29/10/2008
25 anos da morte de Ana C.
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"Poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem" (1990) Curta metragem em homenagem à poeta Ana C.
A voz feminina no vídeo é da própria Ana C. O áudio está ruim. Segue transcrição (faltando partes...)

"Pode começar a gravar?
Tá, começar.
Já comecei.

Um curativo aberto
Um silêncio aberto
Um fantasma romântico no peito
Se você dançar...

(...) na estrada ponho as chinelas havaianas
(...) calor
(...) rubro

Eu procurava as chaves
(...)
Atravessava a luz deserta da praia
de cabo a rabo,
de vestido."
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Revista de CINEMA – "Poesia é Uma ou Duas Linhas e Atrás uma Imensa Paisagem", sobre a poeta Ana Cristina César, é seu único curta. Por quê? Um média ou um longa-metragem sobre ela resultaria excessivo?
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Moreira Salles – Nunca houve a possibilidade de "Poesia" ser maior. Explico. Eu estava terminando de editar "América", no ISER, e lá conheci o Waldo César. Eu não sabia que ele era pai da Ana Cristina. Nós ficamos amigos e um dia ele me entregou uma fita cassete, dizendo que sua filha havia gravado um poema, será que eu podia transformá-lo em um vídeo? Fui pra casa sem saber o que tinha nas mãos. Em casa, ouvi a fita. Era a Ana Cristina. O poema é lindo – fala do passado, da memória de um tempo sem peso, daquele momento sutilíssimo em que se passa da inocência para a vida adulta. "Poesia" é apenas isso: a tentativa de atender ao pedido do Waldo.
Entrevista na íntegra aqui.
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Foto montagem - Luiza Santoloni - site IMS
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"Ao fechar o livro que contava sua própria história, em 29 de outubro de 1983, Ana C. provocou uma comoção geral. "Um acontecimento dessa ordem não afeta somente o que você escreve, mas a sua vida inteira; ainda mais quando acontece com alguém de sua intimidade", declarou em uma revista o poeta carioca Armando Freitas Filho, que foi um de seus poucos amigos.
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Para Armando Freitas Filho, Ana C. "encarava a modernidade". Certa vez o poeta relacionou esta característica à brevidade de sua passagem: "Talvez por isso tenha morrido cedo pura passagem permanente muitas asas e um desdém pelo que poderia ser raiz. O lugar que ocupa é linha do horizonte virtual e veloz".
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Ana Cristina Cesar, por ela mesma, não disse nada. Não deixou bilhete de despedida não que tenha sido revelado. Deixou poesia. E em seus poemas sobre a vida não falou. Apenas sussurrou ao vento alguns versos, que, dizem, só ouviu quem assim como ela tinha alma de veludo."
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Três inéditos de Ana Cristina Cesar nos 25 anos da sua morte.
Do Prosa Online
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lá onde o silêncio é relva
de lá corrói-se hoje o texto
corrói-se porque hoje o agarra
o pré-texto que nunca se alheia
e o antecede em silêncio
lá onde os signos me esquecem
separados pré-texto e soneto
esqueço que os tenho alheios
à pressa de separá-los
esqueço que lábios e signos
sem pressa se fazem relva
e inscrevo desconhecido
o último verso desgarrado:
26.9.72



***

Projeto para um romance de vulto


- Você se importaria de ler algo sórdido? Não, não é bem algo sórdido, pelo contrário, é uma página importante que testemunha a obsessão de registrar todos os pormenores de uma mente e todo o desenrolar da história do pensamento. Eu me curvo e me escondo ante o que escrevi ao me entregar totalmente a esta obsessão. E sinto inclusive o infeliz medo da tua leitura mas fico subitamente feliz porque percebo que deste medo posso fazer outros textos que tematizem o medo e depois falem do texto que escrevi para aplacar o medo e dos outros textos que escrevi para aplacar os primeiros textos.

