Você é um empata?




Poucas vezes li um texto tão bom sobre empatia/empatas. Divido, como boa empata, com vocês. ;)





Para iniciar a conversa já adianto que não estou te perguntando se você é um empatador, um estorvo, um maçador. Estou perguntando se você é alguém capaz de perceber e de ser afetado pela energia das outras pessoas, captando os sentimentos e intenções alheias intuitivamente.
Ninguém aprende a ser empata ou sensitivo. É um traço natural que torna a pessoa mais receptiva às emoções e dores dos outros e mais vulnerável em relação às energias negativas. Empatas tendem a focar nos pontos positivos das outras pessoas e normalmente se expressam bem e tem muita facilidade para falar sobre sentimentos. Por outro lado, se captarem muita energia negativa ao seu redor podem se tornar calados e rabugentos.
Para um empata, por exemplo, assistir à excesso de violência em filmes e programas televisivos pode ser algo muito estressante pois ele se afeta com o sofrimento alheio. Empatas normalmente se sentem cansados em ambientes lotados e agitados pois involuntariamente captam o excesso de energias ali presentes. Uma balada é o último programa que um empata deve fazer.
Empatas costumam ser generosos, mas se obrigados a conviver com gente egoísta, que se acha o umbigo do mundo, pode se sentir mal. Empatas normalmente são bons ouvintes e gostam de aprender com os outros, mas podem se irritar com pessoas incapazes de entender seus pontos de vista.
Empatas costumam ser criativos e dotados de dons artísticos. Muitos empatas são ótimos atores. Eles se sentem mal com excesso de rotina. Para eles, fazer algo sem gostar não é uma possibilidade válida e quando limitados em sua liberdade se sentem bem afetados. Encurralar um empata por meio do sentimento de culpa o fará muito infeliz. Muitas pessoas consideram os empatas preguiçosos porque eles não conseguem se enquadrar em esquemas muito rígidos, em que sua liberdade é tolhida. Não curtem excesso de regras e formalidade.
Tudo o que contraria seus sentimentos soa como uma mentira e os empatas são apaixonados pela verdade. Enfim, tudo que ele faz precisa ter sentido, um forte significado. Empatas costumam se interessar por todo tipo de cura emocional e espiritual. Empatas tem mais facilidade para perceber quando alguém está falando uma coisa e sentindo outra. Enfim, captam a falta de honestidade, mas muitos podem bloquear esta percepção por não desejarem admitir que uma pessoa querida está sendo falsa.
Por captarem muito as energias alheias podem viver cansados e serem diagnosticados com fadiga crônica ou fibromialgia. Empatas buscam sempre o conhecimento e se entediados se tornam distraídos. Adoram sonhar acordados e preferem comprar objetos novos por não carregarem a energia alheia.
Alguns empatas mais afiados podem até captar se alguém está pensando algo mau a seu respeito. Alguns empatas deixam de comer carne mesmo gostando do sabor das mesmas por conseguir captar o sofrimento do animal ao morrer. Falando em animais, empatas normalmente gostam deles. Mesmo quando não possuem um animal de estimação, respeitam muito os mesmos. Muitos empatas optam por não ter um cachorro, por exemplo, por morar em um lugar pequeno e achar que o animal precisa de espaço para ficar feliz.
Empatas se voltam para os oprimidos e tendem a sentir compaixão por quem sofre. Podem até mesmo absorver as dores de outras pessoas. Normalmente empatas são escolhidos para ouvir desabafos, mesmo de pessoas estranhas, tornando-se um receptáculo de problemas e angústias variadas. Empatas precisam tomar cuidado com vícios. Em muitos casos podem adquirir algum para se preservarem das energias negativas. Alguns empatas podem se tornar viciados químicos ou alcoólatras, por exemplo. E muitos outros não chegam a se tornar viciados, mas bebem com razoável frequência.
As características apresentadas acima são apenas alguns dos traços de um empata. Existem outras. Para alguém ser considerado um empata é preciso se identificar com grande parte das características apresentadas. Então, você é um empata?

