Biografia sobre Lispector aborda estupro da mãe
e amor por um gay.

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Com 648 páginas, "Clarice," chegou às livrarias brasileiras. A editora Cosac Naify colocou uma tiragem de 10 mil exemplares. Em geral, um livro começa com 3.000 cópias.
Escrita pelo jornalista norte-americano Benjamin Moser e publicada nos Estados Unidos em agosto de 2009, a biografia de Clarice Lispector (1920-1977) conquistou um destaque a que a literatura brasileira não está acostumada.
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Biografia inclui vírgula em título, referência ao estilo da escritora, atormentada pelo estupro da mãe, filho doente e amor por um gay.
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No livro, o autor detalha episódios dramáticos da vida da escritora, com o estupro de sua mãe na Ucrânia por soldados russos, a esquizofrenia do filho Pedro e a homossexualidade do seu primeiro amor, o romancista e poeta mineiro Lúcio Cardoso (1913-1968).
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Na página 158, o livro aborda a angústia de Lúcio em relação a sua homossexualidade. Francisco de Assis Barbosa, colega de Clarice, dizia para ela: "Ele nunca vai casar com você, é homossexual". A escritora replicou: "Mas eu vou salvá-lo. Ele vai gostar de mim."

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Com base em pesquisa, o autor formulou uma tese: a de que Clarice sentia-se predestinada a salvar a mãe da doença adquirida (sífilis) durante a violência na Ucrânia. O peso dessa falha -- mãe Mania passou o final da vida inválida e morreria ainda jovem-- ecoaria ao longo de toda sua vida e obra. Para o autor, compreender a dor de Clarice como filha e como mãe ajuda a entender a escritora.

