no domingo? Então me vinguei. Não sou boazinha. Não os procurei mais. E não aceitarei mais convites deles. Pão pão, queijo queijo”. Depois entrarei em mais detalhes sobre o possível e totalmente improvável, mas ainda assim descrito teimosamente por mim, mapa de Clarice, a misteriosa. Clarice gostava de horóscopo, tarô, i ching e jamais fez segredo disso pra ninguém. E 1975 ou 1976 (não estou certo) ela até participou de um congresso sobre bruxaria, onde leu seu desconcertante “O ovo e a Galinha”.



E o mapa de Clarice? Bom, considerando a data que mais aparece como sendo a verdadeira e o fato de ela dizer sobre si mesma que seu ascendente é aquário, vejamos então no dia 10 de dezembro de 1920 em que horário tínhamos aquário ascendendo em Chechelnyk, Ucrânia. Entre as 10:35 AM e 11:50 AM temos Aquário ascendendo. Nesse espaço de tempo a lua se aplicava em conjunção com o sol, com a lua nova exata sendo depois das 12:00. Ascendente aquário é a imagem blasé que vemos nas lindas fotos de Clarice. É uma frieza e um humanismo muito fortes que concedem ao indivíduo a capacidade de enxergar a vida e as pessoas com muita clareza. É também o desdém pelo óbvio, ou a arte de chocar fazendo uso do óbvio. É estar a frente do seu tempo, é não se importar com opiniões alheias, é uma semi-iconoclastia, de alguém que não vem para destruir, mas que vem para reformar. Independente do horário o planeta Urano em 2° de Peixes cai na casa 1, o que reforça todas essas características. Saturno, o regente tradicional de aquário cai na casa 8 em Virgem(independente do horário para ascendente aquário) o que indica a busca pelo entendimento do que está por trás do que é óbvio, é o interesse pelo mistério, é o fascínio mórbido pelos mistérios da vida e da morte, é também um dos indicadores de interesse para o ocultismo. 

Sol e lua estão em 18°Sagitário, e Júpiter está em 18°Virgem, numa quadratura pártil (exata), portanto. Isso costuma significar uma pessoa muito direta, honesta, otimista, exagerada e com muita fé, fé demais neste caso. Mas vemos que saturno está em 24°Virgem, em conjunção com Júpiter e em quadratura com os luminares. Existe uma mistura de tendências antagônicas neste caso, a fé e o ceticismo andando lado a lado, o medo e a angústia de viver convivendo com uma linda filosofia baseada no otimismo, no amor a vida por ela ser o que é. Uma extrema impulsividade, um forte exagero, tudo isso refreado por uma severa autocrítica. Clarice sobre si: 

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”



Para a data que estamos usando, mercúrio, a faceta mais conhecida do público de Clarice Lispector, está em 29° Escorpião. É um cérebro penetrante, desconfiado, que mergulha fundo em toda e qualquer questão, que tem um modo incisivo de se expressar, que ofende e injuria com maestria, que é irônico, sarcástico, rancoroso e malicioso. Ao mesmo tempo fala da pessoa que não costuma externar suas opiniões pessoais, suas angústias e intimidades: tende a ser um túmulo sobre si mesmo. Indica o gosto pelo silêncio, o que não impede a pessoa de ser eloqüente. O fato é que nada do que essa pessoa diz é à toa. E Vênus, em 27° de Capricórnio está em sextil com mercúrio. Tudo é dito com um verniz um pouco mais aveludado, de forma aceitável, harmônica, bela artística. Apesar de ser um aspecto comum, esse é um daqueles que constam nos manuais astrológicos do tipo receita-de-bolo como indicador de dons literários. Este caso pelo menos está confirmando. 



Vênus em Capricórnio também se refere a profundidade do universo emocional da escritora. Vênus aqui está no mais consciente de todos os signos, naquele que possui a visão mais severa e realista sobre si mesmo, que vê sua própria verdade, sente asco por ela mas ainda é capaz de se aceitar exatamente desse jeito, porque é justamente o signo que trata daquilo que chamamos de tempo. Capricórnio vem de uma longa caminhada e quando chega onda está – no topo, depara-se com um imenso abismo e vem a consciência: então tudo isso foi pra nada... bom, mas já que estamos aqui, façamos o melhor que pudermos disso que é a vida. A pessoa que tem vênus em capricórnio (especialmente no caso de Clarice, que seria uma vênus em trígono com saturno) vê a si mesma com tanto realismo, que no final é incapaz de não se amar, diferente da vênus em virgem que separa de si mesma suas imperfeições e escolhe odiar-se por possuí-las. No trecho abaixo Clarice evidencia sua faceta de Vênus em capricórnio: 

“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.” 