Para se aprofundar no tema em questão, acesse o link abaixo:
https://serunico.wordpress.com/2014/07/28/30-tracos-de-um-empata-como-saber-se-voce-e-uma-pessoa-mestre-em-empatia/


Autoria: Sílvia Marques
© obvious: http://obviousmag.org/cinema_pensante/2015/04/-voce-e-um-empata.html#ixzz3YHHswEKq 

"Exigências da vida moderna"- Luís Fernando Veríssimo





"Exigências da vida moderna"- Luís Fernando Veríssimo


Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro. E uma banana pelo potássio. E também uma laranja pela vitamina C.
Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.
Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.
Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão).
Cada dia uma Aspirina, previne infarto.
Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso.
Um copo de cerveja, para… não lembro bem para o que, mas faz bem.
O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.
Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver.
Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente.
E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia… E não esqueça de escovar os dentes depois de comer.
Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax.
Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.
Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma. Sobram três, desde que você não pegue trânsito.
As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).
E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.
Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.
Ah! E o sexo! Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo – e nem estou falando de sexo tântrico.
Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação.
Na minha conta são 29 horas por dia. A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo!
Por exemplo, tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes.
Chame os amigos junto com os seus pais.
Beba o vinho, coma a maçã e a banana junto com a sua mulher… na sua cama.
Agora tenho que ir.
É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro. E já que vou, levo um jornal… Tchau!
Viva a vida com bom humor!!!


Chico Buarque






sem mais.

Para sempre Chaplin...

"A vida é uma tragédia quando vista de perto,
mas uma comédia quando vista de longe"
Charles Chaplin

/...

VI
Já não penso em ti. Penso no ofício
a que te entregas. Estranho relojoeiro
cheiras a peça desmontada: as molas unem-se,
o tempo anda. És vidraceiro.
Varres a rua. Não importa
que o desejo de partir te roa; e a esquina
faça de ti outro homem; e a lógica
te afaste de seus frios privilégios.

Há o trabalho em ti, mas caprichoso,
mas benigno,
e dele surgem artes não burguesas,
produtos de ar e lágrimas, indumentos
que nos dão asa ou pétalas, e trens
e navios sem aço, onde os amigos
fazendo roda viajam pelo tempo,
livros se animam, quadros se conversam,
e tudo libertado se resolve
numa efusão de amor sem paga, e riso, e sol.

O ofício é o ofício
que assim te põe no meio de nós todos,
vagabundo entre dois horários; mão sabida
no bater, no cortar, no fiar, no rebocar,
o pé insiste em levar-te pelo mundo,
a mão pega a ferramenta: é uma navalha,
e ao compasso de Brahms fazes a barba
neste salão desmemoriado no centro do mundo oprimido
onde ao fim de tanto silêncio e oco te recobramos.

Foi bom que te calasses.
Meditavas na sombra das chaves,
das correntes, das roupas riscadas, das cercas de arame,
juntavas palavras duras, pedras, cimento, bombas, invectivas,
anotavas com lápis secreto a morte de mil, a boca sangrenta
de mil, os braços cruzados de mil.

E nada dizias. E um bolo, um engulho
formando-se. E as palavras subindo.
Ó palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo.
Poder da voz humana inventando novos vocábulos e dando sopros exaustos.
Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo,
crispação do ser humano, árvore irritada, contra a miséria e a fúria dos ditadores,
ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode
caminham numa estrada de pó e de esperança.
Fragmento - Canto ao Homem do Povo - Charles Chaplin - Carlos Drummnod de Andrade.



