A difícil arte de conceder.
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Certamente não é esse o título da crônica de Martha Medeiros, mas quando recebi do meu amigo Luiz, achei ótima e por isso estou publicando por aqui. Obrigada. Luiz.
Ps: O título correto e o texto completo foram enviados pela querida amiga e poeta, Fernanda Guimarães. Brigada querida!
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Batalha entre duas generosidades
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Quando vejo reportagens femininas que buscam desvendar o que as mulheres levam na bolsa, sempre me surpreende a falta de um objeto de uso fundamental. Estão lá o batom, o celular o iPod, mas e um livro? Nem pensar? O mercado editorial já assimilou a potencialidade dos pockets books e, até onde sei, eles vendem bem. Como não venderiam? São pequenos, baratos e oferecem títulos de primeira. Eu sempre carrego um dentro da bolsa, porque nunca se sabe quando terei que enfrentar uma fila ou uma sala de espera.
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"O último livro que andou partilhando a intimidade da minha bolsa foi “A felicidade conjugal”, de Tolstoi. Com essa obra, o russo, além de exterminar de vez a discussão boba sobre diferenças entre literatura feminina e masculina (a gente jura que é uma mulher escrevendo), consegue revelar de forma brilhante (e, ao mesmo tempo, perturbadora) o segredo que mantém tantos casais unidos: homens se sacrificam, mulheres se sacrificam, e fica mais tempo junto o casal que tiver o maior potencial de generosidade.
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Parece, mas não é uma noticia alentadora. É literalmente bonito, daria uma boa novela das seis, mas, de minha parte, meu sonho não é um homem que sacrifique seus desejos em detrimento dos meus, e vice-versa. O que Tolstoi define elegantemente como uma “batalha entre duas generosidades”, nós, mundanos, chamamos de “concessões”. Essa palavra mais sugere uma batalha jurídica do que de generosidade, mas é tudo a mesma coisa.
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Óbvio que temos que conceder. O tempo inteiro, desde que nascemos. Até aí, estamos falando de família, um ringue onde regras são criadas coletivamente. Mas quando casamos com o senhor fulano de tal, ou com a dona sicrana da silva, que vieram sabe-se lá de onde e amparados em tais fundamentos, a concessão vira o calcanhar-de-aquiles do contrato. Ele adora dançar, você odeia música. Ela adora natureza, você não suporta passarinho. Mas se amam, olha que situação. Quem cede ?
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A felicidade conjugal só sobrevive quando os dois dão sua cota de sacrifício de forma menos dolorida possível. Ninguém morre se tiver que dançar um pouquinho ou tiver que passar um fim de semana no sítio, isso é cláusula previamente acertada e nem comporta a rigidez da palavra “sacrifício”.
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Mas e se você tiver que enfrentar uns “nunca mais” pela frente? E se os seus sonhos de juventude tiverem sido enterrados? E se o seu trabalho ficar comprometido? E se sua vida virar um palco e você tiver que assumir um personagem 24 hs por dia? E se sentir saudades de alguém que você já não é mais? Não pense que isso é dramatismo. É mais comum do que se imagina. Tem pessoas que renunciam a si mesmas e só percebem isso quando não há mais retorno possível.
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Generosidade, mesmo, é você permitir e incentivar que o amor da sua vida seja exatamente como ele é, e ele retribuir na mesma moeda, sem querer mudar você nem um naquinho assim.
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Mas esse romance ainda está para ser escrito."
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Martha Medeiros (Revista de O Globo de 26.10.08)

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Excelente, alias, o último parágrafo resume tudo e acho mais, não é só a generosidade de deixar o outro ser. Acho que amar outra pessoa é exatamente isso: deixar o outro ser o que é.
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11 comentários:

    Li essa crônica ontem e também achei que ela estava com a razão. Sincronicamente, estava relendo Joseph Campbell, em "O Poder do Mito", e ele falava sobre o casamento, sobre a necessidade de ajuste espiritual, um compromisso que vai muito além da bilogia... Você concorda?

