Artur da Távola

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Tem algumas pessoas que eu adoraria conhecer pessoalmente. Sentar num café daqueles de cinema, pequeno, aconchegante, todo de madeirinha. Pedir um café, uns biscoitinhos e prosear, prosear...até o dia virar noite e o escritor Artur da Távola era um desses.

Não só pelo que escreveu, como escreveu, mas pelo modo como falava. A voz calma e mansa, o tom conciliador, uma respiração pausada. É assim que lembro dele nas entrevistas que assisti.
Tem pessoas que nos prendem menos pelo que fazem e mais pelo modo como fazem. Não sei se deu pra entender, mas pra mim ele era assim. /
Bom, amanhã é Dia das Mães e pra mim que lembro da minha todos os dias, é sempre uma data difícil. Some-se a isso o fato de estar mais do que gripada, de cama e sonhando vê-la entrando pela porta com o tal leitinho queimado mineiro, tão quente quanto doce para esquentar e fazer o remédio descer melhor, mais difícil fica. Por isso, deixo um texto de extrema doçura de Artur da Távola sobre Dona Magdalena, a mãe dele.

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Lembranças de Dona Magdalena

A memória me traz alguns fatos de 1991, quando minha mãe partiu para o Reino dos Esplendores. Enquanto aguardava prepararem o corpo, derradeira maquiagem de uma atsef (festa ao contrário) eu não quis ver , recebi seus amigos e amigas a chegar, e os parentes: ela havia sido um ser humano admirável e admirada por quem a conhecia. Dona Magdalena!!! Coloco três pontos de exclamação ao mencionar-lhe o nome, consigo ainda ver-lhe o porte altivo e sua fragilidade de mulher forte.
A morte tem o condão de revelar o valor de uma vida em segundos, e cada um desses segundos é portador de alguma lição que ela gostava de dar e dava, mesmo sem pretender, pela dignidade, sobriedade e solidão, vale dizer, pelo exemplo.
Não estou aqui, porém, para elogiar minha mãe porque morreu há quase dezesseis anos, mas para dizer que, no recato de minha dor e na interiorização do meu sentir, mais que todos, podia eu pensá-la com orgulho e egoísmo: sim, egoísmo, porque o que era teor de dona Magdalena em caráter e exemplo, agora me pertenceria mais que a todos. Fui seu cúmplice toda a vida, e aprendi as admirações que lhe tributei.
A morte nos permite essa apropriação sem inventário. Meses antes, vidente me vaticinara que iria herdar forças de minha mãe, quando ocorresse a sua passagem.
Tudo isso me passava rápido na mente, enquanto aguardava a maquiagem do corpo para o féretro. Admiração por sua vida dedicada em doses certas, primeiro aos seus, depois ao trabalho. Medito na minha incapacidade de atender com atenção aos próximos a quem tanto quero, ocupado que sou pela vida pública.
Obsessão de servir ao geral, com imperdoável falta de cuidado com os de perto. Nisso não a soube imitar. Mesmo assim, é herança ética. Por outro lado, naquele distante 1991, via-a feliz por saber-me homem público, e recordo o conselho: Fique contra e lute, porém jamais faça ataques pessoais . Isso se transformou numa realidade em minha vida. Logo ela, tão valente e brigona em jovem, viúva, gaúcha braba e brava, sábia e lutadora, a sugerir-me a temperança na política e no jornalismo, isso num país de política que só se destaca pelo seu lado doentio.
No momento em que escrevo esta crônica, como em quase todos os dias de minha atual maturidade, sua imagem retorna a mim, conselheira: Faça o que lhe cabe, não espere compreensão, agradeça o que chegar e tenha paciência, que o reconhecimento virá, sobretudo quando sua atual vaidade não precisar mais dele e bastar-se com o que faz e com o que é.
Artur da Távola

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3 comentários:

    Angel, adoro ler os textos do Arthur da Távola! Quando ele tinha uma coluna no Jornal o Dia, sempre lia com atenção e aprendi muito com ele, grnade escritor e poeta! Muito me inspirou na arte de escrever e ler, ler... Parabéns pelo post!
    Bem, em relação a saudade da maravilhosa dona Neusa...posso te dizer com absoluta certeza: ela está bem, sempre te observando e cuidando de vc no lugar espetacular q ele se encontra. Um dia ela me apareceu em sonho e pediu para eu sempre estar ao teu lado, pro q der e vier, respondi a ela q isso seria fácil, uma vez q te acolhi como a irmão q não tive. E ela simplesmente riu e me disse, sabia q podia contar com vc! Nunca te contei isso, mas acho q agora vc está pronta pra saber isso e muito mais... mas só pessoalmente!
    Ah, quanto ao leitinho queimado mineiro: ferva o leite, acrescente uma colher de sopa de margarina e mel ( se não tiver, coloque açúcar caramelado: duas colheres de sopa bem cheia de açúcar em 300 ml de água e deixer ferver até vira uma calda grossinha, cuidado para não queimar, senão fica amargo). Pois bem amiga, tenha um bom final de semana e sua mãe te ama do mesmo jeitinho de sempre! S2
    Sua amiga-irmã Cyntia Radic@l :)

    Que lindo texto para homenagear às mães! Bela escolha! Bom domingo!

    Só vc mesmo, Cyntia. Eu te confesso que nem desconfiava como fazia o tal leitinho queimado, sabia? Só sei que descia queimando as tripas e era bom demais! :)
    Valeu mesmo. Vou ver se acerto por aqui!

    Feliz Dia das Mães procê, querida!!!

    bjimm andrea

    ps: brigada pelo carinho da visitinha Clecia!