***

MÍMESIS


quando esqueço
as grandes assombrações
e beijo teu regaço escuro, tua pequena
pele surpreendente
temo que o meu rosto se desfigure e volte
a imitar
os mistérios da noite e a trágica história do
malabarista
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[...] Ana Cristina é ela mesma. E, enquanto tal, não somente surpreende:desconcerta. (...) Língua afiada e ferina, a de Ana Cristina, que com humorferocíssimo, sequer a si mesma se poupa [...] A autora se despe ao nível de um confessionalismo que beira às vezes a afronta aos cânones comportamentais da pequena-burguesia. Poderão argüir alguns que essa linguagem nada tem a ver com poesia. Engano. Tem, sim. E tem,sobretudo porque, exatamente no plano da linguagem –, são estes os vetores que mais vêm colaborando para a definitiva estratificação de uma poética feminina (não necessariamente feminista) cujo objetivo é integrar a mulher na ordem social de nossos dias (JUNQUEIRA, 1979, on line)
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Sua obra, apesar de breve e fragmentária, está longe de demonstrar, pela literatura, o interesse diletante ou o modismo exibicionista, de muitos poetas de sua geração. Sua apurada consciência artesanal e o à-vontade com que manipula uma complexa rede de alusões e referências literáriasmostram que levava a literatura talvez muito a sério, uma seriedade que certo humor amargo e ferino só faz acentuar. Lúcida, ela sabe que empenhar-se a fundo na criação literária traduz uma forma de paixão cujo destino primeiro poderia ou deveria ser a própria vida [...] Toda obra de Ana Cristina é fortemente autobiográfica, não enquanto relato de uma vida, mas enquanto análise impiedosa e radical da impossibilidade de vivera vida plena que sua sensibilidade pedia [...] (MOISÉS, 1985, on line).
Cada carta é um poema de Ana Cristina César, tocados todos de um"sentimento", forte o bastante para fazer brotar, no canto do olho, mesmodo leitor mais distraído, uma furtiva lágrima, sobretudo face ao encanto, este poroso encanto capaz, só ele, de dar notícia do ido e do vivido; do aziago da vida sim; mas, tanta vez, também do seu mel.
Retalhos nostálgicos, notícias de ontem, o que estas cartas falam ninguém poderia falar com mais propriedade senão ela própria, Ana C., a cavalo de seu mito e de sua "mitologia" pessoal, na vivência minuciosa dos "anos loucos"onde oscilávamos entre comprar ou não um revólver para os momentos de pânico. Errar de cálculo, este tempo, se mostrou sempre fatal. Ana C., por um descuido, se enganou de pulso e de impulso e se atirou do oitavo andar do edifício feito o tropeço lúdico dentro de um sonho, ou de um pesadelo,do qual invariavelmente acordamos. Acontece que Ana C. não acordou mais. Para se tornar, daí em diante, o mito incurável de uma lenda sem-fim (BUENO, 2002, on line).