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Em 1946, a jovem escritora brasileira Clarice Lispector retornava do Rio de Janeiro para a Itália, onde seu marido servia como vice-cônsul em Nápoles. Ela viajara ao Brasil como mensageira diplomática, levando despachos para o ministro brasileiro das Relações Exteriores, mas com as rotas habituais entre a Europa e a América do Sul bloqueadas em função da guerra, sua viagem ao reencontro do marido seguia um itinerário nada convencional.
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Do Rio ela voou para Natal, dali para a base britânica na ilha Ascensão, no Atlântico Sul, em seguida para a base aérea norte-americana na Libéria, dali para as bases francesas em Rabat e Casablanca, e por fim para Roma, via Cairo e Atenas. Antes de cada etapa ela teve algumas horas, ou dias, para espiar ao redor.
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No Cairo o cônsul brasileiro e sua esposa a convidaram para ir com eles a um cabaré, onde ficaram maravilhados com a exótica dança do ventre executada ao som da familiar melodia do sucesso do carnaval carioca de 1937: "Mamãe eu quero", na voz de Carmen Miranda.
O Egito não a impressionou, conforme escreveu ao amigo Fernando Sabino:
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"Vi as pirâmides, a esfinge - um maometano leu minha sorte nas "areias do deserto" e disse que eu tinha coração puro... [...]. Falar em esfinge, em pirâmides, em piastras, tudo isso é de um mau gosto horrível. É quase uma falta de pudor viver no Cairo. O problema é sentir alguma coisa que não esteja prevista num guia."
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Livro aborda origem judaica de Lispector, que nasceu na Ucrânia
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Clarice Lispector nunca voltou ao Egito. Mas, muitos anos depois, relembrou sua breve excursão turística, quando, nas "areias do deserto", encarou desafiadoramente ninguém menos que a própria Esfinge. "Não a decifrei", escreveu a orgulhosa e bela Clarice. "Mas ela também não me decifrou."
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Quando morreu, em 1977, Clarice Lispector era uma das figuras míticas do Brasil, a Esfinge do Rio de Janeiro, uma mulher que fascinava os brasileiros praticamente desde a adolescência. "Ao vê-la, levei um choque", disse o poeta Ferreira Gullar, relembrando o primeiro encontro entre os dois.
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"Seus olhos amendoados e verdes, as maçãs do rosto salientes, ela parecia uma loba - uma loba fascinante. [...] Imaginei que, se voltasse a vê-la, iria me apaixonar por ela."3 "Há homens que nem em dez anos me esqueceram", admitiu Clarice.
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"Há o poeta americano que ameaçou suicidar-se porque eu não correspondia..."
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O tradutor Gregory Rabassa recordava ter ficado "pasmo ao encontrar aquela pessoa rara, que era parecida com Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Woolf".
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No Brasil de hoje seu rosto sedutor adorna selos postais. Seu nome empresta classe a condomínios de luxo. Suas obras, muitas vezes rejeitadas como herméticas ou incompreensíveis quando ela era viva, são vendidas em distribuidores automáticos em estações de metrô. Na internet fervilham centenas de milhares de seus fãs, e é raro passar um mês sem que surja um livro examinando um ou outro aspecto de sua vida e obra. Basta o primeiro nome para identificá-la entre brasileiros instruídos, todos os quais, conforme notou uma editora espanhola, "conheceram-na, estiveram na sua casa e têm a contar alguma anedota a respeito dela, como os argentinos com Borges. Ou no mínimo foram ao enterro dela".
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A escritora francesa Hélène Cixous declarou que Clarice Lispector era o que Kafka teria sido se fosse mulher, ou "se Rilke fosse uma judia brasileira nascida na Ucrânia. Se Rimbaud fosse mãe, se tivesse chegado aos cinquenta. Se Heidegger deixasse de ser alemão". As tentativas de descrever essa mulher indescritível volta e meia seguem essa linha, recorrendo aos superlativos, embora aqueles que a conheceram, em pessoa ou por seus livros, também insistam que o aspecto mais notável de sua personalidade, sua aura de mistério, escapa a toda descrição. "Clarice", escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade quando ela morreu, "veio de um mistério, partiu para outro." Seu ar indecifrável fascinava e inquietava todos os que a encontravam. Depois de sua morte, um amigo escreveu que Clarice era uma estrangeira. Não porque nasceu na Ucrânia. Criada desde menininha no Brasil, era tão brasileira quanto não importa quem. Clarice era estrangeira na terra. Dava a impressão de andar no mundo como quem desembarca de noitinha numa cidade desconhecida onde há greve geral de transportes.
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"Talvez seus amigos mais íntimos e os amigos desses amigos saibam alguma coisa sobre a sua vida", escreveu um entrevistador em 1961. "De onde veio, onde nasceu, quantos anos tem, como vive. Mas ela não fala nunca sobre isso, 'pois é uma parte muito pessoal'." Ela deixava escapar pouquíssima coisa. Uma década depois, outro jornalista, frustrado, resumiu as respostas de Clarice a uma entrevista: "Não sei, não conheço, não ouvi dizer, não entendo do assunto, não é do meu domínio, é difícil explicar, não sei, não me considero, não ouvi, desconheço, não há, não creio".
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No ano anterior ao de sua morte, uma repórter que viera da Argentina tentou fazê-la se abrir. "Dizem que a senhora é evasiva, difícil, que não gosta - entre tantos assuntos possíveis - a nova capital, Brasília, aparece uma exclamação inesperada: "O monstro sagrado morreu: em seu lugar nasceu uma menina que era órfã de mãe.
"Fatos e pormenores me aborrecem", escreveu, presumivelmente incluindo os que envolviam seu próprio currículo. Ela fez o possível, na vida e na escrita, para apagá-los. Por outro lado, porém, poucas pessoas se expuseram tão completamente. Através das muitas facetas de sua obra - em romances, contos, cartas e textos jornalísticos, na esplêndida prosa - uma personalidade única é dissecada sem descanso e revelada de modo fascinante naquela que é talvez a maior autobiografia espiritual do século xx.
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"Lado a lado com o desejo de defender a própria intimidade, há o desejo intenso de me confessar em público e não a um padre." Seu tipo de confissão dizia respeito às verdades interiores que ela desvelou com esmero ao longo de uma vida de incessante meditação. É por esse motivo que Clarice Lispector sempre foi comparada mais com místicos e santos e menos com outros escritores. "Os romances de Clarice Lispector frequentemente nos fazem pensar na autobiografia de Santa Teresa", escreveu Le Monde.
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Ela emergiu do mundo dos judeus da Europa Oriental, um mundo de homens santos e milagres que já havia experimentado seus primeiros anúncios de danação. Trouxe a ardente vocação religiosa daquela sociedade agonizante para um novo mundo, um mundo em que Deus estava morto.
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Como Kafka, ela se desesperou; mas, à diferença de Kafka, acabou, de modo atormentado, bracejando em busca do Deus que a abandonara. Narrou sua busca em termos que, como os de Kafka, apontavam necessariamente para o mundo que ela deixara para trás, descrevendo a alma de uma mística judaica que sabe que Deus está morto, mas que, no tipo de paradoxo que perpassa toda a sua obra, está determinada a encontrá-Lo mesmo assim.
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A alma exposta em sua obra é a alma de uma mulher só, mas dentro dela encontramos toda a gama da experiência humana. Eis por que Clarice Lispector já foi descrita como quase tudo: nativa e estrangeira, judia e cristã, bruxa e santa, homem e lésbica, criança e adulta, animal e pessoa, mulher e dona de casa. Por ter descrito tanto de sua experiência íntima, ela podia ser convincentemente tudo para todo mundo, venerada por aqueles que encontravam em seu gênio expressivo um espelho da própria alma. Como ela disse, "eu sou vós mesmos".
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"Muita coisa não posso te contar. Não vou ser autobiográfica. Quero ser 'bio'." Mas mesmo um artista universal emerge de um contexto específico, e o contexto que produziu Clarice Lispector era inimaginável para a maioria dos brasileiros - ao menos, certamente, para seus leitores de classe média. Não admira que nunca falasse sobre ele. As raízes de Clarice, nascida a milhares de quilômetros do Brasil, em meio a uma horripilante guerra civil, com a mãe condenada à morte por um ato de indizível violência, eram inconcebivelmente pobres e brutais.
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Ao chegar à adolescência ela parecia haver triunfado sobre suas origens, e pelo resto da vida evitou até mesmo a mais vaga menção a elas. Temia, talvez, que ninguém compreendesse. E assim fechou a boca, como um "monumento", um "monstro sagrado", amarrada a uma lenda que ela sabia que sobreviveria a ela, e que ela própria, de modo relutante e irônico, abraçou. Vinte e oito anos depois de seu primeiro encontro com a Esfinge, escreveu que estava pensando em fazer outra visita: "Vou ver quem devora quem."

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"Clarice,"
Autor: Benjamin Moser
Editora: Cosac Naify
Páginas: 648
Quanto: R$ 79
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha
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Leia mais aqui.

