Meio Ambiente-se! 
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Discurso da garota Severn Cullis-Suzuki na ECO-92.
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A criança que discursou e silenciou a ECO 92
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 Primeiro li no Twitter, depois recebi por email atravês da Ester do "Saber é bom demais" e acabei indo atrás porque não me lembrava desse episódio. Da Eco 92 só lembro do exército na rua e uma sensação de segurança como nunca mais senti na vida.

Segundo o email da Ester a história se deu assim:


O Rio de Janeiro foi sede da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a Eco 92 que aconteceu na primeira quinzena de junho daquele ano.

Além desse encontro ter sido palco para a consagração do conceito de desenvolvimento sustentável,  um outro acontecimento marcou a ECO 92. Foi o discurso da canadense Severn Suzuki, na época com apenas 12 anos. Ela representava o grupo Environmental Children’s Organization, fundado por ela e alguns amigos com o intuito de ensinar outras crianças, sobre as questões ambientais.

Severn Suzuki já era uma ativista ambiental desde o jardim da infância. Após a fundação do pequeno grupo quando ainda tinha apenas 9 anos, ela realizou com sucesso vários projetos em sua região. Conseguiu levantar dinheiro através do grupo para conseguir ir até o Rio de Janeiro e poder falar ao mundo. Suzuki deixou uma platéia de políticos e personalidades mundiais perplexa e em silêncio.
O interessante é que apesar de ter sido há 16 anos atrás, suas palavras recaem como uma navalha sobre a consciência atual. Eis o vídeo para relembrar.




O vídeo está aqui.
Desde então ela passou a falar para escolas, corporações, encontros e conferências internacionais sobre o meio ambiente. No ano seguinte em 93, ela lançou seu livro Tell The World, contando como ela e os amigos formaram o referido grupo e também sobre a sua participação nessa conferência.
Mais sobre Severn Suzuki aqui.
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Transcrição do discurso de Severn Cullis-Suzuki, de junho de 1992:


"Olá! Eu sou Severn Suzuki. Represento, aqui na ECO, a Organização das Crianças em Defesa do Meio Ambiente. Somos um grupo de crianças canadenses, de 12 e 13 anos, tentando fazer a nossa parte, contribuir. Vanessa Sultie, Morgan Geisler, Michelle Quigg e eu. Foi através de muito empenho e dedicação que conseguimos o dinheiro necessário para virmos de tão longe, para dizer a vocês, adultos, que têm que mudar o seu modo de agir.


Ao vir aqui, hoje, não preciso disfarçar meu objetivo: estou lutando pelo meu futuro. Não ter garantia quanto ao meu futuro não é o mesmo que perder uma eleição ou alguns pontos na bolsa de valores. Estou aqui para falar em nome das gerações que estão por vir. Estou aqui para defender as crianças que passam fome pelo mundo e cujos apelos não são ouvidos. Estou aqui para falar em nome das incontáveis espécies de animais que estão morrendo em todo o planeta, porque já não têm mais aonde ir. Não podemos mais permanecer ignorados!


Eu tenho medo de tomar sol, por causa dos buracos na camada de ozônio. Eu tenho medo de respirar este ar, porque não sei que substâncias químicas o estão contaminando. Eu costumava pescar em Vancouver, com meu pai, até que, recentemente, pescamos um peixe com câncer. E, agora, temos o conhecimento que animais e plantas estão sendo destruídos e extintos dia após dia.


Eu sempre sonhei em ver grandes manadas de animais selvagens, selvas e florestas tropicais repletas de pássaros e borboletas. E, hoje, eu me pergunto se meus filhos vão poder ver tudo isso. Vocês se preocupavam com essas coisas quando tinham a minha idade?


Tudo isso acontece bem diante dos nossos olhos e, mesmo assim, continuamos agindo como se tivéssemos todo o tempo do mundo e todas as soluções. Sou apenas uma criança e não tenho todas as soluções; mas, quero que saibam que vocês também não as têm.


Vocês não sabem como reparar os buracos na camada de ozônio. Vocês não sabem como salvar os peixes das águas poluídas. Vocês não podem ressuscitar os animais extintos. E vocês não podem recuperar as florestas que um dia existiram onde hoje há desertos. Se vocês não podem recuperar nada disso, por favor, parem de destruir!


Aqui, vocês são os representantes de seus governos, homens de negócios, administradores, jornalistas ou políticos; mas, na verdade, vocês são mães e pais, irmãs e irmãos, tias e tios. E todos, também, são filhos.


Sou apenas uma criança, mas sei que todos nós pertencemos a uma sólida família de 5 bilhões de pessoas; e que, ao todo, somos 30 milhões de espécies compartilhando o mesmo ar, a mesma água e o mesmo solo. Nenhum governo, nenhuma fronteira poderá mudar esta realidade.


Sou apenas uma criança, mas sei que esses problemas atingem a todos nós e deveríamos agir como se fôssemos um único mundo rumo a um único objetivo. Estou com raiva, não estou cega e não tenho medo de dizer ao mundo como me sinto.


No meu país, geramos tanto desperdício! Compramos e jogamos fora, compramos e jogamos fora, compramos e jogamos fora... E nós, países do Norte, não compartilhamos com os que precisam. Mesmo quando temos mais do que o suficiente, temos medo de perder nossas riquezas, medo de compartilhá-las. No Canadá, temos uma vida privilegiada, com fartura de alimentos, água e moradia. Temos relógios, bicicletas, computadores e aparelhos de TV.


Há dois dias, aqui no Brasil, ficamos chocados quando estivemos com crianças que moram nas ruas. Ouçam o que uma delas nos contou: "Eu gostaria de ser rica; e, se o fosse, daria a todas as crianças de rua alimentos, roupas, remédios, moradia, amor e carinho". Se uma criança de rua, que nada tem, ainda deseja compartilhar, por que nós, que tudo temos, somos ainda tão mesquinhos?


Não posso deixar de pensar que essas crianças têm a minha idade e que o lugar onde nascemos faz uma grande diferença. Eu poderia ser uma daquelas crianças que vivem nas favelas do Rio. Eu poderia ser uma criança faminta da Somália, ou uma vítima da guerra no Oriente Médio; ou, ainda, uma mendiga na Índia.


Sou apenas uma criança; mas, ainda assim, sei que se todo o dinheiro gasto nas guerras fosse utilizado para acabar com a pobreza, para achar soluções para os problemas ambientais, que lugar maravilhoso a Terra seria!


Na escola, desde o jardim da infância, vocês nos ensinaram a sermos bem-comportados. Vocês nos ensinaram a não brigar com as outras crianças, a resolver as coisas da melhor maneira, a respeitar os outros, a arrumar nossas bagunças, a não maltratar outras criaturas, a dividir e a não sermos mesquinhos. Então por que vocês fazem justamente o que nos ensinaram a não fazer?


Não esqueçam o motivo de estarem assistindo a estas conferências e para quem vocês estão fazendo isso. Vejam-nos como seus próprios filhos. Vocês estão decidindo em que tipo de mundo nós iremos crescer. Os pais devem ser capazes de confortar seus filhos dizendo-lhes: "Tudo vai ficar bem, estamos fazendo o melhor que podemos, não é o fim do mundo". Mas, não acredito que possam nos dizer isso. Nós estamos em suas listas de prioridades?


Meu pai sempre diz: "Você é aquilo que faz, não o que você diz". Bem... O que vocês fazem, nos faz chorar à noite.


Vocês, adultos, dizem que nos amam... Eu desafio vocês: por favor, façam com que suas ações reflitam as suas palavras.


Obrigada!"


Transcrição aqui.

A última lição

Randy Pausch


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Confesso que cheguei a pensar que ele de alguma maneira sobreviveria. Vi uma entrevista, por acaso na Oprah e não consegui desgrudar os olhos daquele cara. Era tão positivo, tão corajoso, entusiasmado e carismático. Não parecia ter apenas 6 meses de vida, mas sexta-feira (25/07) o professor de informática Randy Pausch, que inspirou o livro "A Última Lição" faleceu vítima de um câncer no pâncreas.
Randy, de 47 anos, ficou famoso em agosto de 2007 ao dar uma aula gravada em vídeo e disponibilizada no You Tube, na qual informava ter câncer de pâncreas e explicava aos alunos a forma como pensava em enfrentá-lo. A aula foi transfomada no livro A última lição, escrito pelo jornalista do Washington Post, Jeffrey Zaslow. Publicado em 32 países, o livro superou os 5 milhões de exemplares.

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Randy Pausch estava no auge da carreira e num dos melhores momentos da vida: 47 anos, aparência jovem, simpático, cheio de energia. Um professor que encantava os alunos. Casado e com filhos - de 5, 2 e 1 ano de idade - era um homem feliz.

