RIP Rubens Alves


Apenas um dia após a morte de  João Ubaldo Ribeiro, hoje perdemos o poeta Rubem Alves.
Psicanalista, educador, teólogo, escritor e um poeta brilhante. Um triste dia para aqueles que amam as palavras bem escritas, desenhadas em rimas ou não, mas sempre bem colocadas direto no coração de todos.



"A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nome de ruas, e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que veem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo..." [Rubem Alves]
 
 
 
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Sou psicanalista. E tenho fé. E não tenho de cometer nenhum suicídio intelectual para que elas convivam dentro de mim.
A psicanálise diz em prosa aquilo que a poesia e a literatura souberam sempre: “somos feitos da mesma matéria dos nossos sonhos” (Shakespeare). Essa afirmação, se interpretada cientificamente, é um non-sense. Pois ela diz que o nosso corpo é feito com uma mistura impossível de realidade e irrealidade. Realidade: ossos, músculos,sangue, cérebro, neurônios, hormônios – entidades que moram no mundo da ciência. Mas sonhos? Sonhos são irrealidades. Não possuem substância. São imagens que aparecem fortuitamente na mente para logo desaparecerem, faltando-lhes as qualidades cartesianas de clareza e distinção. Não é por acaso que a ciência os tenha eliminado do seu discurso, com a consequente redução da poesia e da literatura à categoria de “diversões”, brinquedos mentais vazios de qualquer realidade. Um cientista, como cientista, jamais iria à literatura para aprender sobre a realidade. Literatura é relax, uma alternativa aos tranquilizantes… A frase de Shakespeare, na verdade, contém uma nova filosofia herética que afirma que “aquilo que não é, é”. E a prova de que “o que não é,é” está em que o corpo chora, ri, ama, luta, produz arte, movido por essa irrealidade. Parafraseando Sartre: “O nada é ser”.
A psicanálise, assim, antes de ser uma prática terapêutica, é uma metafísica. E o seu poder terapêutico se deve ao fato de que ela trata as coisas que não foram não são e não serão como se fossem. Tudo começou nos sonhos: “A interpretação dos sonhos é o caminho áureo para o conhecimento do inconsciente”. O grande salto filosófico aconteceu quando Freud se deu conta de que os traumas que se encontravam na origem dos sofrimentos dos seus pacientes não pertenciam ao mundo que a ciência define como realidade. Não haviam acontecido de fato. Eram fantasias. Mesmo quando havia um núcleo de realidade na memória desses traumas, seu poder patogênico se encontrava numa ficção, a forma literária que a mente lhes dava.
Mas isso não era novidade para os místicos e os poetas. Eles sempre o souberam. Está escrito no texto sagrado que o corpo é o Verbo encarnado. D. Miguel de Unamuno, filósofo e místico espanhol (Guimarães Rosa, perguntado sobre o que ele pensava dos filósofos, respondeu: “A filosofia é a maldição do idioma. Mata a poesia desde que não venha de Kierkegaard ou Unamuno, mas então é metafísica” [Arte em Revista, ano I, na 2. São Paulo: Centro de Estudos de Arte Contemporânea, p. 7]), num humoroso diálogo fictício com um materialista que chamava as produções poéticas de “sardinhas fritas”, conclui o diálogo impossível retornando à sua solidão e repetindo para si mesmo:
Unamuno
Recuerda, pues, o suena tu, alma mia
- Ia fantasia es tu sustância eterna -,
Io que no fué;
con tus figuraciones hazte fuerte,
que eso es vivir, y Io dernás es muerte.
(Miguel de Unamuno, “Conversación segunda”, Ensayos. Madri: Aguilar Ediciones, 1951, p. 554)
Fernando Pessoa também se movia no mundo dás coisas que não existem:
O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas que nunca existirão…
São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor…
(Fernando Pessoa, Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1990, p. 169)
Manoel de Barros, esse maravilhoso poeta mato-grossense, especialista em aforismos, também faz a sua escritura sobre o que não existe: “As coisas que não existem são mais bonitas…” (Livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 1993, p. 7).
E Paul Valèry: “Que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem?”. Então o que não existe ajuda? Se ajuda, tem poder. Se tem poder, é real. Será que Deus pertenceria a essa classe de
não existentes que existem?
Riobaldo diria que sim: “Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver”  (Guimarães Rosa, Grande sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1978, p. 49).
Esse “mas” parece introduzir uma diferença entre a “realidade” de Deus e a “realidade” do demônio. Mas basta ler o texto com atenção para perceber que tanto Deus quanto o demônio não precisam existir para haver; existem mesmo quando não há. O que nos conduz ao aforismo por meio do qual Guimarães Rosa resumiu essa metafísica insólita:
“Tudo é real porque tudo é inventado”.
Os artistas fazem amor com o que não existe. Trabalham para dar forma sensível a esse objeto – sabendo que ele sempre lhes escapará.
 
Por mais rosas e lírios que me dês
eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
sobrar-me-á sempre o que desejar…
(Fernando Pessoa, Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1990, p. 406)
A psicanálise, nos seus primórdios, participava da metafísica científica dominante. Considerava os sonhos (não existentes) como “efeitos” de “causas” históricas e biográficas, eventos realmente acontecidos. O processo interpretativo tinha por objetivo encontrar as raízes materiais das quais surgiam os sintomas que afloravam no corpo e na mente de pessoas perturbadas. Comentando Roheim (Magic and schizophreniã), Norman O. Brown diz o seguinte:
A psicanálise se iniciou como um avanço a mais da objetividade científica civilizada; expor os resíduos de participação primitiva, eliminá-los; estudar o mundo dos sonhos, da magia primitiva, da loucura. Mas o resultado da psicanálise foi a descoberta de que a magia e a loucura estão em todo lugar, e que os sonhos são aquilo de que somos feitos.
(Norman O. Brown, Love’sbody. Nova York: Random House, 1966, p. 154)
Assim, estamos destinados a viver fazendo amor com o que não existe. É impossível amar uma fórmula de física. Mas um poema, uma canção, um raio de Sol refletido numa gota d’água – isso nos comove. Amamos uma pessoa não por aquilo que ela é, mas pelo manto de fantasia com que a cobrimos.
Ludwig Feuerbach, antes de Freud, no seu livro A essência do cristianismo (que deveria ser leitura obrigatória para todo psicanalista), disse o seguinte:
 