Das resoluções de final-de-ano á definição de amor.
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Folheando a agenda desse ano, cheguei a última página e como sempre encontrei a minha lista de resoluções para 2009. E como sempre também, quase nada foi realizado.
Pois é, tenho uma incompetência absoluta para realizar sonhos. Sonhar, sonho muito, realizar, quase nunca realizo, mas tem um item que sempre se repete em todas as resoluções de final-de-ano, é o desejo de um grande e definitivo amor. Como esse é um item que envolve outra pessoa, considero meu fracasso  de apenas 50%...nem tão "apenas" assim, diga-se de passagem, afinal são os meus 50%.
Hoje, pensando sobre isso, acredito que "grandes e definitivos amores" são coisa de cinema, de literatura e certamente de poesia, mas não da vida real. Na vida real quando se conquista um amor retribuído, já é um lucro imenso. Hoje, penso que desejar um pequeno amor já está de bom tamanho. Definitivo, nem pensar. Se nós mesmos somos finitos, sentimentos definitivos são pura ficção. A verdade é que sentimentos mudam ao longo da vida de um casal, para o bem ou para o mal, mas nunca são definitivos.

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Infelizmente pra mim, sou uma romantica incorrígivel que secretamente sempre vai achar que um grande e definitivo amor anda por aí também procurando seu par e se tiver alguma sorte ainda esbarro nele. Até lá, esse item se mantém na lista, quem sabe o que me aguarda o futuro?

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A definição do amor

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A dor que sentimos pelas pessoas que amamos faz parte da felicidade que tivemos. Ambas são condição de ambas
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CONHECI C.S. Lewis aos 9 anos. É a idade certa para conhecer Lewis, de preferência se estivermos numa cama de hospital. As noites são longas, as noites são solitárias. Mas quando o livro é "O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa", a única coisa a lamentar são as chegadas das manhãs.
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Conhecem a história? Não falo do livro, falo de Lewis. O livro é conhecido: Edmund, Lucy, Peter e Susan descobrem certo dia que o fundo de um velho guarda-roupa não é o fundo de um velho guarda-roupa. É passagem para um outro mundo. Narnia, eis o nome desse mundo, e em Narnia me perdi com eles aos 9, aos 10, aos 11.
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Só mais tarde descobri a vida do autor: Clive Staples Lewis, nascido em Belfast, educado em Oxford, professor de literatura medieval e renascentista. Amigo de Tolkien. Pregador cristão, depois de uma conversão ao catolicismo (sim, como Graham Greene ou Evelyn Waugh), experiência epifânica que ele conta em "Surprised by Joy". Morte em 1963.
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Mas a história de Lewis não acaba aqui. A verdadeira história aconteceu nos últimos anos de vida, quando o celibatário escritor foi surpreendido por uma outra "Joy", não em espírito mas em carne e osso. Joy Gresham, uma leitora americana, cruza o Atlântico para fugir de um casamento arruinado. Traz o filho, que traz os livros para Lewis assinar. Conhecem-se. Tornam-se amigos. E casam por conveniência: Joy necessita da cidadania britânica para ficar no país, Lewis acede ao pedido. Tudo em segredo. Subitamente, Joy adoece. Grave, gravemente. Lewis sabe que a vai perder. E nessa certeza sabe também, pela primeira vez, que está profundamente apaixonado por ela. Casam novamente. Desta vez, aos olhos de Deus e dos outros. Joy parte pouco depois.
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Essa história de amor tardio subiu aos palcos de Londres e estará em cena até 15 de dezembro. Se passarem pela cidade, não hesitem: Charles Dance (Lewis) e Janie Dee (Joy) retomam "Shadowlands", a notável peça de William Nicholson que Anthony Hopkins e Debra Winger já ofereceram em filme homônimo. Existem diferenças, claro. A peça tem o humor anárquico que o filme ignora, ou desconhece. O filme tem o dramatismo sóbrio que só os grandes planos permitem. Mas no palco ou na tela, a trágica ironia de Lewis é a mesma: a ironia de um pregador que disserta teoricamente sobre a importância salvífica do sofrimento; até o dia em que a teoria regressa para o testar com a mais brutal das experiências humanas. E com uma pergunta simples mas fundamental: por que amar se perder dói tanto?
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A resposta, a única possível, é dada por Joy na peça, quando a morte assombra um breve momento de intimidade terrena. "A felicidade de agora será parte da dor de então".
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Precisamente. E eu, mudo e parado na platéia do Wyndham's Theatre, sorrio por dentro e agradeço novamente. Na infância, Lewis oferece o encantamento de um outro mundo; na idade adulta, oferece a única certeza deste. A dor que sentimos pelas pessoas que amamos faz parte da felicidade que tivemos. Porque ambas são a condição de ambas.
JOÃO PEREIRA COUTINHO - folha SP
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Pois é, como eu sempre digo: o amor salva, o amor cura e ainda que haja a possibilidade de dor e sempre há, amar sempre vai valer a pena. Piegas? Pode ser, mas é assim que realmente penso.


Tattoo
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Sem fantasia.


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Lembram do Tattoo da Ilha da Fantasia? Confesso que lembro vagamente do seriado, mas era algo do tipo: cuidado com os seus desejos, eles podem se realizar...
Pois é, outro dia numa trívia sobre cinema e TV acabei sabendo que fim levou o ator francês Herve Jean Pierre Villechaize e não foi um belo fim, pra dizer a verdade.
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Herve nasceu em 23 de abril de 1943 em Paris, França. Seu pai, era médico e atuou na resistência durante a ocupação alemã da França na Segunda Guerra Mundial. Como médico, o pai de Herve tentou encontrar ajuda para seu filho durante anos. Herve, além de não conseguir se desenvolver por causa de uma rara doença na tireóide, ainda sofreria durante a vida com dores horríveis.

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Seu corpo se manteria pequeno, mas os orgãos internos continuariam a se desenvolver como os de uma pessoa saudável.
Ainda assim, Herve, com o apoio da família, foi tratar da vida. Estudou pintura em Paris, fez exposições com algum sucesso, antes de partir para o cinema e
depois a TV, já nos EUA.