No entanto, os planos e sonhos desmoronaram quando os médicos deram o diagnóstico, em agosto do ano passado. Randy tem um dos tipos mais violentos de câncer: No pâncreas, um órgão do aparelho digestivo. Viveria - no máximo - mais seis meses. Ele se viu diante da pergunta: o que fazer quando se tem data marcada para morrer?

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Paush disse que se fosse um pintor, faria um quadro. Se fosse um músico, teria composto uma música. Como é professor, decidiu dar uma aula. Para os colegas e alunos que lotaram o auditório, ele deu um aviso: não esperem lições sobre como enfrentar a morte. A lição é sobre a vida.

A aula foi um mês depois do diagnóstico. No único momento em que fala da doença, ele compara a vida a um jogo de cartas.

“Não podemos mudar as cartas que nos dão, apenas como vamos jogar aquela mão. E se não pareço deprimido ou abatido como deveria, sinto por desapontá-los. Aliás, estou em excelente forma, estou em melhor forma que a maioria aqui dentro”, disse o professor. E dá uma prova do que acabou de dizer. A aula se chama: “Como conquistar os sonhos de criança”. Randy diz que sempre quis flutuar no espaço. Não se tornou astronauta, mas conseguiu convencer a Nasa a entrar num avião que simula a gravidade zero.

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Tentou ser jogador de futebol americano. Também não conseguiu, mas aprendeu uma grande lição no dia em que o treinador não parava de criticá-lo. “Se você está fazendo algo errado e ninguém diz nada, você está perdido. Os seus críticos são aqueles se preocupam com você.”

E descobriu que é possível ser feliz mesmo sem realizar os sonhos do jeito que se imagina.

“Se você conduzir a sua vida do jeito certo, os sonhos vão ao seu encontro”, afirmou.

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Ele se tornou professor - na Universidade Carnegie Mellon, na Pennsylvania - de uma disciplina considerada árdua: ciência da computação. Na palestra, ele mostra que cativava os alunos. Incentivando a imaginação deles e tentando fazer tudo ser divertido.

“Eu não sei como não me divertir. Eu vou morrer se não me divertir. E vou me divertir todo o dia que me restar”.

A mulher dele, Jai, estava na platéia. Randy a usou como exemplo da importância de focar nos outros em vez de olhar só para si mesmo. O dia anterior à aula era aniversário dela, o último que - provavelmente - passariam juntos.

“Eu me senti mal por minha mulher não ter uma festa de aniversário apropriada. E achei legal fazer na frente de 500 pessoas”, disse. Todos cantaram parabéns. A emoção tomou conta de Jai e da platéia.

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Moshe Mahler era um dos alunos que assistiram à aula.

“Minha primeira reação foi perceber que estava ouvindo algo que se tornaria uma referência na minha vida”, contou o aluno.

“Procure o melhor nas pessoas. Talvez você tenha que esperar muito tempo, talvez anos, mas as pessoas vão mostrar o seu lado bom”, diz o professor.

A palestra se tornou um sucesso na internet. Já foi assistida por mais de dez milhões de pessoas e virou um livro. O professor Peter Lee - colega dele - também estava no auditório.

“Não há nenhuma grande revelação ou nova filosofia. Mas uma confirmação de que os melhores sentimentos que você tem sobre o mundo e sobre as pessoas são verdadeiros”, afirmou Peter Lee.

Numa entrevista, Randy disse: “eu não sei viver sem alegria, certo? Então eu estou morrendo e tendo alegria”. Mas revela: “Fico triste quando penso nos meus filhos. É como empurrar minha família para um precipício e não estar lá para protegê-los. Mas estou aproveitando meu tempo para fazer redes de proteção, para que não sofram tanto. E encerrou a aula dizendo: “Estas palavras não são para vocês. São para meus filhos”.L
eia mais.


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Trecho do livro "A última lição.




Sonhos para meus filhos

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Há muitas coisas que quero dizer a meus filhos, mas, neste momento, eles são crianças demais para entender. Dylan acabou de completar 6 anos, Logan tem 3 e Chloe, 1 ano e meio. Quero que as crianças me conheçam, conheçam minhas convicções e todas as formas pelas quais as amei. Por causa de suas idades, esquecerão boa parte.

Gostaria que elas pudessem entender que tento desesperadamente não deixá-las.

Jai e eu ainda não lhes contamos que estou morrendo. Fomos aconselhados a esperar até eu ter mais sintomas. Neste exato momento, embora tenham me dado apenas alguns meses de vida, ainda pareço bastante saudável. E, portanto, meus filhos continuam sem saber que em todos os nossos encontros estou me despedindo.

É doloroso pensar que não terão um pai quando ficarem mais velhos. Quando choro no chuveiro, em geral não estou pensando “não os verei fazendo isso”, ou “não os verei fazendo aquilo”. Penso no fato de eles não terem pai. Concentro-me mais no que eles perderão do que no que eu perderei. Sim, parte de minha tristeza é “eu não isso, eu não aquilo…”. Porém, uma parte maior se aflige por eles. Fico pensando: “eles não isso… eles não aquilo…”. É o que fica ruminando dentro de meu peito, quando permito.

Sei que eles se lembrarão de mim talvez de uma maneira um tanto confusa. Por isso eu tento fazer com eles atividades que considerarão inesquecíveis. Quero que suas recordações sejam as mais nítidas possíveis. Dylan e eu tiramos uns dias de férias para nadar com os golfinhos.








Uma criança não esquece facilmente que nadou com golfinhos. Tiramos muitas fotos.

Vou levar Logan à Disney, lugar que com certeza ele vai amar tanto quanto eu. Gostará de conhecer o Mickey Mouse. Eu já o conheço e, portanto, posso fazer as apresentações. Jai e eu também vamos levar Dylan, pois Logan parece não considerar suas experiências completas sem a participação do irmão mais velho.

Todas as noites, na hora de dormir, quando pergunto a Logan qual foi a melhor parte de seu dia, ele sempre responde: “Brincar com Dylan.” Quando lhe pergunto a pior parte do dia, ele também responde: “Brincar com Dylan.” Basta isso para se perceber quanto são unidos.

Tenho consciência de que Chloe não se lembrará de mim. Ainda é pequena demais. Porém, quero que ela cresça sabendo que fui o primeiro homem a se apaixonar por ela. Sempre achei que o relacionamento de pai e filha era descrito com exagero. Mas posso afirmar que é real. Às vezes, ela me olha e eu me derreto.


Há muitas coisas que Jai poderá contar a nossos filhos a meu respeito, quando eles ficarem mais velhos. Ela poderá lhes falar de meu otimismo, do modo com que aceitei tudo me divertindo, dos elevados padrões que tentei estabelecer em minha vida. De forma prudente, poderá lhes contar algumas coisas que me exasperavam; minha maneira excessivamente analítica de abordar a vida, minha insistência (muito freqüente) em saber mais. Porém, Jai é modesta, muito mais modesta do que eu, e talvez não conte a nossos filhos que durante todo o nosso casamento ela tinha a seu lado um sujeito que de fato a amava, verdadeira e profundamente. E não irá querer lhes contar os sacrifícios que fez. Qualquer mãe de três filhos pequenos se consome cuidando deles. Acrescente- se um marido vitimado pelo câncer e o resultado será uma mulher sempre atenta às necessidades alheias, e não às suas próprias. Quero que meus filhos saibam quanto Jai foi abnegada cuidando de todos nós.

Ultimamente venho fazendo questão de falar com pessoas que perderam os pais muito cedo. Quero saber o que as ajudou a atravessarem os tempos difíceis e quais as lembranças mais significativas que guardam.

Algumas me contaram que lhes servia de consolo saber quanto o pai e a mãe as amaram. Quanto mais sabiam, mais conseguiam sentir esse amor.

Também procuravam motivos para se orgulhar; procuravam acreditar que os pais eram pessoas incríveis. Algumas buscavam pormenores sobre as realizações deles. Algumas preferiram construir mitos. Mas todas ansiavam saber o que tornara seus pais especiais.

Essas pessoas também me disseram algo mais. Como tinham poucas lembranças dos pais, achavam reconfortante saber que, ao falecerem, guardavam maravilhosas recordações a respeito dos filhos. Com esse objetivo, quero que meus filhos saibam que minhas lembranças deles ocupam toda a minha mente.

Vamos começar com Dylan. Admiro quanto ele é amoroso e solidário. Se outra criança se machuca, Dylan oferece-lhe um brinquedo ou um cobertor.