Netuno em 13° Leão, em trígono com os luminares e provavelmente em oposição com o Ascendente é o mistério de Clarice, ou melhor, se realmente o for, ele representa o seu mistério. A pessoa que nasce sob um céu que mostra um netuno no ocaso é envolta em neblina e o que ela mostra para as pessoas é um personagem. Também é nebulosa a forma como ela encara as pessoas, netuno nestas condições fala de alguém que fantasia o outro, que não perde tempo vendo-o realisticamente, mas cria-o... parece perfeito para alguém que vive de criar personagens e de imaginá-los... 



No “nosso” mapa de Clarice, marte tem grandes chances de estar em conjunção com o ascendente. Ela o tinha em 10° aquário. De qualquer maneira, se Clarice dizia a verdade quando falava no seu ascendente aquariano, ela teria marte no mesmo signo do ascendente, o que convenhamos, já é algo significativo. A pessoa com marte na casa 1 tem iniciativa, é impulsiva, inconsequente e tende a ser agressiva, sobretudo nas idéias, porque neste caso marte está em um signo aéreo. Fala de uma pessoa muito incisiva com as palavras (confluindo com mercúrio escorpião), alguém que sabe sustentar uma opinião, e alguém que também se sente na obrigação de fazer algo pelo grupo, aliás, acha que todos têm essa obrigação:

“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser. O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. [...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.” 

É interessante notar como saturno em virgem se faz presente em tudo o que ela diz sobre si mesma, sempre com extrema modéstia. Os textos colados aqui eu encontrei no site oficial de Clarice Lispector, e os mesmos foram extraídos do livro “Aprendendo a Viver”, de Clarice. Bom, como ja deixei claro no início inexistem certezas sobre o nascimento da nossa querida escritora. Estou e valendo daquilo que aparece co maior freqüência (a data) e do que ela fala de si (sou sagitário, escorpião, ascendente aquário), além de haver incerteza quanto ao calendário correto a ser usado(ela nasceu quando a Rússia estava ainda na transição do seu calendário) portanto a dúvida sobre Clarice ainda está no ar. Algum dia será que surgirá alguém capaz de decifrar tamanho enigma? acho que no dia que ela for decifrada seu nome se apaga da história. É como se não pudesse existir Clarice Lispector sem o mistério, que graça teria? 

Daqui.



Para Drummond, com carinho...




O poeta

“Em meus arroubos de infância
numa doce ignorância
julgava eu que os poetas
pelas mãos de Deus, benditos
eram homens pudicos, profetas

E adolescente ainda
pensava, coisa mais linda
viajar todo o universo
retendo entre as mãos a sorte
de voar do sul ao norte
nas asas de um só verso

Não sei bem porque,um dia
juntei toda a fantasia
daqueles sonhos de infância
à dura realidade da minha maturidade
E fiz primeira instância
Desde então versei saudade
tristeza, amor, liberta
Tudo quanto a vida ensina

Compreendi que ser poeta
não é profissão ou meta
é dom natural, é sina

Todos têm a mesma sorte
o direito à vida e à morte
E quando o fim se aproxima
a diferença é uma só
muitos retornam ao pó
o poeta...vira rima”
V.Bauer

Poetas não morrem, viram rima. Por isso, esses anos de falecimento são só um detalhe para quem a eternidade é certa. O poeta que pontuou sua obra falando da morte constantemente se deixou levar por ela quando perdeu o grande amor de sua vida, sua filha. Desolado, Drummond pede a sua cardiologista que lhe receite um “infarto fulminante”. Apenas doze dias depois, em 17 de agosto de 1987, Drummond morre numa clínica em Botafogo, no Rio de Janeiro, de mãos dadas com Lygia Fernandes, sua namorada com quem manteve um romance paralelo ao casamento e que durou 35 anos (Drummond era 25 anos mais velho e a conheceu quando ele tinha 49 anos). Era uma amor secreto, mas nem tanto. Lygia contaria ao jornalista Geneton Moares Neto (a quem Drummond concedeu sua última entrevista) que “a paixão foi fulminante”.
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Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
C.D.A.

