Pelo seu aniversário,
mãe.
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Imagem do filme Asas do Desejo
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(...) O que nunca pensei é que pudesse ser assim tão vazia uma casa sem um anjo. Dentro de mim existe alguma coisa que espera a sua volta, de repente, não sei se pela janela ou se aparecerá novamente no mesmo lugar. Para prevenir surpresas, tenho deixado sempre abertas todas as janelas e todas as portas de todos os guarda-roupas. Enquanto você não chega, preparo duas coroas de flores: uma para o seu túmulo, outra para o guarda-roupa que você habitava.(...)

CFA
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Será possível que nada se cumprisse?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
- Que nada sejam senão seu rosto ido
Sem regresso nem resposta - só perdido
Sophia de Mello Breynner
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Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.


Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.
Fernando Pessoa, 15-11-1930.

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Naquele tempo, minha única ocupação diária era tentar não morrer. Talvez pareça excessivamente dramático dito assim, mas assim era. Nem sinistra ou espantosa, apenas cotidiana feito xícara de café, janela aberta ou fechada sobre esse espaço vago que chamam de o depois, dentro e fora de mim, a morte estava sempre presente.
Naqueles dias uterinos, gordurosos, naqueles dias amnióticos quando eu não conseguia sequer sair da cama, trinta horas em posição fetal sem dormir nem viver, numa espécie de ensaio geral da treva definitiva...
Daquele tempo nem tão distante, daqueles dias que até hoje duram às vezes duas, às vezes duzentas horas, restou essa sensação de que, como eles, também me vou tombando rápido dentro da boca de um vulcão aberto sem fôlego nem tempo para repetir como numa justificativa, ou oração, ou mantra, enquanto caio sem salvação no fogo que é verdade, que si, que no, que nadie puede mismo vivir sin amor.
CFA
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"Vou me lembrar de você,
Só enquanto eu respirar..."
O Teatro Mágico, O Anjo Mais Velho
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Haverá para os dias sem memória

outro nome que não seja morte?
Morte das coisas limpas, leves:
manhã rente às colinas,
a luz do corpo levada aos lábios,
os primeiros lilases do jardim.
Haverá outro nome para o lugar
onde não há lembrança de ti?
Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra (1989)
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"As memórias são como pássaros em vôo. Vão para onde querem. E podemos chamá-las que elas não vêm. Só vêm quando querem.
Moram em nós, mas não nos pertencem."
Em O velho que acordou menino – Rubem Alves
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Do Outono II



Sem vento, a minha voz secou
aqui, neste parque de cedros quietos.
Tudo é como ontem era, mas a minha
voz, na minha face, calou-se,
porque só o vento me trazia a fala,
vinda de algures, com notícias de alguém,
indo para além, para outros ouvidos, num país.
Fiama Hasse Pais Brandão

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"Ai. Saudade é uma coisa azul e amarga com carne por fora e espinho por dentro".
Caio Fernando Abreu
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* Para minha mãe, no dia do seu aniversário. Muitas saudades.
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4 comentários:

    Uma afago para minha amiga Anja. :-)

    Não tenho mais comigo a presença física de minha mãe, mas, ela vive em meu coração, em cada poro de minh'alma...

    È uma dor que só aumenta com tempo....esse post foi muito significativo para mim.

    Beijos

    Que bonito, angel. Fiquei arrepiada com cada trechinho e poema escolhido. Para completar, só mesmo Chico com "Metade de mim", porque a saudade é o revés de um parto, é arrumar o quarto do filho que já morreu...
    beijo meu

    Angel,você se superou, hein? Que post lindo!Emocionante, lindo eencantador. Escolheu os melhores pensamentos, os melhores poemas,os melhores versos.Amei tudo! Imagino a sua saudade!

    Ah! Obrigada pela visita e desculpe-me a demora em retribuir. Estava doente estes dias e por isso não deu para visitar os amigos. :) Espero que tenha um ótimo fim de semana!Bjos!