Outro traço que vejo em Dylan: ele é analítico como o pai. Já percebeu que as perguntas são mais importantes do que as respostas. Muitas crianças perguntam: “Por quê? Por quê? Por quê?” Uma das regras de nossa casa é não se fazer perguntas de duas palavras, e Dylan respeita essa idéia. Adora formular frases interrogativas completas e é muito curioso para a idade. Lembro-me de que seus professores do pré-escolar o elogiavam dizendo: “Quando estamos com Dylan, pensamos: gostaria de ver o adulto em que esta criança se transformará.”

Dylan também é o rei da curiosidade. Onde quer que esteja, está sempre procurando algo e pensando: “Opa, há algo ali! Vamos dar uma olhada, pegar ou desmontar.” Diante de uma cerca de estacas brancas, algumas crianças arrastam uma vareta para ouvir o barulho “tac, tac, tac”. Dylan faz mais. Usa a vareta para forçar e afrouxar uma estaca e depois a usa para produzir esse barulho, porque é mais grossa e soa melhor.

Logan, por sua vez, transforma tudo em aventura. Quando nasceu, ficou preso no canal vaginal. Foram necessários dois médicos, puxando com fórceps, para ele vir ao mundo. Lembro-me de um dos médicos, com o pé na mesa, puxando com toda a força. Em determinado momento, esse médico virou-se para mim e disse:

- Caso isto não funcione, apelarei para correntes e Clydesdales. A passagem era estreita demais para Logan. Como ele ficou muito tempo apertado no canal vaginal, quando nasceu seus braços não se mexiam. Ficamos preocupados, mas não por muito tempo. Tão logo ele começou a se mexer, nunca mais parou. Ele é uma fenomenal bola de energia positiva, forte e sociável. Quando sorri, sorri com o rosto inteiro; é o Tigrão supremo. Também é uma criança disposta a tudo e que se torna amigo de todos. Tem apenas 3 anos, mas prevejo que será o diretor social do grêmio acadêmico.

Enquanto isso, Chloe é inteiramente feminina. Digo isso com um pouco de espanto, porque até ela chegar eu não entendia bem o que isso significava. Chloe estava programada para o setor de cesarianas, porém a bolsa de Jai se rompeu e Chloe deslizou para fora pouco antes de chegarmos ao hospital. (Essa é minha descrição. Jai talvez diga que “deslizou para fora” é uma frase que só um homem poderia dizer!) Em todo caso, carregar Chloe pela primeira vez, olhar seu rostinho de menina, talvez tenha sido um dos momentos espirituais mais intensos de toda a minha vida. Senti uma ligação diferente da que tinha com os meninos. Agora pertenço ao fã-clube de minha filha.

Adoro observar Chloe. Ao contrário de Dylan e de Logan, fisicamente tão destemidos, ela é prudente, talvez até mesmo dengosa. Instalamos uma portinhola de proteção no alto da escada, mas Chloe não precisa, porque se esforça ao máximo para não se machucar. Para Jai e para mim, acostumados a ver dois garotos rolando escada abaixo sem temer o perigo, a experiência é nova.

Amo meus três filhos completamente e de maneiras diferentes. E quero que saibam que eu os amarei enquanto eles viverem. Prometo.

Em razão de meu tempo limitado, precisei pensar em meios para reforçar meus vínculos com eles. E assim estou construindo listas separadas de minhas lembranças de cada um de meus filhos. Estou fazendo vídeos para eles poderem me ver falar sobre o que significaram para mim. Estou lhes escrevendo cartas. Considero o vídeo da palestra de despedida - e este livro também - pedaços de mim mesmo que posso lhes deixar. Tenho uma enorme caixa de plástico repleta de correspondências recebidas nas semanas posteriores à palestra. Um dia talvez meus filhos queiram examinar essa caixa e espero que fiquem satisfeitos ao descobrirem que amigos e estranhos acharam válida minha lição final.

Como defensor do poder dos sonhos de infância, ultimamente algumas pessoas têm me perguntado sobre os sonhos que tenho para meus filhos.

Minha resposta é clara.

Os pais não devem ter sonhos muito específicos quanto ao futuro dos filhos. Como professor, muitas vezes vi calouros insatisfeitos escolhendo cursos inteiramente impróprios. Os pais os colocavam em um determinado trem e o resultado freqüente era o trem descarrilar, a julgar pela choradeira em meu escritório.

Em minha opinião, a função dos pais é encorajar os filhos a desenvolverem a alegria de viver e uma grande necessidade de seguirem os próprios sonhos. O máximo que podemos fazer é ajudá-los a criarem um conjunto de ferramentas pessoais para essa tarefa.

Meus sonhos para meus filhos, portanto, são muito precisos: quero que cada qual encontre seu caminho para a realização. E como não estarei aqui, quero deixar bem claro: crianças, não tentem imaginar o que eu gostaria que vocês se tornassem. Quero que se tornem aquilo que quiserem se tornar.

Vi muitos alunos passarem por minhas aulas e conheci muitos pais que não percebem o poder das próprias palavras. Dependendo da idade da criança, ou da consciência que tem de si mesma, um comentário desastroso do pai ou da mãe pode ser tão devastador como uma escavadeira. Não sei bem se deveria ter comentado que quando crescer Logan acabará sendo diretor do grêmio acadêmico. Não quero que ele chegue à universidade pensando que eu esperava que ele aderisse a um grêmio, fosse um líder ou qualquer outra coisa. A vida de Logan será dele. Só quero insistir para que meus filhos encontrem o próprio caminho com entusiasmo e paixão. E quero que sintam como se eu estivesse ali com eles, independentemente do caminho que escolherem.


Daqui.




Klockwork Kubrick
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Até que alguém que pelas suas características foi diagnosticado como portador de autismo de alto desempenho, Kubrick se saiu muitíssimo bem.

Genial,o diretor tinha a seguinte teoria: repetir os takes exaustivamente, até obter o resultado pretendido. Apesar de parecer um ato aparentemente frio e desumano, os resultados com a atriz Shelley Duvall em O Iluminado parecem ter funcionado. Após mais de 100 takes (um recorde) os gritos de desespero da atriz na cena "Here is Johnny" pareciam reais. Talvez por que fossem reais.
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Da cinebiografia de Kubrick, adoro todos em maior ou menor escala, sendo que "Laranja Mecânica" é a menina dos olhos. Sempre julgado pela violência exacerbada, tudo ali tem uma razão de ser, inclusive a violência. Alias, Kubrick prima pela técnica impecável mesmo quando exagera.

Mesmo quando misturava diversas técnicas, ele criava o ambiente que queria da maneira que desejava. Seus cenários tem cores sempre extravagantes, poucos objetos de cena, chão brilhando, luzes estourando nas paredes e tetos, tudo tem uma perfeita sintonia com o mundo em questão. Aliás, essa característica não se diz somente à "Laranja Mecânica", e sim a todos os filmes de Kubrick, até mesmo Spartacus!




No filme Alex (a-lex, sem-lex, sem-lei) interpretado brilhantemente por Malcolm MacDowell é o protagonista narrador de nossa história, nosso herói pós-moderno, onde a ultraviolência é o ideal da violência estetizada, violência transformada em espetáculo, em show, em objeto de consumo. Violência industrial, objetivada e despersonalizada.






Alex deliberadamente agride e transgride essa segurança social como forma de afirmação de sua liberdade individual e o meio que encontrou para isso é destruindo as possibilidades de segurança da sociedade.






Se na violência passional há um sujeito que violenta um objeto de violação, isso já não existe quando a destruição se torna bem de consumo. Não importa mais quem sofre ou quem faz sofrer, muito menos o porquê do sofrimento. Agora é o próprio sofrimento, e unicamente ele, o sujeito, o objeto e a finalidade da violência.
Alex é preso. Concorda-se que Alex merece ser punido. Esse tratamento promete retirar de Alex a sua violência extremada.






É aí que a violência se inverte e o tratamento o torna enfim um indivíduo cujos instintos e vontades se encontram subjugados ao condicionamento social. Ser desprezível e sem importância, privado de qualquer espécie de prazer, Alex é agora uma laranja mecânica. Estava, agora, tão desumanizado quanto antes.






Se outrora o personagem não poderia ser considerado plenamente humano porque não era cúmplice do código social, agora ele é igualmente desumano, porque não pode ser senhor de si mesmo, não pode gozar de seus instintos.
A genialidade do filme está aí, na inversão dos valores, no enquadramento de Alex pelo Tratamento Ludovico e o questionamento que fica é:  Não estamos nós permanentemente sob um Tratamento Ludovico? Não é essa a função das instituições sociais como a Religião, a Família, a Escola e a Moral em si? Não estamos cada vez mais condicionados àquilo que se prevê como correto e bom? Não estamos mergulhados num sistema de dogmas e preconceitos que regem nossos julgamentos?
Enfim, é genial.