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Ana Cristina morreu em 29 de outubro de 1983 e, com certeza, pela sua juventude ebeleza, pelo conteúdo e forma de sua obra, pela interrupção brusca de sua vida e do seu talento, tornou-se símbolo e ícone. Quando a vida segue o seu curso normal, as pessoastêm tempo de se preparar para a passagem daqueles que, de alguma forma, têm parte ou influência em suas vidas. Isso não acontece, em casos como o de Ana Cristina, onde a ruptura abrupta sempre deixa o único recurso de uma saudade brutal ou de uma veneração desmedida.
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De qualquer forma é importante a noção, e o consolo, de que as pessoas se perpetuam, nos corações e nas almas, pelo que deixam, na forma de obras materiais, como é o caso de Ana Cristina, ou através das lembranças de atitudes, palavras ou gestos, que podem fazer melhor a vida dos que ficaram.
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Conforme mencionado, escreveu para diversos jornais e revistas. Além disso, fez parte da antologia 26 poetas hoje, publicada em 1976. Em edições independentes, publicouLuvas e Pelica, Cenas de Abril e Correspondência Completa, além de Literatura não é Documento, uma pesquisa sobre a literatura no cinema.
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Para Queiroz (2002, on line),
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vários livros seus são póstumos e o interesse por ela cresceu no bojo dasleituras críticas feministas, recorrentes a partir do final dos anos noventa.A sedução que a obra de ACC exerce sobre seu público advém não apenasdas qualidades inegáveis de uma forte e sofisticada lírica, a despeito dotom coloquial, mas também do cruzamento de fatores que conferem à obra um surplus de significação, a saber, o próprio evento do suicídio, que canaliza em quem se aproxima de seus textos uma vocação irresistível para investigar as pistas que possam explicar o trágico desfecho.
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Acredita-se que os aspectos da vida privada na obra, sob forma de uma sexualidade e eroticidade explicitamente tematizadas no feminino, em primeira pessoa e com referências a personagens reais, se expressa numa lírica coloquial. Tal fato confere à obra da autora singularidade única, em termos de qualidade e de atualidade. Ana Cristina César bancava uma tortuosa discussão sobre o papel das mulheres, acompanhando, não sem ironia, os estudos de gênero que então despontavam na Europa, investigando no feminino sem ser feminista, ela defendia que literatura tem gênero, o que só reafirmou em seu trabalho.Tendo em vista as circunstâncias de sua morte e o fato de Ana Cristina ter deixado uma série de documentos, tais como cartas, poesia, diários, traduções, desenhos etestemunhos, seus livros foram reagrupados e republicados, como foram também publicados outros documentos inéditos.

Segundo Eliot (1997, p.43),

Ana C. pensou sua poesia, pensou literatura, fez crítica, estudou traduçãoe, como podemos notar no conjunto de seus escritos, isso tudo participava,e muito, da sua criação literária. Em seus ensaios e artigos críticos encontramos uma teórica bastante consistente, levantando questões que nos parecem fundamentais para a leitura de seus próprios textos.
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De acordo com o autor, todo poeta ao criar coloca em ação sua habilidade crítica,avalia seus procedimentos, estabelece parâmetros, faz comparações, aciona seu conhecimento histórico, literário. Esse exercício crítico era consciente para Ana Cristina César, que, após concluir o Mestrado em Comunicação, embarcou para a Inglaterra para um curso de tradução literária onde viu a oportunidade de estudar teoria.

Como reza o senso comum, a respeito de Ana Cristina César, seus textos literários são percebidos como relatos e confidências, em forma, às vezes, de diários e de correspondências.
Em Correspondência Incompleta a poeta Ana Cristina César extrai o sublime do prosaico e fala sobre a perplexidade de estar viva.


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* Infelizmente a postagem automática não colocou no dia certo, 29/10, mas tá valendo, já tinha preparado muito antes.  Eu amo essa mulher e o irmão dela também, claro.
Links: As cartas de Ana Cristina Cesar.
IMS
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3 comentários:

    Andrea,valeu a homenagem à Ana Cristina César.E eu devo agradecer pela oportunidade que você me deu de conhecer mais dessa comovente poeta.
    Deu-me vontade de retomar uma carta de amor que comecei a escrever há dias.
    Um grande abraço.
    Amarísio

    Venho por causa da postagem sobre a Ana Cristina Cesar. Eu que tenho, graças ao meu irmão mais velho, o livro A teus Pés, leio sempre - vez por outra, aliás, os poemas dela. Ela fala quebrado e é a linguagem da modernidade sim. Não que fosse feminista ou melancólica, mas era uma voz que se emancipava da rima simples e de alguns costumes românticos ao escrever sobre amor e pedaços de um tempo em que viveu. Há tempos ausente em vida, mas presente através da obra que deixou.

    Bom lembrar que escritoras de nossa moderna idade têm talento e voz.

    Um abraço,

    Letícia

    Ana Cristina César tinha olhos de Capitu.

    (dorando seu blog! beijo!)