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Mas foi com o seriado "A Ilha da Fantasia" na qual contracenava com Ricardo Montalban, que o sucesso finalmente chegou.
Junto com ele, dinheiro, "amor verdadeiro", fama, drogas, noitadas, "grandes amigos " e ataques de estrelismo. Foi num desses ataques que o nosso Tattoo exigiu ganhar o mesmo que Montalban recebia na época. Não só não conseguiu, como foi demitido. A série continuou por mais um ano e acabou ironicamente justamente pela falta de Tattoo.
A partir daí foi declínio total. Alcoólatra e deprimido, Herve passou a perder todos os papéis que ainda lhe ofereciam. Os problemas de saúde se agravaram e as dores se tornaram insuportáveis, estava falido.
No dia 4 de setembro de 1993, Herve se matou com um tiro, não antes de deixar um bilhete e de filmar o próprio suícidio.

*A Ilha da Fantasia esta na grade do canal TCM da Net.
20/07/2009 - Dia do Amigo -
Dia do meu amiigoo Carlos Roberto!!!
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Eu costumo dizer que não tenho família e não tenho mesmo, estão todos mortos com excessão de umas primas e tios que moram  no interior de Minas, mas também digo sempre que tenho amigos. Bons amigos e para eles, em especial para o meu amigo Carlos Roberto que eu dedico o dia de hoje.
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Amigos

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Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
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A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor. Eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
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E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências ...
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A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários. De como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, trêmulamente construí, e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo. Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer ... Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.
Vinícius de Moraes
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Conheci o Carlos quando trabalhava num colégio, em 2004. Casado com uma professora de história, a Rosana, foi fácil gostar dele de cara. Leitor voraz e com uma memória invejável sempre sabia de algum fato, história ou acontecimento interessante para contar e por conta disso a conversa rolava horas.
Pouco depois veio o tempo das mudanças, quando a vida se encarregou de me dar uma bela rasteira. Resolvi pedir demissão e sair daquele trabalho e na mesma semana terminaria com um namorado que eu julgava perfeito para em seguida perder minha mãe atropelada.
De repente me vi tão só no mundo, tão absolutamente desamparada e essa era a palavra perfeita quando não se tem mais pai e mãe, que parecia que teria que aprender até a caminhar novamente e acho que foi isso mesmo.
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Mas como disse no início desse texto o que me falta de família me sobra em amigos. E mais uma vez o Carlos estava lá.
Desde que a minha mãe morreu, ele vem toda sexta-feira religiosamente depois do trabalho me visitar, lanchar comigo e jogar conversa fora. A menos que eu tenha algo para fazer ou ele com a família, não nos encontramos. Fora isso esse encontro é certo. O detalhe é que o Carlos mora em Campo Grande e eu na Barra, pra quem conhece sabe a lonjura que é. Ele sai do trabalho às 17:30 e me espera chegar do meu trabalho ou seja só vai pra casa lá pelas nove da noite.
Eu me lembro nesse tempo todo que muitas vezes a voz do Carlos era a única voz humana que ouvia em um final-de-semana inteiro. Eu que sempre fui uma outsider fiquei pior e realmente me afastei de todos. Mas o Carlos estava ali sempre. Era infalível.
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Bom, esse post não é sobre mim, mas sobre esse amigo especial: o meu amigo Carlos Roberto!!
O Carlos é aquele tipo de cara que nada espanta. Ele passou por alguns namorados, várias paqueras que não deram em nada e sempre avaliava cada um deles. Com ele não tenho problemas de falar nada e muito menos pedir. Ele não julga nunca e quando é alguma coisa digamos mais delicada, ele passa o pedido pra Rosana que como ele é especialíssima. Foi assim com a fantasia de Mamãe Noel que pedi a ele que comprasse pra mim, rsss Sobrou pra Rosana e veio exatamante como eu queria.
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Essa foi apenas uma das histórias com o Carlos. Houve várias e espero que por muito tempo hajam muitas ainda porque como bem disse Vinicius de Moraes:
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...eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências ...


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Feliz Dia do Amigo pra você Carlos
e para todos aqueles que me honram com sua amizade.
E por falar em amor...
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E por falar em amor...deu saudade de vir aqui.
Ontem, são mais de três da madrugada, foi Dia dos Namorados, por acaso meu aniversário também e eu até pensei em fazer um post sobre o amor, suas mazelas, seus prazeres etc.
Mas ao visitar o excelente blog da minha doce amiga Laura, li seu post que falava sobre amores que não chegam, um coração ardendo que secou etc.
Deixei então o seguinte comentário:
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Menina, o "estado de amor" é pra sempre, ainda mais qdo se tem o amor num estado tão intenso como vc, Laura. Só seca se vc deixar.
Já passei por isso tantas vezes e outras tantas me achava meio Flicts, sem par no mundo.
Ainda hj com tantos (des)encontros fico sempre na desconfiança de que não nasci pra isso, pra logo depois descobrir lá no fundo, bem no fundo, a mesma menina que lia romances desesperadamente e achava muito natural no fim o "felizes para sempre" continua por aqui. Até um dia que descobri que se ainda não chegou o "felizes para sempre" é pq ainda não chegou o final...tendeu? ;)