A VIDA
“Minha vida? Acho que foi pouco interessante. O que é que eu fui? Fui um burocrata, um jornalista burocratizado. Não tive nenhum lance importante na minha vida. Nunca exerci um cargo que me permitisse tomar uma grande decisão política ou social ou econômica. Nunca nenhum destino ficou dependendo da minha vida ou do meu comportamento ou da minha atitude.
“Eu me considero - e sou realmente - um homem comum. Não dirijo nenhuma empresa pública ou privada. A sorte dos trabalhadores não depende de mim”.
“Sou apenas um homem/ Um homem pequenino à beira de um rio/ Vejo as águas que passam e não as compreendo/ ...Sou apenas o sorriso na face de um homem calado” (América - trecho)


A SOLIDÃO
“Se eu me sinto solitário? Em parte, sim, porque perdi meus pais e meus irmãos todos. Nós éramos seis irmãos. E, em parte, porque perdi também amigos da minha mocidade, como Pedro Nava, Mílton Campos, Emílio Moura, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Gustavo Capanema e outros que faziam parte da minha vida anterior, a mais profunda. Isso me dá um sentimento de solidão. Por outro lado, a solidão em si é muito relativa. Uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, uma pessoa que gosta de música, uma pessoa que gosta de ler nunca está sozinha. Ela terá sempre uma companhia: a companhia imensa de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos”.
“Precisava de um amigo/ desses calados, distantes,/ que lêem verso de Horácio/ mas secretamente influem/ na vida, no amor, na carne/ Estou só, não tenho amigo/ E a essa hora tardia/ como procurar um amigo?” (A bruxa - trecho)


A POESIA
“Não lamento, na minha carreira intelectual, nada que tenha deixado de fazer. Não fiz muita coisa. Não fiz nada organizado. Não tive um projeto de vida literária. As coisas foram acontecendo ao sabor da inspiração e do acaso. Não houve nenhuma programação. Não tendo tido nenhuma ambição literária, fui mais poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético. Não tive a pretensão de ganhar prêmios ou de brilhar pela poesia ou de me comparar com meus colegas poetas. Pelo contrário. Sempre admirei muito os poetas que se afinavam comigo. Mas jamais tive a tentação de me incluir entre eles como um dos tais famosos. Não tive nada a me lamentar. Também não tenho nada do que me gabar. De maneira nenhuma. Minha poesia é cheia de imperfeições. Se eu fosse crítico, apontaria muitos defeitos. Não vou apontar. Deixo para os outros. Minha obra é pública.
“Mas eu acho que chega. Não quero inundar o mundo com minha poesia. Seria uma pretensão exagerada”.
“Não serei o poeta de um mundo caduco/ Também não cantarei o mundo futuro/ Estou preso à vida e olho meus companheiros/ Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças” (Mãos dadas - trecho)

ADEUS
“Quem é que fala hoje em Humberto de Campos? Quem é que fala em Emílio de Menezes? Quem é que fala em Goulart de Andrade? Quem é que fala em Luís Edmundo? Ninguém se recorda deles! Não fica nada! É engraçado. Mas não fica, não. Não tenho a menor ilusão. E não me aborreço: acho muito natural. É assim mesmo que é a vida. “Não vou dizer como o Figueiredo: ‘Quero que me esqueçam!’ Podem falar. Não me interessa, porque não acredito na vida eterna. Para mim, é indiferente. “Nenhum poema meu entrou para a História do Brasil. O que aconteceu foi o seguinte: ficaram como modismos e como frases feitas:tinha uma pedra no meio do caminho’ e ‘e agora, José?’. Que eu saiba, só. Mais nada. “Não tenho a menor pretensão de ser eterno. Pelo contrário: tenho a impressão de que daqui a vinte anos eu já estarei no Cemitério de São João Baptista. Ninguém vai falar de mim, graças a Deus. O que eu quero é paz”.
“Quero a paz das estepes/ a paz dos descampados/ a paz do Pico de Itabira/ quando havia Pico de Itabira/ A paz de cima das Agulhas Negras/ A paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada de Morro Velho/ A paz da paz” (Apelo a meus dessemelhantes em favor da paz - trecho).

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Por quê?
Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?
C.D.A.


Leia mais aqui.

Amor...sempre ele.