Leia mais.
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Stanley Kubrick

Nova Iorque, 26 de julho de 1928 — Hertfordshire, 7 de março de 1999.
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Loucura
Teu nome é Coringa.

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Assistir a um filmaço na pré-estréia tem dessas coisas, você simplesmente fica impossibilitada de falar, comentar, detalhar o que mais gostou sob pena de ser esquartejada com um simples olhar, rsss Ok, nem pretendo fazer isso aqui porque sei que muita gente ainda não viu o filme. As salas estão entupidas até o teto com todo merecimento, alias. Hoje prefiro falar do meu herói predileto justamente porque não é super. Batman é soturno, angustiado, cheio de dilemas e perdas. Não ter superpoderes humaniza o herói, coloca-o pertinho de nós simples mortais, no entanto dessa vez, o inimigo se colocou a altura do herói.
Nesse filme, o Homem-Morcego coloca sua moral e seus conceitos em xeque. Como enfrentar alguém sem limites e manter sua própria sanidade?
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Insano, o Coringa inspira medo e o trabalho de Ledger assusta. É algo visceral e cruel. O canto do cisne de um ator que estava caminhando a passos largos para se tornar um dos grandes de sua época. Não sei se a curta carreira será capaz de transformá-lo em um James Dean, mas certamente o tornará inesquecível por causa de seu Coringa.
Como preparação para o Coringa, Heath Ledger viveu sozinho em um hotel por um mês, desenvolvendo o lado psicológico, a postura e a voz do personagem. Ledger iniciou um diário, onde escrevia os pensamentos do Coringa e os sentimentos que o guiavam durante sua performance. Tudo assimilado e lá estava o Coringa, assustador tomando a telona por inteiro.
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Michael Caine, veterano ator de 75 anos, que interpreta o mordomo Alfred Pennyworth no filme, comentou sobre a intensidade e ferocidade do desempenho de Heath, acrescentando ser o melhor vilão que ele já teria visto. Impressionado com o colega, Caine, em entrevista falou de como eram as conversas no set, tudo muito tranquilo e amigável, no entanto bastava que fosse chamado à cena para que a transformação ocorresse: Ledger era o Coringa.
Aos 28 anos, Heath Ledger saiu de cena em grande estilo, deixando inscrito na memória a imagem de um grande vilão.



Meio Ambiente-se
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Simon Jackson

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Da série ninguém merece num domingo de manhã...
Ser acordada às 9 da madrugada, depois de dormir às 4 da manhã, é triste. Piora quando você abre os olhos e vê um poodle pulando na sua barriga, abanando o rabinho, roxo de vontade de ir ao banheiro (leia-se quintal)...Ah! se eu não te amasse tanto assim... teria te zunido na parede! Mas respirei funto e levei o cãozinho até o banheiro. Feito isso, ligo a TV para me dar sono e caio na besteira de começar a prestar atenção a um filme que passava.
Era "O Urso de Quermode - A História de Simon Jackson" . O filme conta a história de um garoto que decide salvar ursos. Não sei porque na hora achei que era um filme baseado em fatos reais e tratei de ligar o PC para descobrir. Sono perdido, começo a conhecer melhor a incrível história de Simon Jackson.
Aos 7 anos, Jackson fazia uma viagem com a família ao Yellowstone National Park, aquele do Zé Colméia, quando viu um urso, ou melhor uma ursa e seus filhotes. Essa visão foi tão impactante que ele se tornou de imediato um apaixonado pela natureza, em especial, ursos.

Aos 13 anos, Jackson um adolescente tímido e gaguejante resolveu comprar uma briga de gente grande. Reunindo toda sua coragem, ele enfrenta a poderosa indústria madeireira, o governo local, conseguindo aliados que vão do Príncipe Willian até os Backstreet Boys.

Incansável, Jackson senta-se a mesa com debatedores dispostos a derrubá-lo com argumentos ridículos sobre desmatamento consciente, coisa impossível diante dos interesses financeiros envolvidos.
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Nada abate o garoto e ele acaba saindo vitorioso.
Com seu trabalho, Simon garantiu proteção para uma área de cerca 6.500km2 em Princess Royal. Acordo sem precedentes na história dos EUA e que se mantém até hoje.
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Em abril de 2000, com apenas 17 anos, a Time Magazine homenageia Simon Jackson como um dos 60 heróis em todo mundo dispostos a salvar o planeta, "Heroes for the Planet", pelos seus esforços para salvar espécies ameaçadas de urso. Honraria feita, o humilde Jackson não se acha assim tão importante, ele apenas, palavras dele, acredita que quando se quer alguma coisa de verdade, tudo é possível.
Hoje, Simon Jackson, aos 25 anos é um ambientalista respeitado, presidente fundador da Spirit Bear Youth Coalition que abarca mais de 65 países e milhões de jovens dispostos a mudar essa história de caos ambiental, afinal da nossa casa cuidamos nós, certo? ;)
Leia mais: http://www.spiritbearyouth.org/

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Maiakóvski



imagem: garganta da serpente
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“Sou poeta.
É justamente por isto que sou interessante”.
(Maiakovski, Eu mesmo).





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Escritor soviético, Vladimir Maiakóvski nasceu em 19/07 (07/07 no Calendário Juliano) de 1893. Figura mais importante da literatura produzida após a Revolução de 1917.
Poeta combativo, usava as palavras com a intenção de chocar, de fazer propaganda em defesa do que acreditava. Lutava pela coletividade e era o que se chama de um romântico, ainda que não fosse ingênuo.
Mas era um poeta na sua essência, um sonhador que em certo momento entrou em conflito com o poder, o governo e sua prepotência. Vladimir Maiakóvski era o maior poeta russo moderno, aquele que mais completamente expressou, nas décadas em torno da Revolução de Outubro, os novos e contraditórios conteúdos do tempo e as novas formas que estes demandavam.
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Maiakóvski me dá um tesão absurdo.
Poeta apaixonado, não só pela causa que defendeu, pelas mulheres que amou, mas pela beleza máscula dele. Pois é, dá para imaginá-lo declamando vigorosamente seus versos pelas ruas de Moscou. Rosto marcante, compleição forte, sem ser bonito, coisa que particularmente não gosto em um homem, Maiakóvski foi um homem interesantíssimo, acredito.
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Explicava seu fazer poético pela simplificação excessiva e pelo jogo reflexivo. Ele resumia seu pensamento da seguinte forma:
“Eu não forneço nenhuma regra para que uma pessoa se torne poeta e escreva versos. E, em geral, tais regras não existem. Chama-se poeta justamente o homem que cria estas regras poéticas”.
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Afora o teu amor
Para mim
Não há mar,
E a dor do teu amor nem a lágrima alivia
[...]
Afora o teu amor,
Para mim
Não há sol,
E eu não sei onde estás e com quem.
[...]
Afora o teu olhar
Nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.

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O poeta era de natureza apaixonada e seus poemas, claro, não tinham apenas como temática a revolução e as causas sociais, mas também o amor (nunca fugirei desse tema, rss)
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Maiakowski tinha três mulheres em sua vida: Lilia Brik, Veronika (Nora) Polônskaia e Tatiana Iácovlieva. Quis casar com Tatiana, uma russa branca, mas não o fez. Também quis casar com Nora, mas ela não aceitou. Viveu com Lilia e com o marido dela, caso que estarreceu a sociedade e que foi batizado, ocidentalmente, de ménage à trois e, pela própria Lilia, de "uma ideologia amorosa", fundamentada no livro de Tchernichévski - Que fazer? - que pregava a não-possessividade entre marido e mulher.
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O caso teria acontecido mais ou menos assim, como narrado no livro I LOVE , the story of Vladimir Maikaovski and Lilia Brik, de autoria dos norte-americanos Ann e Samuel Carters, que passaram sete anos na Rússia bisbilhotando tudo a respeito desse outro lado da vida do poeta: Lilia era casada com Ossip Brik, crítico literário, e ambos vieram a conhecer Maiakovski quando este procurava um quarto para alugar. Passando a morar com o casal, os três tornaram-se muito amigos. Lilia e Maiakovski apaixonaram-se um pelo outro. Contaram a Ossip, que não viu motivos para deixar a casa. E continuaram a viver os três sob o mesmo teto.
Lilia foi "a mulher" na vida de Maiakovski, aquela para quem ele ofereceu poemas, aquela que recebeu o que viria a ser conhecido como "poema concreto": um anel, gravado com as iniciais de seu nome - L - I - UB - que, ordenadas de forma circular, formavam a palavra LIUBLIU (AMO).