bjo querida
andrea

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É por aí, a idéia é essa. Eu realmente acredito no "felizes para sempre" mas esta longe de ser como nos romances, alias romances, filmes de amor etc.
Para acreditar no "felizes para sempre" é preciso acreditar na felicidade. Essa é condição sine qua non para um feliz pra sempre. Podem e acham que sou uma sonhadora, que ando lutando com imaginários moinhos de vento, assim como o cavaleiro da triste figura de Cervantes.
Que assim seja, se é o que pensam. Mas eu que tenho tudo ou melhor já não tenho nada para acreditar, muito menos na felicidade, porque justo eu sou capaz de crer...talvez por isso mesmo, por não ter mais nada nem ninguém que me faça crer. Por ser que finalmente eu tenha entendido que ninguém, absolutamente ninguém vai estender a mão e me salvar, porque não podem. A única que pode me salvar sou eu mesma. E por isso mesmo só me resta crer, inclusive em final felizes.
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Estou velha demais, assustada demais, apaixonada demais por estes farrapos de vida que ainda me restam. Tenho pela frente toda uma maré de esquecimento, e depois a anulação completa. Não tenho mais a coragem de meu pessimismo. Depois que eu morrer, e que os Marshall morrerem, e o romance for finalmente publicado, nós só existiremos como invenções minhas. Briony será uma personagem tão fictícia quanto os amantes que dormiram na mesma cama em Balham, indignando a proprietária. Ninguém estará interessado em saber quais os eventos e quais os indivíduos que foram distorcidos no interesse da narrativa. Sei que haverá sempre um tipo de leitor que se sente obrigado a perguntar: mas, afinal, o que foi que aconteceu de verdade? A resposta é simples: o casal apaixonado está vivo e feliz. Enquanto restar uma única cópia, um único exemplar datilografado de minha versão final, então minha irmã espontânea e fortuita e seu príncipe médico haverão de sobreviver no amor.
Reparação - Ian McEwan
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Não reparamos no principal, Amor. Não reparamos que quando amamos o tempo não faz a mínima diferença. Amar será sempre recente: será ontem. Anos juntos e a sensação é que foi ontem. Anos separados e a sensação é que foi ontem. Ontem, ontem. Não há anteontem no amor. As lembranças mais longínquas já são corpo.
É uma pena, Amor, que somos mais decididos do que amorosos. Amar é não decidir. Decidir é terminar sempre.
Fabrício Carpinejar
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"...Os segmentos do tempo se unem uns aos outros num encaixe quase perfeito, mas não totalmente perfeito. Ocasionalmente, desencontros muito leves acontecem. Por exemplo, nesta terça-feira, em Berna, um rapaz e uma moça, os dois beirando os trinta anos de idade, estão parados sob uma lâmpada de iluminação pública na Gerberngasse. Eles se conheceram há um mês. Ele a ama desesperadamente, mas já sofreu muito por uma mulher que o abandonou sem qualquer aviso, e tem medo do amor. Com esta mulher, ele precisa de todas as garantias. Examina o rosto dela, silenciosamente implora-lhe que revele seus verdadeiros sentimentos, procura identificar o menor sinal, o mais acanhado movimento de suas sobrancelhas, o mais vago corar de suas bochechas, a umidade em seus olhos.
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Na verdade, ela também o ama, mas não consegue traduzir seu amor em palavras. Em vez disso, sorri para ele, sem saber do medo que ele sente. Enquanto estão ali, sob aquela lâmpada, o tempo pára e recomeça. Logo depois do intervalo, a inclinação de suas cabeças é exatamente a mesma, o ciclo das batidas de seus corações não apresenta qualquer alteração. Mas, em qualquer lugar das profundezas da mente da mulher, surgiu um pensamento frágil que não estava lá antes. A jovem mulher tenta capturar este novo pensamento em seu inconsciente e, quando o faz, um vazio inescrutável risca-lhe o sorriso. Esta breve hesitação só seria perceptível à mais rigorosa observação, mas ainda assim o ansioso rapaz a percebeu e a interpretou como o sinal que procurava. Ele diz à jovem mulher que não pode tornar a vê-la, volta para seu pequeno apartamento na Zeughausgasse e decide mudar-se para Zurique e trabalhar no banco de um tio. A jovem mulher se afasta do poste de iluminação pública na Gerberngasse, caminha lentamente de volta para casa se perguntando por que o rapaz não a amava."
Trecho extraído de um dos contos no livro "Sonhos de Einstein", de Alan Lightman.
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Ardendo de amor, as cigarras
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima o corpo!
Canções de camponeses do Japão
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Dia das Mães
₢ yuri bonder
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De tantas dores, grandes amores
tantos que já se foram, outros que nunca estiveram
ter você era aconchego subentendido
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A mão estendida que nunca chegava,
apenas bordava preocupada
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Entre tantos pontos e motivos coloridos,
desenhos de uma cena feliz
Ali ao lado, eu chorava baixinho
uma perda, uma dor, um amor nunca acontecido
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Baixinho eu chorava amparada pela sua presença
logo ali ao alcance das palavras nunca ditas...
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andrea augusto©angelblue83– 2006
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De todas as coisas findas
o outono traz sempre o amarelo
folhas no chão
 e o tempo repetindo estação.
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Tempo