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Charles Spencer Chaplin nasceu no dia 16 de abril de 1889 às 20 horas, em um subúrbio de Londres. Sua mãe era atriz e ele já pequeno era levado por ela as suas apresentações, numa dessas idas, aos cinco anos, Chaplin fez sua estréia.
A primeira etapa da vida de Chaplin foi muito triste. O pai abandonou a família e ele vivia em orfanatos quando sua mãe não podia cuidar dele. Foi nessas passagens que Chaplin conseguiria involuntariamente adquirir subsídios para criar o doce vagabundo, que faria dele um dos comediantes mais famosos de todos os tempos. Pouco depois, a morte de seu pai e a internação da sua mãe em um sanatório marcariam a vida de Chaplin profundamente, nessa época assinou seu primeiro contrato estável como ator, interpretando um mensageiro em uma versão de Sherlock Holmes, melhorando sua condição financeira.
Foi em Paris, que conheceu os irmãos Lumiére, George Méliés e Max Linder fizeram nascer a magia do cinematógrafo. Ficou encantado com a tal "mágica".
O seu primeiro filme, estreado em fevereiro de 1914, mostrava as aventuras de um personagem cômico na redação de um jornal. Em seu segundo filme, Corrida de automóveis para meninos (1914), criou um personagem que logo seria identificado pelo público. Sennett pediu-lhe que se vestisse de maneira engraçada. “Pensei que poderia usar umas calças muito grandes e uns sapatos enormes, além de uma bengala e um chapéu coco. Queria que tudo fosse contraditório: as calças folgadas, o paletó apertado, o chapéu pequeno e os sapatos enormes. Assim nasceu o famoso “Tramp” (que os povos dos países de idioma espanhol passaram a chamar de “Carlitos”).


PhotobucketAs disputas com outros diretores e a ambição dificultaram sua relação com a Keystone, depois de ter filmado 35 longas-metragens em apenas um ano. Insatisfeito com os estúdios da Essanay em Chicago e em São Francisco, instalou-se em Los Angeles. Desde o primeiro dos quinze filmes que realizou para essa produtora, teve a colaboração de Rollie Totheroth, seu fiel câmera durante sua carreira nos Estados Unidos. Contratou Edna Purviance como primeira atriz dos filmes que realizaria nos próximos quinze anos , logo após ter começado a dirigir, percebeu “que o posicionamento da câmera não era apenas uma questão psicológica, ms também constituía a articulação da cena; na verdade, era a base do estilo cinematográfico”. O sucesso de Chaplin foi consolidado pelo contrato com a Mutual em 1916.

Chaplin teve uma vida riquíssima, grandes filmes, sucesso absoluto, criação de sua própria companhia, e alguns escândalos e envolvimentos com várias mulheres, a sua maioria bem mais jovens que ele. Superou a tudo, mas talvez a maior mágoa de sua vida foi a suspeita sobre a sua militância comunista, a falta de patriotismo que tinha impedido a sua nacionalização e a suspeita de adultério. Eram os últimos dias de Chaplin nos Estados Unidos. Passou a viver em Londres com sua última esposa, Oona O’Neil.

Apesar disso, o cineasta ainda viveu o suficiente para receber vários prêmios. Em 1971, a Academia de Hollywood quis restaurar a sua reputação nos Estados Unidos com um Oscar especial “pela incalculável contribuição à arte do século: o cinema”. Um ano mais tarde recebeu outro Oscar com um sabor especial, o de melhor trilha sonora pelo filme Luzes da Ribalta, que por não ter estreado em Los Angeles pôde ser candidato ao Oscar vinte anos depois. Nessa ocasião Chaplin decidiu voltar aos Estados Unidos e pisou um palco pela última vez, sendo aplaudido durante muitos minutos. Três anos mais tarde, a rainha da Inglaterra o nomeou cavaleiro do Império Britânico.

Algum tempo depois o doce vagabundo morreria num dia de Natal. 


"Aos que me podem ouvir eu digo: `Não desespereis!' A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia, da amargura dos homens que temem o avanço humano..." 

Charles Chaplin


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Simone de Beauvoir.