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Em julho de 1972, Lilia Brik concedeu entrevista ao brasileiro Boris Schnaiderman, em sua residência perto de Moscou. Lilia garante que não tinha mais nada com Ossip Brik quando começou relacionar-se com Maiakovski. Quando desta visita de Boris, Lilia já estava casada há quarenta anos com V.A. Katanian, também amigo de Maiakovski, e ambos sempre se dedicaram a estudar e divulgar a obra do poeta. Em 1978, aos 86 anos, Lilia suicidou-se.
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Moscou, 26 de outubro de 1921

Meu caro, meu dileto,
meu amado meu adorado Lisik!
Aproveito a chegada de Vinokur para escrever uma carta verdadeira. Tenho desejo, tenho saudade de você - mas tamanha - que não encontro paz (hoje particularmente!) e penso somente em você. Não vou à parte alguma, caminho de um canto a outro, olho no seu armário vazio, nada pode scr mais triste do que a vida sem você. Não me esqueça, por Deus, amo-a um milhão de vezes mais que todos os outros postos juntos. Não me interessa ver ninguém, não tenho vontade de falar com ninguém a não ser com você. O dia mais lindo da minha vida será o da sua chegada. Ame-me, menina. Não se descuide, descanse, escreva se necessita de alguma coisa. Beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a beijo-a, beijo-a.

Não me esqueça, querida, inteiramente seu
Seu Cãozinho

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Na manhã de 14 de abril de 1930, Maiakovski então com 36 anos, escreve seu último poema, "A plenos pulmões".
Após ter passado a noite com Nora Polônskaia, tem com ela uma grande discussão. Nora resolve ir embora, mas antes que chegasse à porta do prédio, na Travessa Lubiânski, ouviu o tiro que Maiakovski com a mão esquerda, deu no coração.
Leia mais.
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Barreira alguma há de calar meu ímpeto,
nem os muros do Krêmlin, quadrimultiplicados.
Do asfalto, em turbilhão, vôo e vulnero tímpanos
Com o fragor fogoso dos meus brados.
Maiakovski

Os amores de Freud
Na adolescência, o criador da psicanálise enamora-se durante uma viagem; aos 26 anos encontra em Martha a paixão – e a transferência.


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Em 1872, Sigismund está com 16 anos, é aluno brilhante e adorado pela família. Nas férias, aceita o convite dos Fluss para ir a Freiberg, sua cidade natal.
É a primeira vez que retorna ao lugar de infância, depois de sua família ter mudado para Leipzig em 1859 e para Viena no ano seguinte. Na viagem, ele se apaixona perdidamente por uma moça de 14 anos, irmã de Emil Fluss, seu amigo de infância. A história está registrada em uma carta escrita por ele a Eduard Silberstein, em 17 de agosto de 1872:
Só quero dizer que sinto uma inclinação pela primogênita, Gisela, que parte amanhã, ausência que me dará uma segurança no comportamento que até então não conheci. Vossa graça, conhecendo meu peculiar caráter, imaginará, com razão, que, em vez de me aproximar, distanciei-me dela.
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(imagem: EM CARTA À NOIVA de 5 de outubro de 1883, Freud desenha sua sala no Hospital Geral de Viena.)
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Freud descreveu sua paixão ao confidente e não à amada: é dela que fala, mas não para ela. No artigo Lembranças encobridoras (1899), evocando esse amor de adolescente, ele o atribuirá a um paciente anônimo:

Eu tinha 17 anos, a filha de meus anfitriões tinha 15 e eu logo me apaixonei. Era a primeira vez que meu coração se inflamava de maneira tão intensa, mas guardei segredo sobre esse amor. Poucos dias depois, terminadas as férias, a jovem retornou ao seu colégio, e a separação, depois de um encontro tão breve, só fez exasperar minha nostalgia.

Na “confissão” a Silberstein, Freud disse estar loucamente apaixonado por Gisela, mas sua chama dirige-se rapidamente para Eleanora Fluss, a mãe da moça. Ele estremecia ao ouvir sua voz e quando se refere a ela não poupa elogios:

Mas afasto-me do assunto que muito me interessa: parece que eu transferi à filha, sob forma de amizade, o respeito que me inspira a mãe. (...) Admiro imensamente essa mulher, como nenhum de seus filhos consegue igualar. (...) Ela leu muito (...) e aquilo que não leu, ouviu falar, e tem suas próprias opiniões a respeito. (...) Conhece inclusive a política, participa dos assuntos do pequeno burgo e creio que é ela quem bafeja um espírito moderno pela casa. (...) Bela, nunca foi, mas uma chama espiritual, uma luz ousada certamente sempre jorrou de seus olhos, como ainda hoje. (...) Devia ver como educou e educa seus sete filhos. (...) Nunca antes eu havia conhecido tamanha superioridade. Outras mães – e por que negar que as nossas estão entre elas? Não as amamos menos por isso – ocupam-se apenas do bem-estar físico de seus filhos e não têm nenhum poder sobre seu crescimento intelectual. Devia ver também com que amor os filhos estão unidos aos pais e com que solicitude os empregados obedecem a eles.
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(imagem: O casal, em 1885 (Berlim), pouco antes da partida do jovem médico para Paris, onde passaria alguns meses estudando com Charcot)
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Então, Sigismund quer nos fazer acreditar que estava apaixonado pela filha, embora tão rapidamente direcionasse seu amor à mãe? No primeiro encontro, Gisela usava um vestido amarelo e Freud dirá que essa cor, quando vista em algum lugar, “ainda lhe causava efeito, muito tempo depois”. O vestido amarelo lembrava ao adolescente a cor das flores colhidas no campo em sua infância: na realidade, rever sua cidade natal emocionara-o mais que a companhia dos amigos. A viagem a Freiberg surtiu efeitos surpreendentes sobre o jovem. Mudou seu nome – de Sigismund para Sigmund – e alterou, sobretudo, seus projetos para o futuro.
Aos 12 anos, queria ser ministro; adolescente, o direito e a política o atraíam, e eis que de súbito renuncia à tarefa de governar os homens e a nação para interrogar a mente.

Teria Freud iniciado sua aventura analítica ao contar para o amigo Silberstein a estada em Freiberg? O processo de escrita já ocupava o primeiro plano de sua reflexão, exatamente como acontecerá mais tarde, entre 1882 e 1886, com as cartas incansavelmente trocadas com Martha Bernays durante os quatro anos que durou o noivado, no ritmo de quase uma carta por dia. Harold Blum, presidente dos Arquivos Freud, declararou, um século depois, que as cartas entre Sigmund e Martha foram “a mais importante correspondência amorosa da cultura ocidental”.

Certa tarde de abril de 1882, Martha Bernays visita as irmãs de Sigmund.O biógrafo de Freud Ernest Jones descreve o encontro:

“(Freud) tinha o hábito, ao voltar do trabalho, de dirigir-se rapidamente a seu quarto para voltar aos estudos, sem preocupar-se com as visitas. Mas, esta tarde, ele parou ao perceber uma moça que, sentada à mesa da família, descascava uma maçã tagarelando alegremente; para surpresa de todos, ele juntou-se ao grupo. Este primeiro olhar foi decisivo.”

Alguns dias após aquela primeira conversa, Freud pergunta se ele poderia ser, para Martha, tão importante quanto ela é para ele. O sol brilha no bosque de Mödling e a jovem se mostra encantadora; eles encontram uma amêndoa com dois frutos. Manda a tradição vienense que troquem presentes; ela envia um doce que preparou para que ele o “disseque”, ele lhe oferece uma rosa. Dois dias mais tarde, ela pega sua mão sob a mesa onde janta a família, em resposta a uma atenção delicada: ele quer conservar como lembrança seu cartão de visita.

Feliz, na solidão de seu escritório, Sigmund escreve sua primeira carta de amor, palpitante, com o segredo em primeiro plano:
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(Imagem: EM 28 DE JANEIRO de 1884, Freud comenta as iniciais enlaçadas do novo cartão de visita de sua noiva Martha Bernays: “Na minha opinião, o B é pretensioso demais e o M, por demais modesto. Como sabe, só o M me interessa”. No dia seguinte, ele dirá: “Madame Martha Freud soaria ainda mais belo a meus olhos e a meus ouvidos”. Abaixo, o monograma refeito depois de suas observações.)
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My sweet darling girl, (...) ignoro ainda como farei chegar até você estas linhas. (...) Mas me parece impossível protelar o envio desta carta, pois, nos poucos minutos que passaremos juntos, não terei nem tempo, nem talvez a coragem de falar tudo... Querida Martha, como você transformou minha existência, que delicioso momento experimentei hoje (...) a seu lado... Como desejaria que a tarde e o passeio jamais terminassem. Não ouso escrever o que me emocionou. Como imaginar que, durante meses, não verei seus traços queridos; (...) tantas esperanças, dúvidas, alegria, privações encontram-se condensadas nesse espaço de tempo tão curto de duas semanas... Você vai viajar e deve permitir que eu escreva. Estabeleci uma pequena estratégia. No caso de uma carta masculina parecer estranha na casa de seu tio, escreva com sua mão delicada seu endereço em alguns envelopes e depois eu preencho com um miserável conteúdo essas preciosas embalagens. (...) Para mim é impossível dizer a você tudo que me resta ainda a dizer, (...) não ouso terminar minha frase. (...) Queria estar certo de uma intimidade que talvez deva continuar secreta por muito tempo.

