A última lição

Randy Pausch


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Confesso que cheguei a pensar que ele de alguma maneira sobreviveria. Vi uma entrevista, por acaso na Oprah e não consegui desgrudar os olhos daquele cara. Era tão positivo, tão corajoso, entusiasmado e carismático. Não parecia ter apenas 6 meses de vida, mas sexta-feira (25/07) o professor de informática Randy Pausch, que inspirou o livro "A Última Lição" faleceu vítima de um câncer no pâncreas.
Randy, de 47 anos, ficou famoso em agosto de 2007 ao dar uma aula gravada em vídeo e disponibilizada no You Tube, na qual informava ter câncer de pâncreas e explicava aos alunos a forma como pensava em enfrentá-lo. A aula foi transfomada no livro A última lição, escrito pelo jornalista do Washington Post, Jeffrey Zaslow. Publicado em 32 países, o livro superou os 5 milhões de exemplares.

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Randy Pausch estava no auge da carreira e num dos melhores momentos da vida: 47 anos, aparência jovem, simpático, cheio de energia. Um professor que encantava os alunos. Casado e com filhos - de 5, 2 e 1 ano de idade - era um homem feliz.

No entanto, os planos e sonhos desmoronaram quando os médicos deram o diagnóstico, em agosto do ano passado. Randy tem um dos tipos mais violentos de câncer: No pâncreas, um órgão do aparelho digestivo. Viveria - no máximo - mais seis meses. Ele se viu diante da pergunta: o que fazer quando se tem data marcada para morrer?

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Paush disse que se fosse um pintor, faria um quadro. Se fosse um músico, teria composto uma música. Como é professor, decidiu dar uma aula. Para os colegas e alunos que lotaram o auditório, ele deu um aviso: não esperem lições sobre como enfrentar a morte. A lição é sobre a vida.

A aula foi um mês depois do diagnóstico. No único momento em que fala da doença, ele compara a vida a um jogo de cartas.

“Não podemos mudar as cartas que nos dão, apenas como vamos jogar aquela mão. E se não pareço deprimido ou abatido como deveria, sinto por desapontá-los. Aliás, estou em excelente forma, estou em melhor forma que a maioria aqui dentro”, disse o professor. E dá uma prova do que acabou de dizer. A aula se chama: “Como conquistar os sonhos de criança”. Randy diz que sempre quis flutuar no espaço. Não se tornou astronauta, mas conseguiu convencer a Nasa a entrar num avião que simula a gravidade zero.

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Tentou ser jogador de futebol americano. Também não conseguiu, mas aprendeu uma grande lição no dia em que o treinador não parava de criticá-lo. “Se você está fazendo algo errado e ninguém diz nada, você está perdido. Os seus críticos são aqueles se preocupam com você.”

E descobriu que é possível ser feliz mesmo sem realizar os sonhos do jeito que se imagina.

“Se você conduzir a sua vida do jeito certo, os sonhos vão ao seu encontro”, afirmou.

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Ele se tornou professor - na Universidade Carnegie Mellon, na Pennsylvania - de uma disciplina considerada árdua: ciência da computação. Na palestra, ele mostra que cativava os alunos. Incentivando a imaginação deles e tentando fazer tudo ser divertido.

“Eu não sei como não me divertir. Eu vou morrer se não me divertir. E vou me divertir todo o dia que me restar”.

A mulher dele, Jai, estava na platéia. Randy a usou como exemplo da importância de focar nos outros em vez de olhar só para si mesmo. O dia anterior à aula era aniversário dela, o último que - provavelmente - passariam juntos.

“Eu me senti mal por minha mulher não ter uma festa de aniversário apropriada. E achei legal fazer na frente de 500 pessoas”, disse. Todos cantaram parabéns. A emoção tomou conta de Jai e da platéia.

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Moshe Mahler era um dos alunos que assistiram à aula.

“Minha primeira reação foi perceber que estava ouvindo algo que se tornaria uma referência na minha vida”, contou o aluno.