"... Que nada nos limite/ Que nada nos impeça/ Que nada nos sujeite/ Que a liberdade seja/ A nossa própria substância" (Simone de Beauvoir)


Morreu numa tarde de primavera, vítima de edema pulmonar, num hospital à margem esquerda do Sena, em Paris, a escritora e filósofa Simone de Beauvoir. Exatamente um dia antes do sexto aniversário da morte do filósofo Jean-Paul Sartre. Juntos e separados eles viveram, desde 1929, um dos maiores amores do século 20". Jornal do Brasil 



Conta a história que uma amiga de Simone de Beauvoir, professora universitária como ela, encontrou-a no corredor e disse: "Escolhi uma turma só de meninos. Eles são melhores, mais atentos. Já as meninas ficam sonhando e fazem cada pergunta fraca..." Simone não deu ouvidos. Sorte da colega, que escapou de enfrentar a fúria de uma feminista nata, sensível e inteligente. Aos 17 anos, Simone já era bacharel em Filosofia pela Sorbonne e, aos 21, dava aulas na universidade. Convicta de sua crença na necessidade de uma revolução das mulheres, vociferava até contra os livros de história infantil: meninas medrosas, sempre salvas pelos garotos. Para a escritora, é assim que se começa a lavagem cerebral. Entre os livros que escreveu está o clássico O segundo sexo (1949), em que ataca o casamento e a maternidade como formas de submissão. Com o filósofo Jean-Paul Sartre, seu companheiro por mais de 50 anos, teve um relacionamento inédito na época. Eles nunca se casaram, viveram em casas separadas, embora vizinhos de porta, e foram assumidamente infiéis. Além do amor por Sartre, a escritora nutriu paixões homossexuais, como a que veio à tona nos anos 90, com a aluna Bianca Lamblin, que revelou a história em livro.



Claro que esse é o resumo do resumo da história dela. Simone era uma intelectual de inteligência privilegiada. Participante do grupo de escritores filósofos que deram uma transcrição literária dos temas do Existencialismo, ela é conhecida primeiramente por seu tratado Le Deuxième Sexe (1949 - O Segundo Sexo), um apelo intelectual e apaixonado pela abolição do que ela chamou o mito do "eterno feminino". Esta notável obra tornou-se um clássico da literatura feminista.


Educada em instituições privadas, Simone depois freqüentou a Sorbone onde, em 1929, concluiu filosofia e conheceu Jean-Paul Sartre, começando com ele um companheirismo por todo o resto da vida. Ela ensinou em várias escolas (1931-43) antes de voltar-se para escrever para se manter. Em 1945 ela e Sartre fundaram e começaram a editar Les Temps modernes, uma revista mensal, da qual eles próprios eram os principais colaboradores.


Suas novelas abordavam os principais temas Existenciais, demonstrando sua concepção do compromisso do escritor com sua época. L'Invitée (1943 - "A convidada") descreve a destruição do relacionamento de um casal sutilmente provocada pela permanência prolongada de uma jovem em sua casa, e também trata do difícil problema de relacionamento de uma consciência para com outra, cada consciência individual sendo fundamentalmente predadora da outra.

Preocupada também com o problema da velhice, que ela aborda em Une Mort très douce (1964 - "Uma morte suave"), sobre a morte de sua mãe num hospital, e La Vieillesse (1970; Old Age), uma amarga reflexão sobre a indiferença da sociedade pelos velhos. Em 1981 ela escreveu La Cérémonie des adieux ("Cerimônia do adeus"), um doloroso relato dos últimos anos de Sartre.

Considerada uma mulher corajosa e íntegra, Simone de Beauvoir viveu de acordo com sua própria tese de que as opções básicas de um indivíduo devem ser feitas sobre a premissa e uma vocação igual para o homem e a mulher fundadas na estrutura comum de seus seres, independentemente de sua sexualidade.




Trecho de A Força da Idade.