Desde que você foi embora
o silêncio adquiriu som de melodia triste
o dia insiste em nascer
e é sempre provisório
A noite não, esta se instalou
como tempo definitivo,
e ainda que o sol voltasse
e voltaria
surgiria estranho no céu
como se dele não fizesse parte
;
Nesse momento não há lugar nenhum no mundo para ir,
ainda que por vontade própria ou imprópria intervenção do destino
sendo assim não há nada que me faça ficar, não há caminho, nem refúgio
Afora isso, entre a noite e a noite, estão as sombras.
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andrea augusto©angelblue83
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* É estranho como poemas que escrevi há tempos atrás soam tão atuais.
A quem de direito Feliz Dia das Mães.
Morrer é bom.
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Na sexta tive uma experiência de "morte" muito interessante.
Alguém invadiu o meu orkut e colocou uma mensagem dizendo que eu havia morrido em um acidente de moto. Coincidentemente na sexta de manhã, ao invês de abrir minhas mensagens ao chegar no trabalho fui direto para o meu novo setor. Logo em seguida o celular começaria a tocar como um enlouquecido, mas estava no silencioso e eu nem me dei conta de nada.
Quando finalmente voltei para minha sala vi aquela montanha de ligação não atendida e só ai fui saber o que tinha acontecido. Eu havia morrido num acidente de moto. Confesso que foi a experiência mais emocionante que já vivi.
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Bom, alguns sabem outros não, mas eu não tenho família. Nada nem ninguém no mundo, apenas alguns primos em Minas que infelizmente tenho pouquíssimo contato. Todos mortos. Desnecessário dizer que qualquer demonstração de afeto, carinho, preocupação me atinge de maneira mais intensa, muito embora eu esteja longe de ser a carente profissional, esta claro pra mim que nada nem ninguém vai substituir o que perdi.
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Por isso, as muitas mensagens no meu orkut, os inúmeros telefonemas, as demonstrações de carinho, preocupação foram tão emocionantes, mais tão emocionantes e surpreendentes  que eu posso dizer que essa experiência de "morte" teve um saldo muito positivo. Eu realmente não esperava e nem sabia o que significava para algumas pessoas. Sequer me lembrava de muitas coisas que fiz e que deixaram lembranças nas pessoas que me escreveram.
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Não cabe aqui descrever nada, somente a emoção que senti e foi incrível mesmo. Por isso, se possível fosse, recomendaria uma experiência assim ao menos uma vez na vida, coisas surpreendentes podem acontecer.
Muito Obrigada a todos!
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*Em tempo, agradeço os comentários de todos por aqui. Infelizmente o Literatus esta mesmo meio abandonado. Minha vida teve outra reviravolta bem desagradável e mais do que nunca preciso correr atrás. Mas saibam que leio tudo que recebo e agradeço de coração a todos!

O véu de Maya



a ilusão nossa de cada dia...
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O Véu de Maya, é parte constituinte da filosofia Hindu, quem primeiro discorreu sobre ele, alem dos Hindus, foi um filósofo alemão chamada Artur Schoppenhauer, na filosofia védica, a existe a teoria do Véu de Maya.
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E o que é o Véu de Maya? o véu você sabe muito bem o que, é um fino tecido branco o qual tem a função de encobrir as coisas, é branco, mas pode ser de várias matizes, o branco é para simbolizar um certo estado de pureza, na filosofia já mencionada o Véu de Maya são as ilusões, são aquilo com que nos nutrimos todos os dias, não há humano algum que não traga consigo uma ilusão, pois ela é tão necessária e real quanto a própria realidade, a ilusão é um bem, o véu aqui encobre a crueldade de nossa contingência o véu vela por nossas feridas, encobrindo-as e as vezes até sarando-as, é necessária a nossa mente, não suportaríamos o peso da razão incidindo constantemente sobre nossos ombros, é ai que o véu da ilusão tira-nos o árduo fardo que a própria existência nos imputa, na vida, nos deparamos com situações aonde não há alternativas, somos colocados em cheque –mate .
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Nas sociedades este exemplo está expresso em todos os tipos de literatura, é ai que a vida pede uma trégua, e o santo Véu de Maya entra em ação, como se fosse a mão de Deus, querendo que não soframos tanto com a nossa própria contingência, o filósofo alemão Schoppenhauer, dizia que os maiores véus de maya que existem sobre a terra são o amor e a moral, o amor necessário para levar adiante a perpetuação da raça humana, mas segundo essa filosofia, também considerado uma grande ilusão, e cabe aqui um comentário, talvez seja próprio do homem se iludir para chegar a amar, ou amando já viveria sua própria ilusão, o oásis na natureza humana. E a moral, que nos puxa e cuida de tratar que as coisas da vida e da realidade não se percam no mundo dos sonhos.
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O Véu de Maya é tão necessário a nossa existência como a própria realidade, portanto um conselho aos desavisados, nunca, jamais deixem que esse Véu se rompa, pois se isso acontecer a dor da existência será insuportável. Não restando mais nada depois disso.
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dos diários
A convivência é tão difícil, o compartilhar é carregado de digitais que não são as nossas. Sartre chegou a dizer que “o inferno é o outro.“ Nietzsche do qual já tive a pretensão de falar, sofria a solidão com intensidade, pela doença, pelo gênio, por um mundo no qual não se encaixava disse certa vez: "se pudesse dar-lhe uma idéia de meu sentimento de solidão! Nem entre os vivos nem entre os mortos, não tenho alguém de quem me sinta próximo".
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Sempre a impossibilidade que permeia a vida, à margem do caminho, a espreita. A convivência solitária é ainda pior porque dilata o sentimento angustiante de não estar dentro de um contexto, como se a história contada não fosse a nossa ou a minha.
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A existência parece um estado de embriaguez contínua, onde não dissocio a solidão da sociedade, por outro lado, há sempre um ponto de interseção, um tempo limite onde tudo passa a ser de uma realidade cruel.
“Solidão não é estar sozinho, é estar vazio” Senêca
andrea augusto©angelblue83


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Análise
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Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olha, que ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longamente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo


12-1911 Fernando Pessoa
E por falar em Oscar... não vou falar.
Tem zilhões de sites, blogs e afins falando do evento.