“Procure o melhor nas pessoas. Talvez você tenha que esperar muito tempo, talvez anos, mas as pessoas vão mostrar o seu lado bom”, diz o professor.

A palestra se tornou um sucesso na internet. Já foi assistida por mais de dez milhões de pessoas e virou um livro. O professor Peter Lee - colega dele - também estava no auditório.

“Não há nenhuma grande revelação ou nova filosofia. Mas uma confirmação de que os melhores sentimentos que você tem sobre o mundo e sobre as pessoas são verdadeiros”, afirmou Peter Lee.

Numa entrevista, Randy disse: “eu não sei viver sem alegria, certo? Então eu estou morrendo e tendo alegria”. Mas revela: “Fico triste quando penso nos meus filhos. É como empurrar minha família para um precipício e não estar lá para protegê-los. Mas estou aproveitando meu tempo para fazer redes de proteção, para que não sofram tanto. E encerrou a aula dizendo: “Estas palavras não são para vocês. São para meus filhos”.L
eia mais.


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Trecho do livro "A última lição.




Sonhos para meus filhos

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Há muitas coisas que quero dizer a meus filhos, mas, neste momento, eles são crianças demais para entender. Dylan acabou de completar 6 anos, Logan tem 3 e Chloe, 1 ano e meio. Quero que as crianças me conheçam, conheçam minhas convicções e todas as formas pelas quais as amei. Por causa de suas idades, esquecerão boa parte.

Gostaria que elas pudessem entender que tento desesperadamente não deixá-las.

Jai e eu ainda não lhes contamos que estou morrendo. Fomos aconselhados a esperar até eu ter mais sintomas. Neste exato momento, embora tenham me dado apenas alguns meses de vida, ainda pareço bastante saudável. E, portanto, meus filhos continuam sem saber que em todos os nossos encontros estou me despedindo.

É doloroso pensar que não terão um pai quando ficarem mais velhos. Quando choro no chuveiro, em geral não estou pensando “não os verei fazendo isso”, ou “não os verei fazendo aquilo”. Penso no fato de eles não terem pai. Concentro-me mais no que eles perderão do que no que eu perderei. Sim, parte de minha tristeza é “eu não isso, eu não aquilo…”. Porém, uma parte maior se aflige por eles. Fico pensando: “eles não isso… eles não aquilo…”. É o que fica ruminando dentro de meu peito, quando permito.

Sei que eles se lembrarão de mim talvez de uma maneira um tanto confusa. Por isso eu tento fazer com eles atividades que considerarão inesquecíveis. Quero que suas recordações sejam as mais nítidas possíveis. Dylan e eu tiramos uns dias de férias para nadar com os golfinhos.








Uma criança não esquece facilmente que nadou com golfinhos. Tiramos muitas fotos.

Vou levar Logan à Disney, lugar que com certeza ele vai amar tanto quanto eu. Gostará de conhecer o Mickey Mouse. Eu já o conheço e, portanto, posso fazer as apresentações. Jai e eu também vamos levar Dylan, pois Logan parece não considerar suas experiências completas sem a participação do irmão mais velho.

Todas as noites, na hora de dormir, quando pergunto a Logan qual foi a melhor parte de seu dia, ele sempre responde: “Brincar com Dylan.” Quando lhe pergunto a pior parte do dia, ele também responde: “Brincar com Dylan.” Basta isso para se perceber quanto são unidos.

Tenho consciência de que Chloe não se lembrará de mim. Ainda é pequena demais. Porém, quero que ela cresça sabendo que fui o primeiro homem a se apaixonar por ela. Sempre achei que o relacionamento de pai e filha era descrito com exagero. Mas posso afirmar que é real. Às vezes, ela me olha e eu me derreto.