"Para que minha vida me bastasse, precisava dar seu lugar à literatura. Em minha adolescência e minha primeira juventude, minha vocação fora sincera mas vazia; limitava-me a declarar: "Quero ser uma escritora". Tratava-se agora de encontrar o que desejava escrever e ver em que medida o poderia fazer: tratava-se de escrever. Isso me tomou tempo. Eu jurara a mim mesma, outrora, terminar com vinte e dois anos a grande obra em que diria tudo; e tinha já trinta anos quando iniciei o meu primeiro romance publicado, A convidada. Na minha família e entre minhas amigas de infância, murmurava-se que eu não daria nada. Meu pai agastava-se: "Se tem alguma coisa dentro de si, que o ponha para fora". Eu não me impacientava. Tirar do nada e de si mesma um primeiro livro que, custe o que custar, fique em pé, era empresa, bem o sabia, exigente de numerosíssimas experiências, erros, trabalho e tempo, a não ser em virtude de um conjunto excepcional de circunstâncias favoráveis. Escrever é um ofício, dizia-me, que se aprende escrevendo. Assim mesmo dez anos é muito e durante esse período rabisquei muito papel. Não creio que minha inexperiência baste para explicar um malogro tão perseverante. Não era muito mais esperta quando iniciei A convidada. Cumpre admitir que encontrei então "um assunto" quando antes nada tinha a dizer? Mas há sempre o mundo em derredor; que significa esse nada? Em que circunstâncias, por que, como as coisas se revelam como devendo ser ditas?
A literatura aparece quando alguma coisa na vida se desregra; para escrever - bem o mostrou Blanchot no paradoxo de Aytré - a primeira condição está em que a realidade deixe de ser natural; somente então a gente é capaz de vê-la e de mostrá-la."


Trecho de A Força da Idade (La Force de l'Age - 1960), livro de memórias de Simone de Beauvoir, no qual relembra o início de sua aventura literária, nos anos 30 e 40, ao lado de Sartre a quem o livro é dedicado.


Simone de Beauvoir faleceu no dia 14 de abril de 1986.

leia mais: Aqui  , Aqui e Aqui



Dia do Beijo


Dia do Beijo








Beijo

Eu quero um beijo glauberiano,
que me devolva o insano riso
o instante impreciso das línguas
corrompendo as horas.

Eu quero um beijo,
tem que ser lá fora
no quintal do mundo, onde num
segundo os lábios se maltratam
mas não se desatam deste gosto quente,
deste gesto em frente toda vizinhança.

Eu quero um beijo que interrompa a
dança
desta despedida.
E que tire do sério todo este hemisfério
de razão contida.


Edmilson Felipe





(...)
O mundo é grande

O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.
(...)

Carlos Drummond de Andrade




Se tu viesses ver-me hoje à tardinha

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...


Florbela Espanca



Beijo

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no de abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mas beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.

E dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombra
se nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja


Jorge de Sena




Silêncio Amoroso I

Deixa que eu te ame em silêncio
Não pergunte, não se explique, deixe
que nossas línguas se toques, e as boca
se a pele
falem seus líquidos desejos.

Deixa que eu te ame sem palavras
a não ser aquelas que na lembrança ficarão
pulsando para sempre
como se o amor e a vida
fosse um discursode impronunciáveis emoções.

Affonso Romano de Sant'Anna





Beijosua boca uva rubra
roça meus lábios
e por segundos
somos murmúrios úmidos
seiva cósmica de línguas
púrpuras

Virgínia Schall






Desencontro
Seguro um pescoço desconhecido
Familiar é o perfume que exala
Embriagado de sobriedade
Nulo de paixões ou vontade
Objetos começam a cair
Caem saias meias pudores
Cadeiras pratos corpos
Religiões e amores
Ah! que se danem os rumores
Tocamo-nos em beijo
O peito arfa embaça teu rosto
Quando o vejo não me vejo
Não és o reflexo meu
Nunca te procurei nem quis
Te achei por aí
Carlos Bencke





Quero lhe beijar a boca

Quero lhe beijar a boca
morder seus lábio
se brincar sua língua na minha.
Quero lhe beijar a nuca
lhe arrepiar inteiro
encostar meu peito no seu
até os corações se compassarem
as mãos entrelaçadas suarem.
Quero um abraço eterno
de guardar seu cheiro na minha pele.
Quero me queimar no seu fogo
e guardar pra sempre a cicatriz escarlate
desse nosso encontro.
cigana






Ouve, meu anjo
Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...

Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar
Antonio Botto





Poemas de saliva
Deslizo poemas de saliva
No rascunho da tua pele
Rimas profanas, estrofes abissais
O sentido profundo de um verso
Fala a língua dos teus gestos
Em convulsões gramaticais
Poemas recatados na tua pele sem pecado
Poemas de navalha no teu corpo sem perdão
A figura de linguagem do desejo
Fala a língua do meu beijo
Sem tradução


Ricardo Kelmer






Tua Voz
Tua voz me entra pelos ouvidos
me preenche o corpo
de outros líquidos

percorre pêlos e pele
desliza suave
grave
escorrendo obscena

Tua boca
porta lasciva
é semente dos meus beijos
escolhe caminhos
contorna o pescoço
e me sorri macia
abafando entrecortado suspiro...
andrea augusto©angelblue83




Baton nas bordas

Aviado o encontro
dedal de vinho.

Tateio os olhos
fivelo carícias
arremato intenções
entreteço moldes
alinhavo idéias
com fios da seda.

Veneno têxtil
me dispo te visto
casulo do tempo.

Abro casas
descubro rendas
saboreio mangas
tricotando gemidos

Zipe incontido
cadarço na agulha
vai vem da costura

Acarecio botões
colchete de peles
novelo de orgasmo
carretéis em volúpias
bordando teu nome
em meu coração,
Amor Tecido.
Beto Quelhas




Modéstia às favas é a minha especialidade mais perfeita, mais completa mesmo... Dedico - me a arte do beijo desde sempre com o ardor das primeiras vezes, sempre único, úmido, inteiro, eis a verdadeira penetração explícita de duas línguas mútuas e recorrentes, quentes serpentes a percorrer todos os viés e papilas gustativas.








Amor e Sexo.


Genial pra dizer o mínimo! Essa palestra do Flavio Gikovate. deveria fazer parte do currículo escolar para formar pessoas mais sadias nessas questões. Assista, vai fazer muita, muita diferença no seu modo de pensar sobre esse assunto.





Em algum lugar do passado...

Em algum lugar do passado...
aqui no presente.
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Agora no Telecine Cult, na verdade escrevo e vejo aqui na TV ao lado, o  filme "Em algum lugar do passado" .São 23:18 de uma sexta-feira.

Eu não sou saudosista, mas tenho muita saudade de alguns dias da minha vida e esse filme me lembra tanto o primeiro amor... Altíssimo, cabelos pretos e olhos azuis. Às vezes, penso que o único amor puro na essência é o primeiro mesmo, e não precisa ser necessariamente na adolescência, basta ser numa idade em que ainda não se aprendeu a jogar, que dizer "eu te amo" com medo de ser o primeiro a dizer, nem passa pela cabeça. Que demonstrar  amor não gera no outro um sentimento de poder, de estar  no domínio da situação, apenas um conforto, um calor aconchegante no coração dizendo: em algum lugar tem alguém que pensa em mim com  amor.
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Coisa difícil nos dias de hoje e por isso mesmo continuo achando que nasci na época errada. Admiro o tempo em que um fio de barba, uma palavra dada era o necessário para se fechar acordo, cumprir promessas.