Vou deixar as imagens de Annie Leibovitz e o ensaio lindo que essa fotógrafa fez com
os concorrentes ao Oscar.
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Annie Leibovitz-Christopher Nolan and the late Heath Ledger -The Risktakers
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Annie Leibovitz-Clint Eastwood -The Old Hand
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Annie Leibovitz-Danny Boyle and Dev Patel
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Annie Leibovitz-Darren Aronofsky and Mickey Rourke -The Ringers
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Annie Leibovitz-Gus Van Sant and Sean Penn, The Milk Men
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Annie Leibovitz-Meryl Streep and John Patrick Shanley- The Undoubted
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Annie Leibovitz-Nicole Kidman and Baz Luhrmann -The Colonists
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Annie Leibovitz-Penélope Cruz and Woody Allen, The Odd Couple
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Annie Leibovitz-Ron Howard and Tom Hanks, The Classicists
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Annie Leibovitz-Sam Mendes and Kate Winslet, The Partnership
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Dia dos Namorados
no mundo...

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Pode estar mais perto do que você imagina...
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Dois namorados / olhando o céu / chegam à mesma conclusão / mesmo que a Terra / Não passe da próxima guerra / mesmo assim valeu.
Leminski


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"O medo é o que nos faz persistir. Já pensaste o que seria se não houvesse a falta, a ausência, que nos faz persistir em procurar? Seria o tédio avassalador a tomar conta de nós. A falta não é uma insuficiência, um defeito a que estaríamos condenados, ao qual nós próprios nos condenássemos. A falta é o que nos faz continuar. E o mais importante é aprender, o mais lindo. E a ignorância é a condição de aprender. Não saber e querer saber. É a minha contradição, o que completa o meu destino. (…) O que nos faz falta não é isto nem aquilo que sabemos o que é. O que nos faz falta é o amor que não se sabe. Estranha é a nossa condição, a vida que nos acompanha e que, de repente, nos deixa. Nem no fim saberemos o que fomos. O princípio é traiçoeiro. O fim jamais acontecerá. E quanto mais amamos menos sabemos da palavra amor, o que nos faz falta. Sentimos o que faz falta, o que é outra coisa. No amor, tudo nos faz falta. Tentar dizer o que é o amor, a ausência de nós, é como tentar dizer a um que não vê, qual é a cor do mar. Insistimos em saber. Devíamos desistir. Sabe-se lá do amor. E sem ele nada há. Tudo preenche, tudo ocupa, os lugares mais secretos, onde já nada esperávamos encontrar. Sim, sobretudo aí. É urgente aprender a sentir a falta que nos faz."
Pedro Paixão, in "Os Corações Também Se Gastam"





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"Assim, pra ti me faço: primeiro musa
Depois, votiva caça e caçadora, fetichista,
e até - por que não? já que sou também cruel -
sádica e masoquista, ogra lúdica,
saltimbanco, acrobata, ousada feiticeira tímida,
luxúria insolente, alquimista, poeta,
menina de novo, adolescente,
fêmea, animal esplêndido, mulher."
Olga Savary




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(...) E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual a perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu (...)

(...) Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolo sem face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar (...)
Caio F.
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Me comovem

Me comovem
tuas mãos limpas
e tua boca suja.

Eliane Pantoja Vaidya




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Para o Zé

Eu te amo, homem, hoje como
toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor
o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
de bordado, onde tem
o desenho cômico de um peixe - os
lábios carnudos como os de uma negra.

Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
"Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros".

Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.
Adélia Prado



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«E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.»
Manuel Bandeira




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Desencontros marcados
(ou "O que pode fazer a ausência dos verbos")
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"...Os segmentos do tempo se unem uns aos outros num encaixe quase perfeito, mas não totalmente perfeito. Ocasionalmente, desencontros muito leves acontecem. Por exemplo, nesta terça-feira, em Berna, um rapaz e uma moça, os dois beirando os trinta anos de idade, estão parados sob uma lâmpada de iluminação pública na Gerberngasse. Eles se conheceram há um mês. Ele a ama desesperadamente, mas já sofreu muito por uma mulher que o abandonou sem qualquer aviso, e tem medo do amor. Com esta mulher, ele precisa de todas as garantias. Examina o rosto dela, silenciosamente implora-lhe que revele seus verdadeiros sentimentos, procura identificar o menor sinal, o mais acanhado movimento de suas sobrancelhas, o mais vago corar de suas bochechas, a umidade em seus olhos.
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Na verdade, ela também o ama, mas não consegue traduzir seu amor em palavras. Em vez disso, sorri para ele, sem saber do medo que ele sente. Enquanto estão ali, sob aquela lâmpada, o tempo pára e recomeça. Logo depois do intervalo, a inclinação de suas cabeças é exatamente a mesma, o ciclo das batidas de seus corações não apresenta qualquer alteração. Mas, em qualquer lugar das profundezas da mente da mulher, surgiu um pensamento frágil que não estava lá antes. A jovem mulher tenta capturar este novo pensamento em seu inconsciente e, quando o faz, um vazio inescrutável risca-lhe o sorriso. Esta breve hesitação só seria perceptível à mais rigorosa observação, mas ainda assim o ansioso rapaz a percebeu e a interpretou como o sinal que procurava. Ele diz à jovem mulher que não pode tornar a vê-la, volta para seu pequeno apartamento na Zeughausgasse e decide mudar-se para Zurique e trabalhar no banco de um tio. A jovem mulher se afasta do poste de iluminação pública na Gerberngasse, caminha lentamente de volta para casa se perguntando por que o rapaz não a amava."
Trecho de um dos contos no livro "Sonhos de Einstein", de Alan Lightman.
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"Chega de saudade, segredo, impromptu, chega de presente deslizando, chega de passado em videoteipe impossivelmente veloz, repeat, repeat. Toma este beijo só para você e não me esquece mais. Trabalhei o dia inteiro e agora me retiro, agora repouso minhas cartas e traduções de muitas origens, me espera uma esfera mais real que a sonhada, mais direta, dardos e raios à minha volta. Adeus! Lembra minhas palavras uma a uma. Eu poderei voltar. Te amo, e parto, eu incorpóreo, triunfante, morto."
Ana Cristina César



“Julguei ainda ouvir a voz dele dizendo que voltaria, mas não explicou quando. Não sei também se disse isso apenas por gentileza, para me consolar, ou se realmente pretende voltar um dia.(...)


