Dá uma parada, plis...



 

Essa matéria do Claudio Botelho foi tão perfeita, mais tão perfeita que eu não podia deixar de trazer para cá. Eu tenho amigos que por acaso são gays, mas são também trabalhadores, corretos, gente de bem assim como o senhor que esta lendo esse post e por isso mesmo fico me perguntando qual é o objetivo da Parada gay. Assim como o autor da  matéria eu também gostaria de saber qual o sentido disso tudo? Mostrar que existem gays no mundo? Provocar? Pra quê? Os homofóbicos de plantão não precisam disso, eles odeiam por odiar, simples assim. Ser gay é só uma opção sexual, não faz ou não deveria fazer nenhuma diferença, não deveria precisar de uma parada bizarra pra isso, pelo contrário, ser gay deveria ser só isso uma opção sexual, escolha individual de qualquer um. Fazer uma Parada por causa disso já se jogar nas malditas cotas que separam os "diferentes" dos "normais", já é se dizer diferente dos outros e não é, não deveria ser. Ser gay é só uma opção sexual, enquanto isso, eles também são excelentes empresários, advogados, médicos, artistas etc. Ser gay não é exceção, é só opção, acreditem.



HOJE TEM UMA MATÉRIA NO GLOBO SOBRE A PARADA GAY DE COPACABANA QUE ROLOU ONTEM. MATÉRIA SIMPÁTICA. O título é “Com amor e respeito”, ou algo parecido... Já a foto é de dois sujeitos abraçados, um deles vestido de Batman (se o Batman andasse só de sunga e capa) e o outro seria o Robin (se o Robin também se vestisse só de sunga de praia e botinha preta). Ah, um tem luvas vermelhas e o outro luvas pretas.
Bem, supostamente este tipo de acontecimento tem como alvo o preconceito, é uma luta por direitos individuais, liberdade, e mais uma lista de coisas que deve estar inclusive na matéria, mas não lembro agora. Mas lendo a matéria e vendo a foto a foto, fiquei me perguntando – logo eu com minha total falta de vocação pra acompanhar qualquer passeata que não seja um enterro no Caju – será que alguma pessoa que tem preconceito vai olhar essa foto hoje ou ver essa cena na televisão e pensar assim: “gente, eu detestava os gays, mas agora vi uma foto da passeata e tudo mudou, adoro eles”. Será?
Claro que a equação não é tão simples, e naturalmente os movimentos por direitos humanos não se baseiam apenas num momento, num rompante, é uma luta longa e as coisas são feitas aos poucos. Mas o que havia ali ontem que pudesse servir de alerta ou no mínimo de chamada para a sociedade em geral?
Há muita homofobia no Brasil. Muito ódio. Supostamente uma parada gay com um milhão de pessoas deveria ter o intuito de, no mínimo, tentar atingir aqueles que têm ódio, furar este bloqueio, impor o assunto com palavras e atitudes fortes, que cubram de respeito aquilo que merece respeito, e merece porque é humano.
Agora, numa boa: o imbecil que odeia viado vê a foto da passeata e – o que acontece? Compra um disco do Ricky Martin? Assina a G Magazine pra entender melhor o amor ao próximo? Ou é tomado de um horror maior ainda a tudo que diz respeito ao que ele já odiava?
O Rio é uma cidade bastante moderna, aqui se sofre relativamente pouco com homofobia. Pouco em comparação a rincões do país, onde filhos ainda são espancados pelos pais por serem gays, jovens são estigmatizados, habitantes cidades pequenas ou mesmo capitais do nordeste onde não dá pra passear de mão dada no calçadão com o namorado do mesmo sexo sem tomar um tiro. Pois bem, a passeata foi no Rio. Mas a TV mostrou pro Brasil inteiro, assim com mostra a parada gay de São Paulo. E os Batmans, Robins, e mais de meio milhão de pessoas peladas aos berros no meio da rua, evidentemente alterados e em histeria sobre caminhões com música eletrônica – essa é a imagem que vai pra todo mundo, pras casas das famílias que em tese seriam o alvo.
Eu particularmente não tenho nada contra a imagem, acho que todo mundo tem que se divertir, ir pra rua atrás de trepada, ir pros restaurantes da orla fazer pegação, subir nos carros alegóricos, cada um faz o que quer... Mas é um mistério para a minha compreensão (ou a minha burrice, mais provável) em quê esse tipo de coisa ajuda quem precisa de ajuda.
Nenhuma daquelas pessoas ali na parada precisa de ajuda. Elas saem da parada e vão pra sauna, ou pra boite, ou sei lá pra onde, e vão ser felizes, estão resolvidas. E podem fazer a mesma coisa 365 dias no ano. Tem sauna todo dia, gente.
Mas um minuto daquelas imagens na cabeça do homofóbico equivale a quantas bombas nucleares nãs mãos de iranianos? Mesmo o homofóbico manso, aquele que apenas “não gosta de viado”, mas não se decidiu a sair matando ninguém ainda... Que interesse político existe em encher a cabeça dessa pessoa com a ideia de que “estamos vestidos de Batman e Robin, estamos no carro alegórico, somos assim, vivemos aos gritos e ouvindo essa música, andamos pelados na rua, somos uma parada gay mas é igual ao carnaval, sacou?...”
Eu mesmo respondo: quem tem ódio vai ter mais. Quem tem algum rancor, terá ódio. Quem era indiferente tem duas opções: acha engraçado ou toma horror. Agora: é possível reverter alguma posição com aquilo? Dá pra ganhar a simpatia de quem? De quem já é simpático? Ora, esses já estão ganhos...
Me pergunto se quando Martin Luther King mudou a história do racismo nos Estados Unidos, ao invés de se articular, escrever, juntar-se a gente com propostas, fazer barulho de gente grande e com gente grande, colocar-se como cidadão e como homem inteligente e bater na mesa, ele tivesse convocado os negros pra saírem pelas ruas vestidos com roupas africanas, com as caras pintadas de cores de tribos, tocando atabaques e gritando em nagô e fazendo rituais de macumba... o que teria acontecido com o movimento dele? Ou se as feministas ao invés de queimarem sutiens (atitude ousada mas extremamente política) resolvessem sair nas ruas só de calcinha exigindo seus direitos.
É complexo, claro. E naturalmente estou enganado, pois como eu alertei lá em cima, sou burro. Mas mesmo na minha burrice, não consigo compreender porque o único movimento político libertário do mundo a sexualizar suas manifestações é o movimento gay. Ninguém está lutando pra ir pra cama, isso todo mundo já vai mesmo. A luta é por direitos e liberdades, e pra quem não as tem. Quem precisa da parada é o menino que tá triste no interior de Pernambuco, ou aqui numa cidadezinha do Rio, ou lá em Minas onde eu nasci e há gente que dá tiros em travestis nas esquinas. Esse pessoal que toma tiro é que precisa ser protegido, e a Parada tem que ajudar a eles. E os algozes deles é que têm de ser atingindos. Foram? Vão pensar duas vezes antes de planejar a surra no próximo coitadinho que entrou na rua errada na hora errada? Depois do Batman e do Robin de sunga mudou tudo?
Parada gay é apenas um dia a mais pra quem já tá de bem com a vida fazer o que faz 365 dias no ano. E um motivo a mais pra que os gays sejam vistos como aberração. Acho triste, patético, desestimulante, pouco inteligente.
Mas eu sou burro, ignorem isso aqui.

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