Martha responde, enviando-lhe um anel que pertencera a seu pai, morto três anos antes. Ele o coloca em seu dedo mínimo. Alguns dias depois, relata Jones, um cirurgião “afunda o bisturi na garganta de Freud para retirar um abscesso, e Sigmund, no sofrimento, bate a mão contra a mesa”: o anel quebra. O jovem, transtornado, escreve à bem-amada.

Meu anel quebrou no lugar onde estava a pérola. (...) Reconheço, meu coração não saltou. Nenhum pressentimento me diz que nosso noivado será rompido e nenhuma sombria suspeita me faz pensar que você, bem nesse momento, expulsava minha imagem de seu coração. Um homem impressionável teria sentido assim, mas eu só pensei em uma coisa: consertar o anel. Pensei também que tais acidentes dificilmente podem ser evitados.

Freud ainda não descobriu os “atos falhos”, mas já indaga sobre o significado desse “incidente” que põe em perigo seu amor. No entanto, é Martha quem ele questiona, é do “outro” que ele suspeita, em vez de interrogar a si mesmo sobre o significado desse inchaço em sua garganta, causa do acontecimento. Seria um sinal de angústia diante de seus novos sentimentos?

AUTO-ANÁLISE
Em 17 de junho de 1882, os dois jovens ficam noivos e prosseguem com paixão a correspondência romântica, esta incursão iniciática no diálogo do amor, matéria-prima da psicanálise. Sigmund escreve a Martha: É preciso que você me ame sem razão, como amam sem razão todos os que amam, simplesmente porque eu te amo. Entretanto, em agosto de 1882, uma forte inflamação da garganta impede-o de engolir qualquer coisa durante vários dias. Ao curar-se, ele sente uma fome gargantuesca como um animal saindo de um sono de hibernação, uma fome acompanhada de uma apavorante nostalgia, (...) apavorante não é a palavra exata, eu devia dizer estranha, monstruosa, desmesurada, em suma, uma indescritível necessidade de você. Tradução oral de um amor devorador, que o jovem deverá aprender a refrear, como o fez durante o noivado, sublimando-o na escrita.

Martha tem 19 anos, mas Freud refere-se a ela como uma criatura adorada, um “anjinho”, uma “criança querida”, um “bichinho” a quem ele pede testemunho de sua juventude: Tente, por favor, roubar todas as fotos de tua infância. (...) Eu gostaria tanto de te ver com as faces redondas como se vê em teu retrato de criança. Por que ele quer que ela mais pareça uma criança que um adulto? Cuide-se, jovem, as gavetas serão arrumadas segundo uma nova ordem.

Como o silêncio da senhorita se prolonga, ele se irrita: Eu não quero que minhas cartas fiquem sempre sem resposta! Depois, quando enfim chegam as cartas, seu tom já é outro:

Ao lê-las, não canso de aprová-la, sim, era bem assim que eu queria que ela fosse, minha pequena Martha, e assim ela tornou-se... Você ignora a extensão de sua influência sobre mim. Estou pronto a me submeter à tutela de minha princesa... Você se mostra tão ambiciosa a meu respeito. Quando penso no que eu seria se não tivesse encontrado você: um homem sem ambição, incapaz de gozar dos prazeres fáceis que o mundo oferece; provido de meios intelectuais modestos, e sem nenhum recurso material, eu perambularia miseravelmente e terminaria na ruína. Agora você me oferece não apenas um objetivo, uma orientação, você me dá esperança e certeza do sucesso... Tudo o que aconteceu e ainda acontecerá adquire para mim um interesse novo, graças ao próprio interesse que você mesma demonstra... Você escreve com tanto acerto e inteligência que me assusta um pouco...

As cartas sucedem-se, e esse encontro, essa presença real, estranha ao saber que tem de si próprio, permite-lhe antecipar a certeza do sucesso, pois a ambição que nasce dessa proximidade compensa, no imaginário, a incerteza que ele tem do prazer do outro.

Para a psicanalista e escritora francesa Marthe Robert, essa correspondência apaixonante não apenas é digna de figurar em uma antologia da literatura amorosa, mas constitui também uma parte importante da obra freudiana. Com ela finda a correspondência com seus amigos de adolescência, Eduard Silberstein e Emil Fluss, e começa, na realidade, sua auto-análise, bem antes da correspondência com o amigo Wilhelm Fliess. Mordida a maçã, tem início uma auto-reflexão escrita por Freud: escrevendo a Martha sobre seus sentimentos, angústias, caprichos, sonhos, ele lhe transfere seus afetos e, confiante, deixa livre curso para seus pensamentos: o amor e a separação revelam, para ele, o poder das associações “livres” e conduzem-no, assim, à própria operação analítica. ( Tradução de Juliana Montoia de Lima)

OS MISTÉRIOS DO OUTRO SEXO

A mulher é um enigma para o homem. Ela coloca em xeque a identificação masculina e interroga-o: qual transformação nele se opera ao assumir sua imagem masculina e quais as conseqüências dessa transformação? Em uma carta que escreveu a Martha, Freud evoca a lenda medieval de Melusina, retomada por Goethe no conto apresentado no romance Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister (1796): o filho do rei dos bretões casa com a fada Melusina prometendo jamais vê-la aos sábados. Entretanto, depois de muitos anos de felicidade, o homem descumpre sua promessa e, num sábado, observa, escondido, a esposa: Melusina era mulher até o umbigo e serpente do umbigo para baixo. Ele a vê se transformar em serpente alada e desaparecer para sempre. Freud diz a sua noiva que ele prefere não lhe contar “todas as idéias extravagantes ou sérias” que a leitura desse conto lhe causara. Essa referência a Melusina ressurgirá em um sonho estranho de Freud: Ernst Brücke, seu velho professor de psicologia, obriga-o a dissecar a parte inferior de seu corpo e Freud vê sua bacia diante de si, separada do corpo. (B. T.)

Daqui.
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Uma delícia saber que o pai da psicanálise ficou tão perdido de amor a ponto de escrever coisas como: É preciso que você me ame sem razão, como amam sem razão todos os que amam, simplesmente porque eu te amo.
O noivado foi um apaixonado trocar de cartas, já o casamento nem tão apaixonado relegou Martha a segundo plano. Literalmente a mulher por trás do grande homem. Ela foi a sombra que sustentava o médico. Freud nunca desenvolveria com ela uma cumplicidade intelectual, outras mulheres ocupariam esse lugar na sua vida. Ainda assim ela seria fundamental na vida dele.
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Na biografia de Freud que escreveu, Peter Gay cita a resposta enviada por Martha a uma carta de condolências que recebeu após a morte de Freud, na qual disse que "é um consolo pequeno saber que, em nossos 53 anos de casamento, nunca houve uma única palavra irada trocada entre nós, e sempre me esforcei ao máximo para afastar de seu caminho a "misère" da vida cotidiana".
Afastar a misère da vida dele. Acho que isso demonstra bem o que foi a vida dela e a sorte que ele teve em conhecê-la e ter alguém que por amor absteve-se de si. Uma bela história de amor.
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Cineclube à la carte
ou Orkut de cinéfilo
Nelito Fernandes

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Qual é a melhor forma de assistir a Doutor Jivago hoje? Se você não tem o DVD, dificilmente conseguirá na locadora da esquina. Se tiver paciência para fazer conversões, procurar legenda, rodar uns três programas, um computador bom, banda larga e não se importar em infringir direitos autorais, a internet está aí aberta 24 horas com filmes para baixar. E se você for exigente e quiser ver o longa no cinema, com toda a magia que só a sala escura, a tela grande e o barulho do vizinho mexendo na pipoca oferecem? Vá à internet também.
O MovieMobz (www.moviemobz.com), site de relacionamento para cinéfilos, estréia nesta semana com a idéia de servir de canal para que internautas promovam sessões de cinema de verdade em salas tradicionais. Depois do Video on Demand, chega o Cinema on Demand. Os membros do site poderão escolher entre os 200 filmes disponíveis inicialmente, que vão de Chaplin a lançamentos.