Hoje não, nada nos garante sequer que alguém está dizendo a verdade, muito menos seria uma temeridade aceitar uma palavra sem lavrar em cartório. Uma pena, que tudo isso tenha se perdido.
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Passam os séculos, mudam os anos e os tempos modernos nos falam da independência amorosa, das noites onde o desencontro esta marcado em algum bar, festa ou lugar, onde estamos, mas ele nunca esta. Ele? Ele mesmo, esse tipo de amor ou melhor vontade de amar que o tempo não supera ou apaga.
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Esse que quando estamos sem ele, o objeto amado, continuamos sentindo sua presença onde não mais se encontra. Ou que telefonamos, escrevemos só para nos certificarmos de sua presença no mundo. É quando se percebe que mesmo o desejo de esquecê-lo é o mais forte estímulo para dele se lembrar.


Não há solução, como disse Nietz, quando descobriu "a fórmula da grandeza do homem : amor fati". Não evitar nem se conformar e muito menos dissimular, mas afirmar o necessário, amar o que não pode ser mudado.
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A décima oitava variação de Rapsódia, de Rachmaninoff, é o toque do meu celular quando quem liga não tem música própria. Não há quem não reclame, quando toca dizendo que é fúnebre. Não acho e pensando bem, talvez seja uma forma de me manter ligada a um passado que faz parte da minha história.
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...mas deixa eu continuar a ver o filme.







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O quê?




 O quê??????


Amor pleno - Flavio Gikovate




Os que estão mais preparados para um relacionamento amoroso correspondido buscam um parceiro com igual disposição e essa já é uma afinidade!
Quem ousa mergulhar numa relação correspondida experimenta um medo difuso e aparentemente inexplicável: apesar da intensidade, é inofensivo.
O medo que acompanha as relações amorosas onde existem enormes afinidades é bom indício: os que o enfrentam viverão uma história fascinante.
Paixão é o amor intenso entre pessoas afins associado ao medo. Quando o medo se atenua e a dependência inicial também, vive-se o amor pleno.
O elo amoroso de boa qualidade surge entre pessoas afins e ponderadas: é isento de brigas, desrespeito, intolerância e tolera as diferenças.
As relações de qualidade tornam os parceiros íntimos e cúmplices; conhecem os pontos fracos um do outro e jamais se valem disso contra eles!
As relações amorosas entre afins se aproximam mais que tudo das amizades, talvez a mais madura e sincera forma de interação entre os humanos.
Os casais que são, ao mesmo tempo, amigos e amantes vivenciam algo que é bem mais do que amor (no sentido usual do termo): esse é o +amor!
Flavio Gikovate


Dúvidas Pascais - Luís Fernando Veríssimo


DÚVIDAS PASCAIS     

- Papai, o que é Páscoa?

- Ora, Páscoa é ...... bem ...... é uma festa religiosa! 
        
- Igual Natal?                                                

- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na     Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.   

- Ressurreição?
                  
- É, ressurreição. Marta, vem cá!                            

- Sim?                                                

- Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.              

- Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?
  
- Mais ou menos ....... . Mamãe, Jesus era um coelho?

- Que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma Educação cristã! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Ave Maria! 

-  Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?
                          
-  É filho, Jesus e Deus são a mesma pessoa. Você vai estudar isso no catecismo. Chama-se a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.        

-  O Espírito Santo também é Deus? É sim.
            
- E Minas Gerais?                                                

- Sacrilégio!!!                                       

- É por isso que a Ilha da Trindade fica perto do Espírito Santo?                 

- Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas quando você for no
catecismo  a professora explica tudinho!                

-  Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?

-  Eu sei lá! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.               

- Coelho bota ovo?                 

-  Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!

- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
- Era, era melhor, ou então urubu.    
                                      
-  Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né? Que dia que ele morreu?                             

-  Isso eu sei: na sexta-feira santa.
                 
-  Que dia e que mês?                        

- ??????? Sabe que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na sexta-feira santa e ressuscitou três dias depois, no sábado de aleluia.
        
- Um dia depois.                                              

-  Não, três dias.                                

-  Então morreu na quarta-feira.
       
-  Não, morreu na sexta-feira santa ....... ou terá sido na quarta-feira de cinzas? Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois!                  
- Como?                                              

-  Pergunte à sua professora de catecismo!
 