Enquanto não chega, preparo duas coroas de flores: uma para o túmulo de minha mãe, outra para o guarda-roupa que ele habitava”


"Eu preciso muito muito de você eu quero muito muito você aqui de vez em quando nem que seja muito de vez em quando você nem precisa trazer maçãs nem perguntar se estou melhor você não precisa trazer nada só você mesmo você nem precisa dizer alguma coisa no telefone basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio juro como não peço mais que o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro."


E que aconteça alguma coisa bem bonita para você, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também alguma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em todos de novo, que leve para longe da minha boca esse gosto de fracasso, de derrota sem nobreza, não tem jeito, meu anjo, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando.
Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente mas penso tanto em você que na hora de dormir vezenquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos.
CFA
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Amor é coisa de boteco
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O amor encontra sua dignidade na vergonha. Envergonhar-se de um amor é ter orgulho dele.

Choro por um amor. Despedaço-me por um amor. Fragmento-me por um amor. Faço chantagem por um amor. Digo o que não devo por amor. Estrago uma festa por amor.

Amor desesperado é ainda o jeito mais tranqüilo de amar. Não conheço outra paz senão a de guerrear no fundo de um copo.

Não sou homem de tranqüilizantes, de remédios na cômoda, de sono induzido. Meu quarto é o bar, público e derradeiro. Meu travesseiro é uma toalha de mesa plastificada. Amor só sabe gemer falando alto.

O amor é aguardar uma resposta. A fossa é o período de uma resposta a outra. Não há como amar sem prejuízo. Sem acreditar que não deu certo. É inacreditável como apaixonados contam as mais absurdas confidências a estranhos e escondem os detalhes dos mais próximos. Todo garçom já foi nosso padre um dia. Nosso confessor. A gravata-borboleta é nossa batina.

Amor é esse estágio necessário de loucura para suportar a normalidade. Quando amo, não preciso de psiquiatra, preciso de um táxi para voltar.

Amor mesmo é coisa de boteco, com potes de ovinhos de codorna e cachaça nas prateleiras. Amor não tem nojo, repulsa, pudor de sofrer. Sofremos de amor para abrir espaço por dentro e desalojar antigos moradores.

Amor não é próprio de restaurante ou de guardanapo nos joelhos. Não haverá um porteiro saudando com "boa-noite", não haverá recepção ou um senhor para abrir a porta. Aliás, não terá porta, é uma garagem para o corpo balançar à vontade e não quebrar nada.

Não espere cardápio no amor, espere cartazes nas paredes. As lâmpadas estarão com as braguilhas abertas no teto.

Amor mesmo é devasso, cafona, cadeira de metal amarela, dobrável e enferrujada. Deve-se tomar cuidado para não sentar na ponta.

O amor não vem da elegância de um lugar, vem da nobreza da dor.

O amor é o solitário do balcão, a retirar vagaroso o rótulo úmido da garrafa porque não pode despir sua mulher. Fica delirando em braile. Aprende inglês com as moscas. Joga dama com os cascos. Reza dez ave-marias para cada pai-nosso. Descobre que o terço é feminista. A cada vez que pensa em si, pensa dez vezes no corpo dela.

Não se limpa um amor no banheiro. Limpa-se com as mangas da camisa na frente de todos. O amor é a boca assoando.

O amor não pede a conta na mesa, é a conta. Não há amor se você não for o último cliente. O último a sair é que está realmente amando.

Quem ama não guarda o dinheiro na carteira, deixa avulso e amassado no bolso. É sintomático. Estará cantando Amado Batista sem querer. E se espantará que conhece a letra, egressa de alguma estação da infância.

Só pode ser do radinho materno, ao lado do fogão. Sua mãe colocou aquelas canções em sua comida.
Fabrício Carpinejar
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* Pelo Dia dos Namorados no mundo - Dia de São Valentim.
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O Dia dos Namorados, tratado em muitos países como Dia de São Valentim, é uma data comemorativa na qual se celebra a união amorosa entre casais, quando é comum a troca de cartões com mensagens românticas e presentes com simbolismo de mesmo intuito, tais como as tradicionais caixas de bombons em formato de coração. No Brasil, a data é comemorada no dia 12 de Junho, já em Portugal, a data é celebrada em seu dia mais tradicional: 14 de Fevereiro.
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São Valentim
Durante o governo do imperador Cláudio II, este proibiu a realização de casamentos em seu reino, com o objetivo de formar um grande e poderoso exército. Cláudio acreditava que os jovens se não tivessem família, se alistariam com maior facilidade. No entanto, um bispo romano continuou a celebrar casamentos, mesmo com a proibição do imperador. Seu nome era Valentim e as cerimônias eram realizadas em segredo. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens jogavam flores e bilhetes dizendo que os jovens ainda acreditavam no amor. Entre as pessoas que jogaram mensagens ao bispo estava uma jovem cega: Assíria filha do carcereiro a qual conseguiu a permissão do pai para visitar Valentim. Os dois acabaram-se apaixonando e ela milagrosamente recuperou a visão. O bispo chegou a escrever uma carta de amor para a jovem com a seguinte assinatura: "De seu Valentim", expressão ainda hoje utilizada. Valentim foi decapitado em 14 de Fevereiro de 270 d.C.
* Assim explica a Wikipedia.