Achado o título, o internauta inicia o que o site chama de “mobilização”. Convida amigos da comunidade virtual para uma sessão, que pode acontecer numa das 156 salas da distribuidora Rain em 18 cidades do país. Assim que tiver um número de interessados que torne o negócio viável, a sessão é fechada e a sala é negociada pelo site.


O preço varia de acordo com o dia da semana, o horário e a lotação. Pode ser feita com poucos participantes e ainda assim sair até mais barato que o ingresso normal, se ocorrer em horários pouco lucrativos para o cinema.
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“Tem gente que usa a internet para combinar uma briga de torcida na porta do Maracanã”, diz Marco Aurélio Marcondes, diretor do MovieMobz. “Estamos propondo que ele seja usado para reunir amigos para assistir a um filme e depois bater um papo.”
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Ele pretende expandir o serviço para a Argentina, o México, a Colômbia e o Peru até o fim do ano. Quem acha que não conseguirá mobilizar os internautas para ver seu filme predileto poderá clicar no botão “quero ver” e esperar que a mobilização para aquele título comece. Assim que aparecerem interessados em número suficiente para uma sessão, o internauta recebe um e-mail avisando.
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1 - O internauta se cadastra e participa da comunidade de cinéfilos na qual discute filmes, dá notas, comenta e faz críticas

2 - Ele escolhe um filme e contata outros membros para promover a sessão. Outra opção é ver que mobilizações já estão sendo feitas e entrar ou cadastrar seu e-mail para ser avisado quando o filme pretendido tiver uma exibição agendada

3 - O objetivo é reunir o maior número de interessados para promover a sessão. Quanto mais gente, mais barato fica o ingresso

4 - Fechado o grupo, o site reserva a sala de cinema e envia digitalmente a cópia do filme. O preço varia de acordo com o horário, o número de participantes e o dia da sessão.
Link: Revista Época. Site: MovieMobz.
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* Li na Época e adorei a idéia de um site de relacionamentos entre cinéfilos e com a chance de ter uma sala de cinema a disposição para a exibição do filme escolhido. A idéia é genial e espero que dê certo. Vou me cadastrar DJÁ! ;)


ENTREVISTA RELÂMPAGO COM PABLO NERUDA
Clarice Lispector
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Cheguei à porta do edifício de apartamentos onde mora Rubem Braga e onde Pablo Neruda e sua esposa Matilde se hospedavam - cheguei à porta exatamente quando o carro parava e retiravam a grande bagagem dos visitantes. O que fez Rubem dizer: "É grande a bagagem literária do poeta". Ao que o poeta retrucou: "Minha bagagem literária deve pesar uns dois ou três quilos".
Neruda é extremamente simpático, sobretudo quando usa o seu boné ("tenho poucos cabelos, mas muitos bonés"). Não brinca porém em serviço: disse-me que se me desse a entrevista naquela noite mesma só responderia a três perguntas, mas se no dia seguinte de manhã eu quisesse falar com ele, responderia a maior número. E pediu para ver as perguntas que eu iria fazer. Inteiramente sem confiança em mim mesma, dei-lhe a página onde anotara as perguntas, esperando só Deus sabe o quê. Mas o quê foi um conforto. Disse-me que eram muito boas e que me esperaria no dia seguinte. Saí com alívio no coração porque estava adiada a minha timidez em fazer perguntas. Mas sou uma tímida ousada e é assim que tenho vivido, o que, se me traz dissabores, tem-me trazido também alguma recompensa. Quem sofre de timidez ousada entenderá o que quero dizer.
Antes de reproduzir o diálogo, um breve esboço sobre sua carga literária. Publicou Crepusculário quando tinha 19 anos. Um ano depois publicava Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, que até hoje é gravado, reeditado, lido e amado. Em seguida escreveu Residência na terra, que reúne poemas de 1925 a 1931, em fase surrealista.
A terceira residência, com poemas até 1945, é um intermediário com uma parte da Espanha no coração, onde é chorada a morte de Lorca, e a guerra civil em geral que o tocou profundamente e despertou-o para os problemas políticos e sociais.
Em 1950, Canto geral, tentativa de reunir todos os problemas políticos, éticos e sociais da América Latina.
Em 1954: Odes elementares, em que o estilo fica mais sóbrio, buscando simplicidade maior, e onde se encontra, por exemplo, Ode à cebola.
Em 1956, novas odes elementares que ele descobre nos temas elementares que não tinham sido tocados.
Em 1957, Terceiro livro das odes, continuando na mesma linha.
A partir de 1958, publica Estravagario, navegações e regressos, Cem sonetos de amor, Contos cerimoniais e Memorial de Isla Negra.
No dia seguinte de manhã, fui vê-lo. Já havia respondido às minhas perguntas, infelizmente: pois, a partir de uma resposta, é sempre ou quase sempre provocada outra pergunta, às vezes aquela a que se queria chegar. As respostas eram sucintas. Tão frustrador receber resposta curta a uma pergunta longa. Contei-lhe sobre a minha timidez em pedir entrevistas, ao que ele respondeu: "Que tolice!"

Perguntei-lhe de qual de seus livros ele mais gostava e por quê. Respondeu-me:
- Tu sabes bem que tudo o que fazemos nos agrada porque somos nós - tu e eu - que o fizemos.

- Você se considera mais um poeta chileno ou da América Latina?
- Poeta local do Chile, provinciano da América Latina.

- O que é angústia? - indaguei-lhe.
- Sou feliz - Foi a resposta.

- Escrever melhora a angústia de viver?
- Sim, naturalmente. Trabalhar em teu ofício, se amas teu ofício, é celestial. Senão é infernal.

- Quem é Deus?
- Todos, algumas vezes. Nada, sempre.

- Como é que você descreve um ser humano o mais complexo possível?
- Político, poético. Físico.

- Como é uma mulher bonita?
- Feita de muitas mulheres.

- Escreva aqui o seu poema predileto, pelo menos predileto neste exato momento?
- Estou escrevendo. Você pode esperar por mim dez anos?

- Em que lugar gostaria de viver, se não vivesse no Chile?
- Acredite-me tolo ou patriótico, mas eu há algum tempo escrevi um poema:
Se tivesse que nascer mil vezes. Ali quero nascer.Se tivesse que morrer mil vezes. Ali quero morrer...

- Qual foi a maior alegria que teve pelo fato de escrever?
- Ler a minha poesia e ser ouvido em lugares desolados: no deserto aos mineiros do norte do Chile, no Estreito de Magalhães aos tosquiadores de ovelha, num galpão com cheiro de lã suja, suor e solidão.

- Em você o qeu precede a criação, é a angústia ou um estado de graça?
- Não conheço bem esses sentimentos. Mas não me creia insensível.

- Diga alguma coisa que me surpreenda.
- 748.
(E eu realmente surpreendi-me, não esperava uma harmonia de números).

- Você está a par da poesia brasileira? Quem é que você prefere na nossa poesia?

- Admiro Drummond, Vinícius e aquele grande poeta católico, claudelino, Jorge de Lima. Não conheço os mais jovens e só chego a Paulo Mendes Campos e Geir Campos. O poema que me agrada é o "Defunto", de Pedro Nava. Sempre o leio em voz alta aos meus amigos, em todos os lugares.

- Que acha da literatura engajada?
- Toda literatura é engajada.

- Qual de seus livros você mais gosta?
- O próximo.

- A que você atribui o fato de que os seus leitores acham você o 'vulcão da América Latina'?
- Não sabia disso, talvez eles não conheçam os vulcões.

- Qual é o seu poema mais recente?
- "Fim do Mundo". Trata do século XX.

- Como se processa em você a criação?
- Com papel e tinta. Pelo menos essa é a minha receita.

- A crítica constrói?
- Para os outros, não para o criador.

- Você já fez algum poema de encomenda? Se o fez faça um agora, mesmo que seja um bem curto.
- Muitos. São os melhores. Este é um poema.

- O nome Neruda foi casual ou inspirado em Juan Neruda, poeta da liberdade tcheca?
- Ninguém conseguiu até agora averiguá-lo.

- Qual é a coisa mais importante do mundo?
- Tratar de que o mundo seja digno para que todas as vidas humanas, não só para algumas.

- O que é que você mais deseja para você mesmo como indivíduo?
- Depende da hora do dia.

- O que é amor? Qualquer tipo de amor.
- A melhor definição seria: o amor é o amor.

- Você já sofreu muito por amor?
- Estou disposto a sofrer mais.


- Quanto tempo gostaria você de ficar no Brasil?
- Um ano, mas depende de meus trabalhos.