-  Papai, por que amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?                 

- É que hoje é sábado de aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
                
-  O Judas traiu Jesus no sábado?
                     
-  Claro que não! Se ele morreu na sexta!!!
  
-  Então por que eles não malham o Judas no dia certo?

- É, boa pergunta. Filho, atende o telefone pro papai. Se for um tal de Rogério diz que eu saí.
                                                   
-  Alô, quem fala?                                                  

- Rogério Coelho Pascoal. Seu pai está?
                 
-  Não, foi comprar ovo de Páscoa. Ligue mais tarde, tchau.
-  Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
- Cristo. Jesus Cristo.        

- Só?               

- Que eu saiba sim, por quê?

- Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?                      

- Coitada!                       

- Coitada de quem?      

-  Da sua professora de catecismo!!!

Luis Fernando Veríssimo



Para sempre,Brando...


Marlon Brando


"Sofri muita miséria em minha vida por ser famoso e rico"
Marlon Brando



Marlon Brando nasceu em 3 de abril de 1924, em Omaha, no Estado americano de Nebraska, filho de um vendedor e de uma atriz que liderava um grupo de teatro local. Anos depois, ele foi mandado para uma academia militar em Minnesota, mas acabou sendo expulso.
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Brando tornou-se a expressão de uma interpretação verdadeira e realista, que nunca teria existido sem ele. Reconhecido por ser metódico, reescreveu as regras de atuação e, com sua impactante sensualidade, redefiniu a forma do astro de cinema masculino.

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(FSP, 19/07/90) Brando, Marlon - Brando foi um dos homens mais bonitos do século. Sua beleza está registrada indelevelmente em filmes como Espíritos indômitos, The men, e Uma rua chamada Pecado. A street-car named Desire. Brando tinha movimentos de felino. Ele sempre disse que foi o fato de lhe quebrarem o nariz, numa luta de boxe, entortando-o, que o fez ter um rosto diferente. Waaal, os traços dele são muito bons, os olhos são fundos e, claro, talento não se explica. Queimava o resto do elenco em Espíritos indômitos pelo simples ato de olhar para eles. Em uma rua chamada Pecado, quando o estão gozando por suas maneiras rudes, ele dá com a mão num prato e, já observei várias vezes, apesar de o filme ser em preto e branco, ele fica pálido de raiva. É a extraordinária capacidade de auto-introspecção de Brando e sua capacidade de projetá-la que o tornaram unicamente célebre. Ele não precisava fazer nada, apenas ser em cena.
Paulo Francis


"Sempre penso que se eu não fosse ator teria sido um vigarista e acabado na cadeia. Ou talvez tivesse enlouquecido."

"A profissão mais antiga do mundo não é a prostituição, é a representação. Até os macacos representam."

"Nunca me esforcei para ser um sucesso. Simplesmente aconteceu. Eu apenas tentava sobreviver."

"Passei a maior parte da vida com medo de ser rejeitado, e acabei rejeitando a maioria das pessoas que me ofereceram amor porque não conseguia confiar nelas."

"Eu dou risada das pessoas que dizem que fazer filmes é arte e que os atores são artistas. Artistas foram Rembrandt, Beethoven, Shakespeare e Rodin; os atores são formigas operárias que participam de um negócio e labutam por dinheiro."

"Temos [nos Estados Unidos] uma abundância de coisas materiais, mas uma sociedade bem sucedida deveria produzir pessoas felizes, e acho que nós produzimos mais gente infeliz do que praticamente qualquer outro lugar da terra."

Talvez nem fosse preciso fazer pesquisa e colocar aqui resumidamente o que Brando foi e representou. No caso dele, acredito, bastava uma foto e tudo estaria ali. Irretocável.


Imagem - Cinema Clássico - Facebook
91 anos de nascimento.
3 de abril de 1924 - 1 de julho de 2004