Há muitas coisas que Jai poderá contar a nossos filhos a meu respeito, quando eles ficarem mais velhos. Ela poderá lhes falar de meu otimismo, do modo com que aceitei tudo me divertindo, dos elevados padrões que tentei estabelecer em minha vida. De forma prudente, poderá lhes contar algumas coisas que me exasperavam; minha maneira excessivamente analítica de abordar a vida, minha insistência (muito freqüente) em saber mais. Porém, Jai é modesta, muito mais modesta do que eu, e talvez não conte a nossos filhos que durante todo o nosso casamento ela tinha a seu lado um sujeito que de fato a amava, verdadeira e profundamente. E não irá querer lhes contar os sacrifícios que fez. Qualquer mãe de três filhos pequenos se consome cuidando deles. Acrescente- se um marido vitimado pelo câncer e o resultado será uma mulher sempre atenta às necessidades alheias, e não às suas próprias. Quero que meus filhos saibam quanto Jai foi abnegada cuidando de todos nós.

Ultimamente venho fazendo questão de falar com pessoas que perderam os pais muito cedo. Quero saber o que as ajudou a atravessarem os tempos difíceis e quais as lembranças mais significativas que guardam.

Algumas me contaram que lhes servia de consolo saber quanto o pai e a mãe as amaram. Quanto mais sabiam, mais conseguiam sentir esse amor.

Também procuravam motivos para se orgulhar; procuravam acreditar que os pais eram pessoas incríveis. Algumas buscavam pormenores sobre as realizações deles. Algumas preferiram construir mitos. Mas todas ansiavam saber o que tornara seus pais especiais.

Essas pessoas também me disseram algo mais. Como tinham poucas lembranças dos pais, achavam reconfortante saber que, ao falecerem, guardavam maravilhosas recordações a respeito dos filhos. Com esse objetivo, quero que meus filhos saibam que minhas lembranças deles ocupam toda a minha mente.

Vamos começar com Dylan. Admiro quanto ele é amoroso e solidário. Se outra criança se machuca, Dylan oferece-lhe um brinquedo ou um cobertor.

Outro traço que vejo em Dylan: ele é analítico como o pai. Já percebeu que as perguntas são mais importantes do que as respostas. Muitas crianças perguntam: “Por quê? Por quê? Por quê?” Uma das regras de nossa casa é não se fazer perguntas de duas palavras, e Dylan respeita essa idéia. Adora formular frases interrogativas completas e é muito curioso para a idade. Lembro-me de que seus professores do pré-escolar o elogiavam dizendo: “Quando estamos com Dylan, pensamos: gostaria de ver o adulto em que esta criança se transformará.”

Dylan também é o rei da curiosidade. Onde quer que esteja, está sempre procurando algo e pensando: “Opa, há algo ali! Vamos dar uma olhada, pegar ou desmontar.” Diante de uma cerca de estacas brancas, algumas crianças arrastam uma vareta para ouvir o barulho “tac, tac, tac”. Dylan faz mais. Usa a vareta para forçar e afrouxar uma estaca e depois a usa para produzir esse barulho, porque é mais grossa e soa melhor.

Logan, por sua vez, transforma tudo em aventura. Quando nasceu, ficou preso no canal vaginal. Foram necessários dois médicos, puxando com fórceps, para ele vir ao mundo. Lembro-me de um dos médicos, com o pé na mesa, puxando com toda a força. Em determinado momento, esse médico virou-se para mim e disse:

- Caso isto não funcione, apelarei para correntes e Clydesdales. A passagem era estreita demais para Logan. Como ele ficou muito tempo apertado no canal vaginal, quando nasceu seus braços não se mexiam. Ficamos preocupados, mas não por muito tempo. Tão logo ele começou a se mexer, nunca mais parou. Ele é uma fenomenal bola de energia positiva, forte e sociável. Quando sorri, sorri com o rosto inteiro; é o Tigrão supremo. Também é uma criança disposta a tudo e que se torna amigo de todos. Tem apenas 3 anos, mas prevejo que será o diretor social do grêmio acadêmico.

Enquanto isso, Chloe é inteiramente feminina. Digo isso com um pouco de espanto, porque até ela chegar eu não entendia bem o que isso significava. Chloe estava programada para o setor de cesarianas, porém a bolsa de Jai se rompeu e Chloe deslizou para fora pouco antes de chegarmos ao hospital. (Essa é minha descrição. Jai talvez diga que “deslizou para fora” é uma frase que só um homem poderia dizer!) Em todo caso, carregar Chloe pela primeira vez, olhar seu rostinho de menina, talvez tenha sido um dos momentos espirituais mais intensos de toda a minha vida. Senti uma ligação diferente da que tinha com os meninos. Agora pertenço ao fã-clube de minha filha.