    Querida, estou com saudade das suas visitas. Aproveite que dei uma "varrida" na teia de aranha e dê um pulinho lá - se puder - para conhecer a jovem Carolina. Quem sabe você se anima a faer a longa travessia até o Centro, conhcê-la de perto e me conhecer, afinal!

    Beijos

    Ana

    Andrea,acho que cabe aqui algo que
    disse a Clarice Lispector.Se não me falha a memória,é assim:
    "Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado:pensava
    que,somando as compreensões,eu amava.Não sabia que,somando as
    incompreensões é que se ama verdadeiramente."
    Um abraço.
    Amarísio

    Andréa,
    O titulo do texto é "Batalha entre duas generosidades" e está com o conteúdo alterado.
    Vou tentar te enviar por e-mail, caso eu consiga escanear.

    beijoa

    Obrigada a todos e Fê se por acaso conseguir o texto na íntegra, envie-me pq gostei muito!

    bjimm pro6SS tudo!

    Andrea,fiquei muito feliz a com sua visita ao meu recanto e com o carinho deixado lá.
    Volte sempre que quiser.
    Beijos.
    Amarísio

    On terça-feira, 28 outubro, 2008 ANDRÉA BOFFO disse...

    Andréa

    Adoro as coisas que a Martha Medeiros escreve, acompanho as colunas nos jornais O Globo e no Zero Hora - que tbm tem um blog. Acho ela muito querida, eu as vezes tenho a sensação boa de que ela escreve, as vezes, algumas coisas PRA MIM.
    Como vê, continuo sempre passando por aqui, virou vício.
    Bjs.

    E quando a gente tem que mudar de cidade porque o outro arrumou um emprego??? Ah, essas concessões... ah, essas cláusulas em letra miúda que passam despercebidas... beijos, Angel!

    Andrea, adorei o texto, voce sempre encontra uma colocação feliz em seus posts. Eu acho incrivel que quando nos apaixonamos por alguem nao conseguimos ver defeitos e ai depois queremos mudar estas pessoas .....transforma-las em algo que nao sao...beijos joao

    Um prêmio pra você.
    Aqui: http://eumeuoutro.blogspot.com/2008/10/prmio-dardos.html#links

    Beijos

    Adorei seu blog... Usei uma imagem no meu blog, caso não concorde, eu tiro-a .

    Psicografia - Ana Cristina Cesar

    "Também eu saio à revelia
    e procuro uma síntese nas demoras
    cato obsessões com fria têmpera e digo
    do coração: não soube e digo
    da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
    na vida) e demito o verso como quem acena
    e vivo como quem despede a raiva de ter visto"
    Abraço

    Carmen

    On domingo, 02 novembro, 2008 Quelzim. disse...

    "Deixar o outro ser o que é..."

    Acredito que amar é conhecer a pessoa, é tomar conhecimento da totalidade daquele ser humano que apareceu em tua vida, de repente. Dessa forma, se eu o conheço e, ainda assim, eu o amo, para quê mudarei alguma coisa naquela obra-prima? Qualidades são admiradas e os defeitos, respeitados. Já perceberam que quando a gente ama até os defeitos se tornam um charme naquela pessoa? "Ah, esse é tão lindo acordando com essa cara toda amarrotada". Se um defeito torna-se intragável a uma das pessoas, o alarme do amor deve estar soando e vocês não devem ter percebido. Não que o amor seja cedo, burro ou estúpido. Mas o amor é, essencialmente, generoso.

    Acredito que as pessoas ou casam-se sem se conhecerem direito uma a outra ou se casam sem conhecerem direito a si próprias. Isso acontece bastante, já que vejo muitas pessoas transferirem suas expectativas e traumas nas costas dos outros. Mas, se eu me conheço o suficiente para saber diferenciar-me da pessoa amada, isso já é meio caminho andado para que a generosidade entre duas pessoas possa agir de maneira leve, como deve ser.

    Beijos, minha irmãzinha.

    Quelzim.