A religião é um sonho da mente humana. (…) Vemos as coisas reais no fascinante esplendor da imaginação e do capricho… O homem – esse é o mistério da religião – projeta o seu ser na objetividade e, a seguir, faz-se objeto dessa imagem projetada de si mesmo, agora transformada em sujeito. (Ludwig Feuerbach, The essence of christianity. Nova York: Harper, 1957, pp. xxxix e 29-30)
Segundo Feuerbach – creio que Freud concordaria com ele -, o fenômeno objetivo denominado religião se deve a um mecanismo psicológico: o homem toma a sua essência (essa é a palavra usada por ele) e a projeta para fora, tendo o universo como tela. Assim, aquilo que era “sonho” é transformado numa realidade objetiva exterior, independente do homem, a qual se volta sobre ele e o domina. Essa é a essência da idolatria: a transformação do sonho em realidade. Os deuses são ídolos. Espero que as pessoas religiosas concordem comigo em que essa crítica está presente nos textos proféticos do Antigo Testamento. Entendo que toda a crítica freudiana da religião se refere a esse mecanismo de projeção e a seus resultados institucionais.
Eu me lembro a primeira vez que fui ao cinema. Menino, sete anos, sul de Minas. Terminado o filme, fiquei olhando para uma porta que havia ao lado da tela, esperando a saída dos artistas… Eu não sabia o que era “projeção”! As religiões são assim: pensam que as projeções que a alma faz sobre a tela da imaginação são coisas objetivas,
lá fora. Contra essa fé religiosa, a crítica freudiana é implacável. Pela simples razão de que a existência das projeções se dissolve sob a análise dos mecanismos mentais. A religião, assim entendida, não passa de uma ilusão.
Mas haverá outra forma de entender a fé? Uma fé que não seja crença nos seres que a religião afirma existir?
 
Uma fé que não necessite de ídolos?
Uma fé que seja capaz de conversar tranquilamente com a psicanálise?
Uma fé que respire o ar dos sonhos? Digo agora o que entendo por fé.
Já disse que, na experiência artística, fazemos amor com coisas que não existem. “As coisas que não existem são mais bonitas”: delas, a alma se alimenta. A própria existência da arte é uma evidência de que “as coisas que não existem têm o poder de nos socorrer”.
Quando, no meio de todos os sonhos que amamos, encontramos um sobre o qual lançamos a nossa vida, abandonando-nos a ele em virtude de sua beleza, sem nenhuma certeza, quando “apostamos” (Pascal, Kierkegaard) a nossa vida e nos lançamos no vazio do “não ser” – a esse ato eu dou o nome de fé. Ele nada tem a ver com a crença na existência de seres sobrenaturais. Não se trata de um suicídio intelectual pelo qual afirmamos a existência de algo que não pode ser testado. Trata-se de um ato de amor, de vontade e de coragem. Abandonando todas as certezas, por esse sonho eu arrisco a minha vida. Paul Tillich dava a esse gesto supremo de amor por um sonho o nome de ultimate concern – expressão que não sei traduzir, talvez “comprometimento último”. Como disse Miguel de Unamuno, católico convicto, no seu livro O sentimento trágico da vida (Porto: Educação Nacional, 1953, p. 145), “acreditar em Deus é, antes de mais nada e principalmente, querer que ele exista”. Ora, existe uma distância abissal entre afirmar “creio que Deus existe” e “desejo que Deus exista”.
Segundo Ernst Jones, “Freud disse de Nietzsche que ele tinha um conhecimento mais penetrante de si mesmo que qualquer outro homem que tenha existido ou que venha a existir” (Walter Kaufmann, Basic wrítings of Nietzsche. Nova York: The Modern Library, 1968, p. xi). Nietzsche tinha um profundo desprezo pelas religiões e pelosreligiosos. E, no entanto, ele  era um homem de fé. Acusando os cientistas de sua época que só reconheciam a realidade física, ele disse: “Vós sois estéreis; esta é a razão por que não tendes fé.
Mas quem quer que tenha criado teve seus sonhos proféticos e signos astrais – fé na fé”. Segundo o próprio Nietzsche, a louca firmação do eterno retorno de todas as coisas foi a mais alta forma de afirmação da vida que ele encontrou. Fato empírico? Não. Sonho. Esperança. Fé. Como Nietzsche, Freud desprezava as religiões e o pensamento religioso: ilusões, neurose. Por vezes, psicose. E, no entanto, como Nietzsche, ele tinha também a sua fé. Olhando para a vida, ele podia ver potências invisíveis, por detrás de tudo o que acontece. Dois deuses poderosos, Eros e Tânatos, Amor e Morte. Realidades? Não. Poesia, metáforas, sonhos. E olhando para esses dois deuses, ele orientou a sua vida. Apostou em Eros, a despeito da sombra de Tânatos que ameaçava a civilização. Todo o trabalho psicanalítico é, em última instância, um ato de fé, uma batalha para fazer com que o Amor triunfe sobre a Morte.
Garantias de um final feliz não há. A experiência clínica o comprova. A despeito disso, a fé brilha, invocando o socorro das coisas que não existem.
Rubem Alves
 
 

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