WALY DIAS SALOMÃO
Quem fala de mim tem paixão
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Devenir, devir

Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.

Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.

Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.

Morro e transformo-me.

Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém

Morre e transforma-te.
Waly Salomão
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Verborrágico, por vezes polêmico e até contraditório, Waly marcaria para sempre a cena poética com o excelente livro: "Me segura qu’eu vou dar um troço" lançado em 1971. Os poemas presentes no título de estréia foram escritos durante a temporada na prisão, rabiscados na cela que ocupava no Carandiru.

A partir da década de 70, o poeta se tornou uma referência constante na produção artística do país. Criou, junto com Torquato Neto, a emblemática revista Navilouca (1974), marco da poesia alternativa (marginal) brasileira.





"Eu me sinto miscigenado – já que sou filho de uma sertaneja com sírio, mas sou também mixigenado nas técnicas de poesia. Para mim não é só um veio literário, tem outros registros em que estou antenado, que me dizem coisas sobre o mundo e compõem minha poesia."










Acredita que a poesia tenha função transformadora?
É alguma das funções. Eu sempre tenho medo de pomposidade. Acho que a função da poesia não pré-existe ao que você vai fazendo no mundo. O que não se pode aceitar é um mundo constituído e anti-poético e o poeta ficar em um nicho. Tem que abrir brechas, mixigenar. Mesmo que volte para casa como um animal abatido, “um animal ferido”, sem reciprocidade, sem retorno, sem nada. Você tem que continuar batendo nos diversos lugares. Tem que ser corajoso e estar sempre experimentando.



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Amante da Algazarra
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela !!!
Todo mundo sabe, sou uma lisa flor de pessoa,
Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.

Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
Vixe!!!
Enquanto caminho a pé, pedestre -- peregrino atônito até a morte.
Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento:
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto
E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.

Quem corre desabrida
Sem ceder a concha do ouvido
A ninguém que dela discorde
É esta
Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde.
Waly Salomão




Como surgiu o poeta Waly Salomão?
Sempre tive esse sonho. Quando estava na escola primária, pedi a minha mãe um bolo de aniversário em forma de livro. Desde que me entendo por gente já me entendo traça de livro. Na mudança da infância para a adolescência ia diariamente à biblioteca de Jequié. Minha irmã falou que hoje a biblioteca é muito ruim porque muitos livros foram roubados. Tenho cadernos – claro que ridículos – do tempo de adolescente em que fazia pequenas resenhas de filmes e livros. Eu lia muito, era comum na minha família, minha mãe sempre leu muito — hoje está com problema de vista. Ela diz que é uma espécie de ética, de caldo cultural. Minha mãe conversava sobre “Guerra e paz,” de Tolstói com os filhos mais velhos, uma irmã e um irmão, como se discute novela de TV, com paixão, com intensidade. Quando saiu “Gabriela Cravo e Canela,” lá em casa tinha três volumes. É um livro maravilhoso. Portanto eu era traça de livro, roía livro. Leio até hoje sem parar.
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já não me habita mais nenhuma utopia. animal em extinção,
quero praticar poesia
–a menos culpada de todas as ocupações.
Waly Salomão







/Vítima de um câncer no intestino, ele morreu na manhã do dia 5 de maio daquele ano, no Rio de Janeiro, aos 59 anos. O corpo foi velado na Biblioteca Nacional e cremado no Cemitério do Caju, ambos no Rio de Janeiro. O poeta era casado com Marta Braga, com quem teve dois filhos: Khalid e Omar, este último também poeta.
E é do filho poeta, Omar, o poema abaixo, feito pela ocasião da morte do pai.
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/Lacuna

Brusco movimento
E como num truque de mágica
A vida se esvai.

Indefeso e aflito
O vazio rasga-me as entranhas
e delas faço poesia.

Vocifero em vão
O som não mais se propaga
Em meu peito.
Omar Salomão
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5 comentários:

    Lembro que a morte dele me marcou um pouco, porque eu estava curioso sobre as coisas que ele fez. Eu tava dando os primeiros passos na coisa de internet e de ter um blog e não sei se você, Anja, já acompanhava o falecido Átomos do Alessandro quando fiz um post sobre a morte do Waly.

    Nossa... e pensar que já se passaram 5 anos...

    Bom, antes que eu fique saudoso de outras coisas, vou nessa.

    Beijo pra ti, querida! :D

    Eu te acompanho desde sempre, meu amigo!

    Waly é o máximo. Um poeta e tanto! Se puder se aprofundar, acho que vc vai gostar.



    bjimmm querido

    Andrea voce e o tipo de pessoa unica....nao sei como consegues reunir tao belo material para expor em pequenos traços os principais sempre a obra de grandes pessoas ...sou seu fã.
    joao

    Oi, Tudo bem? Encontrei seu blog por acaso e gostei muito. Espero voltar outras vezes. Vou aproveitar para linká-lo no meu. Um abraço e boa semana!

    conheço pouco. quase nada. gosto da versão que o rappa gravou.