E assim terminou uma entrevista com Pablo Neruda. Antes falasse ele é mais. Eu poderia prolongá-la quase que indefinidamente, mesmo recebendo como resposta uma única seta de resposta. Mas era a primeira entrevista que ele dava no dia seguinte à sua chegada, e sei quanto uma entrevista pode ser cansativa. Espontaneamente, deu-me um livro. Cem sonetos de amor. E depois de meu nome, na dedicatória, assinou: "De seu amigo Pablo". Eu também sinto que ele poderia se tornar meu amigo, se as circunstâncias facilitassem. Na contracapa do livro diz: "Um todo manifestado com uma espécie de sensualidade casta e pagã: o amor como uma vocação do homem e a poesia como sua tarefa".
Eis um retrato de corpo inteiro de Pablo Neruda nestas últimas frases.

Clarice Lispector entrevistou personalidades para as revistas Manchete (final dos anos 60) e Fatos e Fotos ( 1975/1977).
Leia mais
aqui.
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Pablo Neruda - 12 de julho de 1904 - 23 de setembro de 1973.
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De que morrem os filhos dos políticos?


imagem pizdaus



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Morrem esfolados vivos pelas esquinas da cidade? São metralhados por uma polícia boçal, incompetente e corrupta? São torturados e jogados no lixo, como se lixo fossem?

De que morrem seus filhos, “Excelências”???
Desaparecem misteriosamente em lagoas da Barra quando estão voltando para casa? Ou são baleados por seguranças nas portas das boates???

De que morrem seus filhos? Seus netos? Suas esposas, filhas, irmãs??? De quê morrem os senhores??? Protegidos por carros blindados, privilegiados por uma justiça capenga, morrem de quê? De tédio? De cansaço das viagens ao exterior ou seria de sono??? De quê??
Infelizmente poucos morrem lentamente de câncer, por exemplo. Ou esfolados, metralhados e baleados.
Poucos ou quase nenhum morre assim. São protegidos, estão acima da Lei.
Como os senhores morrem, nós filhos da Pátria nunca saberemos, mas de uma coisa, apenas uma coisa, eu desejaria que os senhores morressem: de VERGONHA!
Vergonha por não sendo de suas relações, seus amigos ou parentes, nós brasileiros andamos desprotegidos, desamparados pelas ruas da cidade, com medo de quem deveria proteger-nos.
Vergonha por subir morros cercados de seguranças fortemente armados para um pedido de desculpas. Desculpas? Desculpas de quê? Do que os senhores são pagos para fazer e não fazem? É isso?
Pois nós NÃO aceitamos desculpas! Elas não trazem de volta à vida aqueles que se foram. Elas não cicatrizam feridas no coração, na alma, nas lembranças. Elas são inócuas e só servem como uma tentativa ridícula de sair bem na foto.
Se os senhores não têm vergonha, eu tenho. Pela primeira vez na minha vida, eu tenho vergonha de ser brasileira.

Aos senhores, todo o meu desapreço.

Andrea Augusto
*Carta enviada ao Jornal O Globo em memória das vítimas da violência no Rio de Janeiro e no Brasil.
Afinidade Eletiva


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"E assim descansam os dois amantes um ao lado do outro.
A quietude paira sobre sua morada; anjos serenos, seus afins,
olham-nos do espaço. E que momento feliz aquele
em que, um dia, despertarão juntos"
Epílogo de "Afinidades Eletivas"

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Já maduro, com 60 anos, Goethe retoma o tema da paixão avassaladora com todas as suas implicações e conseqüências escrevendo “As Afinidades Eletivas”. Utilizando-se do princípio químico pelo qual dois elementos agregados se separam para unirem-se a dois outros elementos, Goethe constrói uma alegoria para demonstrar a determinação das forças da natureza no tocante à atração irrefreável que junta as pessoas. O título do livro foi extraído das Ciências Naturais; trata-se de uma expressão attractionibus electivis, usada para designar a atração entre dois elementos químicos diferentes, mas afins. Coincidentemente a personagem feminina principal também se chama Charlotte. Ela e o marido recebem em seu castelo um amigo e uma sobrinha. Na convivência diária as afinidades entre as pessoas vão se tornando mais evidentes e com o passar do tempo uma paixão irresistível irrompe desestruturando a vida do casal. O livro coloca muita coisas em questão: a fidelidade, o casamento e o significado do amor. A par disso, a mulher aparece no romance não como símbolo ou joguete nas mãos dos homens, mas na condição de interlocutora dotada de inteligência e de vontade.
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Sou fã de Goethe justamente pela paixão com que escreveu seus romances, bem como levou sua vida. Goethe começou a escrever Der Wahlverwandtschaften ("Afinidades eletivas"), em 1808 e só terminaria ao final do ano seguinte.
Este romance está centrado na análise moral e psicológica do jogo de atratividade e repulsa entre casais ligados por atrações inevitáveis e trata da explosão da paixão em um mundo cuja ordem é por demais frágil para suportar essa invasão. Fala de afinidades magnéticas animais que atrairiam os seres humanos entre si do mesmo modo que os elementos químicos. Nele Goethe considera o matrimônio uma "síntese de impossibilidades".
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Dificilmente encontrarei uma definição melhor para o casamento do que a de Goethe: síntese de impossibilidades. Talvez indo além na impermanência das relações afetivas de hoje, dá pra dizer que já o namoro é uma "síntese de impossibilidades."
Sair vencedor dessas impossibilidades nem sempre significa ficar junto, muitas vezes se dá o contrário e o lucro é grande para ambos que tratarão de ser felizes sem condicionar isso a um parceiro.
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"Poder descansar um dia ao lado de quem se ama é a esperança mais agradável que uma pessoa pode nutrir, se alguma vez pensar no além da vida, “reunir-se aos seus” é uma expressão tão comovedora!
Há vários monumentos e homenagens que nos fazem sentir próximos dos ausentes e dos mortos, mas nenhum tem a significação de um retrato. Conversar com o retrato de uma pessoa querida, ainda que não seja muito parecido, tem o mesmo encanto que às vezes experimentamos ao discutir com um amigo. Sentimos de um modo agradável que somos dois seres, porém inseparáveis.
Por vezes conversamos com uma pessoa presente como se ela fosse um retrato. Ela não precisa falar, olhar-nos, nem ocupar-se conosco; nós a vemos, relacionamo-nos com ela, e esse relacionamento pode até aumentar, sem que ela nada faça para isso, sem que perceba que não passa de um retrato para nós.
Nunca estamos satisfeitos com o retrato de uma pessoa conhecida. Por essa razão sempre lastimei os retratistas. Raramente exige-se o impossível de uma pessoa, e é justamente isso que fazemos com eles. Queremos que registrem na imagem também a nossa relação com a pessoa, a nossa afeição ou antipatia, devem representá-la não como somente eles a vêem, mas como nós a vemos. Não me admira que esses artistas tenham se tornado, aos poucos, obstinados, indiferentes e teimosos. Isso não teria nenhuma importância se, em função disso, não tivéssemos de nos privar dos retratos de tantas pessoas caras e queridas.
Sem duvida alguma, a coleção do arquiteto, de armas e objetos antigos, que, juntamente com os corpos, estavam cobertos por montes de terra e blocos de pedra, demonstra-nos como são inúteis as precauções das pessoas para conservar a sua personalidade após a morte. Como somos contraditórios. O arquiteto confessa ter acerto, ele mesmo, esses túmulos dos antepassados, e, entretanto, continua a se ocupar de monumentos para a posteridade.
Mas porque levar isso tão a sério? Será que tudo o que fazemos é para a eternidade? Não nos vestimos de manhã para tornarmo-nos a despir-nos à noite? Não saímos de viagem justamente para regressarmos? E por que não desejarmos descansar ao lado dos nossos, mesmo que seja só por um século?
Ao vermos tantas lápides afundadas na terra e gastas pelos pés dos fiéis, e tantas igrejas desmoronadas sobre suas próprias tumbas, a vida após a morte pode parecer-nos, então, uma segunda vida, na qual se ingressa através de uma imagem, de uma inscrição, e na qual se permanece mais tempo que nesta própria vida. Mas essa imagem, essa segunda existência também se extingue, mais cedo ou mais tarde. O tempo não cede em seus direitos sobre os homens, nem sobre os monumentos. (...)”

Trecho daqui.
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O livro de Goethe originou o filme "Afinidades Eletivas" que se passa na Toscana, final do século XVIII.
Numa casa de campo, o jovem casal Edoardo e Carlotta recebe a visita de Ottone e Ottilia. Juntos fazem experiências que demonstram que certos elementos possuem afinidades eletivas, ou seja, uma atração especial um pelo outro. Das experiências, nascem novas relações amorosas entre os casais. Um belo filme com interpretações memoráveis.
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