Em junho de 2013, poucos dias antes do dia dos namorados, minha namorada terminou comigo. Eu fiquei sem entender. Voltei pra casa e durante todo o caminho me perguntava: "Por que?".
A única coisa que vinha na minha cabeça era a voz dela dizendo: "Eu amo você". Eu passei um mês sofrendo procurando respostas para o que estava acontecendo.
Um dia, entrei no quarto do meu pai chorando e perguntei: "Pai, ela dizia que me amava. Então, por que ela terminou comigo?".
Ele respondeu: "Meu filho, Quando alguém entra na sua vida e depois de algum tempo vai embora, pode ser qualquer coisa menos amor".
Eu disse: "Não da para entender. Um dia, existe amor e no outro tudo acabou". Ele respondeu: "Você nunca vai superar seus traumas se continuar procurando no amor uma lógica. Construa uma nova história".
Eu perguntei: "E de onde vem essa força pra começar algo novo?" Ele respondeu: "Não se preocupe com isso. Todo começo vem de um final".
Uma semana depois, meu pai foi diagnosticado com uma doença rara e degenerativa que iria matá-lo em alguns dias. Minha mãe não o abandonou. Ela ficou.
Meu pai saia toda sexta para comer pizza com dois irmãos. Quando ele parou de andar, meus tios começaram a trazer a pizza aqui em casa. Eles diziam: "Sem o seu pai, não tem graça".
E ficavam a noite inteira dando gargalhadas. Hoje, meu pai não consegue mais comer. Mesmo assim, toda sexta meus tios passam aqui em casa.
Meu pai estudou em Ouro Preto-MG. Na formatura ele combinou com três amigos de se encontrarem de cinco em cinco anos. Este ano, meu pai não pode ir porque ele não anda mais. Os amigos dele saíram do interior de Minas e vieram até aqui em casa.
Todo formando tem uma foto pregada na parede na república que estudou. Os amigos do meu pai trouxeram a foto dos quatro.
Pregaram a foto de cada um na parede do quarto e disseram: "Agora, a nossa república é a sua casa". E combinaram que daqui cinco anos estariam de volta. Meu pai chorou.
Meus pais completaram 47 anos de casados dia 2 de junho. Eles sempre dançaram nesse dia. Meu pai não consegue mais se levantar. Minha mãe entrou no quarto e colocou a música que eles dançavam. Ela disse: "Meu filho, traz a cadeira de rodas".
Eu perguntei: "O que você vai fazer?" Ela respondeu: "Vou fazer o que seu pai faria por mim". Eu busquei a cadeira de rodas. Minha mãe colocou meu pai na cadeira. Ela ajoelhou ao lado dele e disse: "Vamos dançar".

Abraçou meu pai e fez a cadeira girar. Ela ficou ajoelhada a música toda. Meu pai chorava e ria ao mesmo tempo. Eles ficaram ali dançando e se divertindo. Eu voltei pro meu quarto chorando.
Abri o notebook e resolvi escrever esse texto. Porque eu vejo o mundo distorcendo ou complicando demais o amor. Um monte de gente dizendo fique com alguém que faz isso, que faz aquilo, que te de isso, que não sei o que mais.

Esse monte de regras e exigências, são coisas criadas pela cabeça. E, meu velho, não sei se você sabe mas o amor é criado pelo coração. O resto, é ilusão. Então, acredite. O amor, amor completo é quando você quer o outro sempre perto. Só isso.
autor: Ique Carvalho e o link para o blog www.thelovecode.com.br

As mãos do meu pai - Mario Quintana



Direto do Face



AS MÃOS DO MEU PAI
Mario Quintana

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah. Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.
E é, ainda, a vida
que transfigura as tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma. 


Feliz Dia dos Pais!

Lao Tse





"Se você está deprimido,
você está vivendo no passado.
Se você está ansioso,
você está vivendo no futuro.
Se você está em paz,
você está vivendo no presente."

Lao Tse

Felicidade Realista – por Mario Quintana (possivelmente de Martha Medeiros)

Não deixo de continuar gostando se o texto for da Martha Medeiros, por isso ele continua por aqui colocando pra pensar quem passa por essa vida com tanta pressa...

Felicidade realista - por Mario Quintana ou Martha Medeiros.

Poeta_Mario_Quintana

A princípio bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.
Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor… não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.
Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno.
Olhe para o relógio: hora de acordar É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça de que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.

marioq



Mario Quintana











Eu amo Quintana e a sua sempre perfeita noção de realidade poética.
Do excelente site: Viva 50.