Adoro observar Chloe. Ao contrário de Dylan e de Logan, fisicamente tão destemidos, ela é prudente, talvez até mesmo dengosa. Instalamos uma portinhola de proteção no alto da escada, mas Chloe não precisa, porque se esforça ao máximo para não se machucar. Para Jai e para mim, acostumados a ver dois garotos rolando escada abaixo sem temer o perigo, a experiência é nova.

Amo meus três filhos completamente e de maneiras diferentes. E quero que saibam que eu os amarei enquanto eles viverem. Prometo.

Em razão de meu tempo limitado, precisei pensar em meios para reforçar meus vínculos com eles. E assim estou construindo listas separadas de minhas lembranças de cada um de meus filhos. Estou fazendo vídeos para eles poderem me ver falar sobre o que significaram para mim. Estou lhes escrevendo cartas. Considero o vídeo da palestra de despedida - e este livro também - pedaços de mim mesmo que posso lhes deixar. Tenho uma enorme caixa de plástico repleta de correspondências recebidas nas semanas posteriores à palestra. Um dia talvez meus filhos queiram examinar essa caixa e espero que fiquem satisfeitos ao descobrirem que amigos e estranhos acharam válida minha lição final.

Como defensor do poder dos sonhos de infância, ultimamente algumas pessoas têm me perguntado sobre os sonhos que tenho para meus filhos.

Minha resposta é clara.

Os pais não devem ter sonhos muito específicos quanto ao futuro dos filhos. Como professor, muitas vezes vi calouros insatisfeitos escolhendo cursos inteiramente impróprios. Os pais os colocavam em um determinado trem e o resultado freqüente era o trem descarrilar, a julgar pela choradeira em meu escritório.

Em minha opinião, a função dos pais é encorajar os filhos a desenvolverem a alegria de viver e uma grande necessidade de seguirem os próprios sonhos. O máximo que podemos fazer é ajudá-los a criarem um conjunto de ferramentas pessoais para essa tarefa.

Meus sonhos para meus filhos, portanto, são muito precisos: quero que cada qual encontre seu caminho para a realização. E como não estarei aqui, quero deixar bem claro: crianças, não tentem imaginar o que eu gostaria que vocês se tornassem. Quero que se tornem aquilo que quiserem se tornar.

Vi muitos alunos passarem por minhas aulas e conheci muitos pais que não percebem o poder das próprias palavras. Dependendo da idade da criança, ou da consciência que tem de si mesma, um comentário desastroso do pai ou da mãe pode ser tão devastador como uma escavadeira. Não sei bem se deveria ter comentado que quando crescer Logan acabará sendo diretor do grêmio acadêmico. Não quero que ele chegue à universidade pensando que eu esperava que ele aderisse a um grêmio, fosse um líder ou qualquer outra coisa. A vida de Logan será dele. Só quero insistir para que meus filhos encontrem o próprio caminho com entusiasmo e paixão. E quero que sintam como se eu estivesse ali com eles, independentemente do caminho que escolherem.


Daqui.




4 comentários:

    muito triste esta história, mas ele soube morrer.
    menos mal, deixou recados.
    Bjs Laura
    saudade de vc

    Uma lição, só isso.

    Bom teu espaço, amigo.
    Abraço forte.

    Germano Xavier
    www.clubedecarteado.blogspot.com

    Eu vi a história deste rapaz, um exemplo de vida. Saber que se vai morrer não é fácil. E esta é a única certeza que temos quando nascemos que vamos morrer...
    beijos joao

    Uma pessoa muito especial, com certeza, e uma verdadeira lição para quem costuma se lamuriar por qualquer dificuldade - quase todos nós, afinal. Belo post sobre ele, Angel. Um beijo grande e carinho.